novembro 07, 2019

[RESENHA] HEROÍNAS NEGRAS BRASILEIRAS EM 15 CORDÉIS, DE JARID ARRAES

Sinopse: “Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires. Conheça a história de: Antonieta de Barros Aqualtune Carolina Maria de Jesus Dandara dos Palmares Esperança Garcia Eva Maria do Bonsucesso Laudelina de Campos Luísa Mahin Maria Felipa Maria Firmina dos Reis Mariana Crioula Na Agontimé Tereza de Benguela Tia Ciata Zacimba Gaba.”

 

Leia também: Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro

 

Puxe aí na memória: quantas mulheres você se lembra de ter estudado nas aulas de História e Literatura? Elas ocupavam um papel de destaque na narrativa? Quantas delas eram negras? Talvez eu esteja enganada, mas acho que você não deve ter conseguido lembrar nem de meia dúzia de mulheres. Talvez o número seja ainda menor em se tratando de mulheres negras.

Mas elas existem, elas existiram e fazem parte da nossa história. Jarid Arraes reuniu quinze dessas mulheres notáveis no livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, publicado pela Pólen Livros (2017). Eu queria poder dizer que já conhecia, de antemão, todas as mulheres retratadas neste livro, mas não é verdade. Nunca soube da existência de grande parte delas até ler este livro. Algumas, como as escritoras Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus eu conheço pela minha busca particular em ler autoras relegadas do cânone literário. Nos tempos de escola, nunca as estudei. Na faculdade de Letras, mesmo a minha habilitação sendo português e literaturas de língua portuguesa, pouco vi sobre as duas.

Nosso país ainda tem muita dificuldade em aceitar o próprio povo, aceitar e entender a própria história. Por isso, livros como este de Jarid Arraes são extremamente importantes. Aqui volto à fala de Chimamanda Ngozi Adichie, sobre os perigos da história única (ASSISTA!). Citando apenas um exemplo, enquanto continuarmos a reproduzir a narrativa única do eurocentrismo, os povos outrora escravizados continuarão sendo vistos — e estudados — de maneira enviesada, pela narrativa única de quem os escravizou. Isso, nos dias atuais, resulta em uma grande violência: a reprodução sistemática de um sistema racista e excludente para os negros.

 

“Na história do Brasil

Nas escolas ensinada

Aprendemos a mentira

Que nos é sempre contada

Sobre o povo negro e índio

Sobre a gente escravizada.

 

Nos contaram que escravos

Não lutavam nem tentavam

Conquistar a liberdade

Que eles tanto almejavam

E por isso que passivos

Os escravos se encontravam

 

Ô mentira catimboza

Me dá nojo de pensar

Pois o povo negro tinha

Muita força pra juntar

E com grande inteligência

Se uniam pra lutar. (…)”

(Trecho do cordel Tereza de Benguela, p. 137)

 

Heroínas negras brasileiras é alem de um trabalho riquíssimo de resgate histórico, um livro delicioso de ler. São cordéis, então a musicalidade salta das páginas, é contagiante. Para quem não está familiarizado com esse gênero textual — que também devia ser mais trabalhado e visto nas escolas por ser uma das expressões mais populares da nossa literatura —, saiba que no cordel os textos são escritos de forma rimada, alguns originados de relatos orais que depois são impressos em folhetos. São ilustrados por meio de xilogravura (presente na capa deste livro e também em seu interior) e podem ser declamados pelos cordelistas com acompanhamento de viola e pandeiro. O nome “cordel” remonta às origens deste trabalho, em Portugal, em que os folhetos eram expostos para venda em cordas ou barbantes (veja mais aqui).

Após essa leitura, eu só posso desejar que você leia, conheça e compartilhe essas histórias. Precisamos resgatar essas personagens reais e mostrá-las, principalmente, para as nossas crianças para que elas saibam que todas as narrativas são importantes e que sempre devemos buscar a diversidade. Obrigada, Jarid Arraes, por este livro tão necessário!

 

 

 

 

Título: Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Autora: Jarid Arraes

Editora: Pólen Livros

Páginas: 176

 

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janeiro 10, 2019

[RESENHA] QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?, DE DJAMILA RIBEIRO

Sinopse: “Um livro essencial e urgente, pois enquanto mulheres negras seguirem sendo alvo de constantes ataques, a humanidade toda corre perigo.

Quem tem medo do feminismo negro? reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista Carta Capital , entre 2014 e 2017. No texto de abertura, a filósofa e militante recupera memórias de seus anos de infância e adolescência para discutir o que chama de “silenciamento”, processo de apagamento da personalidade por que passou e que é um dos muitos resultados perniciosos da discriminação. Foi apenas no final da adolescência, ao trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, que Djamila entrou em contato com autoras que a fizeram ter orgulho de suas raízes e não mais querer se manter invisível. Desde então, o diálogo com autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, bell hooks, Sueli Carneiro, Alice Walker, Toni Morrison e Conceição Evaristo é uma constante.

Muitos textos reagem a situações do cotidiano — o aumento da intolerância às religiões de matriz africana; os ataques a celebridades como Maju ou Serena Williams – a partir das quais Djamila destrincha conceitos como empoderamento feminino ou interseccionalidade. Ela também aborda temas como os limites da mobilização nas redes sociais, as políticas de cotas raciais e as origens do feminismo negro nos Estados Unidos e no Brasil, além de discutir a obra de autoras de referência para o feminismo, como Simone de Beauvoir.”

 

Quem tem medo do feminismo negro? Por que esse tema causa tanto incômodo e é tratado por tanta gente como “mais uma divisão desnecessária”, “vitimização” ou (o péssimo) “mi-mi-mi”?

Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2018) é um livro que não se deve nem tentar resumir. Não seria justo. É uma leitura extremamente necessária e eu recomendo muitíssimo que você considere ler esse livro o quanto antes. A nossa sociedade nos condiciona a pensar que o feminismo negro é uma besteira, pois “é tudo feminismo” e as mulheres, todas elas, sofrem o mesmo tipo de machismo. Além disso, ainda é muito questionada a necessidade de cotas raciais além das já existentes cotas sociais. Esses, dentre outros temas, são tratados nos artigos reunidos nesse livro, publicados originalmente na Carta Capital. Djamila Ribeiro traça um panorama preciso da questão do negro, sobretudo da mulher negra, no Brasil ainda racista em que vivemos.

 

Veja também: O perigo da história única, por Chimamanda Ngozi Adichie (vídeo legendado):

 

Quem tem medo do feminismo negro? não é um livro para pessoas desconstruídas, lacradoras e toda quantidade de adjetivos modernos e irônicos até que vemos hoje em dia pela internet. Aqui, tem-se a oportunidade de aprender um pouco mais com alguém de posse do seu lugar de fala, narrando suas experiências pessoais, profissionais e acadêmicas. Não há lugar para achismos, pois mesmo quando Djamila comenta casos de racismo amplamente conhecidos do grande público, como o do goleiro Aranha ou da jornalista Maju Coutinho, é um pouco mais dela, do que ela já passou, que também conhecemos. Djamila, diferente de muitos dos grandes veículos de comunicação, não contemporiza nem trata como “caso isolado” tais ataques, postura que seria fundamental para que se mudasse a ideia de que “agora tudo é racismo”, minimizando os fatos.

Embora haja esforços recomendando o contrário, agora, mais do que nunca, é o momento de ler, conhecer, estudar e entender o feminismo em todas as suas formas. E em um país racista como o Brasil, é fundamental saber de fonte confiável o que é o feminismo negro. Sugiro começar por essa leitura.

 

 

 

Título: Quem tem medo do feminismo negro

Autora: Djamila Ribeiro

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 120

 

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