abril 07, 2016

[RESENHA] PROFISSÕES PARA MULHERES E OUTROS ARTIGOS FEMINISTAS

Sinopse: “Profissões para mulheres e outros artigos feministas reúne sete ensaios de Virginia Woolf nos quais ela questiona a visão tradicional da mulher como “anjo do lar” e expõe as dificuldades da inserção feminina no mundo profissional e intelectual da época. Numa era em que o papel da mulher modifica-se cada vez mais rapidamente, as críticas e reflexões de Virginia mostram que a autora estava à frente de seu tempo. Uma das romancistas mais inovadoras da literatura inglesa, Virginia Woolf (1882-1941) notabilizou-se também como uma das precursoras do feminismo contemporâneo. Além dos seus clássicos modernistas Mrs. Dalloway e Rumo ao farol, escreveu artigos nos quais explorou sem igual a questão da mulher e seu papel em uma sociedade dominada por homens, ideias que ajudaram a pavimentar o caminho do movimento feminista.”

 

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas foi o primeiro livro de Virginia Woolf que li; definitivamente amor à primeira página! São sete ensaios de leitura super-rápida que podem mudar a visão que muitas pessoas têm do feminismo. Em tempos de opiniões calorosas (mas com pouca ou nenhuma fundamentação teórica) em redes sociais, nada como ler algo escrito por alguém que foi e ainda é referência para o movimento.

Profissões para mulheres é o primeiro ensaio, seguido de A nota feminina na literatura; Mulheres romancistas; A posição intelectual das mulheres; Duas mulheres; Memórias de uma União das Trabalhadoras e Ellen Terry. Todos têm o seu valor, contudo, abaixo, elenco os meus dois favoritos e os quais retorno ocasionalmente quando preciso me lembrar do porquê ler bons artigos e livros com temática feminista ainda é tão importante e relevante na sociedade atual.

O ensaio que abre este livro foi lido pela Sra. Woolf para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Supostamente seria uma realidade distante da nossa, pois trata-se de um texto de oitenta e quatro anos! Ledo engano. Este ensaio poderia ser lido em um auditório lotado de mulheres hoje mesmo e facilmente muitas delas se reconheceriam nele. A autora fala de um fantasma que muitas vezes precisamos enfrentar, o “Anjo do Lar”. Tal “Anjo” é uma alusão a um poema de Coventry Patmore que celebrava o amor conjugal e idealizava o papel doméstico das mulheres. Percebe que ele ainda está entre nós?

“Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez? (…) Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente.” (trecho de Profissões para mulheres, ps. 17 e 18)

 

Em outro ensaio de destaque nesta coletânea, A posição intelectual das mulheres, Virginia Woolf contrapõe as opiniões negativas que o romancista Arnold Bennett publicou em uma coletânea de ensaios, sob o título Nossas mulheres: capítulos sobre a discordância entre os sexos. Bennet acreditava que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens; proposição que levou a autora a pensar mais sobre o assunto, resultando no livro Um Teto Todo Seu. Em outubro de 1920, Desmond MacCarthy publicou uma resenha favorável do livro de Bennett, sob o pseudônimo de Falcão Afável. Virginia Woolf fez um comentário sobre a resenha e ele foi publicado; seguido de uma réplica e uma tréplica de Falcão Afável. É um “diálogo” maravilhoso, em que temos vontade de bater palmas para a Sra. Woolf no final.

“O fato, como penso que havemos de concordar, é que as mulheres, desde os primeiros tempos até o presente, têm dado à luz toda a população do universo. Essa atividade toma muito tempo e energia. Tal fato também levou a se sujeitarem aos homens e, diga-se de passagem – se fosse essa a questão –, desenvolveu nelas algumas das qualidades mais admiráveis e apreciáveis da espécie. Discordo de Falcão Afável não porque ele negue a atual igualdade intelectual entre homens e mulheres. E sim porque afirma, com Mr. Bennett, que o espírito da mulher não é sensivelmente afetado pela educação e pela liberdade; que é incapaz das mais altas realizações, e que deve permanecer para sempre na condição em que se encontra agora. Devo repetir que o fato de terem as mulheres se aprimorado (que Falcão Afável agora parece admitir) mostra que elas podem se aprimorar ainda mais; pois não consigo entender por que haveria de se impor um limite a seu aprimoramento no século XIX, e não, por exemplo, no século CXIX. Mas o que é necessário não é apenas a educação. É que as mulheres tenham liberdade de experiência, possam divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças (pois não concordo com Falcão Afável que homens e mulheres sejam iguais); que todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos homens e, como eles, não precisem recear o ridículo e a condescendência. Essas condições, a meu ver muito importantes, são dificultadas por declarações como as de Falcão Afável e Mr. Bennett, pois para um homem ainda é muito mais fácil do que para uma mulher dar a conhecer suas opiniões e vê-las respeitadas. Não tenho dúvidas de que, caso tais opiniões prevaleçam no futuro, continuaremos num estado de barbárie semicivilizada. Pelo menos é assim que defino a perpetuação do domínio de um lado e, de outro, da servilidade. Pois a degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor.” (trecho de A posição intelectual das mulheres, ps. 50 e 51)

 

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas é aquele livro que nos abre os olhos; uma leitura para ser feita ocasionalmente, como toda a obra de Virgínia Woolf. Com esse livro me descobri uma amante da leitura de ensaios, tendo os da Sra. Woolf um espaço especial na minha cabeceira.

 

 

Título: Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Denise Bottmann
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 112

Compre na Amazon: Profissões para mulheres e outros artigos feministas.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

janeiro 21, 2016

[RESENHA] UM TETO TODO SEU, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um teto todo seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. A escritora pontua em que medida a posição que a mulher ocupa na sociedade acarreta dificuldades para a expressão livre de seu pensamento, para que essa expressão seja transformada em uma escrita sem sujeição e, finalmente, para que essa escrita seja recebida com consideração, em vez da indiferença comumente reservada à escrita feminina na época. Esta edição traz, além do ensaio, uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária e colaboradora da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe.”

 

Um Teto Todo Seu é um ensaio de Virginia Woolf, em que ela disserta sobre o tema “as mulheres e a ficção”. Esse livro é o produto das ideias para uma palestra que Woolf foi convidada a ministrar, na década de 1920, em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres e que muito tem ainda a nos ensinar nos dias de hoje.

A autora parte do questionamento sobre o que é necessário para que uma mulher escreva ficção. Seria, basicamente, ter um lugar sossegado para escrever e certa independência financeira; além de alguma validação social. Mas Virginia Woolf vai mais a fundo e nos permite enxergar além do óbvio para entender que a situação das mulheres pode não ser das mais favoráveis, seja em 1920 ou nos dias de hoje, ao desenvolver determinados trabalhos que não são esperados para o sexo feminino.

Em tempos de acaloradas discussões sobre a violência contra a mulher, feminicídio, desigualdade entre os sexos etc., eis que Virginia Woolf nos apresenta a “alegoria do espelho”, a fim de ilustrar o papel da mulher em relacionamentos abusivos. A mulher ao longo da história faz, na visão de Woolf, o papel de um espelho que reflete a imagem engrandecida do homem, e desta forma está sempre diminuída em comparação a ele. Infelizmente ainda vemos casos diários de assédio e violência contra a mulher, mas se informar sobre o assunto é o primeiro passo para mudar esta realidade. Muita coisa já mudou, mas ainda estamos no caminho.

 

 “As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. Sem esse poder, provavelmente, a terra ainda seria pântanos e selvas. As glórias de todas as nossas guerras seriam desconhecidas.” (p. 54)

 

“Seja qual for o seu uso nas sociedades civilizadas, os espelhos são essenciais para todas as ações violentas e heroicas. É por isso que tanto Napoleão quanto Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem inferiores, eles deixariam de crescer. Isso explica, em parte, a necessidade que as mulheres representam para os homens. E serve para explicar como eles ficam incomodados com as críticas delas; como é impossível para elas dizerem que tal livro é ruim, tal quadro é medíocre, ou o que quer que seja, sem infligir muito mais tormento  e despertar muito mais raiva do que um homem teria causado ao fazer a mesma crítica. Pois se ela resolver falar a verdade, a figura no espelho diminuirá. Como ele continuará a fazer julgamentos, civilizar nativos, criar leis, escrever livros, vestir-se bem e discursar em banquetes, a menos que consiga ver a si mesmo no café da manhã e no jantar com pelo menos o dobro do tamanho que realmente tem?” (p. 55) 

 

O papel da mulher na ficção é também explicado pela autora, de forma que desfaz um mal entendido histórico: a mulher é personagem de destaque em inúmeras obras literárias ao longo dos anos, mas isso não quer dizer representatividade. Ela existiu, em muitos casos, pela visão de um homem. Nem sempre foi possível que uma mulher escrevesse sobre os desejos e anseios de seu sexo. Ela era o sol, a musa inspiradora para muitos autores, mas em casa ela tinha um papel muito diferente.

“É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas palavras mais inspiradas, alguns pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido.” (p. 67)

 

Outro argumento de destaque da autora é que se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente (ou mais) talentosa, teria ela as mesmas condições e oportunidades que o bardo? Teria tido a mesma educação, a mesma liberdade? Teria tido tempo para ler, sem interrupções, os clássicos da literatura mundial, assim como seu irmão? Teria tido um teto todo seu para escrever? Em sua adolescência, poderia escolher não se casar com o noivo pretendido por seu pai? São questionamentos plausíveis que nos fazem refletir sobre a desigualdade entre homens e mulheres, desde os tempos mais remotos. Seria essa história comum, pelo menos em partes, ainda nos dias de hoje?

Sorte a nossa que tivemos algumas mulheres corajosas ao longo do tempo que decidiram, em épocas que não era permitido a elas decidir, escrever e buscarem ser lidas. Essas mulheres despertaram e ainda despertam em nós o desejo de ir em frente, pois se elas conseguiram em tempos mais difíceis, hoje nós podemos.

Esta edição da Editora Tordesilhas conta, ainda, com o posfácio de Noemi Jaffe, escritora e crítica literária brasileira, e de fragmentos do diário de Virginia Woolf, em que ela fala sobre a publicação de Um Teto Todo Seu. Vale a pena ter na coleção!

 

 

Título: Um Teto Todo Seu
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Bia Nunes de Sousa
Editora: Tordesilhas
Páginas: 192

Compre na Amazon: Um Teto Todo Seu.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 

janeiro 18, 2016

[RESENHA] O SOL E O PEIXE, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca e incerta comparada com a dos peixes.” É Virginia Woolf, em “O sol e o peixe”, ensaio que dá título à presente coletânea, na qual se reúnem nove de suas prosas mais poéticas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens de se ficar doente; celebra as belezas naturais de Sussex e as delícias urbanas de uma caminhada fortuita por Londres. Eis aqui Virginia, em toda a força poética de sua prosa.”

 

O Sol e o Peixe é um livro com ensaios de Virginia Woolf, selecionados e traduzidos por Tomaz Tadeu, publicado pela editora Autêntica no ano de 2015.

Os ensaios estão divididos em três temas: A vida e a arte; A rua e a casa; e O olho e a mente. O trabalho de seleção foi muitíssimo bem feito, e nós podemos verificar tal fato, pois, ao contrário de muitos livros de ensaios, esse tem certa continuidade. Você sente um ensaio levando ao outro e os finais vão justificando os que vieram primeiro, o que tornou a leitura muito agradável. A autora, que dispensa comentários, transmite em suas palavras tanto sentimento falando sobre situações em que, supostamente, não há nenhum lirismo, que acaba por abrir os nossos olhos para a poesia do dia a dia.

Sobre o subtítulo, Prosas poéticas, o tradutor explica que, com exceção dos ensaios sobre Montaigne e sobre a leitura, o que temos em O Sol e o Peixe “talvez pudessem ser considerados como pertencendo ao gênero que os franceses chamam de ‘poema em prosa’ e que teve vários praticantes ilustres como Mallarmé e Boudelaire, para não falar de Valéry. Por não se inserirem na mesma tradição, prefiro vê-los como ‘prosas poéticas’” (p.8)

Todos os ensaios são ótimos, mas elegi três como os meus favoritos. São os três que compõem A vida e a arte: Montaigne; Memórias de uma filha; e A paixão da leitura.

Falando sobre os Ensaios, de Michel de Montaigne, Virgínia Woolf nos ensina a melhor maneira de escrever:

“Todos os extremos são perigosos. É melhor ficar no meio da estrada, nas trilhas costumeiras, por mais lamacentas que sejam. Ao escrever, escolha as palavras comuns; evite a rapsódia e a eloquência – mas, é verdade, a poesia é deliciosa; a melhor prosa é aquela que está mais plena de poesia.” (p. 18)

 

Em Memórias de uma filha me tocou a forma com que a autora fala sobre o seu pai. Apesar da relação complicada que tiveram, ela o descreve com muita delicadeza.

Sobre A paixão da leitura, ela diz o que todos nós, pelo menos uma vez na vida, tivemos vontade de falar para os que não entendem (ou não querem entender) o amor que temos aos livros e à leitura:

“Assim, pois, quando os falsos moralistas nos perguntam o que ganhamos quando os nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer bons livros ao mundo e tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente.” (p. 39)

 

O Sol e o Peixe é uma leitura muito prazerosa, de uma autora incrível, com ensaios selecionados de forma muito criteriosa pelo seu tradutor, enfim, é leitura mais que recomendada!

 

 

 

Título: O Sol e o Peixe: Prosas Poéticas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Tomaz Tadeu
Editora: Autêntica
Páginas: 112

Compre na Amazon: O Sol e o Peixe.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 

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