julho 15, 2019

[RESENHA] PAIXÕES, DE ROSA MONTERO

Sinopse: “Paixões é fruto de uma série de artigos sobre como esse sentimento uniu grandes personagens da política e das artes, publicada no jornal espanhol El País. Para realizar a tarefa, Rosa Montero embrenhou-se em um universo de relacionamentos marcantes, diferentes entre si, mas que merecem ser reunidos por terem, todos, marcado a história.”

 

Leia também: A louca da casa e A ridícula ideia de nunca mais te ver, ambos de Rosa Montero.

 

Paixões é o terceiro livro que leio da Rosa Montero e uma coisa fica bem clara, para mim, com a experiência dessa e das leituras anteriores: qualquer assunto tratado por essa autora é ampliado de uma forma bastante envolvente em um panorama histórico e social. Paixões é uma leitura rica, muito bem embasada, que abrange personagens de várias épocas e que parece uma conversa entre amigos, tão fácil é a prosa de Montero. Não à toa, a escritora e jornalista espanhola é colunista exclusiva do jornal El País desde o final da década de setenta.

A coletânea têm dezoito artigos sobre casais ilustres, alguns bastante conhecidos do grande público, outros nem tanto. São eles os duques de Windsor; Leon e Sônia Tolstoi; Joana, a Louca, e Felipe, o Belo; Oscar Wilde e lorde Alfred Douglas; Liz Taylor e Richard Burton; Evita e Juan Perón; Robert Louis Stevenson e Fanny Vandegrift; Arthur Rimbaud e Paul Verlaine; Marco Antônio e Cleópatra; Dashiell Hammett e Lillian Hellman; Hernán Cortés e Malinche; Rainha Vitória e príncipe Albert; John Lennon e Yoko Ono; Mariano José de Larra e Dolores Armijo; Lewis Carroll e Alice Liddell; Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne; Os Bórgia e Elisabeth da Áustria (Sissi) e Imprerador Francisco José.

Paixões é uma leitura muito prazerosa, mas que expõe o amargor da necessidade humana de amar, ou melhor, de estar envolvido pelo sentimento frenético da paixão. Para algumas pessoas, viver plenamente uma paixão rende algum tempo de uma felicidade inebriante; já outros nem essa dádiva conseguem viver. Paixões é um livro para quem gosta de histórias de amor, mas não exatamente o amor dos filmes, que terminam no felizes para sempre. Rosa Montero vai além e mostra o depois, até o fim.

 

 

 

Título: Paixões: amores e desamores que mudaram a história

Autora: Rosa Montero

Tradução: Maria Alzira Brum Lemos e Ari Roitman

Editora: Pocket Ouro

Páginas: 224

Compre na Amazon: Paixões, de Rosa Montero

 

julho 01, 2019

[RESENHA] A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER, DE ROSA MONTERO

Sinopse: “Um livro sobre o luto e suas consequências, que navega com maestria entre a ficção e a memória. Quando Rosa Montero leu o impressionante diário (incluído como apêndice neste livro) que Marie Curie escreveu após a morte de seu marido, ela sentiu que a história dessa mulher fascinante guardava uma triste sintonia com a sua própria: Pablo Lizcano, seu companheiro durante 21 anos, morrera havia pouco depois de enfrentar um câncer. As consequências dessa perda geraram este livro vertiginoso e tocante a respeito da morte, mas sobretudo dos laços que nos unem ao extremo da vida.”

 

A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero (Todavia, 2019) é um livro estupendo. Já conhecia a autora pelo A Louca da Casamas, mesmo se não conhecesse, ficaria tentada a ler esse livro apenas e justamente pelo título. Não é mesmo ridícula a ideia de nunca mais ver alguém que amamos?

Rosa Montero, que passou pelo luto com a perda de seu marido — se é que a gente pode guardar esse sentimento em uma caixinha e considerá-lo terminado depois de algum tempo, dizendo que passou — percebe, ao ler o breve diário escrito por Marie Curie durante o primeiro ano da perda de seu amado Pierre, que existe uma força estranha que nos reduz ao mesmo nível de dor, de selvageria, e de incompreensão quando o assunto é a morte de alguém com quem compartilhamos a vida.

 

“Sempre, nunca, palavras absolutas que não podemos compreender, sendo como somos: pequenas criaturas presas em nosso breve tempo. Você nunca brincou, na infância, de tentar imaginar a eternidade? O infinito que se desenrola à sua frente como uma vertiginosa e interminável fita azul? A primeira coisa que te derruba no luto: a incapacidade de pensar nele e admiti-lo. A ideia simplesmente não entra na sua cabeça. Como é possível que não esteja mais? Aquela pessoa que ocupava tanto espaço no mundo, onde foi que se meteu? O cérebro não consegue entender que tenha desaparecido para sempre. E que diabos é sempre? É um conceito anti-humano. Quero dizer, que foge à nossa possibilidade de entendimento. Como assim não vou vê-lo nunca mais? Nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem daqui a um ano? É uma realidade inconcebível que a mente rejeita: não vou vê-lo nunca mais é uma piada sem graça, uma ideia ridícula.” (p. 23)

 

No trecho acima, Rosa Montero diz tudo o que eu já senti — e ainda sinto — com o luto. É um absurdo perder alguém, e é absurdo porque você nunca vai deixar de sentir essa perda. Geralmente, para quem está de fora, funciona da seguinte forma: acontece um falecimento, prestam-se os pêsames aos familiares e, depois de alguns dias é vida que segue. Mas te garanto e tenho experiência nesse assunto: quando a perda é sua, não funciona assim. A dor não passa, você só se acostuma a viver com ela e a não ter acessos frequentes de fúria (ou choro). Uma parte de você estará ausente pela eternidade do tempo que lhe resta de vida. As pessoas apenas superam a parte mais difícil do luto, seja mudando de casa, fazendo alguma atividade nova, escrevendo um livro ou gravando uma música, enfim, existem mil formas. Mas, ainda assim, é triste perceber que a imagem nítida do rosto daquela pessoa está se perdendo na sua mente, ou que as roupas rapidamente perdem o cheiro ou, ainda, perceber que não se fala com naturalidade de quem já se foi. Fica um buraco, que a gente cada dia precisa contornar.

Mas esse não é um livro exclusivamente sobre a morte, apesar de ser essa a sua essência. Esse é um livro que fala sobre a extraordinária vida de Marie Curie, mas não como uma biografia comum, e sim da forma intertextual, dinâmica e envolvente de Montero, que também dá detalhes de sua própria vida e de sua perda. A autora, que deu sua interpretação pessoal sobre vários dos fatos tratados no livro, mas também apresentou as fontes biográficas consultadas em seu processo de escrita, adicionou, inevitavelmente, alguns volumes a mais em minha lista de leitura. Achei bacana o trecho em que ela menciona outra grande escritora, Carmen Laforet. Adoro livros (e autores) que indicam outros livros!

 

 

A ridícula ideia de nunca mais te ver é uma leitura imperdível. É como ter uma conversa franca sobre a vida, as pessoas e sobre o funcionamento do mundo (leia-se sociedade). Isso, claro, de uma forma que ora faz rir, ora causa comoção. É leve, apesar de tudo. Achei muito interessante, também, as várias fotografias que ilustram os capítulos e as hashtags, tão incorporadas ao nosso dia a dia com as redes sociais, e que Rosa Montero distribuiu ao longo de todo o livro. O fim é angustiantemente belo com o diário de Marie Curie. “Ainda terei coragem para escrever?”, ela se pergunta. Aparentemente, não teve ou não precisou. Devia ter encontrado, naquele momento, seu modo de superar a parte mais difícil.

 

 

 

Título: A ridícula ideia de nunca mais te ver

Autora: Rosa Montero

Tradução: Mariana Sanchez

Editora: Todavia

Páginas: 208

Compre na Amazon: A ridícula ideia de nunca mais te ver.

abril 05, 2019

[LANÇAMENTO] A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER, DE ROSA MONTERO

Sinopse: Um livro sobre o luto e suas consequências. Quando Rosa Montero leu o impressionante diário (incluído como apêndice neste livro) que Marie Curie escreveu após a morte de seu marido, ela sentiu que a história dessa mulher fascinante guardava uma triste sintonia com a sua própria: Pablo Lizcano, seu companheiro durante 21 anos, morrera havia pouco depois de enfrentar um câncer. As consequências dessa perda geraram este livro vertiginoso e tocante a respeito da morte, mas sobretudo dos laços que nos unem ao extremo da vida.”

 

A Editora Todavia está lançando o livro A ridícula ideia de nunca mais te ver, da autora espanhola Rosa Montero. Aqui no blog tem resenha de A louca da casa (HarperCollins, 2015), uma leitura que eu gostei muito e fez eu me tornar fã desta autora. Este mais recente lançamento da Todavia já entrou na minha pequena-grande-lista de desejados!

 

Leia um trecho de A ridícula ideia de nunca mais te ver abaixo:

Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isso me refiro à morte dos meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é uma coisa tão lógica, tão natural, tão certa. Apenas nos nascimentos e nas mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades em que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar por um instante pela fresta da verdade –monumental, ardente e impassível. Nunca nos sentimos tão autênticos quanto ao beirarmos essas fronteiras biológicas: temos a clara consciência de estarmos vivendo algo grandioso. Há muitos anos, quando entrevistava o jornalista Iñaki Gabilondo, ele me contou que a morte da sua primeira mulher, que faleceu bastante jovem e de câncer, havia sido muito dura, sim, mas também a coisa mais transcendente que lhe acontecera. Suas palavras me impressionaram: ainda me lembro delas, embora eu tenha uma terrível memória de passarinho. Na época, pensei que tinha compreendido bem o que ele queria dizer, mas só depois de ter vivido a mesma experiência é que entendi melhor. Nem tudo é horrível na morte, embora pareça mentira (e me espanto ao me escutar dizendo isso). Mas este não é um livro sobre a morte. Na verdade não sei bem o que é, ou o que será. Aqui está ele agora, na ponta dos meus dedos, umas poucas linhas num tablet, um amontoado de células eletrônicas ainda indeterminadas que poderiam ser abortadas com muita facilidade. Os livros nascem de um gérmen ínfimo, de um ovinho minúsculo, uma frase, uma imagem, uma intuição; e crescem como zigotos, organicamente, célula a célula, diferenciando-se em tecidos e estruturas cada vez mais complexas até se transformar numa criatura completa e geralmente inesperada. Confesso a você que tenho uma ideia do que desejo fazer com este texto, mas o projeto se manterá até o fim ou surgirá outra coisa? Sinto-me como o pastor daquela velha história, que entalha distraidamente um pedaço de madeira com sua navalha e, quando alguém lhe pergunta “que figura está fazendo?”, ele responde: “Olhe, se sair com barba, são Francisco; se não, a Virgem Maria”. De qualquer modo, uma imagem sagrada. A santa deste livro é Marie Curie. Sempre a achei uma mulher fascinante, algo com que quase todo mundo concorda, aliás, porque é um personagem incomum e romântico que parece maior do que sua própria vida. Uma polonesa espetacular que foi capaz de ganhar dois prêmios Nobel: um de Física, em 1903, em parceria com o marido, Pierre Curie; outro de Química, em 1911, sozinha. Com efeito, em toda a história do Nobel só houve outras três pessoas que ganharam duas distinções: Linus Pauling, Frederick Sanger e John Bardeen, e apenas Pauling em duas categorias distintas, como Marie. Mas Linus levou um prêmio de Química e outro da Paz, e é preciso reconhecer que este último vale bem menos (como se sabe, até Henry Kissinger tem um). Ou seja, Madame Curie permanece imbatível. Além disso, Marie descobriu e mediu a radioatividade, esse atributo aterrador da Natureza, fulgurantes raios sobre-humanos que curam e matam, que fritam tumores cancerígenos na radioterapia ou calcinam corpos depois de uma deflagração atômica. É dela também a descoberta do polônio e do rádio, dois elementos muito mais ativos do que o urânio. O polônio, o primeiro que ela encontrou (por isso o batizou com o nome do seu país), foi logo ofuscado pela relevância do rádio, embora recentemente tenha virado moda como uma forma eficiente de assassinar: lembremos a terrível morte do espião russo Alexander Litvinenko em 2006, depois de ingerir polônio 210, ou o polêmico caso de Arafat (outro Nobel da Paz inacreditável). De modo que as mãos de Marie Curie chegaram até mesmo a essas sinistras aplicações. Mas, bem ou mal, essa força devastadora está na própria base da construção do século XX, e provavelmente também do XXI. Vivemos tempos radioativos.

 

SOBRE A AUTORA: Rosa Montero nasceu em Madri, em 1951. Um dos principais nomes da literatura espanhola contemporânea, publicou A LOUCA DA CASA e LÁGRIMAS NA CHUVA, entre outros.

 

SOBRE O LIVRO:

GÊNERO Não ficção estrangeira
TRADUÇÃO Mariana Sanchez
CAPA Luciana Facchini
FORMATO 14x21x1,3 cm
PÁGINAS 208 PESO 0,275 kg
ISBN 978-85-88808-84-3
ANO DE LANÇAMENTO 2019

(Fonte das informações: Todavia Editora)

 

Compre na Amazon (disponível nos formatos e-book e físico):

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