novembro 21, 2018

[RESENHA] O QUE TOCA O CORAÇÃO, DE SILVIA SPADONI

Sinopse: “Tudo o que Sebastian Whrigt, conde de Nottinghan, deseja é trazer à vida de sua jovem irmã um pouco de alegria e interesse pela temporada na Corte. Para isso está disposto até mesmo a aturar os caprichos de uma petulante professora de piano. Flora precisa de trabalho. Com um inverno rigoroso à frente, ela não será capaz de suportar meses com pouco carvão e lenha insuficiente. O convívio com a doce Emma compensaria a arrogância e o orgulho de Lorde Sebastian, símbolo de tudo que ela mais menospreza na nobreza. O que ambos não esperavam é a inexplicável atração que surge quando a convivência se intensifica e explode numa situação imprevista. Porém a aristocracia possui suas exigências e o casamento com uma jovem malnascida não está entre os planos de um conde. Por outro lado, Flora jamais se permitiria viver como amante depois do exemplo que teve dos pais.Será possível a nobreza de caráter ser mais valorizada do que a nobreza do sangue? Poderá a beleza da alma cativar mais do que a aparência física?”

 

Corro o risco de me repetir a cada resenha de um livro da Silvia Spadoni, mas não tem jeito: ela tem o dom e domina a técnica, seus romances são garantia total de puro deleite! O que toca o coração, que foi publicado inicialmente em e-book de forma independente, sendo sucesso instantâneo na Amazon, logo teve o seu potencial descoberto pela Qualis Editora, que o publicou no formato impresso. Nada mais justo para uma história maravilhosamente linda, delicada e um prato cheio para os amantes de um bom romance de época.

Sebastian Whrigt, o Conde de Nottinghan, com o intuito de estimular em sua irmã mais nova, Emma, o interesse para a temporada na Corte, além de fazê-la superar um triste episódio (lembra um pouco Geogiana Darcy, de Orgulho e Preconceito), contrata os serviços de uma talentosa — e petulante — professora de piano. Flora é uma apaixonada pianista que precisa batalhar por seu sustento. Extremamente admiradora de Bach, despertou a atenção de Emma (e de Sebastian) em um recital em que tocara apaixonadamente uma das composições de seu autor favorito.

O que era para serem apenas lições de piano torna-se algo mais: Flora passa a ser também dama de companhia de Emma, para ajudá-la em sua temporada na Corte. Emma tem uma leve deficiência que a faz andar com um pouco de dificuldade, mancando.  Com a nova atribuição, a pianista muda-se para Mansfield House, a residência do Conde de Nottinghan.

Flora tem um conceito bem sólido sobre a aristocracia: para ela, são pessoas frias que vivem de aparência, talvez com raríssimas exceções. E é esse o juízo que ela faz de Sebastian, o conde arrogante, acostumado a ter todas as suas ordens cumpridas de pronto. A convivência, entretanto, provará a Flora que existe algo mais por trás da máscara de conde. E não será fácil para Lorde Sebastian ignorar o encanto natural da pianista.

A amizade entre Emma e Flora é instantânea e sincera, algo muito positivo no romance. De certa forma, as duas dividem o protagonismo do livro, embora obviamente Flora e Lorde Sebastian tenham mais destaque. Os amigos Sebastian e Harry, assim como Flora e Emma são um paralelo gostoso de acompanhar. As histórias deles são igualmente apaixonantes e delicadas.

Se você já leu algum livro da Silvia, deve saber que é impossível largar o romance até que ele chegue ao fim. Apesar de todos os fatores em contrário, a forte atração entre Sebastian e Flora os desafiará não só suas emoções, mas também o que eles têm como certo em suas vidas. Será o amor capaz de vencer as convenções sociais e os pré-conceitos? Afinal, o que é necessário para tocar um coração?

 

“À vontade e sem expectadores, Flora deixou-se transportar para um mundo de sonhos. De olhos fechados e lábios entreabertos, seu corpo oscilava no compasso da melodia. Com paixão, entregou-se à música como se estivesse se entregando a um amante há muito desejado. Por minutos seu corpo flutuou e ela sentia apenas o amor correr por suas veias, até que os últimos acordes soaram. Suavemente ela retirou as mãos do teclado e abriu os olhos.

Lorde Sebastian, os cabelos desalinhados, a boca cerrada e os olhos refletindo um oceano de emoções, estava parado à sua frente. A camisa de seda branca aberta no colarinho deixava entrever os músculos do tórax, as longas pernas envoltas por botas de couro ligeiramente abertas… Ele parecia um deus… ou um demônio!

Flora sentiu o coração se acelerar no limite do suportável, as entranhas se contorcendo na antecipação do desconhecido. A razão lhe dizia para sair dali, porém seu corpo traiçoeiro e curioso a mandava ficar.

Corajosamente não fugiu, apenas levantou-se e sustentou o olhar.

Lentamente o conde percorreu os poucos metros que os separavam.” (p. 77)

 

O que toca o coração é um romance sem personagens extremamente lindos e perfeitos, o que é maravilhoso. E o fato da música de Bach ser uma constante na história faz tudo ser ainda mais especial. Ao término, na impossibilidade de abraçar a autora, você, assim como eu, vai acabar abraçando o livro, que tem tudo para ser tornar um queridinho na sua estante.

 

 

 

Título: O que toca o coração

Autora: Silvia Spadoni

Editora: Qualis

Páginas: 188

Compre na Amazon: O que toca o coração

Ou no site da Qualis Editora

 

Leia mais da autora: Um amor conquistado; Um amor inesperado Um amor apaixonado.

agosto 07, 2018

[RESENHA] ENTRE IRMÃS, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

Sinopse: Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.

Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.

Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.

Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.

Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.”

 

Às vezes, tenho a impressão de que gastamos o nome heroína com personagens que são, simplesmente, protagonistas. Tal dispêndio, entretanto, não ocorre em Entre Irmãs (Arqueiro, 2017). Frances de Pontes Peebles nos presenteia com duas protagonistas que são verdadeiramente heroínas, cada uma a seu modo: Luzia, a Vitrola — alcunha que ganhou após sofrer um acidente que deixou um de seus braços defeituoso, torto como uma vitrola, — E Emília, uma jovem inconformada com sua condição social, uma matuta nas palavras da irmã, que deseja a todo custo ir para a cidade e ser como as mulheres que ela vê impressas nas páginas de sua revista favorita, a Fonfon.

A forma como o livro foi estruturado foi brilhante no sentido de fazer com que o leitor se afeiçoasse as duas irmãs quase não sendo possível ter uma preferência entre elas. Cada capítulo (e suas subdivisões) é centrado em uma das personagens, intercalando Emília e Luzia como uma colcha de retalhos em terceira pessoa. Apesar da prosa bastante descritiva da autora, Entre Irmãs é uma leitura saborosa e, em pouco tempo, o leitor devora as mais de quinhentas páginas quase sem pestanejar.

 

 

Uma curiosidade sobre Entre Irmãs é que o livro foi escrito originalmente em inglês. Embora a autora seja brasileira, a tradução do romance foi feita por Maria Helena Rouanet. Esse é um detalhe, entretanto, que não fica perceptível nem incomoda, acredito que pelo ótimo trabalho da tradutora e também pela obra em si, que tem uma temática bem brasileira. O romance foi publicado no Brasil com outro título, antes da adaptação em filme e série, com o nome de A Costureira e o Cangaceiro.

Entre Irmãs é o tipo de livro que fica na memória. É marcante, dá um nó na garganta. Por vezes tive vontade de que Emília e Luzia fossem reais, para que eu pudesse abraçá-las. Lembrei que mulheres fortes como elas existiram e ainda existem aos montes no nosso país.

As três personagens mais queridas por mim neste livro me ensinaram coisas valiosas que eu vou guardar para a vida. Tia Sofia me ensinou que eu não devo desperdiçar as minhas lágrimas. Luzia mostrou que as mulheres são ainda mais fortes do que imaginam. Emília me fez perceber que é preciso ter muita determinação para não ser levada pela maré das coisas tidas como fáceis, previsíveis.

 

 

Eu poderia ficar horas e horas falando sobre Entre Irmãs, mas esse é um livro bom demais para ser simplesmente resumido. Você precisa ler para fazer parte daquelas histórias, tornar-se íntima das irmãs Dos Santos. Ir embora de Taguaritinga e enfrentar uma sociedade implacável ou percorrer o sertão a ponto de ser parte dele.

Entre Irmãs me remeteu fortemente aO Quinze, de Rachel de Queiroz, quando, lá pelo capítulo 9, mostrou um dos campos de concentração criados pelo governo para tentar remediar a seca no sertão. Frances foi além ao mostrar, mais que a miséria, um pouco da corrupção que envolvia a distribuição de comida nos tempos mais severos dos períodos de seca.

Não foi somente uma das melhores leituras que fiz em 2018. Entre Irmãs foi um dos melhores livros que eu li na vida. É um monumento em forma de livro. Obrigada, Frances de Pontes Peebles.

 

 

 

Título: Entre Irmãs

Autora: Frances de Pontes Peebles

Tradução: Maria Helena Rouanet

Editora: Arqueiro

Páginas: 576

 

Compre na Amazon: Entre Irmãs.

 

agosto 03, 2018

[LANÇAMENTO] COMO UM ROMANCE DE ÉPOCA E OUTROS CONTOS

Uma coletânea de amores desse e de outros tempos

Que atire o primeiro livro aquele que nunca suspirou por uma história de amor… É simplesmente mágico e extraordinário o poder que essas histórias têm! De época, clássicas, históricas, contemporâneas… Não importa: queremos chegar às últimas páginas, quando um beijo, um pedido de casamento ou uma declaração de amor faz tudo ficar perfeito!

Essa coletânea é uma singela homenagem a essas histórias capazes de nos transportar para outra realidade, arrancando de nós muitos suspiros (e algumas risadas também, por que não?).

Aqui tudo será como em um romance de época: o final feliz é requisito fundamental e indispensável. No início de cada conto, há a indicação da música que inspirou a história. Caso você queira ouvir as mesmas versões que eu ouvi, além da “faixa bônus” Te amo, da cantora Vanessa da Mata, que resume bem a ideia dessa coletânea, sugiro, para acompanhar a leitura, a playlist no Spotify: “Como um romance de época”.

As mulheres desse livro têm muito da ficção, com os pés cravados na realidade, no entanto. Minha mãe, tias, avós estão nessas páginas — eu também! Obviamente também há a influência das mocinhas da literatura e cinema. Emma, aqui uma jovem sitiante do interior de Minas Gerais, é uma espécie de prima distante (e modesta) da criação homônima (brilhante) de Jane Austen.

A você, leitor, que ao iniciar a leitura desse e-book aceitou embarcar comigo nessa viagem, meu muitíssimo obrigada! Espero que você encontre aqui alguns minutos de diversão e também matéria-prima para os seus próprios sonhos e devaneios românticos.

 

Um forte abraço,

Tamires.

 

O trecho acima é a introdução/sinopse da coletânea Como um romance de época e outros contos, que eu estou lançando na Amazon em e-book. São seis contos fofinhos bem água com açúcar para suspirar e se apaixonar! Quem leu Anne e estava esperando pela releitura de Emma, de Jane Austen, pode correr para o Kindle: minha mocinha linda, inteligente e… trabalhadeira está nesta coletânea. Ah, e é claro: tem playlist!

 

 

Leia o primeiro conto logo abaixo. Críticas e comentários (e também compartilhamentos, é claro) são muito bem-vindos!

 

Como um romance de época

 

Para ouvir: Bourn to touch your feelings, Scorpions.

 

 

Bianca saiu do salão de beleza com um sorriso de orelha a orelha. O cabeleireiro não entendeu muito bem a proposta do corte, mas para ela estava tudo perfeito. Bianca agora tinha o cabelo igualzinho ao de Lady Mary Crawley, de Downton Abbey.

Bibi, como era conhecida, vivia mais entre os livros do que em qualquer outra coisa, lugar ou pessoa. Carregava seus personagens favoritos na bolsa ou no celular. Todo minutinho de intervalo no trabalho era usado para ler um ou dois parágrafos. Sua autora favorita naquele momento era Julia Quinn, com seus deliciosamente açucarados romances.

— Quem me dera ser uma personagem de romance de época! — suspirava.

No século XXI seria muito difícil achar um duque, conde ou barão que fizesse dela uma senhora. Pensamento antiquado? Muitíssimo! No entanto, tudo o que Bianca queria era viver um romance como os que lia. Não se importava com títulos, desde que o cavalheiro fosse um… cavalheiro. Mas onde é que ela encontraria um homem assim?

 

***

 

Romeu estava atrasado para o trabalho. Era funcionário de uma oficina de motos há tempo suficiente para se sentir confortável como mecânico.

Nas horas vagas, era um orgulhoso colecionador de livros antigos. Tinha algumas edições de livros esgotados há anos nas livrarias. Perseguia os grandes escritores e também aqueles que descobria em sebos. Gostava de comparar as mudanças na ortografia e as traduções. Também gostava de livros com dedicatória. Esses tinham um lugar especial em sua estante, pela dupla história que continham. Era um mecânico bibliófilo, apaixonado por motos e livros. Mas lhe faltava algo…

O atraso, naquele dia, se devia às horas que havia passado em um sebo, se esquecendo do mundo além dos livros. Achou um exemplar de A Casa Soturna, versão em português de Bleak House, de Charles Dickens.

— Há anos esse livro não é reeditado! — exclamou Romeu, percebendo também que estava atrasado. — Preciso correr! — exclamou, despedindo-se do livreiro, não sem antes comprar aquele exemplar precioso.

 

***

 

Bianca estava lendo Simplesmente o Paraíso, de Julia Quinn, no caminho de volta do salão, depois do trabalho. Era confeiteira, portanto começava o dia no silêncio da madrugada e terminava quando muitos estavam ainda começando o trabalhar. Caminhava lentamente com os olhos grudados no romance entre duas pessoas que se conheciam a vida inteira.

— Seria mágico… — Bibi comentou e suspirou.

Não soube muito bem o que aconteceu em seguida, pois quando deu por si estava no chão, sua bolsa, caída, e seu cotovelo, dolorido e ralado. Ouviu Romeu se desculpar repetidamente.

— Desculpa, desculpa, desculpa… Bibi? — Ele parou de se desculpar ao perceber o novo corte de cabelo de Bianca. — Eu estava distraído com o meu A Casa Soturna.

— E eu com a Julia Quinn. Não tem problema — ela respondeu. — Pera aí, você disse A Casa Soturna? Uau, esse livro não é reeditado há anos! Vou querer emprestado, com certeza!

— De repente eu lhe empresto, Lady Mary — Romeu debochou, mas logo completou. — Ficou linda. Ainda mais, se é que isso é possível.

Bianca ficou levemente corada, como as mocinhas dos romances de época. Só que Bibi nunca ficava corada.

Um silêncio levemente constrangedor indicava que alguma coisa havia acontecido naquele encontro tão desastrado. Algo poderoso, como uma rocha que se move das profundezas ou uma folha que cai de uma árvore aparentemente sem motivo algum.

Algo mágico, como um reencontro.

Bianca percebeu isso.

Romeu, também.

 

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