junho 08, 2017

[LANÇAMENTO] A AMA INGLESA, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 2, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Desde pequena, a menina Leonora se perguntava por que sua mãe sabia ler e escrever em dois idiomas e o pai sequer sabia ler em um deles. Instruída pela mãe francesa, a filha de um simples cuidador de cavalos muito cedo se vê sozinha no mundo, à mercê de uma tia autoritária e de um padrasto violador. Um encontro na infância provoca uma reviravolta em sua vida e ela vai trabalhar como ama da duquesa viúva de Pudhoe, uma dama autoritária, mas que a respeitava. Entretanto, quando lady Muriel Browne chega de Londres para passar uma temporada em Pudhoe Castle, no Norte da Inglaterra, tudo à sua volta muda. Leonora começa a ser destratada pela duquesa e até pelos outros servos, até então seu amigos.

Numa noite gelada em Newcastle, sem ter para onde ir, ela acaba se abrigando no celeiro, aconchegada à vaca da duquesa, para não morrer de frio. Ali ela é acordada brutalmente pelo capataz da propriedade e amparada por aquele cuja imagem permeara seus pensamentos durante cinco longos anos, o poderoso duque de Pudhoe, conhecido em toda a Europa por Lorde Perverso. Mas Leonora não o via assim. Pelo contrário. Achara-o caridoso. Afinal, se não fosse por ele, certamente não teria sobrevivido àquela noite.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de A Ama Inglesa, segundo livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

Newcastle, Inglaterra, 1828.

 

Leonora não sabia dizer o que era pior: ter um padrasto desprezível que a queria violentar ou uma mãe fraca que fingia não ver. Desde que fugira de casa há três dias, ela tentava, sem sucesso, perdoar a mãe – na verdade a tia que a criara e ela chamava de mãe –, mas não conseguia: onde já se viu ficar do lado do homem que tentara violentar a própria filha?

Deitada sobre o feno de uma fazenda, numa noite fria, ela tenta esquecer os últimos dias ou seriam os últimos 10 anos? Desde que seu pai morrera a vida não tinha sido gentil com ela. Agora com pouco mais de 18 anos tinha acabado, literalmente, na sarjeta, dormindo nos lugares mais inusitados, como esta noite na companhia de uma vaca. Sorte dela que não era um animal qualquer, mas a vaca que a duquesa de Prudhue tinha ganhado do marquês de Valnoré e a quem ela dava mais valor que a própria criadagem. Caso contrário, ela iria congelar, pois era uma noite fria até para os padrões de Newcastle.

Pensando no que fazer quando o dia clareasse, encostada à vaca que emitia um calor reconfortante, Leonora não percebera que voltara a cochilar. Acordou com vozes e com alguma coisa gelada cutucando suas ancas. Olhou assustada e deu de cara com dois pares de botas, um do capataz de Prudhoe Castle e o outro do dono dos olhos mais desconcertantes em que ela já tinha posto seus jovens olhos. O capataz gritou:

—Mais que desgraça é essa? Uma mulher dormindo com a vaca da duquesa! O que faz aqui? Ah, é você, sua bruxa? Levanta já daí — gritou o homem com as faces tão vermelhas quanto o pudim que a mãe verdadeira, quando viva, fazia de framboesa. Sob forte admoestação que o cavalheiro fazia — pois Leonora sabia que se tratava de um —, sobre o tratamento dado a ela pelo empregado, ela sem emitir sequer um pedido de desculpas, levantou-se, recolheu sua trouxa e saiu tão depressa quanto seus membros rígidos de frio permitiram. Não ousou olhar para o cavalheiro, embora achasse que já o tivesse visto e, talvez, exatamente por essa razão.

Levou um choque quando percebeu que, além do frio do outono no Norte, ainda chovia. Assustada, envergonhada como nunca estivera antes, e desconcertada por ter sido pega dormindo na propriedade alheia e ainda por cima com uma vaca, ela fingiu não ouvir quando o cavalheiro a chamou. Continuou andando — quase correndo — em direção ao portão, o mesmo que ela havia pulado na noite anterior para se abrigar no celeiro.

— Faça alguma coisa, Jordan. A moça vai morrer congelada — bradou o cavalheiro para o capataz.

— Moça, moça! Raios, olha o que você fez com essa sua grosseria, Jordan! Onde já se viu tratar uma moça com esses modos! Volte aqui, miss! Você vai ficar doente.

Leonora havia feito a curva em direção à saída da propriedade. Não sabia para onde iria, mas preferia morrer a abrir mão do resquício de dignidade que possuía. Onde já se viu ser acordada com chutes! Ele que vivesse o resto de seus dias com a culpa de sua morte na consciência, ela morreria de qualquer forma mesmo, pois, como sobreviveria àquele maldito inverno? Sem abrigo certamente congelaria.

— Raios! Maldição! Não me faça ir aí te buscar — ela o ouviu dizer quando jogava sua trouxa sobre a porteira e subia para pulá-la. Mas quando a pessoa nasce com falta de sorte, e aquele era o seu caso, nada dava certo, portanto, ela escorregou e caiu do outro lado exatamente numa poça de lama. Lá se foi meu resquício de dignidade.

Quando, na tentativa de sair daquela posição humilhante, ela apoiou um braço para se levantar, percebeu que não conseguia agarrar sua trouxa. Foi aí que Leonora concluiu que algo de muito grave tinha acontecido com seu ombro: tinha caído sobre ele e seu ombro direito agora também estava caído. A dor era excruciante e, numa segunda tentativa, embora tivesse conseguido ficar de pé, ela não conseguiu pegar seus pertences. Não que fosse uma trouxa grande, pois ela só tinha dois vestidos, mas seu ombro estava, de fato, fora do lugar. Abandonou a trouxa onde estava e deu alguns passos trôpegos esperando cair e morrer a qualquer momento de hipotermia, pois já não sentia suas extremidades, aliás, sentia apenas uma dor que entorpecia sua mente. Caiu. Ele chegou ao seu lado. Ela não escutou o tropel das patas do seu cavalo, mas sentiu quando ele a tomou nos braços. Estava todo molhado, mas seu corpo era forte e quente.

— Diacho de mulher! Quer se matar e me levar junto? — disse ele enquanto gritava ordens para o capataz.

— Corra na frente e abra o raio da porta, faça alguma coisa, homem! Mande esquentar água, chame a governanta, peça algo quente para ela beber.

Minutos depois, Leonora estava em um quarto quente, cuja lareira crepitava, viu-se ficando nua e sendo enrolada em alguma coisa bem quente. Seus dentes batiam tanto que ela não conseguia balbuciar nenhum protesto, tampouco, nenhum agradecimento. Uma banheira fumegante era preparada por duas criadas que ela conhecia, algo era levado aos seus lábios, e uma voz de homem ordenava que ela tomasse algo quente e doce. Foi só muito depois que ela se deu conta de que fora ele quem a despira, que a alimentara, que a colocara numa banheira quente, e que ela esteve nua na frente do cavalheiro mais formidável do mundo.

Entretanto ele não sorria, muito pelo contrário, parecia estar com muita raiva. Olhava para ela, mas não com aqueles olhos malévolos que seu padrasto a olhava, o cavalheiro a olhava, mas ela não sabia explicar o que via naqueles olhos.            Quando ela já estava deitada, seca, limpa, aconchegada em meio a muitas mantas macias e quentes, uma criada chegou e deu-lhe algo para beber. Ele pegou a xícara, levou aos lábios, foi só então que Leonora se deu conta de que ele também devia estar com muito frio, pois toda a roupa dele estava molhada e cheia de uma lama negra.

— Sua Graça — disse a governanta, Leonora sabia que se tratava da governanta, pois também a conhecia muito bem — tire essa roupa molhada, senão ficará doente.

Foi aí que ela soube que tinha sido socorrida pelo próprio duque, o poderoso duque de Pudhoe, conhecido por lorde Perverso, a quem ela havia conhecido há muitos anos, tempo demais para ele mudar tanto a ponto de ela não mais o reconhecer, nem ele a ela. Embora sua antiga imagem estivesse sempre em sua memória. Nos anos em que ficara sem vê-lo, contudo, soube de sua fama. O nome do lorde corria por todos os lados, a notícia de que ele tinha abandonado uma dama no altar, ou quase no altar, um casamento arranjado pelo falecido duque, que o lorde não aceitou desposar, correra a quatro ventos. De forma que todos o acusaram de perverso, pois havia desobedecido ao pai e humilhado a filha de um conde, deixando-a nas vésperas do casamento, e fugido para o Continente.

Todavia Leonora não o achara perverso, muito pelo contrário, ele tinha sido caridoso para com ela, afinal, se não fosse por ele, ela estaria morta de frio.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

Links para comprar a série O Quarteto do Norte:

A Estrangeira (Livro Impresso);

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A Ama Inglesa (E-book);

Um Cocheiro em Paris (E-book);

Fronteira da Paz (E-book).

junho 06, 2017

[RESENHA] ALINA, DE EMILIA LIMA

Sinopse: “Amor e paixão no Brasil colonial!
Ambientada na Bahia século XVI, com passagens em Lisboa, Alina conta a história da família Cirilo, que veio de Portugal com o intuito de ajudar na colonização do Brasil. Alina Cirilo amou o jovem advogado Pedro Garcia desde a primeira vez que o viu – um grande amor, porém, proibido. Apaixonada por Pedro, com quem havia se deitado, ela é enviada pelo pai para longe, mas já levava a semente dele dentro de si. Sem escolha, longe de casa, vivendo em meio aos índios, ela conhece Naru, um mestiço com modos de fidalgo. Sozinha, carente, ela deixa-se conquistar pelo jovem belo e doce mestiço, embora nunca tenha esquecido Pedro. Amor, laços familiares, renúncias, traições e reencontros surpreendentes.”
 

 

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O mercado literário tem oferecido muitos títulos de romances históricos e de época para nós leitores, entretanto, a ambientação das histórias acaba sendo muito parecida entre eles: massivamente em terras (e contexto social) inglesas. Isso não é ruim, muito pelo contrário, mas há algum tempo tinha a vontade de ler uma história mais próxima de mim. Então soube que a Pedrazul ia relançar Alina, da escritora baiana Emilia Lima, muito elogiado em grupos de literatura internet afora. Como tratava-se de uma nova edição totalmente revista e ilustrada, esperei para ter esse livro em mãos e iniciar a leitura. Foi incrível!

Alina é o primeiro volume da série Família Cirilo, e é um romance muito lindo, cheio de verdades sobre a vida e os sentimentos humanos. A protagonista, longe de ser uma mocinha típica dos livros de época, é uma pessoa real, quase tangível. Tive a sensação que ela poderia ser eu ou qualquer outra mulher, seja da época da colonização do Brasil ou de agora. Sinceramente falando, este foi o primeiro livro em que a personagem principal fica dividida, se é que posso colocar desta forma, entre dois homens e eu não sinto vontade de largar a leitura. Apesar de bem jovem, Alina tem uma maturidade muito grande e é uma mulher honesta, o que torna todo o seu drama bastante plausível.

 

“Mesmo que se passassem muitos anos, ela ainda cultivaria o hábito de gastar horas sentada em frente à janela, olhando para aquele horizonte azul e verde. Era o que conseguia aplacar sua alma inquieta. Religiosa, tinha uma fé inabalável e ia à igreja frequentemente com a família. Todavia, era em frente ao mar que realmente sentia a presença de Deus.” (p. 18)

 

Alina era ainda uma jovem de 12 anos quando se apaixonou por Pedro Henrique Garcia, também imigrante português, advogado e amigo de seu irmão. Ele era um homem feito quando se conheceram, tinha 24 anos e era casado. Ela tinha consciência do erro de amar um homem que não podia ser seu, mas ainda assim o amava. Era um sentimento tão grande que não podia ser contido. Passaram anos assim, se amando platonicamente, pois o sentimento era recíproco, embora não tivessem certeza disso. Aos 16 anos, Alina ajudava o irmão em seu escritório de advocacia, onde também trabalhava Pedro Henrique, lutando em prol dos escravos e contra as injustiças que ocorriam no Brasil Colônia.

 

“Ali na praia, ouvindo as ondas baterem nas pedras, Alina ficou não se sabe por quanto tempo. Gostava da solidão e do silêncio que a ausência de vozes proporcionava. Na fazenda, as pessoas tinham seus falatórios e suas demandas, principalmente a mãe, que não entendia por que ela gostava tanto de ficar sozinha e, em vão, tentava inseri-la na vida familiar. Quando o barulho começava a incomodar a jovem, era o momento de fugir para o seu mundo irreal, onde ela e Pedro se casavam, tinham filhos e uma vida cheia de felicidade. Mas, como as ondas vêm e vão, aquele sonho também não podia ser segurado. E, como o vento, ele alçava voo e ela voltava a ser Alina, a moça que ousou amar um homem casado que jamais poderia ser seu.” (p. 27)

 

Ilustração do livro “Alina”, por Mara Sop.

 

“Fosses tu minha… eu jamais te deixaria ir!” (p. 33)

 

A revelação de que havia reciprocidade no amor entre Alina e Pedro Henrique encheu o coração dos dois de inquietação. A certeza de que eram um do outro em sentimento, mas que não podiam ficar juntos era terrível. Alina decide ir embora de São Salvador, mas não consegue fazê-lo sem se despedir de Pedro Henrique. Os dois se entregam a paixão e, algum tempo depois, a jovem descobre estar grávida de seu amor.

 

“Quero-te como meu primeiro e último homem. Quero entregar meu corpo a ti. Quero que me faças tua mulher porque jamais serei de outro homem por toda a minha vida.” (p. 48)

 

Pedro Henrique fica transtornado com a partida de Alina, mas sem saber de seu paradeiro, acaba voltando para Portugal com a esposa e os filhos, mantendo em seu peito a esperança de um dia reencontrar o seu amor. Alina fora para a fazenda da irmã Clara, na Capitania de São Jorge dos Ilhéus, evitando um escândalo em sua família. Lá aceita a ajuda de uma velha índia, Ana, e vai para uma aldeia, onde poderá ter seus filhos em paz. Sim, ela estava grávida de gêmeos!

Apenas o pai de Alina sabia o que estava acontecendo. A amizade entre os dois é uma das coisas mais bonitas dessa história. Ele entende os sentimentos da filha e aceita que ela decida o seu destino, diferente do que se poderia imaginar de um pai de família dessa época.

 

“Creio, papai, que Clara desconfiava de minha gravidez, mas eu não lhe contei. E por favor papai, se Pedro procurar o senhor, não lhe conte nada. Depois pensarei em uma solução melhor. Por ora ficarei aqui na aldeia, onde terei o meu filho. Eu estou bem, papai; e muito bem cuidada pela índia de quem falei ao senhor, a mesma que tratou Francisco em sua desventura…” (p. 70)

 

Na aldeia, Alina conhece Naru, um mestiço filho de um português com uma índia daquele lugar. Ele foi educado como um cavalheiro, mas suas raízes estavam na cultura indígena. Os dois logo ficam muito amigos, Naru dá todo o suporte durante a gravidez de Alina, sendo praticamente um marido para ela. Um tempo depois do parto, ele declara seu amor pela jovem, que também corresponde esse sentimento, embora não ame o rapaz com a mesma intensidade que a Pedro Henrique. Ela é honesta com Naru, contanto toda a sua história e eles decidem mesmo assim ficarem juntos, como marido e mulher.

 

Ilustração do livro “Alina”, por Mara Sop.

 

“O hálito dele era doce, com cheiro de frutas silvestres, e Alina desejou ser beijada. Desejou muito. E ele a beijou. Em seguida levou-a para uma saliência na mata e fê-la dele. Depois, deitados, ambos nus e saciados, ele a abraçou  e a trouxe para próximo de seu corpo:

‘Tu és linda! E és minha’ – disse, beijando-a longamente” (p. 96)

 

Alina seguiu em frente. Pedro era um homem casado e ela precisava dar uma família aos seus filhos. Naru era um homem maravilhoso e, embora ela não o amasse da mesma forma que amava a Pedro, tinha certeza que viveria bem com ele. Decidiu, então, voltar para sua casa em São Salvador e informou a família sobre seu casamento com o mestiço.

 

O envolvimento entre Alina e Naru foi tão natural, que por algumas páginas quase nos esquecemos de Pedro Henrique. Mas essa história ainda guarda muitas reviravoltas nas vidas de nossos protagonistas, incluindo um envolvimento entre Pedro e uma pessoa bastante próxima de Alina, além de muitos segredos e a vontade de ler os outros volumes da série o quanto antes! Alina é uma história riquíssima, ambientada no Brasil Colônia, que inclusive foi adotada em diversas escolas como livro paradidático. Esta edição da Pedrazul Editora foi lindamente ilustrada pela Mara Sop e vale muito a pena ler e ter na estante.

 

“Alina” e os marcadores com a capa do livro e de algumas das ilustrações coloridas de Mara Sop.

 

SOBRE A AUTORA: A baiana Emilia Lima é formada em Economia, mas é uma apaixonada pelas letras, principalmente pelos romances clássicos ingleses, cuja autora preferida é Jane Austen. Também é fã de Isabel Allende e de Gabriel Garcia Marquez. Apaixonada por cinema, Emilia adora conhecer os lugares onde seus livros são ambientados. Dona de uma extensa biblioteca, ela tem na leitura e na escrita um dos seus maiores prazeres. Sua paixão pelos livros vem desde criança, incentivada pelos avós maternos, Marlotinho e Zelinha, que sempre lhe davam livros de presente. Além de Alina, é autora de Ágata e de Dandara, que fazem parte da série Família Cirilo. Emilia mora na Bahia e tem dois filhos.

 

Saiba mais sobre Emilia Lima na entrevista concedida ao blog da Pedrazul Editora.

 

 

 

Título: Alina (Série Família Cirilo, Vol. 1)
Autora: Emilia Lima
Editora: Pedrazul
Páginas: 188

 

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junho 02, 2017

[LANÇAMENTO] A ESTRANGEIRA, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Casamentos entre primos eram tradicionais entre duas nobres famílias inglesas. A aliança, que havia começado há muitos séculos a fim de fortalecer a família inglesa contra um clã escocês, agora incomodava o atual conde de Northumberland. Quando ele achava que este era seu maior problema, chega à casa do Lago Green, em Alnwick, a sobrinha de um falecido escudeiro de seu pai.

Na primeira metade do século XIX, na Prússia cheia de guerrilhas, uma jovem sem meios aceita se casar sem amor. Mas no dia do casamento algo terrível acontece. Forçada a viver em cativeiro, ela foge para a Inglaterra à procura de seus parentes. Porém, nada é como ela esperava. Não havia tia, nem tio e nem primos à sua espera. O encontro entre Eliza e o cavalheiro que herdara de seu antepassado, além do apelido, o ímpeto e a beleza, vai desenterrar antigos segredos, pois fala-se no condado que os membros do clã inglês, além de terem a estranha tradição de se casarem com primos, no passado casavam-se com seus próprios irmãos. Inspirado na Batalha real de Otterbourne, A Estrangeira, 340 páginas, narra duas histórias de amor que, embora separadas por 442 anos, se entrelaçam num verdadeiro turbilhão de emoção e mistério.”

 

Já está disponível no site da Pedrazul Editora o livro A Estrangeira, de Chirlei Wandekoken, sucesso entre os e-books de romances históricos na Amazon! Este livro é o primeiro da série independente O Quarteto do Norte e será o único a ser vendido em versão impressa. Adianto que é uma leitura riquíssima; em breve falarei mais sobre a história aqui no blog!

 

Confira abaixo um trecho de A Estrangeira:

Prólogo

O herdeiro Northumberland

 

“O caráter não é esculpido em mármore, não é algo sólido e inalterável. É vivo e mutável, pode adoecer como adoece o nosso corpo; da mesma forma pode regenerar-se.” [1]

 

Londres, Inglaterra, outubro de 1830.

 

O dia amanheceu enevoado. A paisagem normalmente acinzentada de Londres, ainda mais densa, estava coberta por uma nuvem espessa de poeira que se elevava do trepidar dos cascos dos cavalos; ou seria neblina, ou mera ausência de luz tão comum à cidade negra? O chilrear dos pássaros, normalmente tão constante ao longo do Temple Gardens, estava retraído; as árvores, embora um vento débil soprasse em suas folhagens, teimavam em sua rigidez, como se congeladas. Ou, talvez, o espírito do passante estivesse sombrio a tal ponto que nada via, senão um reflexo de si mesmo em cada olhar cabisbaixo, cada cumprimento sisudo, cada cor lúgubre. Tão diferente dos dias ensolarados de outrora, quando, apesar da chuva que caía em rajadas, deixando tudo encharcado, seus olhos haviam estado tão acesos por uma luz vinda de algum lugar, não sabia exatamente de onde.

A carruagem do nono conde de Northumberland, conhecido em Londres por lorde Hotspur, puxada por quatro parelhas de Norfolk Trotter, cruzava a Trafalgar Square velozmente rumo ao extremo norte da Inglaterra. O retorno apressado para Alnwick, um vilarejo situado quase na divisa com a Escócia, dava-se por conta de uma mensagem de Mr. Dornford, o administrador de suas terras, na qual ele se dizia preocupado com uma situação constrangedora e inesperada que fugia de seu controle e de sua alçada.

O conde, após retirar a carta do bolso de sua casaca, pôs-se a relê-la:

 

Alnwick, 3 de outubro de 1830.

Sua Senhoria,

Sinto informar que John Baker morreu há quatro dias, como o médico havia previsto, já que seu estado de saúde era grave, e a idade avançada não ajudava. Eu não o incomodaria apenas por esse fato, pois Sua Senhoria, mesmo não tendo nenhum parentesco com o velho rendeiro, fez tudo o que estava ao seu alcance para tratar de sua doença. Mas, o que me preocupou foi a chegada, há dois dias, de uma dama estrangeira que se diz sobrinha dele, uma jovem bonita demais para viver sozinha, sem acompanhante, sem meios, naquela cottage à beira do lago Green, totalmente à mercê dos perigos que, o conde sabe, ela está correndo. Ela virou o assunto do condado e como o oitavo conde, seu pai, tinha alguma ligação afetiva com John Baker, talvez o lorde queira tomar alguma providência.

Cordialmente, Mr. Dornford.

 

Lorde Hotspur chegara à cidade havia uma semana e pretendia passar todo o inverno em Londres para se afastar de Alnwick Castle, impregnado de uma mórbida tristeza depois da morte de sua mãe, a lady que nascera Margaret Neville e se tornara a condessa de Northumberland pelo casamento.

Ninguém esperava que ela morresse tão precocemente, tendo em vista sua aparência saudável. Era uma mulher que estava o tempo todo fazendo alguma coisa pelo povo do condado, sempre disposta a ajudar, fosse a um rendeiro, fosse à esposa de algum fazendeiro, talvez para suprir a negligência de seu próprio marido para com seus vassalos. O fato é que, embora uma nuvem de tristeza sempre perpassasse seus olhos, a condessa estava lá, à disposição de alguém cuja tristeza fosse menos profunda que a dela, aquele tipo de dor que reside na subsistência humana, na falta de carvão e agasalho para suportar o rigoroso inverno do Norte; ou na carência de assepsia, o que a levava às moradias mais simples para orientar e ajudar a manter a doença longe de seus chalés; e até na assistência financeira, socorrendo todos que tinham, conforme sua rede de informantes, algum tipo de necessidade. Assim, o condado era permanentemente assistido por ela ou pelo próprio lorde Hotspur. Sua morte inesperada, por isso mesmo, tinha sido uma verdadeira tragédia, sentida não somente pela nobre família Percy Northumberland, mas pelos mais humildes habitantes de Alnwick.

Nem bem tinham assimilado a perda da condessa, outro trágico acontecimento, dois meses depois, marcaria a família Percy: o oitavo conde também falecia durante uma de suas inúmeras viagens. Hotspur nem sabia onde seu pai se encontrava na ocasião, pois esse costume era comum ao velho conde. Dizia que ia para Londres e de lá partia para o continente e para outros países. Assim, passava meses em seu ostracismo voluntário. Havia tempo deixara por conta de Hotspur, filho mais velho e herdeiro do título, a incumbência de administrar as propriedades da família. Dessa vez, para a surpresa de todos, o desregrado conde tinha ido parar na Índia. Segundo um amigo que o acompanhava na comitiva, ele contraíra uma febre e morrera de repente. Curiosamente, sem saber que havia ficado viúvo, pois a família não soubera para onde enviar a carta informando-lhe a respeito.

Com tantas perdas – embora a da condessa fosse a mais sentida –, lorde Hotspur sentia-se muito abatido.

Seus planos, quando chegara a Londres naquele período mais agitado da cidade, tinham sido o de permanecer ali por algum tempo, pois pretendia ver lady Neville. Precisava voltar a conhecer a prima — sua prometida noiva —, pois, afinal, já que se casaria com ela, deveria haver pelo menos uma simpatia entre os dois. Sua intenção era aproveitar os bailes da temporada para tentar criar essa ligação. Quem sabe ela tenha ficado menos magra e menos aborrecida, tinha pensado. Uma coisa era certa: não podia mais adiar o casamento, algo que vinha fazendo havia anos, e isso o exasperava, pois odiava ter que fazer aquilo que não desejava, sobretudo algo que tinha de fazer por obrigação. E, decididamente, ele não queria se casar. Contudo, a prima, com 23 anos, estava ficando velha, segundo lorde Neville, o barão, pai da moça e seu tio por parte de mãe. O futuro sogro tinha-lhe mandado uma carta, logo após a morte de seu pai, chamando-o à responsabilidade de gerar o próximo conde de Northumberland. Mas ele conhecia a real intenção do barão: fazer cumprir o acordo de casamento selado com o oitavo conde.

Havia séculos os Percy casavam com primos. Assim, a aliança entre eles e a família Neville era muito antiga. Sua mãe fora uma Neville antes de se tornar condessa de Northumberland e, em honra à palavra do seu pai, ele teria que desposar a prima. Era uma situação estranha, já que havia passado toda a sua infância com ela – ele um jovenzinho e ela uma criança – pois o clã Neville morava próximo a Alnwick Castle. Quando ela se tornou uma jovem dama, o barão se mudara com a família para Londres, época em que ele estava na guerra e depois em Oxford. Dessa forma, ainda não conhecia a lady Neville adulta, embora a figura da feia e enfadonha menina sardenta de outrora estivesse impregnada, repulsivamente, em sua mente. A imagem que ele tinha dela não podia ser pior: monótona, estreita, fina, achatada e desinteressante. Só de pensar em ter de sentar-se à mesa todos os dias com uma insossa criatura, como a que imaginava, deixava-o de mau humor.

Fizera a cansativa viagem de quatro dias do Norte a Londres para atender a um convite de seu amigo de infância, o duque de Prudhoe. Não viera apenas para uma festa em Prudhoe House, como nos velhos tempos. Havia-se agarrado a esse pretexto para se afastar por alguns meses do ambiente fúnebre de Alnwick. Perder os pais, quase ao mesmo tempo, havia sido um golpe bastante duro, até mesmo para o forte e impetuoso lorde Hotspur. Embora estivesse aborrecido com o tio barão, pois este havia mexido com sua honra quando o chamara a cumprir a palavra, mesmo que essa não fosse sua e sim uma maldita tradição da família da qual ele agora era o senhor, Hotspur estava curioso para reencontrar o amigo. Prudhoe havia voltado recentemente de uma longa lua de mel, que durara um ano. Sim, tinha que admitir, a despeito do tio, que existia alguma curiosidade em rever o duque e a duquesa, ouvir o que o amigo tinha a lhe dizer sobre o casamento, já que em breve ele mesmo seria um respeitável homem casado. Praguejou.

Hotspur e Prudhoe eram amigos desde bem pequenos. O conde não conseguia se lembrar de nenhuma parte de sua existência, pouco mais de trinta anos, da qual o duque não fizesse parte. Contudo, de todas as épocas, a fase, cujas recordações eram mais vívidas, era a dos seus 18 anos, exatamente o período que compreendia os momentos vividos na guerra. Depois disso, Prudhoe tinha ganhado mais um irmão. Mas, como acontecia entre os irmãos, o duque, às vezes, voltava a ser o dandy irresponsável da juventude, e extrapolava a paciência até de um santo. E ele, certamente, não podia ser chamado de imaculado.

Vociferou ao recordar-se da festa promovida pelo amigo. Aquela última troça não tivera graça nenhuma! Convidar mademoiselle Duplessis para cantar em Prudhoe House fora de um terrível mau gosto. Madame Marie Duplessis! Já se haviam passado dez anos do envolvimento dos dois em Paris, assim como da briga que ele tivera com lorde Davy, o conde de Douglas. Não que a cantora francesa tivesse a mínima importância para ele agora, mas se lembrar do maldito conde escocês sempre o enfurecia, pois as duas famílias eram inimigas ancestrais. Lorde Davy tinha-lhe tomado a moça para se vingar dele, pois sabia do affair entre eles. Mas, vindo de um Douglas, ele já esperava por aquilo. O pior fora Marie Duplessis achar que ele estava disposto, dez anos depois, a tomá-la como amante novamente! Com certo ar de desdém, ele se recordou do que ela havia-lhe dito, quando o encontrou em Prudhoe House.

– Lorde Northumberland! Os anos apenas lhe beneficiaram. Está ainda mais atraente agora que é um homem feito! Quando encontrei o duque de Prudhoe, em Paris, e ele me convidou para cantar em sua casa, eu tinha muita expectativa de revê-lo. Desmarquei vários compromissos para estar aqui, pois ainda sinto que ficou um mal-entendido entre nós…

– Como vai, madame? – Hotspur respondeu, beijando-lhe a mão. O frio cumprimento não foi o que ela esperava. O que ela queria? Na época ele era apenas um moleque recém-saído de Oxford numa viagem pelo continente com seus amigos, e com seu inimigo.

– O duque me disse que agora é o nono conde de Northumberland, portanto, mais cobiçado ainda – ela disse, pousando a mão direita no largo peito do conde.

– Sua Graça, o duque, fala demais – ele retrucou, rispidamente.

Marie Duplessis tinha lhe arrastado para um escritório, colocado as duas mãos em seu pescoço, e encostava seu voluptuoso corpo ao dele. Todavia, quando ele olhava para ela, lembrava-se de lorde Davy, e isso era um problema, porque sentia uma estranha repulsa visível nos seus expectantes olhos verdes. Não que ela não fosse atraente, ainda era e muito, mas por causa daquela mulher ele nunca mais confiara em nenhuma outra. Quando ela levou a mão às suas calças, ele afastou-a educadamente.

– Onde está o famoso lorde Hotspur, aquele fogoso jovem que eu conheci em Paris? – ela perguntou, com sua sensual voz soprano. Era a mesma que ela usara com o jovem lorde no passado, mas não funcionava mais. Marie Duplessis olhou-o com seus olhos verdes suplicantes e ergueu os lábios cheios e rosados. Ele, contudo, se esquivou.

– Madame, creio que na época eu não lhe expliquei que herdei esse apelido de um parente medieval, por alguma proeza idiota que eu fiz na guerra. Naquela idade, o imbecil jovem até gostava de ostentá-lo, a fim de atrair jovens mademoiselles para a cama, mas hoje, confesso, dei-o ao meu cachorro. Portanto, já deve imaginar que ser chamado de lorde Hotspur não me anima mais.

Ele suspirou, soltando uma imprecação. Sua atitude fora rude demais, mas tinha ficado enfurecido com a brincadeira de Prudhoe e do duque de Belvoir, como ele ficou sabendo depois. Talvez, em outra época, isso não o tivesse incomodado, com certeza, não, mas naquele momento ele estava destroçado pelas perdas familiares, pressionado para casar pelo tio e, agora, por um terceiro aborrecimento. Reagira, assim, como o indomável Hotspur.

O duque de Prudhoe, que havia pouco mais de um ano tinha caído de paixão por uma pobre ama e quebrado todas as regras da sociedade inglesa ao se casar com ela e fazê-la duquesa, parecia decidido a fazer dele, o conde Hotspur, o próximo escândalo de Londres. Isso estava deixando o seu tio, lorde Neville, desesperado. Afinal, se o grande duque de Prudhoe tinha enfrentado a família, a sociedade e seguido seu fraco coração, o implacável conde poderia ser influenciado a também fazer uma asneirada daquela. O duque, mesmo ciente da pressão que o amigo sofria, decidira armar aquela brincadeira, juntamente com Belvoir, como se eles fossem os antigos jovens irresponsáveis estudantes de Oxford. Lorde Hotspur deixaria Prudhoe House sem ao menos se despedir do velho amigo.

Desde que chegara a Northumberland House tinha tido um aborrecimento atrás do outro e estava em seus piores humores, algo não muito difícil de acontecer, pois era imperioso por natureza. Além da pressão férrea por parte do tio, uma carta de uma antiga protegida tinha lhe deixado exasperado. A dama alegava ser ele o pai do bastardo que esperava, o que sabia ser impossível, pois havia mais de um ano que ele ordenara a Kaufmann, seu secretário, que enviasse a ela uma joia de despedida. Perdera o interesse por ela desde que a encontrara nos jardins de Vauxhall com o conde de Douglas, o qual estava, novamente, seguindo o seu rastro. Ele se perguntava quando se veria livre dele, mesmo tendo-lhe presenteado com um enorme favor, pois a jovem, Lillie Langtry, já não o prendia mais. Suspirou novamente. Estava cansado das Lillies e das Maries. Jamais admitiria isso para Prudhoe, aquele grande falastrão, mas o invejava. O duque tinha enfrentado tudo e se casado com quem quis. Já ele tinha que se casar com lady Neville, que agora o atraía tanto quanto Marie Duplessis.

Odiava aqueles pensamentos. A culpa era de Sir Percy que havia introduzido no sangue da família aquele ímpeto romanesco. O guerreiro tinha que morrer por causa de uma mulher?! Tanto motivo mais nobre, mas não, o cavalheiro tinha que estragar todo o restante da raça Percy Northumberland!

Recostou-se no assento e olhou para a janela da carruagem. Dias e mais dias de viagem! Hospedagens frias, camas bolorentas e solidão. O dia, de fato, estava frio e cinzento como o seu humor. Ainda levaria horas para chegar a Alnwick e nenhum estímulo, apenas mais problemas. De onde tinha saído a tal estrangeira que Mr. Dornford havia falado? O que faria com ela? Levá-la para Alnwick Castle sem acompanhante? Isso só geraria mais mexericos, afinal, ele não era nenhum modelo de comportamento. Ia devolvê-la ao seu reino e pronto. Cada nação com seus problemas e ele já tinha os dele.

As rodas da carruagem já tocavam o solo do Norte, cada vez mais frio, cada vez mais escuro, e uma irritação tomava conta dele, deixando-o sombrio. Seus pensamentos eram profundos e consternados.

É angustiante perceber que a vida não passa de alianças, de obrigações com o clã, e, se decidir quebrar isso, esse sentimento de culpa me acompanhará para sempre. O sentimento da desonra. Quando observo os estreitos limites em que me encontro, encerrado entre o dever e os vãs prazeres das amantes, que já não mais me satisfazem; quando vejo que o objetivo de todos os meus esforços é prover a honra do nome da família, a palavra dada por meu pai, que por si mesma não tem outro fim senão prolongar uma aliança de interesses e vaidades, e que por consequência rouba toda a minha paz… Se aceito sem lutar, o que não faz parte de meu ímpeto de guerreiro – por isso essa tortura – serei um resignado homem casado em poucos meses. Mas, o que estou querendo? Afinal, tudo não passa de uma resignação pela honra que, aliás, não é nem minha, pois, se fosse, não seria tão questionada. Sinto-me um prisioneiro de uma ancestral imbecilidade e tudo isso me reduz a um silêncio irado. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um homem, cheio de mitos, pressentimentos e vagos desejos de que a realidade fosse luminosa e cheia de algo que eu não sei bem o que é, mas queria apenas que tivesse cor. Pelo amor de Deus, que tivesse cor! Acho que o Norte está congelando a minha limitada existência; vou me arrastando dia após dia, de inverno a inverno, olhando as folhas caírem, inebriado pela bebida, sob a falsa alegação de conforto. Algo precisa mudar, essa revolta tem que ser subjugada. Vou me casar com lady Neville e parar de lutar com o que não pode ser evitado.

Foi quando lorde Hotspur a viu atravessando a rua. Ela e o cão. Os cabelos mal trançados, desgrenhados, caíam sobre os ombros e eram jogados no rosto pelo vento. Ela sacudia a cabeça para tirá-los da sua visão. Trazia uma cesta na mão, uma simplicidade desconcertante, coloridamente intrigante, diferente de tudo que ele já vira.

Ele gritou com o cocheiro para que parasse. Quem seria aquela moça? Que vestido estranho, mas que encanto! O andar! Ela não tem noção do poder que possui!

[1] ELIOT, George, Middlemarch.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

Na próxima semana falarei sobre os outros títulos da série O Quarteto do Norte, não perca!

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