agosto 14, 2016

[RESENHA] OS MISTÉRIOS DE UDOLPHO, DE ANN RADCLIFFE (VOL. II)

Sinopse: “Fora de Udolpho, Emily St. Aubert conhece Lady Blanche, a filha do Conde de Villefort, o nobre que herdou a propriedade do Marquês de Villeroi, situada perto do monastério de Santa Clara, em Languedoc, na França. Através dele, Emily toma conhecimento de segredos envolvendo Valancourt. No assombrado Chateau-le-Blanc, Emily percebe a assustadora semelhança entre ela própria e a Marquesa de Villeroi, o que a leva a desconfiar de uma estreita ligação entre seu pai e a misteriosa Lady. Documentos, que Monsieur St. Aubert havia mandado queimar, poderiam revelar o passado da marquesa e de Lady Laurentini, aquela que tanto havia impressionado Emily; o seu desaparecimento de Udolpho; a aparição sob o véu negro, segredos guardados há anos. Em meio a tudo isso, a volta de Valancourt e o retorno a La Valée.”

 

 

Veja a resenha de Os Mistérios de Udolpho, Vol. I aqui.

 

A situação da nossa heroína, Emily St. Aubert, não é das melhores ao final do volume I de Os Mistérios de Udolpho: Encarcerada no macabro castelo, sofre com terrores possivelmente sobrenaturais, armações por parte do Signor Montoni, que deseja a qualquer custo roubar a herança de Madame Montoni já prometida a jovem, dentre outras aflições. A tia de Emily foi aprisionada em uma parte isolada do castelo de Udolpho, sem água ou comida, em represália por não ter dado o seu dinheiro ao marido. Emily não tem certeza se sua ela está viva ou morta e sofre por se sentir cada vez mais distante de seu amado, Monsieur Valancourt.

Confesso que tive dúvidas se a história manteria o ritmo do volume anterior, pois muita coisa já havia acontecido. Felizmente, Ann Radcliffe possuía várias cartas ainda em sua manga, com muitos mistérios e situações para explicar.

Udolpho é tão macabro que qualquer barulho é considerado como algo sobrenatural, causando gritaria, confusão e, obviamente, desmaios. Emily, embora pareça uma moça frágil, precisou ter muita coragem, enfrentando os seus medos para saber da tia, além de pensar em alguma forma de escapar das garras de Montoni e seus caprichos.

A jovem logo descobre que Madame Montoni não está morta. Não ainda. Com ajuda de Annette, sua fiel criada, ela descobre o cativeiro da tia. Mesmo castigada e abandonada a própria sorte para morrer, Madame Montoni não satisfez os caprichos do marido, deixando todo o seu dinheiro para a sobrinha.

 

““Onde você esteve por tanto tempo?”, perguntou ela no mesmo tom. “Eu pensei que você tinha me abandonado.”

Você está mesmo viva”, disse Emily, finalmente, “ou isto é só uma aparição terrível?”, ela não recebeu resposta alguma, e novamente pegou a mão.

Isto é substância”, ela exclamou, “mas está fria… fria como mármore!” Ela a deixou cair. “Oh, se você está realmente viva, fale!”, disse Emily numa voz de desespero, “para que eu não perca os meus sentidos. Diga que você me conhece!”

Eu estou mesmo viva”, respondeu Madame Montoni, “mas, eu sinto que estou prestes a morrer”.” (p. 30)

Quando Montoni soube da morte de sua esposa, e considerou que ela havia morrido sem dar a ele a assinatura tão necessária para alcançar seus desejos, nenhum senso de decência restringiu a expressão do seu ressentimento. Emily evitou sua presença ansiosamente e ficou de vigia durante dois dias e duas noites, com poucos intervalos, ao lado do corpo de sua tia falecida.” (p. 40)

 

Signor Montoni vai manter Emily em Udolpho, mesmo após a morte de Madame Montoni, praticamente como uma prisioneira, pois almeja roubar-lhe todo o dinheiro.

 

““Julgando como eu”, continuou Montoni, “não posso acreditar que você vá se opor em questões que sabe não poder ganhar, ou de fato, que você queira ganhar, ou ter avareza por qualquer propriedade, quando não tem a justiça do seu lado. Contudo, eu acho que é apropriado lhe informar da alternativa. Se você tiver uma opinião justa quanto ao assunto em questão, você será levada em segurança para a França dentro de pouco tempo; mas, se for tão infeliz a ponto de ser enganada pela afirmação recente da Signora, você continuará sendo minha prisioneira até se convencer do seu erro”.

Emily disse calmamente:

Eu não sou tão ignorante, Signor, quanto às leis, neste assunto, a ponto de ser enganada por afirmações de qualquer pessoa. A lei, nesta instância presente, dá-me as propriedades em questão e a minha própria mão nunca trairá o meu direito.”” (p. 44)

““Assine os documentos”, disse Montoni, mais impacientemente do que antes.

Nunca, senhor”, respondeu Emily; “esse pedido teria provado para mim a injustiça de sua reivindicação, se eu estivesse ignorante quanto aos meus direitos”.

Montoni ficou pálido de raiva, enquanto o seu lábio tremendo e seu olhar à espreita quase a fizeram se arrepender da audácia de seu discurso.

Então, toda a minha vingança cairá sobre você”, ele exclamou, com um juramento terrível. “E não pense que ela será adiada. Nem as propriedades em Languedoc, nem as de Gasconha serão suas; você ousou questionar o meu direito. Ouse questionar o meu poder agora. Eu tenho uma punição que você não imagina; ela é terrível!”” (p. 56 e 57)

O vilão, que está sempre envolvido com alguma falcatrua para enriquecer, tem o castelo atacado por inimigos, pouco depois da morte de sua esposa. A situação, em parte, foi boa para Emily, que pôde sair um pouco de Udolpho, embora na condição de protegida do Signor. Neste ínterim, ela precisava descobrir a identidade de um dos prisioneiros do castelo, que ela acreditava esperançosamente ser o seu amado Valancourt.

 

Enquanto ela olhava, com essas emoções, para as torres do castelo, subindo sobre a floresta, por entre a qual ela serpenteava, o estranho, que ela acreditava estar preso lá, voltou à sua memória, e a ansiedade e o medo que ele fosse Valancourt passaram sobre a sua felicidade como uma nuvem. Ela relembrou cada circunstância sobre essa pessoa desconhecida desde a noite em que ela o ouviu tocar a canção de sua província natal pela primeira vez; circunstâncias que ela já havia relembrado e comparado antes, sem extrair delas nada perto de convicção, e que só a faziam acreditar que Valancourt era um prisioneiro em Udolpho. Era possível, contudo, que os homens que a conduziam pudessem dar-lhe informações sobre esse assunto; mas, temendo questioná-los imediatamente, com receio de que eles não quisessem contar nada para ela na presença dos outros, ela esperou por uma oportunidade de falar com eles separadamente.” (p. 62)

Após o conflito, Emily volta para Udolpho, pois Montoni a quer bem debaixo de seu nariz, pelo menos até conseguir todo o dinheiro da moça. Na esperança de voltar para França, a jovem fraqueja e cede às ameaças do Signor.

 

Ela foi incapaz de assiná-lo por um tempo considerável e seu coração estava dividido com interesses opostos, pois estava prestes a desistir da felicidade de todos os anos de seu futuro: a esperança que a havia sustentado durante tantos momentos de adversidade.

Após ouvir de Montoni uma recapitulação das condições da aceitação e uma demonstração de que o seu tempo era valioso, ela colocou sua mão no papel; quando o fez, caiu para trás em sua cadeira, mas, logo, recuperou-se e pediu para que ele desse ordens para a partida dela e que deixasse que Annette a acompanhasse. Montoni sorriu. “Foi preciso lhe enganar”, disse ele, “não havia outra maneira de fazer com que você agisse racionalmente; você irá, mas isto não será no presente. Primeiro eu devo garantir essas propriedades tomando posse; quando isso for feito, você poderá voltar para a França, se quiser.”” (p. 94)

 

O mistério sobre o tal prisioneiro é revelado, frustrando as expectativas de Emily a princípio. Contudo, o homem misterioso será a passagem da jovem de volta a França, longe do Signor Montoni e do castelo de Udolpho.

 

““Meu nome é Du Pont; eu sou da França, da Gasconha, a sua província natal, e tenho lhe admirado há muito tempo, e, por que eu deveria tentar esconder isso? Eu tenho lhe amado a muito tempo.”” (p. 104)

 

De volta a seu país de origem, é hora de sabermos os mistérios que envolvem outra propriedade, e que podem ter ligação direta com Emily: o Chateau-le-Blanc, antigo lar da Marquesa de Villeroi, a qual Emily guarda absurda semelhança. Haveria alguma relação entre o falecido pai de Emily e a Marquesa? Seria a mesma dama pela qual Monsieur St. Aubert sofrera em lágrimas na solidão de seu quarto, há algum tempo?

Monsieur Valancourt, antes um dedicado e amoroso cavalheiro, reencontra Emily, mas já não é o mesmo de antes. Envolvera-se com mulheres e jogatinas em Paris, tendo sua reputação jogada na lama, influenciado por amigos, na ocasião da guerra.

 

Valancourt ficou mais agitado do que antes. “Eu sou indigno de você, Emily”, disse ele, “eu sou indigno de você”; palavras que, pela maneira que foram faladas, fizeram Emily ficar mais chocada com elas do que com o seu significado.” (p. 154)

““Oh, Valancourt!”, ela exclamava, “tendo sido separados por tanto tempo… nós nos encontramos só para ficarmos infelizes… só para nos despedirmos para sempre?”” (p. 159)

O casal precisará superar alguns obstáculos e mal entendidos para, finalmente, encontrarem a felicidade juntos. Antes disso, Emily ainda terá mais alguns segredos envolvendo sua família para serem revelados.

Os Mistérios de Udolpho é o tipo de livro que pode assustar pelo tamanho, mas é certeza de satisfação garantida. Quando pensamos já ter acontecido de tudo nas viagens e nos castelos, algo mais, acontece e prende a nossa atenção. Os personagens secundários surpreendem e os cenários são minuciosamente retratados, o que nos permite embarcar de forma mais realista possível nos acontecimentos. Um ponto negativo, talvez, em minha opinião, seja o casal Emily e Valancourt, que não são do tipo apaixonantes. Neste volume, inclusive, achei o rapaz um tanto quanto chato. Acredito que o personagem atendia aos padrões da época da publicação (1794) e com tantas aventuras e mistérios para desvendar, o romance dos dois acabou fazendo um papel secundário na obra. Como fã de Jane Austen, foi ótimo ter lido este livro em português e o considero como uma das publicações mais importantes da Pedrazul Editora até o momento. Como foi dito na resenha do volume I, Os Mistérios de Udolpho é item indispensável na estante dos fãs de literatura inglesa, sobretudo do fãs de Jane Austen.

 

 

Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 312

 

Compre pela Amazon: Os Mistérios De Udolpho – Vol. 2 e Os Mistérios De Udolpho – Vol. 1

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

maio 25, 2016

[RESENHA] OS MISTÉRIOS DE UDOLPHO, DE ANN RADCLIFFE (VOL. I)

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Sinopse: “Após a perda trágica de sua mãe, Emily St. Aubert e seu pai viajam pelo sul da França à procura de paz e consolo, onde conhecem Valancourt, um cavalheiro honrado e belo que logo conquista a confiança do Monsieur St. Aubert e o coração de Emily. A aventura tem um final inesperado que abala Emily profundamente ao trazer a dolorosa morte de seu pai, assim como pistas sobre a relação obscura dele com a falecida marquesa de Villeroi. Em seu retorno para casa como órfã, Emily foi lançada nas mãos de uma tia frívola e gananciosa, Madame Cheron, sob cuja guarda seu pai ingenuamente a confiara. Por causa da tia e suas conexões ela enfrenta vários obstáculos em oposição ao seu romance com Valancourt. O destino parece estar prestes a sorrir para Emily quando Madame Cheron, finalmente, descobre algo sobre a nobreza de Valancourt e dá sua permissão para o casamento dela com o cavalheiro. Emily, porém, perceberá que sua felicidade pode estar mais longe do que ela imagina quando o novo marido de sua tia, o misterioso Montoni, as obriga a ir com ele para a Itália em direção ao intrigante e macabro Castelo de Udolpho, um cenário que parece ter estreita ligação com o passado e também com a misteriosa Marquesa de Villeroi.”

 

“Na manhã seguinte, fez um dia lindo, e Catherine se preparou para novas investidas do grupo reunido. Os Tilneys vieram buscá-la na hora combinada; e como não surgiu nenhum novo obstáculo, nenhuma recordação súbita, nenhum chamamento inesperado, nenhuma intrusão impertinente para perturbar os seus planos, minha heroína, por incrível que pareça, pôde cumprir seu compromisso, embora com o próprio herói. Decidiram passear por Beechen Cliff, a nobre colina cuja bela vegetação de arbustos suspensos fazia dela um objeto tão impressionante quando vista de Bath.

– Nunca olhei para lá – disse Catherine, ao caminharem às margens do rio sem pensar no sul da França.

– Já viajou para o exterior, então? disse Henry, um pouco surpreso.

– Ah, não! Só me refiro ao que li a respeito de lá. Sempre me faz lembrar do país pelo qual Emily e seu pai viajaram, em Os Mistérios de Udolpho. Mas o senhor nunca lê romances, não é?

Por que não?

Por que eles não são inteligentes o bastante para o senhor… Os homens leem livros melhores.

Aquele que, homem ou mulher, não sente prazer na leitura de um bom romance deve ser insuportavelmente estúpido. Li todas as obras da sra. Radcliffe, e a maioria delas com grande prazer. Quando comecei a ler Os Mistérios de Udolpho, não conseguia largá-lo; lembro-me de que o li em dois dias… de cabelos arrepiados o tempo inteiro.”

(AUSTEN, Jane. A Abadia de Northanger. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 129)

 

O fragmento acima é apenas uma das passagens em que Os Mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe, é citado em A Abadia de Northanger (1818), de Jane Austen. Lembro-me de terminar a leitura do romance de Austen e ir logo pesquisar sobre Udolpho, pois ele havia não só sido muito bem recomendado pelos queridos personagens de A Abadia de Northanger, como também, obviamente, pela própria Jane Austen. O antigo desejo de ler a obra em português se tornou possível com a publicação de Os Mistérios de Udolpho pela Pedrazul Editora! Agora, todos nós podemos nos sentir como Catherine Moorland, com o coração disparado a cada página e a cada mistério!

A princípio, Udolpho é uma leitura que demora algumas páginas para deslanchar. Acho que isso se deve, em parte, pela ansiedade de conhecer o famoso castelo. Ficamos acostumados com Miss Moorland falando de Udolpho, mas a realidade é que demoramos um pouco para chegar lá. Quando conseguimos entrar no ritmo da história, entretanto, é impossível parar de ler! Trata-se de um romance riquíssimo em detalhes e em conteúdo, surpreendente a cada página!

O livro começa dando informações sobre a vida e o dia a dia da família St. Aubert. O ano é 1584 e o primeiro castelo que conhecemos é o de Monsieur St. Aubert, localizado nos agradáveis bancos do rio Garona, na província da Gasconha (p. 9). Nele, vivem Madame e Monsieur St. Aubert e também sua filha, Emily.

 

“Em pessoa, Emily lembrava sua mãe; tendo a mesma simetria elegante da forma, a mesma delicadeza das feições e os mesmos olhos azuis cheios de doçura terna. (…)

St. Aubert cultivava o discernimento dela com o cuidado mais escrupuloso. Ele a deu visão geral das ciências, e uma familiaridade exata com cada parte da literatura elegante. Ele a ensinou latim e inglês, principalmente para que ela pudesse compreender a sublimidade de seus melhores poetas. Ela descobriu em seus anos mais jovens um gosto pelas obras dos gênios; e foi o princípio de St. Aubert, assim como a sua inclinação, promover cada meio inocente de felicidade. ‘Uma mente bem informada’, ele dizia, ‘é a melhor segurança contra o contágio da insensatez e do vício. A mente vaga está sempre à procura de alívio, e pronta para mergulhar no erro, para escapar do langor da ociosidade. Carregue-a de ideias, ensine-a o prazer de pensar, e as tentações do mundo lá fora serão contrabalanceadas pelas gratificações derivadas do mundo de dentro. Pensamento e instrução são igualmente necessários à felicidade de uma vida no campo e uma vida na cidade; na primeira eles previnem as sensações inquietas da indolência, e fornecem um prazer sublime no gosto que criam pelo belo e o grandioso; na última, eles fazem a depravação ser menos um objeto de necessidade e, consequentemente, de interesse.‘” (p. 13)

 

Logo no início da história, Emily passa por sua primeira tragédia: a morte da mãe. Uma tristeza muito grande abateu a família St. Aubert, que já era bem pequena. Nessa ocasião, surge o primeiro mistério: Na tristeza de seu quarto, Monsieur St. Aubert buscou a imagem de uma dama, que estava guardada em uma caixa. Emily o viu observar o retrato com ternura, beijá-lo e o levar ao coração, com uma paixão tremenda. A jovem pôde observar que a mulher do retrato não era a sua mãe e ficou surpresa com tal fato. Vendo o sofrimento do pai, ela se retira silenciosamente de seu quarto e ele parece não perceber a presença da filha.

A saúde de Monsieur St. Aubert não estava nas melhores condições, principalmente levando em consideração o trauma recente. Seu médico lhe recomenda, então, uma viagem: o ar de Languedoc e da Provença poderiam lhe fazer retornar à sua melhor constituição. Sendo assim, ele e Emily saíram do castelo em viagem às margens do mediterrâneo, em direção à Provença.

Na viagem, conhecem Valancourt, que se apaixonará por Emily. A jovem, muito devido à preocupação com o estado de saúde de seu pai e também pela tristeza causada pela recente morte de sua mãe, inicialmente se mostra tímida e não dá muitos sinais de encorajamento ao rapaz. Este, contudo, parece adquirir os sentimentos mais profundos por Emily desde o momento que conhece a jovem. Mas, como cada qual tem o seu destino, Valancourt logo se despede dos St. Auberts, que prosseguem em busca do ar da Provença.

 

“Ele (M. St. Aubert) sentiu muito quando chegaram ao local onde as estradas se separavam, e seu coração se despediu mais afetuosamente dele do que é comum depois de um relacionamento tão curto. Valancourt falou muito ao lado da carruagem; pareceu que ia embora mais de uma vez, mas ainda se demorava e parecia procurar ansiosamente por assuntos para a conversa a fim de justificar sua demora. Enquanto ia, St. Aubert o observou olhar para Emily com um olho sincero e pensativo, enquanto a carruagem seguia em frente. St. Aubert, por qualquer que fosse a razão, logo em seguida olhou pela janela, e viu Valancourt em pé na beira da estrada, se apoiando sobre a sua lança com os braços cruzados, e seguindo a carruagem com os olhos. Ele acenou, e Valancourt, parecendo ter acordado de seus devaneios, retornou a saudação, e se afastou apressadamente.” (p. 42)

O leitor vai perceber que nem tudo serão flores e galanteios na vida da jovem Emily: seu pai morre no meio da viagem, longe de casa, na cama de estranhos que lhe permitiram a estada, pois não havia nenhum outro lugar em que ele pudesse ficar. Percebendo que seus últimos momentos estavam próximos, M. St. Aubert faz Emily lhe prometer que quando voltar para casa pegará uns papeis que estão em seu escritório, escondidos debaixo de uma tábua, e que vai queimá-los sem ver do que trata o conteúdo. Mesmo surpresa com o pedido, Emily promete ao pai que vai cumprir com o que ele pediu, de acordo com as suas orientações.

Órfã, Emily foi posta aos cuidados da tia, Madame Cheron. A partir daí a história, em minha opinião, deslancha. Foi nessa parte que eu já não conseguia mais sair de casa sem levar o meu Udolpho! Madame Cheron é uma mulher mesquinha e insensível desde as primeiras páginas. Não lembra em nada o irmão, inclusive justifica sua postura sugerindo que M. St. Aubert teria sido um homem fraco ao longo da vida e que lhe destinou uma tarefa muito ingrata após a morte, cuidar da sobrinha praticamente adulta.

Madame Cheron, ao chegar a La Valée, se irrita profundamente ao encontrar Valancourt conversando com sua sobrinha. Ela faz julgamentos precipitados sem conhecer o rapaz e o caráter de Emily, o que deixa a jovem bastante triste, contudo, preparada para o que pode vir. Sua tia é enfática, quer partir o mais rápido possível para Toulouse e a Emily só resta se despedir do castelo onde viveu com sua falecida família.

 

“E quem é este jovem aventureiro, diga-me?’, perguntou Madame Cheron, ‘e quais as intenções dele?’ Emily respondeu: ‘isso ele mesmo deve explicar, senhora, meu pai não era ignorante quanto à família dele e eu acredito que ela seja irrepreensível’. (…)

‘Eu lamento perceber, sobrinha’, disse ela, aludindo a algo que Emily havia dito sobre fisionomia, ‘que você herdou muitos dos preconceitos de seu pai, e dentre eles aquela predileção repentina pelas pessoas por causa da aparência delas. Eu posso ver que você acha que está apaixonada violentamente por aquele jovem aventureiro, após conhecê-lo por apenas alguns dias. Também havia algo tão encantadoramente romântico na maneira do encontro de vocês’.

Emilyconteve as lágrimas que caíram de seus olhos enquanto falava: ‘quando a minha conduta merecer tal severidade, senhora, você fará bem em exercê-la; até lá a justiça, senão a ternura, deveria restringi-la. Eu nunca a ofendi deliberadamente; agora que perdi meus pais a senhora é a única pessoa de quem eu posso esperar bondade. Não me faça lamentar mais do que nunca a perda desses pais.‘” (ps. 111 e 112)

 

Emily fica totalmente à mercê de Madame Cheron, de seus humores e vontades. A vida da jovem não vai ser nada fácil junto da tia, que faz o papel da típica madrasta má, embora seja irmã do pai de Emily. 

“‘Estou contente por me encontrar em minha própria casa de novo’, disse ela, jogando-se em um grande divã, ‘e por ter minha própria criadagem à minha volta. Eu odeio viajar; embora, é claro, eu devesse gostar disso, pois o que vejo lá fora sempre me deixa maravilhada, ao voltar para o meu próprio castelo. O que lhe deixou tão silenciosa, criança? O que é que está lhe incomodando agora?'” (p. 117)

 

Pouco tempo depois somos apresentados ao personagem que nos deixa de cabelos arrepiados, como disse Mr. Tilney, em A Abadia de Northanger: Signor Montoni. Sedutor e misterioso, o italiano se torna amante de Madame Cheron e para a surpresa de Emily, casa-se com sua tia de uma hora para outra, sem que ninguém além do casal soubesse dos planos de matrimônio.

“Emily mal havia entrado no vestíbulo quando observou, com surpresa, o abatimento no rosto de sua tia, e a alegria contrastante de seu vestido. ‘Então, sobrinha!‘, disse, e ela parou com algum grau de constrangimento. ‘Eu a chamei… eu… eu queria vê-la; tenho notícias para lhe dar. A partir deste momento você deve considerar o Signor Montoni seu tio, nós nos casamos esta manhã.'” (p. 138)

 

Se, até o momento, a vida de Emily não estava das mais tranquilas, embora sua tia tenha permitido o seu noivado com Valancourt, depois de descobrir um parentesco entre ele e uma (rica) conhecida sua, Madame Clairval, as coisas ficariam ainda piores. Com o casamento, todos os assuntos da agora Madame Montoni e de sua sobrinha e protegida Emily viraram assunto do Signor Montoni! Depois do casamento, ele se tornou uma pessoa impraticável e apenas a sua vontade seria levada em conta. Emily, que pouco podia decidir sobre a sua vida, agora perdera o direito a qualquer reivindicação. Madame Montoni, que inicialmente concordava com todas as opiniões do marido, sua vida se transformar em um inferno a partir do momento em que todos deixam a França e se mudam para a Itália, principalmente quando chegam ao castelo de Udolpho.

 

“Apenas algumas semanas haviam decorrido desde o casamento, quando Madame Montoni informou Emily que o Signor pretendia retornar à Itália tão logo os preparativos necessários à viagem fossem feitos. ‘Nós iremos para Veneza’, disse ela, ‘onde o Signortem uma bela mansão, e de lá para a propriedade dele na Toscana. Por que você está tão grave, criança? Você que é apaixonada pelo interior romântico e por belas vistas, sem dúvida ficará encantada com essa jornada.

‘Então eu deverei fazer parte do grupo, senhora?’, disse Emily, com surpresa e emoção extremas. ‘Certamente’, respondeu sua tia, ‘como você pode imaginar que nós a deixaríamos para trás? Mas eu vejo que você está pensando no cavalheiro; ele ainda não foi informado da viagem, creio eu, mas logo ele será. SignorMontoni foi informar Madame Clairval de nossa jornada, e dizer que não se deverá pensar mais na conexão proposta entre as famílias, de agora em diante.‘” (p. 140)

“Mas Montoni, que havia sido atraído pela aparente fortuna de Madame Cheron, agora estava severamente desapontado com a sua pobreza relativa e altamente irritado com a enganação que ela havia empregado para escondê-la, até que esconder não fosse mais necessário. Ele havia sido enganado quando pretendia ser o enganador; superado pela astúcia superior de uma mulher, cujo discernimento ele desprezava, e por quem ele havia sacrificado o seu orgulho e a sua liberdade, sem se salvar da ruína que agora pendia sobre a sua cabeça.” (p. 183)

 

Signor Montoni garantirá momentos de suspense e terror para Emily, sua tia e para nós, leitrores de Udolpho! Quando chegamos ao final do volume 1 e percebemos que ainda tem muita história e mistérios pela frente, fica impossível não partir imediatamente para a leitura do volume 2! Os Mistérios de Udolpho superaram todas as minhas expectativas, foi uma ótima leitura, que recomendo a todos, especialmente para os fãs de Jane Austen. Para estes, é item obrigatório para ter na estante!  

 

 

 

Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 316

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

[ATUALIZAÇÃO] Veja a resenha de Os Mistérios de Udolpho Vol. II aqui!

 

março 18, 2016

[RESENHA] UM CORAÇÃO PARA MILTON, DE TRUDY BRASURE

Sinopse: “No século XIX, em meio a Revolução Industrial, um amor em meio ao caos. Margaret Hale e Mr. Thornton. Após a morte de seus pais, Margaret está de partida para Londres com sua tia, Mrs Shaw, mas um livro precisa ser entregue a Mr. Thornton das fábricas Marlborough, uma recordação de Mr. Hale para seu mais querido pupilo. Na despedida, em frente à Mrs Thornton, Margaret entrega o livro ao industrial. Ele, numa tentativa desesperada de impedir sua partida, diz que também tem algo para ela e lhe entrega outro livro, dentro dele, uma nota escrita às pressas. Margaret olha o volume, cujo conteúdo narrava os movimentos mercantis e os negócios na Europa, mas o aceita. Uma carruagem pelas movimentadas ruas de Milton; um cavaleiro enfrenta a neve em busca de um coração que pertence a ele e a Milton; uma aparição apaixonada na estação; e o retorno a Helstone. A vida de John e Margaret Thornton contada por uma por uma bisneta do casal. Um coração para Milton traz de volta todos os ricos personagens de Margaret Hale (Norte e Sul), de Elizabeth Gaskell: Nicholas Higgins, Hannah Thornton, Henry Lennox e muitos outros num romance histórico de amor e esperança.”

 

Um Coração para Milton, escrito por Trudy Brasure e publicado recentemente pela Pedrazul Editora, se propõe a ser uma continuação do clássico de Elizabeth Gaskell, Norte e Sul (1855). Muitas pessoas têm resistência em ler esse tipo de livro, mas existem muitos títulos dignos de nota e Um Coração para Milton é um deles.

Voltar a este enredo é, para grande parte dos admiradores de Norte e Sul, relembrar o romance entre John Thornton e Margareth Hale. Mr. Thornton é um dos meus personagens favoritos da literatura clássica inglesa! Desde a primeira leitura do romance de Elizabeth Gaskell, o vejo como um homem a frente de seu tempo: reconhece os próprios sentimentos, é sincero e honesto, não faz joguinhos e não se considera superior às outras pessoas. É de formação humilde, trabalhou muito desde a infância e isso moldou positivamente o seu caráter. Particularmente, me ganhou desde a seguinte fala, em Margareth Hale (Norte e Sul):

“Hei de me colocar aos pés dela, preciso fazê-lo. Se houvesse uma chance em mil, ou em um milhão… eu o faria.” 

(GASKELL, Elizabeth. Margareth Hale (Norte e Sul). Pedrazul Editora, 2015. p. 190) 

 

Margareth passa por muitas situações difíceis em sua vida e termina o livro com a promessa de felicidade junto ao seu amado Mr. Tornton. Sob o pano de fundo da revolução industrial, o romance de Elizabeth Gaskell, muito talvez pela época de sua publicação, nos deixa essa lacuna sobre como seria a vida conjugal desses personagens tão apaixonantes. Agora, mais que só na imaginação, podemos ler essa história de amor em Um Coração para Milton.

Com leves alterações no enredo de Gaskell, Trudy Brasure nos conta os detalhes da vida amorosa do casal John Tornton e Margareth Hale, e também de outros personagens importantes de Norte e Sul, como Nicholas Higgins, Mrs. Tornton e Dixon, por exemplo.

Em 1929, na Mansão Helstone, Arabella Sheppard, neta mais nova de Sophie Thornton Langford, encontra algumas cartas em uma caixa cuidadosamente guardada por sua avó. Eram as cartas que o bisavô, John Thornton, houvera escrito para a sua amada, Margareth, há muito tempo. Dentre as missivas, um bilhete foi a mensagem fundamental para a felicidade dos dois. A partir daí, a senhora conta para a sua neta uma história de amor eterno…

Mr. Hale havia falecido e Margareth estava prestes a se mudar para Londres, onde viveria com sua tia Shaw. Em Marlborough Mills, ao se despedir da família Thornton, John percebe que pode ter havido alguma mudança nos sentimentos de Margareth, que outrora o rejeitara. Ela parecia triste por deixar Milton, disse até que havia aprendido a amar a cidade. Margareth lhe dá um volume da obra de Platão, que era de seu pai, e John, aproveitando a oportunidade, lhe dá A Economia do Algodão, com uma nota sua para a jovem:

“Se houve alguma mudança em seus sentimentos, me dê apenas um sinal. Meu coração permanece eternamente seu.

John Thornton.” (prólogo)

 

Felizmente, Margareth consegue ler o bilhete antes de deixar a cidade e com a ajuda de seu amigo, Mr. Higgins, envia um recado para Thornton: seu coração pertencia a Milton. Mr. Thornton consegue alcançar Margareth e sua tia na estação e um noivado é habilmente firmado entre os dois. Só precisariam esperar algumas semanas até o casamento.

A princípio, como era de se esperar, nem Mrs. Shaw nem Mrs. Thornton viram com bons olhos a união dos dois. Mrs. Shaw acreditava que a sobrinha não estava com a cabeça no lugar depois de ter passado por tantas tristezas. Mrs. Thornton não tinha certeza se Margareth seria uma boa companheira para seu filho e no fundo ainda estava ressentida com a negativa da moça quando o Master de Marlborough Mills a pediu em casamento pela primeira vez. O próprio casal tinha dúvidas se o sentimento entre ambos era correspondido da mesma forma. O noivado de três semanas, em que Margareth morou em Londres, pôde tirar parte dessas dúvidas e nos fazer suspirar com tamanho romantismo entre os dois.

“Eu acordo todas as manhãs pensando em você e encontro minha mente peregrinando constantemente atraída para sua imagem. Você acreditará em mim agora se eu disser que te amo? Eu nunca senti tais sentimentos antes – você, somente, tem o poder de afetar-me desta maneira.

Desejo voltar para Milton, para onde eu pertenço, para que nós não precisemos mais ficarmos separados. Até lá, eu espero, ansiosamente, que você me visite em Londres, para que possa cumprir seu desejo, e que eu possa sentir seus fortes braços em torno de mim.

Com todo meu amor e afeição,

Verdadeiramente sua,

Margareth.” (p. 91)

 

Foi lindo ver todo o envolvimento de John e Margareth, um amor verdadeiro e sincero, que construiu uma bela família. O casal conquistou muitas coisas, mas sem nunca deixar de lado as suas convicções. Aqui, o romantismo é o foco, em sua versão mais bela e delicada.

“ – Eu te amo – John conseguiu dizer, sua voz vacilando de emoção. Quão exíguas as palavras pareciam em sua tentativa de expressar tudo que ele sentia por ela. Precisaria de toda uma vida, pensou, para fazê-la entender.” (p. 184)

 

“ – Venha, dance comigo – ele convidou em um tom tranquilizador, situando a mão na parte estreita de suas costas e mantendo a mão erguida para que ela o aceitasse.

O semblante melancólico da jovem se animou um pouco, quando ela ergueu o olhar para encontrar o do marido. Margareth hesitou por um momento, olhando na direção da porta para assegurar que estavam sozinhos.

– Só por um momento – ele gentilmente atraiu e sorriu quando ela, lentamente, colocou uma mão em seu ombro e a outra na mão que a esperava.

Eles se moveram em perfeita harmonia pelo aposento assombreado, o ritmo da música fluindo por entre eles, para criar em seus membros e pés o registro de uma força que ia além de si mesmos – expressando algo espantosamente belo com uma facilidade que lhes era inerente. Cativados pelo jubiloso regozijo de seus movimentos sincronizados, o mundo se tornara um borrão. Eles contemplaram por um momento a sublime razão para estarem vivos – um amor que punha tudo em movimento e transformava sua existência terrestre em uma sinfonia de contentamento.” (p. 243)

 

Apesar de Um Coração para Milton ser mais centrado no casal John e Margareth, foi muito bom também ver a evolução dos outros personagens próximos ao casal, especialmente Mrs. Thornton, que se torna amiga de Margareth, e Mr. Higgins, que firmou em definitivo uma grande amizade com a família Thornton e cresceu profissionalmente.

Trudy Brasure fez um ótimo trabalho com essa história! A cada página, lembro-me de pensar realmente, acho que aconteceria isso mesmo entre os dois. Desde o casamento simples em Helstone até as cenas mais sensuais, que não são nada vulgares, é bom ressaltar, em nenhum momento você deixa de acreditar na história. Um romance pós final feliz que consegue surpreender e tem as suas reviravoltas. Já está entre as minhas melhores leituras do ano e penso em reler em breve!

Um Coração para Milton é o tipo de livro que te deixa suspirando por um bom tempo. Se você está precisando de uma leitura que aqueça o seu coração, essa é uma ótima pedida!

 

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Título: Um Coração para Milton
Autora: Trudy Brasure
Tradução: Tully Ehlers
Editora: Pedrazul
Páginas: 400

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