julho 12, 2019

[RESENHA] A VISITA DE JOÃO GILBERTO AOS NOVOS BAIANOS, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Neste originalíssimo livro de contos, o premiado autor do romance O drible e de Viva a língua brasileira! brinca com coisa séria. Depois de presenciar um encontro mitológico no céu da MPB, o leitor vai para a cama com Machado de Assis e acompanha um desfile de histórias cheias de graça, prosa afiada, erudição literária e cultura pop.

Nos contos de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, o prazer de contar histórias sobre histórias é o antídoto à alardeada perda de potência da literatura em nosso tempo. Assim, a história do mundo pode caber em treze tweets, tornamo-nos cúmplices de uma farsa erótica ambientada na Vila Rica dos inconfidentes e espiamos pela fechadura a intimidade de um famoso personagem machadiano.
No conto que abre e nomeia o livro, fantasia pop inspirada no encontro real entre o gênio da bossa nova e os jovens hippies liderados por Moraes Moreira, vislumbra-se uma síntese da contribuição original que a arte brasileira pode dar ao mundo: metade precisão rigorosa, metade delírio e festa. Os mesmos ingredientes podem ser encontrados na prosa entre o culto e o popular que anima um livro dividido em três partes, como um LP impossível.
No Lado A ficam as narrativas mais clássicas. O Lado B é dedicado aos fragmentos de um experimentalismo que examina com humor ferino, mas sem perder a ternura, os cacos restantes das velhas catedrais literárias e suas vaidades autorais na era da internet. Fecha o volume a deliciosa novela “Jules Rimet, meu amor”, publicada em 2014 como e-book.”

 

Eu pensei em muitas formas de iniciar essa resenha. Mas sempre acabava encurralada pela questão fundamental da existência desse blog (olha o drama!): indicar bons livros, mas sem prejudicar a experiência de leitura ou tornar nulo o fator surpresa das narrativas. Muitas sinopses (infelizmente) já fazem esse trabalho, mas o leitor tem sempre a opção de pular esse parágrafo — que, por aqui, sempre é bem sinalizado, — e ler apenas as impressões e sensações que esta resenhista teve com a leitura.

Pois bem, agora me sinto mais confortável em dizer que não vou dar muitos detalhes sobre os textos que compõem A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, de Sérgio Rodrigues, publicado recentemente pela Companhia das Letras. Não seria justo! Esse livro é tão bom, mas tão bom, que o melhor que eu posso dizer é que você pare agora tudo o que está fazendo e leia-este-livro! Não vou ficar chateada, pode clicar aqui e comprar agora mesmo (a versão em e-book tem a vantagem de poder começar imediatamente a leitura).

Se você permaneceu mais um pouco (obrigada), enquanto o e-book carrega no seu Kindle, no app do celular ou no navegador da internet mesmo, vou dizer mais o seguinte: eu li (e reli) o e-book de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ainda é difícil saber qual dos três lados desse disco-livro é o meu favorito. As faixas-capítulos A fruta por dentro e Conselhos literários fundamentais estão entre as que mais gostei, mas Jules Rimet, meu amor é de uma perfeição que faz querer voltar a agulha para o início do discoA visita de João Gilberto aos Novos Baianos é o tipo de livro que faz o leitor ter saudade, ter vontade de regressar e dar aquela espiadinha, uma relida em uma ou outra parte mais bacana. Nas vezes em que eu fiz isso, confesso, acabei lendo o livro inteiro novamente quase que em uma só sentada.

 

“O roubo da Jules Rimet revela tanto sobre o Brasil quanto a conquista da Jules Rimet. Inferno e céu. Uma coisa precisa da outra, do contrário a imagem do país fica incompleta. Aqui a gente vive no inferno e no céu ao mesmo tempo. E como menos com mais dá menos, fica matematicamente provado que não temos salvação!”

 

Do autor eu havia lido apenas Viva a língua brasileira, que eu amei, mas em nada é semelhante a esse livro de agora. A visita de João Gilberto aos Novos Baianos é conto, novela, crônica, divagação metalinguística e mais um monte de coisa que eu não vou saber explicar. Só sei dizer que é um livro maravilhoso, principalmente se você curte uma prosa mais enxuta, inteligente e tipicamente brasileira. Sem exagero, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

 

 

 

 

Título: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

Autor: Sérgio Rodrigues

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 144

Compre na Amazon: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

 

 

 

Faixa bônus (por minha conta) – Chega de Saudade, de João Gilberto, falecido no dia 06 de julho de 2019:

 

maio 13, 2017

[RESENHA] VIVA A LÍNGUA BRASILEIRA, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Este livro é uma declaração de amor à língua portuguesa falada no Brasil. Em forma de verbetes rápidos e instrutivos, dá dicas e tira dúvidas que você sempre teve sobre o uso do idioma. Contra aqueles que defendem que só os irmãos de Portugal sabem tratar a gramática como ela merece, aqui está um antídoto. Contra aqueles que adoram corrigir o que nunca esteve errado e defendem bobagens, aqui está a resposta perfeita. Contra o analfabetismo funcional, o pedantismo do juridiquês, a barbaridade do corporativês, a importação servil de estrangeirismos e o chiclete viciante do clichê, este é um manual perfeito para usar nossa língua em toda sua riqueza e sem nenhum preconceito.”

 

Esta é mais uma recomendação urgente de leitura que uma resenha. Digo isso logo de cara e abaixo reproduzirei os meus trechos favoritos dos favoritos. Sim, pois foi extremamente difícil escolher o que esse livro tem de melhor, visto que todo ele é incrível.

Em Viva a Língua Brasileira, Sérgio Rodrigues, que eu descobri com muita alegria ser natural da cidade de Muriaé-MG, onde passo minhas laboriosas oito horas diárias de trabalho no Conselho Regional de Odontologia, fez algo incrível: expôs as dúvidas mais frequentes da nossa língua, sem a arrogância e o pedantismo que muitas publicações do gênero (infelizmente) reproduzem. Confesso que, em muitas páginas, eu fechava o livro e suspirava um agradecimento ao autor, pois além de expor tais dúvidas, o fez em uma publicação de leitura leve e rápida, apesar das 384 páginas. Tudo isso com ilustrações lindíssimas de Francisco Horta Maranhão.

O livro possui treze categorias temáticas, nas quais são discutidos temas como dúvidas de escrita, de fala, os modismos, origens de expressões antigas (nem sempre verdadeiras), dentre outras coisas. O grande acerto desta publicação é que ela agradará a gregos e troianos, pois o autor posicionou-se neutro no embate entre os patrulheiros, que acham que tudo é erro, e os excessivamente liberais, que consideram tudo como correto.

 

“Sem caretice e sem vale-tudo, este livro entende os argumentos dos dois lados, mas reserva-se o direito de não morrer abraçado com nenhum deles. Aposta que é possível cultivar a variedade culta da língua e ao mesmo tempo compreender que regras são historicamente determinadas, que nenhuma delas caiu do céu, e que no fim das contas o idioma é sempre atualizado por quem o fala. A mesma aposta inclui o reconhecimento da grande beleza que existe nisso.” (p. 15)

 

“Estória ou História?

As duas palavras existem, mas são diferentes. Segundo o dicionário Houaiss, estória é um brasileirismo que significa apenas ‘narrativa de cunho popular e tradicional’, enquanto história pode querer dizer também isso – entre muitas outras coisas.

(…)

Nessa eu fico com o Aurélio, que não reconhece a palavra, e com os portugueses, que não a usam: para mim – e para a maioria dos escritores que conheço – é tudo história. É que a fronteira entre história real (história) e história fictícia (estória) me parece fluida demais para tornar funcional a adoção de dois vocábulos.

(…)”  (p. 37 e 38)

 

“Homossexualismo ou Homossexualidade?

A questão é uma daquelas em que a língua vira um campo de batalha. O combate pode envolver diversos tipos de argumento – linguísticos, históricos, etimológicos, científicos –, mas eles não passam de armas. O que está em jogo mesmo é uma questão política.

O movimento gay transformou em bandeira a condenação de homossexualismo, que em sua origem designava uma patologia, e sua substituição por homossexualidade.

Linguisticamente, a questão não é tão simples. O termo homossexualismo foi cunhado no ambiente infestado de ideias pseudocientíficas de fins de século XIX e vinha impregnado de conotações médicas. (Incrivelmente, só em 1990 a Organização Mundial de Saúde o excluiu de sua lista de distúrbios mentais.)

Ocorre que a palavra não ficou presa a essa primeira acepção. Além de ‘condição patológica’, usamos o sufixo de origem grega –ismo para indicar, entre outras coisas, ‘prática’, ‘peculiaridade’ e ‘qualidade característica’ (Aurélio).

(…)

Para mim, homossexualidade

Eu fiz minha opção: embora tenha dúvidas sobre a estratégia de criminalizar em nome da etimologia um vocábulo que a maioria da população emprega de forma inocente, adotei o termo homossexualidade. Não me custa muito mexer no vocabulário. Bem menos, sem dúvida, do que custa aos homossexuais conviver com uma palavra considerada insultuosa.

(…) (p. 45 e 46)

 

“Latente não quer dizer evidente

O emprego do adjetivo latente com o sentido de ‘evidente, claro, indiscutível’ é um erro tornado mais embaraçoso pelo fato de que a palavra significa… o contrário disso”

Quando afirmamos que alguma coisa está latente, queremos dizer que ela ainda não se manifestou: permanece oculta, adormecida, em estado potencial. Pode vir à tona a qualquer momento, mas ainda não veio. Trata-se de um termo ligado ao verbo latino latere, ‘estar escondido’.

É provável que o erro se deva a uma confusão entre latente e patente – este, sim, um adjetivo que significa ‘claro, evidente, manifesto’. (p. 165 e 166)

 

Destaque para o capítulo 7, intitulado A Guerra dos Sexos, que expõe a questão da briga político-ideológica entre os gêneros na língua. Não tendo nós, falantes de português, herdado do latim o gênero neutro, surgiu, sobretudo na internet, quem fale “amigue, amigues, amig@s ou mesmo amigx”. Não sou adepta dessa prática e acho que quem a emprega sistematicamente não percebe o quanto essa escrita dificulta a leitura para deficientes visuais e disléxicos. O problema é que o hábito tem saído da internet e chegado ao ambiente acadêmico, como proposta de intervenção gramatical, nas palavras de Sérgio Rodrigues. Neste capítulo, ainda, vemos a questão do Obrigado, Obrigada; Personagem; Poeta ou Poetisa; e, talvez um dos mais polêmicos assuntos em questão de gênero: Presidente ou Presidenta?

Em Viva a Língua Brasileira, vemos, ainda, a origem do termo sebo, para designar loja de livros usados, e das expressões outros quinhentos e para inglês ver. E, antes que eu me esqueça, “Aluno” não quer dizer “sem luz”. Este é um livro que não se esgota em uma única leitura. Viva a Língua Brasileira é uma rica fonte de informação, um livro para ser consultado eventualmente. Um deleite para os amantes da nossa língua.

 

“Como se escreve: Antártida ou Antártica? Expresso ou Espresso? E qual a pronúncia correta: Rorãima ou Roráima? Subssídio ou Subzídio? Está certo escrever ‘em anexo’? Está errado falar em ‘risco de vida’? De onde veio a expressão ‘chorar pitanga’? E ‘acabar em pizza’? Este livro não apenas resolve essas dúvidas de forma instrutiva e bem-humorada, aqui você ainda encontra antídoto contra os sabichões sempre dispostos a corrigir o que não precisa ser corrigido, aprende a se vacinar contra modismos bobos, aceita que a influência estrangeira é inevitável, desde que não descambe para o ridículo, foge de armadilhas populares (forró não tem nada a ver com ‘for all’!) e ganha um mapa privilegiado para navegar com segurança e estilo em nosso idioma vivo, complexo e fascinante.” (contracapa)

 

 

SOBRE O AUTOR: Sérgio Rodrigues é escritor, crítico literário e jornalista. Mineiro que adotou o Rio de Janeiro, é autor, entre outros, do romance O drible, vencedor do prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) e publicado em seis países. Desde 2001 mantém na imprensa colunas sobre o universo linguístico, etimológico e gramatical com grande audiência, do extinto Jornal do Brasil ao site da revista Veja. Em 2011, ganhou o prêmio Cultura do governo do estado do Rio de Janeiro pelo conjunto de sua obra.

 

 

Título: Viva a Língua Brasileira
Autor: Sérgio Rodrigues
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 384

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