novembro 07, 2016

[RESENHA] O CASAMENTO, DE NELSON RODRIGUES

Sinopse: “A apenas um dia do casamento de Glorinha e Teófilo, o médico da noiva avisa ao pai dela que seu futuro genro foi flagrado em um incidente homossexual. Esse é o ponto de partida para Nelson Rodrigues desfilar sua genialidade irônica e o humor negro tão característicos de sua narrativa. Escrito por encomenda para Carlos Lacerda, ”O casamento”, único romance de Nelson, foi publicado em 1966 e alcançou sucesso extraordinário em poucas semanas. O autor já se preparava para uma brilhante carreira nas livrarias quando foi tomado de surpresa pela notícia da morte de Mário Filho poucos dias após o lançamento do livro. Antes que pudesse se recuperar da perda de seu irmão, o romance foi proibido pelo ministro da Justiça do governo de Castello Branco, tendo sido considerado subversivo e indecoroso.”

 

Certa vez resolvi ler A vida como ela é, de Nelson Rodrigues (1912-1980), mas a leitura não rendeu muita coisa. Mal cheguei à página 100. O autor pareceu muito politicamente incorreto para mim, e por politicamente incorreto entenda extremamente machista e um pouco homofóbico. Mal sabia eu que, pouco tempo depois, ficaria vidrada, presa até a última página, em seu romance O Casamento.

O Casamento foi o livro do mês de agosto/2016 enviado pela TAG- Experiências Literárias, indicação da Heloísa Seixas. Resolvi, como recomendado pela curadora, deixar o preconceito de lado e embarcar na leitura. Fiquei surpresa por ter gostado tanto do livro! Tanto que agora vou pensar um pouco mais antes de dizer que não leio de jeito nenhum determinado autor.

“Leia sem preconceito. Todo gênero é único. É criador, é inventor, não segue padrões existentes e por isso não se enquadra em escaninhos. Nelson é livre. E é preciso ser livre para lê-lo.” (Heloísa Seixas, para os associados da TAG)

 

O romance conta a história de Sabino Uchoa Maranhão e sua família. Ele é um bem sucedido empresário carioca e está às vésperas de casar a sua filha mais nova (e favorita), Glorinha. Tudo seguia conforme o planejado quando o ginecologista de Glorinha, Dr. Camarinha, faz uma revelação bombástica ao pai da moça: o médico teria surpreendido o genro de Sabino, Teófilo, aos beijos com o seu assistente, Zé Honório, chegando ao seu consultório. A partir daí, Sabino precisa descobrir o que fazer com essa informação, mas uma coisa era certa: cancelar o casamento estaria fora de questão.

“Afinal de contas, o casamento já é indissolúvel na véspera.” (p. 26)

 

Pensamos que o grande problema da história é a pederastia (sim, o autor usa esse termo) de Teófilo, mas há muito mais sujeira debaixo do tapete de Sabino e sua família.

Polêmico e publicado na década de sessenta, O Casamento foi censurado pela ditadura militar menos de dois meses depois de seu lançamento. O romance é uma leitura ágil, crua e totalmente despudorada. Nelson Rodrigues não usa  meias palavras em sua história. Aqui são expostos temas como machismo, incesto e homofobia de forma bastante escrachada. Escrito em capítulos curtos, dificilmente alguém demora mais de três dias para terminar essa leitura, a não ser os leitores que se incomodem em demasia com a trama.

 

O kit de agosto da TAG - Experiências Literárias: a trufa de chocolate foi apreciada antes da leitura!

O kit de agosto da TAG – Experiências Literárias: a trufa de chocolate foi apreciada antes da leitura!

 

Durante a leitura senti uma incômoda semelhança entre a sociedade da década de 1960 e a nossa. Obviamente o texto de Nelson Rodrigues faria muito barulho se fosse publicado hoje, pois ele não é do tipo que se esconde atrás da cortina do politicamente correto. A família de Sabino, a sociedade a qual ela pertence, lembra muito certa camada da sociedade brasileira que impõe regras, modos de conduta, mas que esconde, ao mesmo tempo, bastante sujeira debaixo de seus tapetes também. Sabino era um homem de bem. Quem fizer a leitura poderá tirar as próprias conclusões.

Outro ponto interessante relacionado ao tempo que estamos vivendo é o fato de o jornal O Globo e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade apoiarem a ditadura na censura do livro, ainda que o autor fosse, na época, colunista do jornal. Um suplemento no final da história, na edição da Nova Fronteira, fala bastante sobre o caso.

O Casamento foi uma grata surpresa para mim: eu jamais compraria esse livro se o visse em uma livraria. Conhecendo previamente o autor, me incomodava demais o machismo em sua escrita, mas aqui, muitas passagens encarei com humor. É ficção. Claro que com boas e generosas pitadas da realidade da nossa sociedade. Mas, ainda assim, é ficção, não verdades absolutas. Afinal, qual o melhor lugar para explorar certos assuntos senão em um livro? O Casamento é uma leitura que pode ser perturbadora, mas que merece ser feita, especialmente por aqueles que admiram uma história bem escrita.

 

 

 

Título: O Casamento
Autor: Nelson Rodrigues
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 272

 

Compre na Amazon: O Casamento.

Falei sobre a minha primeira caixinha da TAG aqui.

maio 11, 2016

[RESENHA] PRIMEIRAS IMPRESSÕES, DE LRDO

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Sinopse: “Primeiras Impressões é uma adaptação moderna de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. O romance eterno de Lizzie e do Sr. Darcy é situado desta vez entre paisagens paradisíacas do Brasil e cenários surpreendentes dos Estados Unidos, em um relacionamento complexo entre uma carioca sarcástica e brilhante e um político americano de uma família conservadora.”

 

Primeiras Impressões, da escritora e blogueira LRDO, me instigou por muito tempo. Ficava imaginando como essa história seria estruturada; se seria verossímil, e, acima de tudo, de agradável leitura. A capa também sempre me chamou a atenção. Quando eu pude, finalmente, ter o livro nas mãos, comecei a ler imediatamente! E foi uma leitura surpreendentemente agradável.

Os primeiros capítulos são muito claros nas referências aos personagens de Orgulho e Preconceito. Creio que este livro seja mais procurado por fãs de Austen, contudo, uma pessoa que nunca leu o clássico pode ler Primeiras Impressões sem medo de ser feliz! LRDO conseguiu transportar a essência dos personagens que amamos para a atualidade, sem ficar chato nem ser obviamente parecido com o romance de Austen.

Liz Benevides e Frederick Darcy revivem de forma moderna (e mais apimentada) a história de amor de Lizzie e Mr. Darcy. Acho que esse é um casal que nunca vai cansar as Jainetes de plantão; e neste livro você também vai se apaixonar por eles.

 

(…) O clima eletrizante que sentia com aquele homem era muito real. E inédito para ela.

Frederick não esperou uma segunda chance. (…) Tentou mentir para si mesmo. Tentou ignorar a atração. Tentou esquecê-la quando deixou o Brasil, e novamente quando deixou Washington. Tentou fingir que o que sentia por Liz não era nada. Mas era tudo. 

Ela era o seu tudo.” (p. 223)

 

É uma leitura muito agradável, principalmente porque numa dada altura da história Primeiras Impressões se distancia de Orgulho e Preconceito e passa a ter voz própria. De maneira alguma é um livro previsível; ele consegue nos fazer esperar pelo final feliz dos personagens com aquela ansiedade boa que só um bom romance tem. Recomendo! 

 

 

 

Título: Primeiras Impressões
Autora: LRDO
Editora: Kiron
Páginas: 304

Compre na Amazon: Primeiras Impressões.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

abril 02, 2016

[RESENHA] O GRANDE GATSBY, DE F. SCOTT FITZGERALD

Sinopse: “Nos tempos de Jay Gatsby, o jazz é a música do momento, a riqueza parece estar em toda parte, o gim é a bebida nacional (apesar da lei seca) e o sexo se torna uma obsessão americana. O protagonista deste romance é um generoso e misterioso anfitrião que abre a sua luxuosa mansão às festas mais extravagantes. O livro é narrado pelo aristocrata falido Nick Carraway, que vai para Nova York trabalhar como corretor de títulos. Passa a conviver com a prima, Daisy, por quem Gatsby é apaixonado, o marido dela, Tom Buchanan, e a golfista Jordan Baker, todos integrantes da aristocracia tradicional. Na raiz do drama, como nos outros livros de Fitzgerald, está o dinheiro. Mas o romantismo obsessivo de Gatsby com relação a Daisy se contrapõe ao materialismo do sonho americano, traduzido exclusivamente em riqueza. Aclamado pelos críticos desde a publicação, em 1925, O grande Gatsby é a obra-prima de Scott Fitzgerald, ícone da “geração perdida” e dos expatriados que foram para a Europa nos anos 1920.”

 

“Em meus anos mais vulneráveis de juventude, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que tiver vontade de criticar alguém – ele disse -, lembre-se de que ninguém teve as oportunidades que você teve.” (p. 65)

 

O Grande Gatsby, romance escrito por F. Scott Fitzgerald e publicado originalmente em 1925, é um livro incrível! Uma leitura que você começa sem dar tanta atenção mas que poucas páginas depois já não consegue parar de ler.

Nosso narrador é Nick Carraway, observador atento de uma sociedade materialista e fútil do pós Primeira Guerra, em que a proibição das bebidas alcoólicas enriqueciam os contrabandistas e muitos viviam o “sonho americano”. Seu vizinho, Jay Gatsby, é um milionário excêntrico que promove, constantemente, grandes festas em sua mansão. Ninguém sabe sobre as origens da fortuna de Gatsby ou sobre ele próprio, mas todos adoram suas festas. Ficamos sabendo, um tempo depois, que a prima de Nick, Daisy Buchanan, teve um envolvimento amoroso com o milionário quando este não podia ostentar tantos luxos, e que ele nunca a esqueceu.

Gatsby é um personagem apaixonante, meu velho! (quem já leu, vai entender a expressão). Você se envolve em seu mundo de ilusão, com as suas camisas nunca usadas e seus livros nunca lidos. Sua vida é um castelo de areia e seu objetivo é chamar a atenção de sua amada com coisas que ele imagina que ela considera importante. Mesmo desconfiando que o resultado pode não ser dos melhores, você torce por Gatsby, pois ele simplesmente merece a nossa torcida.

Em uma sociedade deslumbrada com o luxo e sem um pingo de moral, uma pessoa como Gatsby está fadada a solidão. Felizmente, ele encontra em Nick Carraway não só um cúmplice para se encontrar com a sua amada Daisy, mas um amigo verdadeiro, pois embora estivesse inserido de certa maneira naquela sociedade, Nick a desprezava.

A história é bem curtinha e de leitura rápida, mas deixa reflexões valiosas para nós, leitoresexpectativas muito altas podem ter consequências trágicas, portanto, é sempre bom ter limites ao colocá-las em outra pessoa.

O Grande Gatsby não foi muito popular na época de sua publicação, em 1925. Hoje, é considerado um clássico indispensável da literatura norte-americana.

 

Sobre a edição da Penguin Companhia

Particularmente, gosto muito das edições da Penguin Companhia, embora os livros não tenham orelha… Em O Grande Gatsby, temos uma longa introdução feita por Tony Tanner, um crítico literário inglês falecido em 1998, cujo trabalho inspirou a Universidade de Cambridge a incluir em sua matriz curricular os primeiros cursos sobre literatura americana. O texto, apesar de muito bom, é recheado de spoilers, inclusive de outros livros. Portanto, o ideal é partir para a história de Fitzgerald, a partir da página 60, e ler a introdução posteriormente.

 

 

Título: O Grande Gatsby
Autora: F. Scott Fitzgerald
Tradução: Vanessa Barbara
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 256

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