UMA (NOVA) LEITURA DE BLISS, DE KATHERINE MANSFIELD

UMA (NOVA) LEITURA DE BLISS, DE KATHERINE MANSFIELD

No dia 22 de setembro deste ano (também conhecido como nesta última terça-feira), eu tive o prazer e a honra de mediar um encontro no Clube de Leitura Online, iniciativa das Bibliotecas IF Sudeste MG Campus Muriaé e Academia Muriaeense de Letras. A autora escolhida por mim foi Katherine Mansfield, com o seu conto Bliss (Êxtase, na tradução da Ana Cristina César).

Katherine Mansfield foi das primeiras autoras cuja a obra (parte dela) eu resenhei na época em que comecei a escrever sobre livros na internet, no site Escritoras Inglesas (atualmente desativado). Bliss também foi um dos primeiros textos de ficção que eu li e resenhei (desta vez aqui mesmo no meu blog) depois que a Olívia nasceu. Eu sentia certa insegurança sobre se eu conseguiria continuar “falando sobre livros na internet” depois de me tornar mãe, algumas pessoas me alertaram dizendo que eu poderia esquecer de vez esse negócio de livro… Enfim, K.M. é uma autora de que eu gosto muito, e passei a gostar ainda mais com esse encontro do Clube de Leitura e também com a leitura do diário dela. O que eu trago aqui, abaixo, é a minha nova leitura de Bliss, a leitura atual feita para o Clube (mas que não invalida a leitura que eu fiz em 2016, que continua aqui). Achei legal trazer aqui para o blog também os slides que eu usei no dia do encontro, com alguns complementos que eu usei na apresentação e coloco logo depois das imagens. Os slides são de minha autoria e estão livres para quem quiser usar em aulas e clubes de leitura! O design foi feito no Canva e inclui as referências bibliográficas.

Para quem não leu Bliss ainda, daqui para baixo o post terá alguns spoilers. Nada muito grave, mas pode influenciar a sua leitura. Talvez seja melhor você dar uma paradinha, ler o conto, e só depois voltar aqui.

 

A Nova Zelândia, nesta época, era uma colônia Britânica. Da pensão de 100 libras que o pai de Katherine lhe dava, 75 ela precisava gastar só com moradia. Ela passou por momentos em que não tinha muito dinheiro, uns “apertinhos” mesmo.

É interessante falar que o modernismo na Inglaterra, em seu princípio, era uma resposta ao cansaço e desilusão com o conservadorismo da Era Vitoriana, que tinha terminado também no começo do século XX.

 

A poesia marginal (ou geração mimeógrafo) tinha esse nome porque não era reconhecida nem publicada pelas grandes editoras, pelo menos não no começo. O principal meio de difusão dos textos desses autores era o mimeógrafo mesmo. Esse movimento aconteceu depois da Tropicália, como resistência à censura da Ditadura Militar.

Não é regra que a tradução de escritores e poetas sejam as melhores, mas, neste caso, escolhi a tradução de Ana C. porque a considero como a mais forte, além de bem agradável e confortável para os leitores de nossa época.

 

Bliss é uma palavra que não tem tradução exata para o português. Em algumas traduções esse conto aparece com o título Felicidade. Ana C. escolheu Êxtase porque considerou que êxtase é uma emoção que ultrapassa a palavra felicidade, ou é mais forte que ela. Quem já leu sabe que Ana C. foi certeira em sua escolha!

 

Nesta época e neste contexto, é importante ressaltar que esse feminismo é o feminismo de mulheres brancas. Jogue “feminismo negro” no Google e se surpreenda, caso não seja iniciado no assunto!

Virginia Woolf têm dois livros que eu gosto muito e que são dessa época e também dessa temática, Um teto todo seu Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Mas não se engane: esses ensaios ainda são terrivelmente atuais, infelizmente.

A segunda temporada da série Downton Abbey mostra os conflitos sociais e o papel das mulheres com a Primeira Guerra Mundial. Por fim, deixo a dica do filme As Sufragistas, que aborta especificamente a luta das mulheres (brancas) pelo direito ao voto.

 

Bertha, Young (jovem) até no nome. Imatura também, talvez?! No final, o “êxtase” da protagonista é derrubado pela realidade, quase como um balde de água fria na cara dela.

 

Esse tipo de narrador é muito interessante: é como se estivéssemos assistindo a um filme e a câmera estivesse bem pertinho da Bertha, perto o suficiente, em algumas situações, para mostrar até o que ela estava pensando ou sentindo!

 

Algumas curiosidades e considerações sobre Bliss e Katherine Mansfield (não necessariamente nesta ordem):

A primeira publicação de Bliss para o Brasil foi feita em 1937, por Érico Veríssimo (que traduziu o título como Felicidade).

Escrita autobiográfica: A própria K.M. era bissexual, e o romance/encantamento de Bertha por Pearl Fulton em Bliss remonta à vida da autora, nas entrelinhas da ficção.

Katherine Mansfield tinha esse sentimento de êxtase na primavera, isso fica refletido neste e em outros contos da autora. O inverno causava-lhe muito sofrimento, especialmente por causa de sua doença (tuberculose), que se agravava nos dias frios.

A árvore mencionada no conto (que é uma pereira) sugere uma imagem da própria vida de Bertha, sua sexualidade que desabrocha naquele dia de primavera. No mesmo dia, a personagem sente-se fortemente atraída, também, pelo marido. É a descoberta da bissexualidade de Bertha, tema polêmico até para os dias atuais. 

Bertha era insatisfeita. As imagens do violino trancado no estojo e do piano que ninguém toca sugerem isso. Ela deseja a satisfação de seu êxtase sexual, que não aconteceu até então. As lindas roupas, a casa, empregados, bens… nada disso lhe satisfaz plenamente. Ela tem uma vida confortável, mas sua felicidade é restrita. E quem muito diz que é feliz pode estar escondendo o jogo em profundidade. Inclusive se enganando ou tentando convencer a si mesma.

Sobre a pequena B: normal do sistema social inglês que as crianças das elites burguesas sejam criadas por mulheres da classe operária. Uma dona de casa tinha muitos afazeres com a casa (organizando, embelezando-a), e também a obrigação de se manter bonita para o marido todos os dias. Não sobraria tempo MESMO para cuidar de uma criança vivendo nesse modelo.

(alguma diferença em relação às elites de hoje?)

 

É bom lembrar que o valor da mulher nesta época era medido por sua capacidade de ser uma boa dona de casa, o que inclui tudo o que foi dito logo acima (e mais alguma coisa). Bertha não era ruim, ou boba, fútil nem nada desse tipo (tudo bem, talvez um pouquinho!). Ela era uma mulher comum de seu tempo, tentando cumprir com as expectativas dela própria e as da sociedade da época. Justamente o que Katherine Mansfield criticava, com muita ironia.

 

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