abril 02, 2019

[RESENHA] REVOLUÇÃO LAURA: REFLEXÕES SOBRE MATERNIDADE E RESISTÊNCIA, DE MANUELA D’ÁVILA

Sinopse: “Este livro é o registro afetivo de uma mulher, mãe de uma criança de dois anos, que aceitou o desafio de concorrer à presidência do Brasil em novembro de 2017 e que, em agosto de 2018, tornou-se candidata a vice-presidente, chegando ao segundo turno. Uma mulher que percorreu um país continental, amamentando sua filha e construindo uma nova forma de ocupação do espaço político. Também é uma conversa, sobre uma jornada de aprendizado e acolhimento. Sobre privilégios; sobre as lutas para que privilégios não existam mais. É sobre direitos. É sobre feminismo e liberdade. É sobre afeto, carreira e amor, porque não tem sentido ser pela metade. É sobre estar e não estar; presença e ausência. Sobre ser mãe e mulher; ser madrasta e não ser bruxa. Sobre acolher, sonhar um outro mundo e ser o outro mundo sonhado. E, profundamente, é sobre uma revolução chamada Laura. Uma revolução de amor, de amor próprio, de potência. Porque depois de gerar um filho não há nada, nadica de nada que uma mulher não possa fazer.”

 

Em que possa pesar os posicionamentos políticos da autora para alguns leitores na escolha deste livro (não é o meu caso, mas acho importante fazer essa observação), Revolução Laura: Reflexões sobre maternidade e resistência, de Manuela D’Ávila (Belas-Letras, 2019) é um livro sobre mães e para mães, sejam elas de esquerda ou de direita (ou de nenhum lado).

Eu acompanhei admirada a jornada da Manu na última eleição presidencial. Não votei na chapa dela no primeiro turno, mas, confesso, tinha um orgulho danado daquela mulher com sua filha pequena ocupando espaços majoritariamente masculinos. Quem é mãe sabe que é difícil ocupar qualquer lugar depois da maternidade. As pessoas, em geral, acham que a mãe e seu filho devem ficar trancados até que ele complete uma idade em que não cause transtorno para a sociedade. Por transtorno entenda qualquer barulho, seja choro ou risada.

Quando criei este blog, eu estava grávida da Olívia. O blog nasceu em janeiro e, a Olívia, em abril de 2016. Antes de ter este espaço eu colaborava com outro blog de muito sucesso, o Escritoras Inglesas, atualmente desativado. Quanto mais avançada ia ficando a minha gestação, mais eu ouvia que eu podia esquecer esse negócio de livro. Falavam que filho dá trabalho, nunca mais eu ia ler nada etc. Pessoas próximas e pessoas da internet que, apesar de dizerem gostar dos meus textos, praticamente me davam os pêsames porque certamente eu ia interromper por tempo indeterminado as leituras e os trabalhos de escrita. Ainda tinha a faculdade, que eu não tinha terminado. Muita gente olhava torto e achava que eu estava doida (foi uma gravidez planejada!), porque uma criança ia estragar tudo. Ao mesmo tempo em que a sociedade nos cobra um filho, ela diz que a nossa vida vai acabar tão logo termine a gestação. Felizmente eu tive apoio do meu marido para tocar o projeto do blog e a faculdade precisou ser trancada apenas por um semestre, porque eu quis ter esse tempo sem estudar. Eu sabia que ia dar tudo certo, tinha certeza disso. Meu rendimento acadêmico depois da Olívia melhorou e eu devo concluir o curso neste semestre (2019-1). Quanto ao blog e aos projetos de escrita, vocês podem ver por si mesmos por aqui. Tenho quatro e-books lançados na Amazon, um livro físico, dezenas de leituras e resenhas, além de muitas ideias ainda na cachola!

Por essa e outras razões mulheres públicas como Manuela D´Ávila são um bálsamo para mulheres anônimas como eu. Uma mulher que é mãe e que se faz conhecer como mãe na política, mostra a todas nós que nós podemos. Nós podemos ser mães e continuarmos nós mesmas, trabalhadoras, escritoras, e o que mais quisermos ser!

 

Manuela D´Ávila e sua filha, Laura. O livro é recheado de fotos das duas.

 

“QUANDO A GENTE VIRA MÃE OU PAI, A DOR DO MUNDO DEVE DOER MAIS. Foi o Duca que me falou. Eu achava impossível ser mais doído do que pra mim sempre foi. Mas ele estava certo. Ser mãe da Laura me fez querer ainda mais que toda criança tenha arroz, feijão, casa, amor, escola.

Porque a gente entende o quão indefesa é a criança. Porque a gente sabe o tamanho de sua ingenuidade. Porque a gente sabe que precisam de pouco e que esse pouco é negado para quase todas.”

 

“Por que somos marcadas pela certeza (sobretudo dos outros) de que é impossível ter felicidade profissional, de que a mulher sempre precisa abrir mão de algo precioso para realizar sonhos? Quem nos contou essa mentira? Por que a gente acreditou?”

 

Eu ri e me emocionei com essa leitura, e não podia ser diferente. A Revolução Laura na verdade é a revolução que a maternidade bem vivida, com divisão justa das responsabilidades e desejada causa na vida de uma mãe. É uma delícia, mas dá trabalho. Os relatos não lineares da vida da Laura, a jornada dela e de sua mãe pelo Brasil nos mostram que ainda vamos brigar muito para ter uma sociedade mais igualitária, mas isso começa dentro da nossa casa, muitas vezes precisa acontecer ainda dentro da nossa cabeça. Fiquei muito feliz de ver, com esse livro, que não fui a única em algumas situações — os melhores livros sobre maternidade (escritos por mães) têm esse efeito terapêutico — como a sensação estranha de descobrir a gravidez, mesmo planejando e esperando por ela, ou se olhar no espelho e se despedir daquele corpo e daquela pessoa que você é antes do nascimento do seu filho. Ainda, as frustrações que podem acontecer já no parto, pois assim como a Manuela D´Ávila eu quis muito o parto normal e acabei tendo que fazer uma cesariana (o que não é demérito, mas não era o que eu sonhava) e não me lembro do parto, pois simplesmente apaguei com as anestesias. Conheci a Olívia já no quarto, de roupinha, quando imaginava que a teria no meu peito em seus primeiros instantes de vida. A maternidade é assim, espontânea, e a gente percebe antes mesmo de sair do hospital.

Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e resistência foi uma leitura muito boa, tornou-se um dos meus livros de cabeceira nesta temática revolução maternidade. Eu gosto desse tipo de livro porque serve para rir, se emocionar, mas também para mostrar que não estamos sozinhas. A mãe moderna, apesar de muito cobrada, não precisa estar sozinha. Estamos juntas e vamos chegar lá. Pela Laura, pela Olívia e para que todas as meninas possam ter a liberdade de serem quem elas quiserem.  

 

 

 

Título: Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e existência.

Autora: Manuela D’Ávila

Editora: Belas-Letras

Páginas: 192

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