junho 13, 2020

[RESENHA] A VIDA MENTIROSA DOS ADULTOS, DE ELENA FERRANTE

Sinopse: “As mudanças no rosto de Giovanna anunciam o início da adolescência e não passam despercebidas em casa. Dois anos antes de abandonar a família e o confortável apartamento no centro de Nápoles, Andrea não se dá conta do que sentencia quando sussurra para a esposa que a filha é muito feia. Essa feiura estética, mas que também indica uma possível falha de caráter, recai sobre Giovanna como uma herança indesejável de Vittoria, a irmã há muito renegada por Andrea. Aos doze anos, a menina vê um rosto no espelho e, embora não compreenda a fundo o peso daquela comparação, sente que algo está irremediavelmente à beira de um abismo.

O amor e a proteção oferecidos pelo lar são as primeiras estruturas a desmoronar quando Giovanna decide conhecer a mulher que pode encarnar seu futuro. Os encontros com a tia são o ponto de partida para o embate com inúmeras questões existenciais ― é possível pertencer a algum lugar em uma Nápoles de contrastes entre o cinza industrial e sua sociedade rica e instruída? Ou transcender os erros e pecados cada vez mais aparentes de pais outrora perfeitos? Como sobreviver ao despertar do desejo?

Ao longo dos anos acompanhamos os percalços da transição da infância protegida de Giovanna a uma adolescência exposta às complexidades daqueles que a cercam, evocando também a possibilidade de levar a vida adulta como nenhuma outra mulher fizera até então. Um romance extraordinário sobre transições, paixões e descobertas.”

 

É inevitável: depois da Tetralogia, todo livro que leio da Elena Ferrante procuro ficar atenta ao momento em que a narrativa está prestes a me capturar, a ponto de eu não querer saber de mais nada do que está acontecendo a minha volta, a não ser o destino das personagens. Em A vida mentirosa dos adultos eu tentei, mas quando dei por mim já estava rendida, devorando avidamente as páginas deste mais recente livro da escritora italiana. É inevitável, também, procurar numa frase ou outra resquícios, fagulhas, o que quer que seja de Lenu, Lila, do bairro, enfim, da Tetralogia. Mas neste livro a autora consegue um bom distanciamento de seu mais longo e famoso romance, embora o mais recente também tenha profundas raízes fixadas ao velho bairro industrial.

Em A vida mentirosa dos adultos, veremos a história de Giovanna, que também é nossa narradora. Ela é uma adolescente de classe média vivendo aquela vidinha bem pasteurizada de apartamento quando sente o primeiro impacto da transição da infância para a vida adulta: ela ouve acidentalmente uma conversa de seus pais, em que ele diz que ela é feia. Mas não uma feiura qualquer: Giovanna seria feia como a irmã de seu pai, Vittoria.

Essa tia é um ministério para Giovanna, espécie de assunto proibido em sua casa. Seu pai não é muito ligado aos familiares, os estudos e posterior ascensão social o distanciou de seus parentes, todos de origem humilde e provenientes do bairro industrial, no sul de Nápoles. A adolescente cresceu sem conviver com esses parentes, sem ter contato com o “dialeto” — linguagem vulgar e terminantemente proibida nas altas rodas. Mas se se o pai disse que ela se parece com essa tia Vittoria (feia), Giovanna decide que fará de tudo para conhecê-la. Essa jornada vai mudar não só a vida de Giovanna, mas a de todos à sua volta.

“Seu pai — disse com raiva — privou você de uma família grande, de todos nós, avós, tios, primos, que não somos inteligentes e educados como ele; nos eliminou com um corte seco, fez você crescer isolada, com medo que nós a estragássemos. Ela emanava rancor; todavia, naquele momento, essas palavras me causavam alívio, eu as repeti na minha cabeça. Afirmavam a existência de um laço forte e positivo, exigiam-no. Minha tia não dissera: você tem meu rosto ou pelo menos se parece um pouco comigo; minha tia dissera: você não é apenas do seu pai e da sua mãe, você também é minha, você é de toda a família da qual ele veio, e quem fica do nosso lado nunca fica sozinho, se recarrega de força.” (p. 78)

 

“as coisas feias que você não conta para ninguém se tornam cães que comem a sua cabeça à noite enquanto você dorme.” (p. 147-148)

 

“O que se passava, afinal, no mundo dos adultos, na cabeça de pessoas extremamente racionais, em seus corpos carregados de saber? O que os reduzia a animais dentre os menos confiáveis, piores que os répteis?” (p. 169)

 

“— Não entendo mais meu pai e minha mãe.

— Você vai entender quando for grande.

Todos diziam que eu entenderia quando fosse grande.

— Então não vou crescer — respondi.” (p. 248)

 

A vida mentirosa dos adultos mostra a perda da inocência, o momento em que descobrimos que nossos pais podem, sim, em alguns momentos ou situações serem pessoas sórdidas, mentirosas. E, inevitavelmente ao crescer, entramos nesse mundo de mentiras, seja para nos defendermos, seja porque essa é, realmente, a vida dos adultos. É interessante como a autora mostra que mesmo em famílias cultas, em que o diálogo é aberto e nenhum assunto é censurado (Giovanna e suas amigas tinham pleno conhecimento didático/pedagógico sobre questões sexuais, sociais e tudo o mais que é considerado importante para uma formação “completa”), algumas coisas precisam ser aprendidas na prática. Precisa doer na carne para fazer sentido.

Para mim às vezes é difícil falar sobre os livros da Elena Ferrante (principalmente sem dar spoilers, no caso dos romances), porque são tantos acontecimentos, é tanta informação e são tantos sentimentos que as leituras me despertam (estou sempre relendo), que tenho medo de falar mais do mesmo. Ainda assim, preciso dizer que A vida mentirosa dos adultos foi uma leitura bem emocionante, me prendeu bastante (li em duas sentadas) e não sei se é desejo de fã ou sexto sentido: a história é fechadinha (no estilo Ferrante, mas é), mas caberia perfeitamente uma continuação. Vou ficar torcendo!

 

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Essa edição que eu li é do clube de assinatura da editora Intrínseca, o Intrínsecos. Acompanhando o livro (capa dura) vieram: marcador, postal com a imagem da capa da edição, uma pequena ecobag com desenho inspirado em Nápoles (não foi fotografada por motivos de: está com meu material de tricô) uma revista com alguns artigos bem interessantes sobre a autora, Nápoles (eterna personagem dos livros de Ferrante) e sobre esse doloroso processo chamado adolescer, que expandem a experiência de leitura e ambientam bem os leitores que por ventura não conheçam a autora e sua obra. A edição em capa comum deve ser comercializada a partir do mês de setembro deste ano! Dá tempo de se programar para ler antes de lançarem a adaptação na Netflix!

 

[ATUALIZAÇÃO: 19/06/2020] O livro já está em pré-venda, com previsão de entrega para setembro, nos formatos físico e digital! Compre aqui: A vida mentirosa dos adultos, de Elena Ferrante.

 

 

Leia também: Tudo o que eu já escrevi sobre Elena Ferrante para você começar a ler a autora hoje mesmo!

Título: A vida mentirosa dos adultos

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca (1a. edição: Intrínsecos)

Páginas: 432

fevereiro 18, 2020

[RESENHA] A FILHA PERDIDA, DE ELENA FERRANTE

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Sinopse: Da autora de A amiga genial e História do novo sobrenome, um romance feminino e arrebatador.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” Com essa afirmação ao mesmo tempo simples e desconcertante Elena Ferrante logo alerta os leitores: preparem-se, pois verdades dolorosas estão prestes a ser reveladas.

Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.

No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.

Elena Ferrante se tornou especialmente conhecida pela série napolitana, cujos dois primeiros volumes, A amiga genial e História do novo sobrenome, já foram publicados com grande sucesso no Brasil.”

 

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Certo verão, Leda resolve juntar seus livros e passar alguns dias no litoral. A professora universitária aluga uma casa e vai, sozinha, em uma viagem que acaba não sendo exatamente um descanso, mas aquilo que chamamos de “uma jornada de autoconhecimento”. Uma família barulhenta, tipicamente napolitana, faz com que ela se lembre dela própria, em outras fases de sua vida. Especialmente mãe e filha, que destoam do restante do grupo: Nina e Elena. Leda acaba se envolvendo com essas pessoas ao encontrar a menina, Elena, que havia se perdido na praia. A maternidade é o grande mote deste livro, mas ao estilo Elena Ferrante: um mergulho profundo nas verdades inconvenientes de se dizer em voz alta, inconveniente talvez até de se pensar.

A filha perdida é, assim, como uma “espiral da maternidade”: o que de início parece apenas mais um caso de uma criança que se perde na praia, acaba sendo facilmente interpretado como uma série de filhas que se perderam ao longo da vida, por razões diversas. Leda, por exemplo, recorda-se bastante de seu papel como mãe, inclusive também sofreu a vertigem tresloucada de perder uma de suas filhas na praia; e se recorda da própria mãe e de como era ser apenas filha. Elena, a criança, perde a boneca com a qual tenta reproduzir a relação que tem com a própria mãe, boneca esta que Leda acabou guardando consigo e, por alguma razão, demora para conseguir pensar em devolver para a garota. Nina é uma mãezona, pelo menos tenta ser, mas parece isolada em meio aos parentes de seu marido. São mulheres, meninas, lembranças diversas,  unidas em uma característica: todas foram ou estão, física ou psicologicamente, perdidas.

O livro foi lançado originalmente em 2006, portanto, antes da tetralogia napolitana. Lendo os dois (tratando a tetralogia como uma única e grande história), percebem-se alguns ecos entre os romances, e isso não só em relação aos nomes de algumas personagens, mas em situações de enredo mesmo. É interessante perceber (ou supor) que Elena Ferrante talvez tenha tido a necessidade de expandir algumas histórias, tratando-as com mais profundidade na tetralogia. De qualquer maneira, são livros diferentes, com possibilidades de interpretação — e identificação —, também distintas. Eu recomendo todos!

A filha perdida foi o livro que eu levei na bolsa nas férias de fim de ano. Achei interessante a ideia de estar na praia, assim como Leda estava e me deixei levar por alguns pensamentos da protagonista. Não foram poucas as vezes em que levantei os olhos do livro e pensei que as pessoas barulhentas que nos cercavam eram semelhantes aos napolitanos do livro; recordei como era ser apenas filha; como era a minha mãe; pensei em como tenho sido como mãe… daí por diante. Depois da tetralogia, esse foi o livro da Elena Ferrante de que mais gostei. Por ser curtinho e praticamente impossível de largar, terminei ainda no começo da viagem. Dividi a leitura com o meu marido, que nunca tinha lido nada da Ferrante, apesar deste ser um nome falado quase diariamente em nossa casa. “Ela é realmente muito, muito boa”, foi o que ele disse ao virar a última página.

 

 

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” (p. 6)

 

 

 

 

Título: A filha perdida

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca

Páginas: 176

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