setembro 22, 2016

[RESENHA] A MARCA NA PAREDE, CONTO DE VIRGINIA WOOLF

img_20160622_184334

 

Virginia Woolf (1882-1941) é uma escritora bastante conhecida por romances como Mrs. Dalloway, Orlando, Rumo ao Farol, e também por seus ensaios, muitos com temática feminista. Mas uma faceta que, para muitos, ainda pode ser desconhecida, é o talento da autora também na escrita de contos. Quando a rotina fica meio apertada, mas não queremos deixar de ler alguma coisa, uma boa opção é embarcar em histórias curtas, que podem proporcionar leituras tão agradáveis quanto os grandes romances.

O título foi indicação da Francine Ramos, do blog Livro e Café, que está promovendo o Clube de Leitura de Virginia Woolf no facebook. Ainda que não tenha sido possível, para mim, acompanhar o cronograma de leituras, o Clube é uma boa dica para quem deseja conhecer mais sobre Virginia Woolf e suas obras.

A Marca na Parede foi escrito entre 1917 e 1921, período em que o mundo era palco da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nele, a partir de uma simples marca na parede, embarcamos em uma jornada mental sobre tudo o que aquela marca poderia significar.

 

Foi em meados de janeiro deste ano que olhei pela primeira vez para cima e vi a marca na parede. Para fixar uma data é preciso lembrar o que se viu. Por isso eu penso agora no fogo; no inalterável véu de luz amarela sobre a página do meu livro; nos três crisântemos na jarra de vidro redonda na lareira. Sim, deve ter sido no inverno, e tínhamos acabado de terminar o nosso chá, pois lembro que eu estava fumando quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez.” (p. 11)

img_20160622_163734155

 

Além da técnica do fluxo de consciência, muito marcante nas obras da autora, também é uma felicidade ler ecos do discurso feminista tão bem elaborado e defendido na produção literária de Woolf.

 

Quão chocante, no entanto quão maravilhoso, descobrir que essas coisas verdadeiras, os almoços de domingo, os passeios de domingo, as casas de campo e as toalhas de mesa, não eram afinal tão verdadeiras assim, sendo de fato meio fantasmais, e que a danação que se abatia sobre quem não acreditava nelas era apenas um impressão de liberdade ilegítima. O que agora toma o lugar dessas coisas, pergunto-me, dessas coisas importantes e sérias? Talvez os homens, caso você seja mulher; o ponto de vista masculino que governa nossas vidas, que fixa o padrão, que estabelece a Ordem de Precedência de Whitaker, a qual desde a guerra se tornou meio fantasma, suponho eu, para muitos homens e mulheres, e que em breve, é lícito esperar, será motivo de riso na lata de lixo para onde vão os fantasmas, os bufês de mogno e as gravuras de Landseer, deuses e demônios, o Inferno e assim por diante, deixando-nos a todos uma impressão intoxicante de liberdade ilegítima – se existe liberdade…” (p. 18)

 

A Marca na Parede é um conto curto, porém muito bem escrito e trabalhado. É uma viagem na mente desta autora maravilhosa! Sim, creio que na mente dela mesmo, pois não há descrição de nomes dos personagens neste conto. Talvez seja um eu lírico, mas prefiro pensar que é a própria Virginia Woolf, em sua prosa poética. A marca na parede? Era uma coisa bastante simples. Tão simples quanto surpreendente.

Você pode encontrar este conto para leitura em coletâneas de contos da autora. As que conheço e recomendo são as edições da Cosac Naify, de contos completos ou selecionados, este último na edição portátil (de bolso), disponível em e-book e livro físico, na Amazon.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

setembro 08, 2016

[RESENHA] MRS. DALLOWAY, FILME 1997

20486207

 

Também conhecido no Brasil como Sra. Dalloway (ou, ainda, como A Última Festa), a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Virginia Woolf tenta trazer para a tela toda a complexidade da narrativa da autora, que ficou conhecida por usar o fluxo de consciência, especialmente neste romance.

Uma história a princípio bem simples, de uma senhora envolvida nos preparativos de uma festa que dará em sua casa durante a noite. O cenário é Londres e sua alta burguesia, além de uma melancolia altamente palpável.

É impossível falar de Mrs. Dalloway, seja o romance ou a adaptação para o cinema, sem antes mencionar o famoso método narrativo o qual Virginia Woolf ficou também bastante conhecida: o fluxo de consciência.

O fluxo de consciência é um método narrativo da época modernista, em que os padrões clássicos são postos de lado e os autores exploram a interioridade dos personagens em relação ao mundo e a sociedade. Como muitos dizem, o fluxo de consciência é a literatura dentro da mente dos personagens. Em Mrs. Dalloway, a autora nos mostra o confronto entre a realidade interior de cada personagem e a realidade exterior do mundo.

Clarissa Dalloway vai dar uma festa e neste dia lembra-se de seu passado, refletindo sobre suas escolhas, acertos e possíveis erros. Na juventude, ela namora Peter Walsh e tem uma relação bastante próxima com Sally, mas casa-se com Richard Dalloway, muito por este ser uma opção que lhe garantiria maior segurança e conforto. Ela tem uma ótima vida, pertence à alta classe londrina, tem um bom marido, planeja uma festa… mas ao mesmo tempo está em desequilíbrio interiormente. O reencontro com Peter Walsh, anos depois, no dia de sua festa, acentua o seu conflito interno.

Peter também vive seu conflito, pois embora não se preocupe com as aparências, como seu antigo amor, não conseguiu superar os sentimentos do passado, sobretudo o fato de Clarissa ter se casado com Richard. Viveu sua vida sem grandes realizações, foi para a Índia, apaixonou-se por uma mulher mais nova, mas seu amor por Clarissa sempre esteve e sempre estará ali, numa parte significativa de seu coração. Sente-se insatisfeito pela pessoa que ele acha que Clarissa se tornou; fria, distante e preocupada com as opiniões da sociedade em que vive.

Richard Dalloway foi o único personagem que se manteve tal como era em sua juventude: tinha aspirações políticas e seguiu carreira. Construiu sua vida ao lado de Clarissa, com uma rotina amorosa e confortável. Sally, embora ainda com suas opiniões sobre o mundo e as pessoas, tornou-se a esposa de um industrial e mãe de cinco filhos, tendo uma rotina quase tão caseira quanto Mrs. Dalloway.

O filme também mostra as marcas da Primeira Guerra Mundial em um jovem veterano, Septimus Smith, que ficou neurótico com a morte de seu superior Evans, além das experiências que viveu nas trincheiras. Prestes a ser internado em um manicômio, ele suicida-se pulando da janela de sua casa. Sua morte é mencionada na festa de Mrs. Dalloway e deixa a anfitriã ainda mais pensativa sobre os rumos que a vida pode tomar.

O filme consegue fazer o paralelo entre passado e presente, reflexões e acontecimentos reais. Ainda assim, acredito que a leitura possa ser mais esclarecedora, sobretudo pela questão do fluxo de consciência. Para quem, como eu, ainda não leu o romance, não fica tão difícil de entender o roteiro de Eilleen Atkins, desde que o método narrativo da obra original seja lembrado.

Mrs. Dalloway pode ser cada uma de nós. Uma mulher que viveu sua juventude com toda a paixão que conseguia e que, na velhice, torna-se uma pessoa diferente, saudosa de seu passado. Sua preocupação maior é que todos se divirtam e tenham uma noite agradável em sua festa, contudo, em sua juventude, seus amigos acreditavam que ela pudesse ter um futuro bem mais promissor. Vive toda a melancolia de sua idade, mas não posso dizer que a achei uma personagem infeliz. Casou-se bem, como já dito, e vive uma rotina tranquila. Entretanto, uma parte dela questiona-se sobre como teria sido se ela tivesse escolhido outro caminho.

Assistir essa adaptação me fez pensar, assim como Clarissa, sobre o que eu era há 10 ou 15 anos e sobre o que sou hoje. Na juventude queremos ser tudo o que pudermos ser. Na vida adulta as coisas podem não ser como imaginamos. De vez em quando é bom tirar um dia para o saudosismo e Mrs. Dalloway é uma ótima pedida!

______________________________________________________________________

Mrs. Dalloway

De Marleen Gorris, Inglaterra-Holanda, 1997.

Com Vanessa Redgrave (Mrs. Clarissa Dalloway), Natascha McElhone (Clarissa jovem), Michael Kitchen (Peter Walsh), Alan Cox (Peter jovem), Sarah Badel (Lady Rosseter), Lena Headey (Sally jovem), John Standing (Richard Dalloway), Robert Portal (Richard jovem), Oliver Ford Davies (Hugh Whitbread), Hal Cruttenden (Hugh jovem), Rupert Graves (Septimus Warren Smith), Amelia Bullmore (Rezia Warren Smith), Margaret Tyzack (Lady Bruton), Robert Hardy (Sir William Bradshaw), Richenda Carey (Lady Bradshaw).

 

Roteiro Eileen Atkins.

 

Baseado no romance Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf.

 

Fotografia Sue Gibson.

 

Música Ilono Sekacz.

 

Produção First Look Pictures, Bayly/Paré, Bergen Film), BBC Films. DVD Casablanca Filmes.

 

 

Referências:

SOUSA, Simone Elizabeth. O fluxo de consciência em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Acesso em http://cratilo.unipam.edu.br/documents/32405/38116/OFluxoDeConscienciaEmMrsDallaway.pdf

 

http://50anosdefilmes.com.br/2010/sra-dalloway-ou-a-ultima-festa-mrs-dalloway/

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Compre o livro na Amazon: Mrs. Dalloway.

abril 07, 2016

[RESENHA] PROFISSÕES PARA MULHERES E OUTROS ARTIGOS FEMINISTAS

Sinopse: “Profissões para mulheres e outros artigos feministas reúne sete ensaios de Virginia Woolf nos quais ela questiona a visão tradicional da mulher como “anjo do lar” e expõe as dificuldades da inserção feminina no mundo profissional e intelectual da época. Numa era em que o papel da mulher modifica-se cada vez mais rapidamente, as críticas e reflexões de Virginia mostram que a autora estava à frente de seu tempo. Uma das romancistas mais inovadoras da literatura inglesa, Virginia Woolf (1882-1941) notabilizou-se também como uma das precursoras do feminismo contemporâneo. Além dos seus clássicos modernistas Mrs. Dalloway e Rumo ao farol, escreveu artigos nos quais explorou sem igual a questão da mulher e seu papel em uma sociedade dominada por homens, ideias que ajudaram a pavimentar o caminho do movimento feminista.”

 

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas foi o primeiro livro de Virginia Woolf que li; definitivamente amor à primeira página! São sete ensaios de leitura super-rápida que podem mudar a visão que muitas pessoas têm do feminismo. Em tempos de opiniões calorosas (mas com pouca ou nenhuma fundamentação teórica) em redes sociais, nada como ler algo escrito por alguém que foi e ainda é referência para o movimento.

Profissões para mulheres é o primeiro ensaio, seguido de A nota feminina na literatura; Mulheres romancistas; A posição intelectual das mulheres; Duas mulheres; Memórias de uma União das Trabalhadoras e Ellen Terry. Todos têm o seu valor, contudo, abaixo, elenco os meus dois favoritos e os quais retorno ocasionalmente quando preciso me lembrar do porquê ler bons artigos e livros com temática feminista ainda é tão importante e relevante na sociedade atual.

O ensaio que abre este livro foi lido pela Sra. Woolf para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Supostamente seria uma realidade distante da nossa, pois trata-se de um texto de oitenta e quatro anos! Ledo engano. Este ensaio poderia ser lido em um auditório lotado de mulheres hoje mesmo e facilmente muitas delas se reconheceriam nele. A autora fala de um fantasma que muitas vezes precisamos enfrentar, o “Anjo do Lar”. Tal “Anjo” é uma alusão a um poema de Coventry Patmore que celebrava o amor conjugal e idealizava o papel doméstico das mulheres. Percebe que ele ainda está entre nós?

“Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez? (…) Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente.” (trecho de Profissões para mulheres, ps. 17 e 18)

 

Em outro ensaio de destaque nesta coletânea, A posição intelectual das mulheres, Virginia Woolf contrapõe as opiniões negativas que o romancista Arnold Bennett publicou em uma coletânea de ensaios, sob o título Nossas mulheres: capítulos sobre a discordância entre os sexos. Bennet acreditava que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens; proposição que levou a autora a pensar mais sobre o assunto, resultando no livro Um Teto Todo Seu. Em outubro de 1920, Desmond MacCarthy publicou uma resenha favorável do livro de Bennett, sob o pseudônimo de Falcão Afável. Virginia Woolf fez um comentário sobre a resenha e ele foi publicado; seguido de uma réplica e uma tréplica de Falcão Afável. É um “diálogo” maravilhoso, em que temos vontade de bater palmas para a Sra. Woolf no final.

“O fato, como penso que havemos de concordar, é que as mulheres, desde os primeiros tempos até o presente, têm dado à luz toda a população do universo. Essa atividade toma muito tempo e energia. Tal fato também levou a se sujeitarem aos homens e, diga-se de passagem – se fosse essa a questão –, desenvolveu nelas algumas das qualidades mais admiráveis e apreciáveis da espécie. Discordo de Falcão Afável não porque ele negue a atual igualdade intelectual entre homens e mulheres. E sim porque afirma, com Mr. Bennett, que o espírito da mulher não é sensivelmente afetado pela educação e pela liberdade; que é incapaz das mais altas realizações, e que deve permanecer para sempre na condição em que se encontra agora. Devo repetir que o fato de terem as mulheres se aprimorado (que Falcão Afável agora parece admitir) mostra que elas podem se aprimorar ainda mais; pois não consigo entender por que haveria de se impor um limite a seu aprimoramento no século XIX, e não, por exemplo, no século CXIX. Mas o que é necessário não é apenas a educação. É que as mulheres tenham liberdade de experiência, possam divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças (pois não concordo com Falcão Afável que homens e mulheres sejam iguais); que todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos homens e, como eles, não precisem recear o ridículo e a condescendência. Essas condições, a meu ver muito importantes, são dificultadas por declarações como as de Falcão Afável e Mr. Bennett, pois para um homem ainda é muito mais fácil do que para uma mulher dar a conhecer suas opiniões e vê-las respeitadas. Não tenho dúvidas de que, caso tais opiniões prevaleçam no futuro, continuaremos num estado de barbárie semicivilizada. Pelo menos é assim que defino a perpetuação do domínio de um lado e, de outro, da servilidade. Pois a degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor.” (trecho de A posição intelectual das mulheres, ps. 50 e 51)

 

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas é aquele livro que nos abre os olhos; uma leitura para ser feita ocasionalmente, como toda a obra de Virgínia Woolf. Com esse livro me descobri uma amante da leitura de ensaios, tendo os da Sra. Woolf um espaço especial na minha cabeceira.

 

 

Título: Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Denise Bottmann
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 112

Compre na Amazon: Profissões para mulheres e outros artigos feministas.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2019 • powered by WordPressDesenvolvido por