abril 02, 2016

[RESENHA] O GRANDE GATSBY, DE F. SCOTT FITZGERALD

Sinopse: “Nos tempos de Jay Gatsby, o jazz é a música do momento, a riqueza parece estar em toda parte, o gim é a bebida nacional (apesar da lei seca) e o sexo se torna uma obsessão americana. O protagonista deste romance é um generoso e misterioso anfitrião que abre a sua luxuosa mansão às festas mais extravagantes. O livro é narrado pelo aristocrata falido Nick Carraway, que vai para Nova York trabalhar como corretor de títulos. Passa a conviver com a prima, Daisy, por quem Gatsby é apaixonado, o marido dela, Tom Buchanan, e a golfista Jordan Baker, todos integrantes da aristocracia tradicional. Na raiz do drama, como nos outros livros de Fitzgerald, está o dinheiro. Mas o romantismo obsessivo de Gatsby com relação a Daisy se contrapõe ao materialismo do sonho americano, traduzido exclusivamente em riqueza. Aclamado pelos críticos desde a publicação, em 1925, O grande Gatsby é a obra-prima de Scott Fitzgerald, ícone da “geração perdida” e dos expatriados que foram para a Europa nos anos 1920.”

 

“Em meus anos mais vulneráveis de juventude, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que tiver vontade de criticar alguém – ele disse -, lembre-se de que ninguém teve as oportunidades que você teve.” (p. 65)

 

O Grande Gatsby, romance escrito por F. Scott Fitzgerald e publicado originalmente em 1925, é um livro incrível! Uma leitura que você começa sem dar tanta atenção mas que poucas páginas depois já não consegue parar de ler.

Nosso narrador é Nick Carraway, observador atento de uma sociedade materialista e fútil do pós Primeira Guerra, em que a proibição das bebidas alcoólicas enriqueciam os contrabandistas e muitos viviam o “sonho americano”. Seu vizinho, Jay Gatsby, é um milionário excêntrico que promove, constantemente, grandes festas em sua mansão. Ninguém sabe sobre as origens da fortuna de Gatsby ou sobre ele próprio, mas todos adoram suas festas. Ficamos sabendo, um tempo depois, que a prima de Nick, Daisy Buchanan, teve um envolvimento amoroso com o milionário quando este não podia ostentar tantos luxos, e que ele nunca a esqueceu.

Gatsby é um personagem apaixonante, meu velho! (quem já leu, vai entender a expressão). Você se envolve em seu mundo de ilusão, com as suas camisas nunca usadas e seus livros nunca lidos. Sua vida é um castelo de areia e seu objetivo é chamar a atenção de sua amada com coisas que ele imagina que ela considera importante. Mesmo desconfiando que o resultado pode não ser dos melhores, você torce por Gatsby, pois ele simplesmente merece a nossa torcida.

Em uma sociedade deslumbrada com o luxo e sem um pingo de moral, uma pessoa como Gatsby está fadada a solidão. Felizmente, ele encontra em Nick Carraway não só um cúmplice para se encontrar com a sua amada Daisy, mas um amigo verdadeiro, pois embora estivesse inserido de certa maneira naquela sociedade, Nick a desprezava.

A história é bem curtinha e de leitura rápida, mas deixa reflexões valiosas para nós, leitoresexpectativas muito altas podem ter consequências trágicas, portanto, é sempre bom ter limites ao colocá-las em outra pessoa.

O Grande Gatsby não foi muito popular na época de sua publicação, em 1925. Hoje, é considerado um clássico indispensável da literatura norte-americana.

 

Sobre a edição da Penguin Companhia

Particularmente, gosto muito das edições da Penguin Companhia, embora os livros não tenham orelha… Em O Grande Gatsby, temos uma longa introdução feita por Tony Tanner, um crítico literário inglês falecido em 1998, cujo trabalho inspirou a Universidade de Cambridge a incluir em sua matriz curricular os primeiros cursos sobre literatura americana. O texto, apesar de muito bom, é recheado de spoilers, inclusive de outros livros. Portanto, o ideal é partir para a história de Fitzgerald, a partir da página 60, e ler a introdução posteriormente.

 

 

Título: O Grande Gatsby
Autora: F. Scott Fitzgerald
Tradução: Vanessa Barbara
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 256

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março 22, 2016

[RESENHA] AGNES GREY, DE ANNE BRONTË

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Sinopse: “Os fãs de literatura inglesa irão se deliciar com mais uma obra-prima parte da coleção das irmãs Brontë: Agnes Grey, de Anne Brontë. Publicado em 1850, o romance ultrapassa a Era Vitoriana com sua temática realista. A caçula da família Brontë não fica atrás de suas outras irmãs escritoras, Charlotte e Emily, ao criar uma protagonista disposta a enfrentar as convenções sociais da época e se firmar como uma mulher corajosa e dona de si, diferente de muitas mocinhas românticas de então. A obra narra a trajetória de Agnes, governanta de famílias da classe aristocrática inglesa, suas lutas, questionamentos e claro, sua relação com o amor. Leitura imperdível para os apaixonados pelas outras irmãs Brontë e pela produção literária inglesa.”

 

Agnes Grey é um romance escrito por Anne Brontë, publicado em 1850, mas que foge das características típicas da época vitoriana. Nesta história, ao ver a precária situação financeira de sua família, nossa protagonista, que dá nome ao livro, procura meios de se sustentar com seu próprio esforço e trabalho.

Agnes consegue uma colocação como governanta e percebe o quanto é difícil sair do conforto do seu lar e viver no meio de desconhecidos. Faz isso, entretanto, de forma firme e decidida. Uma mulher com poucos recursos naquela época não podia se dar ao luxo de não trabalhar (como ainda hoje), e uma das poucas ocupações para quem tinha um nível intelectual mais elevado, mas não tinha dinheiro, era a de governanta ou professora.

Mulheres como Agnes tinham nesses trabalhos a oportunidade de se manterem financeiramente caso não conseguissem (ou não quisessem) se casar.

“Como seria delicioso ser uma preceptora! Sair para o mundo; entrar numa nova vida; agir independentemente; exercitar faculdades sem uso; testar forças desconhecidas; ganhar meu próprio sustento e alguma coisa para confortar e ajudar o meu pai, minha mãe e irmã, além de desobrigá-los da minha provisão de comida e roupa; mostrar ao meu pai do que a sua pequena Agnes era capaz…” (p. 34)

 

“O nome preceptora, logo descobri, era uma zombaria quando aplicado a mim: meus pupilos não tinham uma noção maior de obediência que a de um potro selvagem, indomado. Em geral, só a presença do pai, e o medo do temperamento rabugento dele e dos castigos que ele lhes infligia quando estava irritado, os mantinha sobre controle. As meninas também tinham o mesmo medo da raiva da mãe e de vez em quando ela subornava o menino para fazer o que se pedia com promessa de alguma gratificação. Mas eu não tinha gratificação a oferecer; e me foi dado a entender que os pais reservavam para si o privilégio das punições; ainda assim, eles esperavam que eu mantivesse meus pupilos sob controle.” (p. 53 e 54)

 

“Sabia que nem todos os pais eram iguais ao senhor e à senhora Bloomfield, e tinha certeza de que nem todas as crianças eram iguais aos seus filhos. A próxima família teria de ser diferente, e toda mudança só podia ser para melhor. A adversidade me havia feito amadurecer e a experiência me orientara, e ansiava por resgatar a minha honra perdida aos olhos daqueles cuja opinião para mim valia mais que a de todo mundo.” (p. 85)

 

É um livro surpreendente ainda nos dias de hoje, considerado um romance feminista fora de época. Agnes Grey é uma jovem mulher que não quis esperar sentada, tricotando ou tomando um chá, por seu futuro. Ela foi à luta, pois sabia que era perfeitamente capaz. Não se sentia, de forma alguma, inferior aos aristocratas que a cercavam. O amor e a felicidade conjugal não eram descartados, mas o seu desejo de independência e de ajudar a sua família eram mais urgentes. 

 A edição da Editora Martin Claret é realmente especial: uma das capas mais bonitas da minha estante! Um ótimo acabamento e páginas com cor e fonte agradáveis para leitura. Sobretudo, o que mais tem me encantado nessas edições especiais da Martin Claret são os prefácios e posfácios, feitos por professores especialistas, que ela tem incluído nas obras. É uma rica fonte de conhecimento sobre os autores, seus livros e a época em que viveram ou sobre as quais escreveram. Realmente faz toda a diferença! Agnes Grey tem o prefácio de Cíntia Schwantes e posfácio de Lilian Cristina Corrêa.  

 

 

Título: Agnes Grey
Autora: Anne Brontë
Tradução: Paulo Cézar Castanheira
Editora: Martin Claret
Páginas: 288

Compre o livro pela Amazon: Agnes Grey.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

março 18, 2016

[RESENHA] UM CORAÇÃO PARA MILTON, DE TRUDY BRASURE

Sinopse: “No século XIX, em meio a Revolução Industrial, um amor em meio ao caos. Margaret Hale e Mr. Thornton. Após a morte de seus pais, Margaret está de partida para Londres com sua tia, Mrs Shaw, mas um livro precisa ser entregue a Mr. Thornton das fábricas Marlborough, uma recordação de Mr. Hale para seu mais querido pupilo. Na despedida, em frente à Mrs Thornton, Margaret entrega o livro ao industrial. Ele, numa tentativa desesperada de impedir sua partida, diz que também tem algo para ela e lhe entrega outro livro, dentro dele, uma nota escrita às pressas. Margaret olha o volume, cujo conteúdo narrava os movimentos mercantis e os negócios na Europa, mas o aceita. Uma carruagem pelas movimentadas ruas de Milton; um cavaleiro enfrenta a neve em busca de um coração que pertence a ele e a Milton; uma aparição apaixonada na estação; e o retorno a Helstone. A vida de John e Margaret Thornton contada por uma por uma bisneta do casal. Um coração para Milton traz de volta todos os ricos personagens de Margaret Hale (Norte e Sul), de Elizabeth Gaskell: Nicholas Higgins, Hannah Thornton, Henry Lennox e muitos outros num romance histórico de amor e esperança.”

 

Um Coração para Milton, escrito por Trudy Brasure e publicado recentemente pela Pedrazul Editora, se propõe a ser uma continuação do clássico de Elizabeth Gaskell, Norte e Sul (1855). Muitas pessoas têm resistência em ler esse tipo de livro, mas existem muitos títulos dignos de nota e Um Coração para Milton é um deles.

Voltar a este enredo é, para grande parte dos admiradores de Norte e Sul, relembrar o romance entre John Thornton e Margareth Hale. Mr. Thornton é um dos meus personagens favoritos da literatura clássica inglesa! Desde a primeira leitura do romance de Elizabeth Gaskell, o vejo como um homem a frente de seu tempo: reconhece os próprios sentimentos, é sincero e honesto, não faz joguinhos e não se considera superior às outras pessoas. É de formação humilde, trabalhou muito desde a infância e isso moldou positivamente o seu caráter. Particularmente, me ganhou desde a seguinte fala, em Margareth Hale (Norte e Sul):

“Hei de me colocar aos pés dela, preciso fazê-lo. Se houvesse uma chance em mil, ou em um milhão… eu o faria.” 

(GASKELL, Elizabeth. Margareth Hale (Norte e Sul). Pedrazul Editora, 2015. p. 190) 

 

Margareth passa por muitas situações difíceis em sua vida e termina o livro com a promessa de felicidade junto ao seu amado Mr. Tornton. Sob o pano de fundo da revolução industrial, o romance de Elizabeth Gaskell, muito talvez pela época de sua publicação, nos deixa essa lacuna sobre como seria a vida conjugal desses personagens tão apaixonantes. Agora, mais que só na imaginação, podemos ler essa história de amor em Um Coração para Milton.

Com leves alterações no enredo de Gaskell, Trudy Brasure nos conta os detalhes da vida amorosa do casal John Tornton e Margareth Hale, e também de outros personagens importantes de Norte e Sul, como Nicholas Higgins, Mrs. Tornton e Dixon, por exemplo.

Em 1929, na Mansão Helstone, Arabella Sheppard, neta mais nova de Sophie Thornton Langford, encontra algumas cartas em uma caixa cuidadosamente guardada por sua avó. Eram as cartas que o bisavô, John Thornton, houvera escrito para a sua amada, Margareth, há muito tempo. Dentre as missivas, um bilhete foi a mensagem fundamental para a felicidade dos dois. A partir daí, a senhora conta para a sua neta uma história de amor eterno…

Mr. Hale havia falecido e Margareth estava prestes a se mudar para Londres, onde viveria com sua tia Shaw. Em Marlborough Mills, ao se despedir da família Thornton, John percebe que pode ter havido alguma mudança nos sentimentos de Margareth, que outrora o rejeitara. Ela parecia triste por deixar Milton, disse até que havia aprendido a amar a cidade. Margareth lhe dá um volume da obra de Platão, que era de seu pai, e John, aproveitando a oportunidade, lhe dá A Economia do Algodão, com uma nota sua para a jovem:

“Se houve alguma mudança em seus sentimentos, me dê apenas um sinal. Meu coração permanece eternamente seu.

John Thornton.” (prólogo)

 

Felizmente, Margareth consegue ler o bilhete antes de deixar a cidade e com a ajuda de seu amigo, Mr. Higgins, envia um recado para Thornton: seu coração pertencia a Milton. Mr. Thornton consegue alcançar Margareth e sua tia na estação e um noivado é habilmente firmado entre os dois. Só precisariam esperar algumas semanas até o casamento.

A princípio, como era de se esperar, nem Mrs. Shaw nem Mrs. Thornton viram com bons olhos a união dos dois. Mrs. Shaw acreditava que a sobrinha não estava com a cabeça no lugar depois de ter passado por tantas tristezas. Mrs. Thornton não tinha certeza se Margareth seria uma boa companheira para seu filho e no fundo ainda estava ressentida com a negativa da moça quando o Master de Marlborough Mills a pediu em casamento pela primeira vez. O próprio casal tinha dúvidas se o sentimento entre ambos era correspondido da mesma forma. O noivado de três semanas, em que Margareth morou em Londres, pôde tirar parte dessas dúvidas e nos fazer suspirar com tamanho romantismo entre os dois.

“Eu acordo todas as manhãs pensando em você e encontro minha mente peregrinando constantemente atraída para sua imagem. Você acreditará em mim agora se eu disser que te amo? Eu nunca senti tais sentimentos antes – você, somente, tem o poder de afetar-me desta maneira.

Desejo voltar para Milton, para onde eu pertenço, para que nós não precisemos mais ficarmos separados. Até lá, eu espero, ansiosamente, que você me visite em Londres, para que possa cumprir seu desejo, e que eu possa sentir seus fortes braços em torno de mim.

Com todo meu amor e afeição,

Verdadeiramente sua,

Margareth.” (p. 91)

 

Foi lindo ver todo o envolvimento de John e Margareth, um amor verdadeiro e sincero, que construiu uma bela família. O casal conquistou muitas coisas, mas sem nunca deixar de lado as suas convicções. Aqui, o romantismo é o foco, em sua versão mais bela e delicada.

“ – Eu te amo – John conseguiu dizer, sua voz vacilando de emoção. Quão exíguas as palavras pareciam em sua tentativa de expressar tudo que ele sentia por ela. Precisaria de toda uma vida, pensou, para fazê-la entender.” (p. 184)

 

“ – Venha, dance comigo – ele convidou em um tom tranquilizador, situando a mão na parte estreita de suas costas e mantendo a mão erguida para que ela o aceitasse.

O semblante melancólico da jovem se animou um pouco, quando ela ergueu o olhar para encontrar o do marido. Margareth hesitou por um momento, olhando na direção da porta para assegurar que estavam sozinhos.

– Só por um momento – ele gentilmente atraiu e sorriu quando ela, lentamente, colocou uma mão em seu ombro e a outra na mão que a esperava.

Eles se moveram em perfeita harmonia pelo aposento assombreado, o ritmo da música fluindo por entre eles, para criar em seus membros e pés o registro de uma força que ia além de si mesmos – expressando algo espantosamente belo com uma facilidade que lhes era inerente. Cativados pelo jubiloso regozijo de seus movimentos sincronizados, o mundo se tornara um borrão. Eles contemplaram por um momento a sublime razão para estarem vivos – um amor que punha tudo em movimento e transformava sua existência terrestre em uma sinfonia de contentamento.” (p. 243)

 

Apesar de Um Coração para Milton ser mais centrado no casal John e Margareth, foi muito bom também ver a evolução dos outros personagens próximos ao casal, especialmente Mrs. Thornton, que se torna amiga de Margareth, e Mr. Higgins, que firmou em definitivo uma grande amizade com a família Thornton e cresceu profissionalmente.

Trudy Brasure fez um ótimo trabalho com essa história! A cada página, lembro-me de pensar realmente, acho que aconteceria isso mesmo entre os dois. Desde o casamento simples em Helstone até as cenas mais sensuais, que não são nada vulgares, é bom ressaltar, em nenhum momento você deixa de acreditar na história. Um romance pós final feliz que consegue surpreender e tem as suas reviravoltas. Já está entre as minhas melhores leituras do ano e penso em reler em breve!

Um Coração para Milton é o tipo de livro que te deixa suspirando por um bom tempo. Se você está precisando de uma leitura que aqueça o seu coração, essa é uma ótima pedida!

 

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Título: Um Coração para Milton
Autora: Trudy Brasure
Tradução: Tully Ehlers
Editora: Pedrazul
Páginas: 400

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