fevereiro 23, 2016

[RESENHA] MARGARET HALE (NORTE E SUL), DE ELIZABETH GASKELL

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Sinopse: “Ainda muito pequena Margaret Hale foi enviada para viver em Londres com uma tia rica. Quando sua prima se casa, ela volta para casa dos pais, mas é forçada a deixar o campo, lugar que tanto amava, e mudar-se para a sombria e poluída cidade industrial de Milton, no Norte. Acostumada à doçura e idílio do Sul, ela testemunha o mundo duro e brutal, forjado pela revolução industrial. Chocada com tantas diferenças, aos poucos a jovem começa a descobrir Milton, seus habitantes, o funcionamento das fábricas e as relações entre patrões e operários. Solidária com os pobres, cuja coragem e tenacidade ela admira, e entre os quais faz alguns amigos, ela se depara com o belo John Thornton, um industrial do ramo de algodão, cuja rigidez e atitude insolente para com os trabalhadores ela tanto despreza. O confronto entre Margaret e Mr. Thornton é considerado uma reminiscência das desavenças entre Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, personagens de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.”

 

Margaret Hale, ou Norte e Sul, é um romance escrito por Elizabeth Gaskell, publicado originalmente de forma seriada nos anos de 1854 e 1855. Esta edição lindíssima publicada pela Pedrazul Editora conserva o que seria o título “original” da obra, como nos informa a Editora Geral da Pedrazul, Chirlei Wandekoken: “Norte e Sul foi o título escolhido pelo seu editor pioneiro, o escritor londrino Charles Dickens, à época de sua publicação…”. (Nota da Editora)

 

Se Dickens, ao escolher Norte e Sul como título do romance, conseguiu influenciar e despertar um maior interesse do leitor da época, pelo sentido de oposição que tal título exprime, nunca saberemos. O importante é que, independente do título, a história que gira em torno de Margaret Hale é apaixonante e conquista muitos fãs até hoje.

Começamos com Margaret retornando à casa de seus pais depois de uma longa temporada na casa da tia, Mrs. Shaw, onde foi companhia de sua prima Edith, até que esta se casa.

A família Hale vive em um presbitério na idílica Helstone, onde tudo é calmo, verde e lindo! Você lê e tem vontade de ir para lá; dá até para imaginar os pássaros cantando!

 

“Oh, não posso descrever meu lar. É meu lar, e não posso colocar seu encanto em palavras.” (p. 15)

 

Mas tudo muda quando eles passam a morar na cidade industrial de Milton. O lugar é cinza, com muitas fábricas e parece triste e insalubre comparado a Helstone. Nesse contexto, Margaret e sua família precisam adquirir novos hábitos e superar o choque cultural de lugares tão opostos.

Na cidade, Mr. Hale, anteriormente pároco, passa a ser professor de jovens cavalheiros. A partir daí conhecemos Mr. Thornton, um importante industrial da cidade. A amizade entre eles é natural e instantânea. Já para Margaret, saudosa do aristocrático sul, é um pouco mais difícil reconhecer as qualidades de Thornton e de sua cidade.

 

“Mr. Thornton era, talvez, o mais velho dos pupilos de Mr. Hale. Mas ele, certamente, era seu favorito. Mr. Hale adquiriu o hábito de citar as opiniões dele tão frequentemente, e com tanta consideração, que tornou-se uma pequena piada doméstica, imaginar quanto tempo, durante a hora apontada para a instrução, poderia ser dada ao absoluto aprendizado, já que tanto desse tempo parecia haver sido passado em conversação.” (p. 70)

 

“‘Não é orgulho da minha parte’, respondeu Mr. Thornton; ‘é o simples fato. Não negarei que sinto-me orgulhoso por pertencer a uma cidade – ou talvez deva dizer um condado – de cujas necessidades trouxeram à luz tais grandezas de concepção. Eu preferiria ser um homem labutando, sofrendo – ou melhor, falhando em sucesso – aqui, que levar uma próspera e monótona vida nos velhos entediantes redutos do que vocês chamam de sociedade aristocrática lá no Sul, com seus lentos dias de descuido e conforto. Pode-se ficar entupido com mel e incapaz de erguer-se e voar.’

‘o senhor está muito equivocado’, disse Margaret, desperta pela calúnia ao seu amado Sul e sendo levada a defendê-lo apaixonadamente, trazendo cor às suas bochechas e lágrimas raivosas aos seus olhos. ‘O senhor não sabe nada sobre o Sul. Se há menos aventuras ou menos progresso – suponho que não devo dizer menos excitação – provocados pelo espírito apostador do comércio, que parece requisito para forçar a criação destas maravilhosas invenções, há menos sofrimento também. Vejo homens aqui andando pelas ruas olhando para o chão, derrotados por algum lamento opressor ou preocupação – que não apenas sofrem, mas também odeiam. Agora, no Sul temos nossos pobres, mas não há aquela terrível expressão em seus semblantes de um doloroso senso de injustiça que eu vejo aqui. O senhor não conhece o Sul, Mr. Thornton’, ela concluiu, caindo em um silêncio determinado, e com raiva de si mesma por haver dito tanto.

‘E devo dizer que a senhorita não conhece o Norte?’, perguntou ele, com uma inexprimível gentileza no tom, já que ele percebera que a magoara.” (p. 82)

 

O que dizer de Mr. Thornton? É um personagem apaixonante! Honesto e sincero, desde o início percebemos os seus sentimentos e aflições, pois ele não os nega.

 

“Hei de me colocar aos pés dela, preciso fazê-lo. Se houvesse uma chance em mil, ou em um milhão… eu o faria.” (p. 190) 

 

No meu caso, a leitura deste livro já estava sugestionada pelos comentários (e suspiros) sobre o casal Margaret e Mr. Thornton, mas o romance de Elizabeth Gaskell é muito mais que uma simples história de amor. Aqui temos também uma narrativa riquíssima sobre a revolução industrial, as condições trabalhistas da época, o início da organização sindical, greves e também sobre especulação financeira. Mr. Higgins e sua família formam um núcleo importantíssimo que exemplifica a situação das famílias pobres que viviam do trabalho árduo e insalubre que conseguiam nas fábricas.

Li com muitas expectativas e todas elas foram superadas! A história é maravilhosa, daquelas que você sente falta quando termina a leitura.

 

 

 

Título: Margaret Hale (Norte e Sul)
Autora: Elizabeth Gaskell
Tradução: Gabriela Alcoforado
Editora: Pedrazul
Páginas: 428

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

 

 

 

fevereiro 03, 2016

[RESENHA] O CHALÉ DE MOORLAND E LIZZIE LEIGH, DE ELIZABETH GASKELL

Sinopse: “Ambientando nas charnecas inglesas, O Chalé de Moorland é a história dos pobres irmãos, Maggie e Edward Browne, completamente diferentes entre si, e de Frank Buxton, um rico herdeiro de Combehurst. A gentil Maggie é devotada a Edward e o trata com todo amor, mas ele é arrogante e egoísta. Um romance comovente e encantador que vai emocionar o leitor.
Lizzie Leigh narra o drama de Lizzie, uma jovem ‘perdida’ em Manchester, Inglaterra, e o amor de Will pela dócil Susan Palmer. Numa tradução de Andrea Carvalho, duas adoráveis histórias com as marcantes  características de uma das maiores contadoras de histórias da era vitoriana, Elizabeth Gaskell”

 

A Pedrazul Editora publicou O Chalé de Moorland em uma edição lindíssima que também traz o conto Lizzie Leigh. As histórias foram publicadas originalmente em 1850 e 1855, respectivamente, e são de autoria de Elizabeth Gaskell.

O Chalé de Moorland conta a história dos irmãos Maggie e Eduard Browne, que vivem com a mãe, viúva do pároco auxiliar de Combehust. Maggie é negligenciada pela mãe em favor de seu irmão, que desde muito jovem demonstra ser de caráter duvidoso.

O falecido Sr. Browne foi amigo de longa data do Sr. Buxton. Pela amizade e memória do velho amigo, ele oferece a Eduard a possibilidade de se instruir em uma escola. A partir daí as famílias ficam ainda mais próximas e os Browne passam a ser visita habitual na residência dos Buxton.

O Sr. Buxton tem um filho, Frank, e cuida de sua sobrinha Ermínia, que são mais ou menos da mesma idade de Eduard e Maggie. Eduard não consegue estabelecer laços de amizade com Frank ou Ermínia, muito por conta de seu caráter egocêntrico, mas também por estar sempre destratando a irmã. Já Maggie, com sua doçura, torna-se grande amiga de Ermínia e conquista a simpatia de Frank.

 

“Frank e Eduard pareciam ter certa antipatia um pelo outro, e a frieza entre eles mais crescia do que diminuía com os esforços do Sr. Buxton para aproximá-los. ‘Frank, meu rapaz’, disse ele. ‘Não seja tão duro com Ned. Seu pai era um amigo querido, e meu coração está determinado a vê-los amigos. Você terá o poder de ajudá-lo no mundo.’ Mas Frank respondeu: ‘Ele não é muito honrado, senhor. Não posso suportar um menino que não é honrado.’” (p. 41)

 

Maggie também conquista a afeição da Sra. Buxton, que vive reclusa por motivo de doença. A menina transforma-se em uma agradável companhia e distração para ela.

 

“Verões e invernos começaram e terminaram com pouco para marcá-los, exceto o crescimento das árvores e o progresso silencioso de jovens criaturas.” (p. 42)

 

Algum tempo se passa, todos tiveram a oportunidade de se instruir em algum outro lugar, menos Maggie. Ainda assim ela transforma-se em uma bela moça. Suas qualidades permanecem as mesmas, apesar de tão dura vida.

Ela e Frank se apaixonam. Um amor que para ser vivido terá que superar muitas adversidades. Maggie terá de escolher entre o amor e a família, numa história de muito drama e reviravoltas.

 

“Não era a brusquidão de sua vinda – era a brusquidão de seu próprio coração, que saltava com os sentimentos despertados provocados pelas palavras dele.”

“A água transbordava pelo jarro esquecido. Finalmente ela lembrou de suas tarefas, levantou o pote e teria corrido para casa, mas Frank, de forma decidida, tirou-o dela. ‘De hoje em diante’, disse ele, ‘tenho o direito de carregar seus fardos’”. (p.57)

 

O Chalé de Moorland é uma história pequena em páginas, mas grande em conteúdo. Maggie tem uma retidão de pensamento tão grande que até incomoda! É difícil encontrar uma pessoa assim, com tamanha doçura e amor incondicional a família.

 

 

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Lizzie Leigh

Na mesma edição de O Chalé de Moorland, temos o conto Lizzie Leigh. A história é curtinha, apenas 40 páginas, mas não se engane: ela pode lhe fazer derramar muitas lágrimas.

A história começa em um momento delicado, com a morte de James Leigh na manhã de Natal. Suas últimas palavras, foram em desabafo para a esposa:

“Eu a perdoo, Annie! E que Deus também me perdoe!” (p. 139)

 

A partir destas palavras um sentimento e uma vontade que há muito estavam contidos no coração da Sra. Leigh vêm a tona. A família se muda para Manchester para que Anne Leigh possa encontrar a sua filha, Lizzie, de quem há muito tempo não tem notícias. Na cidade, a família terá lições de amor, amizade perdão e caridade.

 

“Mas aquelas últimas palavras abençoadas colocaram-no de volta em seu trono no coração da esposa e despertaram uma agonia penitente por toda a amarga desavença dos últimos anos. Foi isso que a fez recusar todos os apelos de seus filhos para que fosse ver os gentis vizinhos que a chamavam ao voltarem da igreja para compadecer-se e dar-lhe os pêsames. Não! Ela ficaria com o marido morto que, depois de três anos de silêncio, havia finalmente lhe falado carinhosamente – quem sabe, se ela houvesse sido mais gentil e menos irritadiça e reservada, ele teria cedido antes e a tempo?”(p. 40)

 

Lizzie Leigh é uma linda história e vai lhe emocionar! Em poucas páginas Gaskell transmite uma profusão de sentimentos.

 

 

Título: O Chalé de Moorland / Lizzie Leigh
Autora: Elizabeth Gaskell
Tradução: Andrea Carvalho
Editora: Pedrazul
Páginas: 179

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

 

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