agosto 23, 2019

[RESENHA] TODOS NÓS ADORÁVAMOS CAUBÓIS, DE CAROL BENSIMON

Sinopse: “Cora e Julia não se falam há alguns anos. A intensa relação do tempo da faculdade acabou de uma maneira estranha, com a partida repentina de Julia para Montreal. Cora, pouco depois, matricula-se em um curso de moda em Paris. Em uma noite de inverno do hemisfério norte, as duas retomam contato e decidem se reencontrar em sua terra natal, o extremo sul do Brasil, para enfim realizarem uma viagem de carro há muito planejada. Nas colônias italianas da serra, na paisagem desolada do pampa, em uma cidade-fantasma no coração do Rio Grande do Sul, o convívio das duas garotas vai se enredando a seu passado em comum e seus conflitos particulares: enquanto Cora precisa lidar com o fato de que seu pai, casado com uma mulher muito mais jovem, vai ter um segundo filho, Julia anda às voltas com um ex-namorado americano e um trauma de infância. Todos nós adorávamos caubóis é uma road novel de um tipo peculiar; as personagens vagam como forasteiras na própria terra onde nasceram, tentando compreender sua identidade. Narrada pela bela e deslocada Cora, essa viagem ganha contornos de sarcasmo, pós-feminismo e drama. É uma jornada que acontece para frente e para trás, entre lembranças dos anos 1990, fragmentos da vida em Paris e a promessa de liberdade que as vastas paisagens do sul do país trazem. Um western cuja heroína usa botas Doc Martens.”

 

Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon, foi o livro do mês de agosto/2019 enviado pela TAG Curadoria, indicado por Noemi Jaffe. É um livro nacional — pedido frequente entre os assinantes do clube — de uma escritora já bastante conhecida e premiada, com uma narrativa bem fluida e de fácil leitura.

TNAC (vou abreviar, posso?) é uma road novel, ou seja, uma narrativa de viagem ao estilo Telma e Louise, que nos leva pelas estradas do Rio Grande do Sul e por caminhos psicológicos e emocionais das protagonistas, especialmente de Cora, a narradora.

Cora e Julia viajam de carro e precisam lidar com sentimentos mal resolvidos do passado. A viagem, que era uma espécie de sonho adolescente, acaba acontecendo com as duas já adultas, tendo passado algum tempo separadas (Cora estava morando em Paris e Julia, em Montreal). Desde o começo é evidente que Julia não tem muita certeza sobre a sua sexualidade, diferente de Cora. As duas parecem precisar desse tempo juntas para terem certeza: Cora, de que pode ser amada e Julia, de que pode amar esta mulher, mais que apenas como amiga.

 

“Respirei fundo. Era o ar da serra, nós estávamos ali, com cinco ou seis anos de atraso, mas ali, finalmente ali. Tínhamos sobrevivido a uma briga que continuava pairando sobre nós, a Paris, a Montreal, à loucura das nossas famílias. Aquela viagem era mais um fracasso irresistível.” (p. 25)

 

Alguns pontos foram bastante positivos, para mim, neste livro: gostei da linguagem, bem próxima do que deve ser o falar gaúcho atual; a questão do relacionamento entre duas mulheres, as dificuldades, mas também a universalidade do medo de amar; o fato de que são duas mulheres na estrada numa aventura; a viagem pelo Rio Grande do Sul e a prosa não linear, como se Cora fosse a protagonista de um filme e nós, os expectadores de sua história com Julia. No entanto, apesar de ter sido uma boa leitura, TNAC não foi uma leitura marcante para mim. Não consegui me conectar às personagens ou gostar realmente delas. Algumas divagações da Cora não fizeram sentido para mim ou mesmo para história, por mais que a autora use muitas metáforas em seu texto e seja fácil reconhecer esse recurso e sua finalidade. Li em alguns ligares, principalmente no aplicativo da TAG, que muitos leitores não teriam gostado do livro ou das personagens por terem uma realidade diferente da de Cora e Julia. Acredito realmente que mulheres (ou homens) gays possam ter uma identificação maior com essas personagens, mas, embora possa ter lá seu fundo de verdade, acho injusto o emblema “não gostou porque é hétero”. Faz parte da jornada do leitor ler o que é diferente e se conectar ou ver partes de si mesmo nas páginas, certo? Tem livro LGBTIQ+ que dá vontade de pegar o casal (isso falando APENAS do aspecto romântico) e colocar num potinho de tão apaixonante (sugiro fortemente esse aqui da Thati Machado, inclusive)!

 

“A pior parte, sem dúvida, era ter que lidar com meus pais. Havia muito tempo eu tinha descartado as conversas sérias. Você sabe, eles votam na esquerda e são a favor dos direitos humanos e das minorias até que você apareça em casa com sua namorada. Então a primeira coisa que dizem é que eles não têm problema algum em aceitar suas ‘escolhas’, mas o resto da sociedade, infelizmente, irá estigmatizá-la. E, afinal de contas, eles estão preocupados é com o seu bem. Eles amam o verbo estigmatizar, mas claro que são sempre os outros os responsáveis por todo esse lamentável equívoco.” (p. 53)

 

Enfim, foi uma boa leitura. Tipo um filme de título interessante que a gente acaba encontrando quando estamos passeando pelos canais na TV e paramos para assistir para ver “qual vai ser”, mas acaba não reunindo o suficiente para ser um novo favorito.

 

 

 

Título: Todos nós adorávamos caubóis

Autora: Carol Bensimon

Prefácio: Noemi Jaffe

Editora: TAG/ Companhia das Letras

Páginas: 196

Compre na Amazon: Todos nós adorávamos caubóis.

 

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