setembro 29, 2016

[RESENHA] ESPOSAS E FILHAS, DE ELIZABETH GASKELL

Sinopse: “Inglaterra provincial, 1830. Molly Gibson, filha única de um médico viúvo, é negligenciada por Miss Clare, ex-governanta. Sete anos depois, Molly é uma atraente jovem que desperta o interesse de um dos aprendizes de seu pai, Mr. Coxe. O afeto é descoberto, e Mr. Gibson envia a filha para ficar com os Hamleys, de Hamley Hall, uma família da pequena nobreza. Lá ela se torna amiga do Hamley mais novo, Mr. Roger. O filho mais velho da família, Osborne Hamley, um jovem bonito, inteligente e mais elegante do que seu irmão, é esperado para fazer um casamento brilhante após uma excelente carreira na Universidade de Cambridge. Porém, um grande segredo o envolve. Intrigas, mexericos, preconceitos, traições, tragédias e amor marcam este formidável romance considerado pela autora como Uma História Cotidiana.”

 

Elizabeth Gaskell é muito conhecida dentre os admiradores da literatura inglesa, especialmente pelo romance Margaret Hale (Norte e Sul). Quem conhece a história de Margaret e Mr. Thornton pensa que já leu o melhor da autora. Contudo, Esposas e Filhas, embora não tenha um personagem masculino tão marcante como John Thornton, possui um enredo riquíssimo e tem todas as qualidades para se tornar o novo favorito da autora na estante de muitos leitores.

O romance narra a história de Molly Gibson e também dos habitantes da cidade interiorana de Hollingford. Mrs. Gaskell, como assinava as suas obras, ficou famosa por detalhar com maestria as muitas camadas da sociedade da Inglaterra Vitoriana. Seus romances, inclusive, foram e continuam sendo fonte de pesquisa para historiadores sociais e para os leitores que gostam de saber mais sobre a cultura da época.

Não ensine muitas coisas a Molly. Ela deve saber costurar, ler, escrever e fazer cálculos, mas quero que continue sendo uma criança, e, se eu descobrir que ela precisa aprender mais do que o desejável, eu mesmo providenciarei. Afinal, não tenho certeza se ler e escrever sejam necessários. Muitas mulheres de boas condições casam-se usando um ‘X’ ao invés do nome. Isto é mais para uma dissolução do juízo materno. Contudo, devemos nos render aos danos da sociedade, Miss Eyre, então, você pode ensinar a menina a ler.” (ps. 30 e 31)

 

Molly, em visita à mansão de Towers, quando ainda criança, passa por uma situação desagradável durante o passeio: adormece e é negligenciada por Clare, antiga governanta das crianças da mansão, que esquece de acordar a menina a tempo de ir para casa quando todos os convidados já haviam ido embora. Mal sabia a garota que o destino das duas se cruzaria novamente, alguns anos depois.

Mr. Gibson, pai de Molly e médico de Hollingford, recebe em sua casa alguns estudantes a fim de lhes ensinar o ofício da medicina. Com sua filha tornando-se moça, ele se preocupa com as investidas de um de seus alunos e decide enviar Molly para passar algum tempo com a família Hamley.

Na casa dos Hamleys, Molly estabelece uma grande amizade com o casal Hamley, sobretudo com Mrs. Hamley. A jovem torna-se como uma filha para a senhora, que possui uma saúde frágil. O fazendeiro, Mr. Hamley, muito amigo de Mr. Gibson, também nutre uma forte afeição pela jovem, vendo o bem que ela faz a sua esposa. Todo esse afeto também se estende aos filhos do casal, Osborne e Roger, sendo este último objeto de um carinho mais especial por parte de Molly.

Ela sentiu que ele lhe fazia bem, mas não sabia como ou por quê. Depois de uma conversa com ele, sempre achava que tinha encontrado o caminho para a bondade e a paz, o que quer que acontecesse.” (p. 115)

 

Neste ínterim, percebendo que o mais adequado seria arrumar uma nova mãe para Molly, a fim de orientá-la e ajudá-la com os assuntos da mocidade, o médico decide se casar justamente com Mrs. Kirkpatrick, Clare, e assim formar uma nova família. Ela também é viúva e tem uma filha mais ou menos da idade de Molly, Cynthia.

Molly, a princípio, detesta a ideia de ver seu pai casando-se novamente, ainda mais com uma mulher por quem ela não tem muita simpatia. Contudo, por amor a ele e também por sua índole gentil, aceita o casamento e faz o possível para viver bem com a madrasta. O casamento, no final das contas, teve seu ponto positivo, pois Molly e Cynthia tornam-se grandes amigas, apesar da personalidade complicada da filha de Clare.

‘Eu gostaria de poder amar as pessoas como você, Molly!’

‘Você não pode?’, perguntou Molly com surpresa.

‘Não. Acredito que muitas pessoas me amam, ou pelo menos é o que penso, mas nunca me importo muito com ninguém. Acredito que amo mais você, Molly, que conheço a dez dias, mais do que a muitos.’” (p. 182)

 

Cynthia e sua mãe são personagens fascinantes. Não são essencialmente boas, mas também não posso dizer que são más. Nem mocinhas, nem vilãs. Mesmo Mrs. Gibson, com seu caráter duvidoso, não poderia assumir a máscara de vilã. Apenas dissimulada, ou, se pensarmos em como era a sociedade da época, uma sobrevivente, disposta a usar das artimanhas que fossem possíveis para conseguir atingir os seus objetivos.

Gaskell enfatiza o papel das mulheres em seus livros ao criar personagens femininas que fugiam do lugar comum. Em Esposas e Filhas podemos observar que todo o enredo é estruturado em torno das mulheres, as esposas e filhas de Hollingford, suas ações e convicções.

A autora faleceu em 12 de novembro de 1865, aos 55 anos, em decorrência de um ataque cardíaco. Seu último livro, Esposas e Filhas, que estava sendo publicado de forma seriada desde o mês de agosto de 1864, ficou inacabado. Nós podemos imaginar o destino dos personagens e o editor da Cornhill Magazine, Frederick Greenwood, fez algumas considerações sobre o que estaria reservado para o destino dos nossos queridos personagens, especialmente o de Molly e Roger. Confesso que ao chegar às últimas páginas senti uma grande melancolia, mesmo sabendo previamente que o livro havia ficado inacabado. Como leitora, imagino quantas histórias Mrs. Gaskell ainda seria capaz de escrever e como seria ótimo ler o final de Esposas e Filhas escrito por ela.

A história é interrompida aqui, e nunca será terminada. O que prometia ser a obra-prima de uma vida é um memorial da morte. (…) Mas, se a obra não foi terminada, pouco resta para ser adicionado e este pouco se reflete claramente em nossa imaginação.” (p. 533)

 

O romance foi adaptado pela BBC em 1999, mas a produção não é a das melhores feitas pela emissora britânica. Quem, como eu, assistiu a série antes de ler o livro, fica com a impressão de que a história é razoavelmente boa. Nada mais do que isso. Mas não é verdade! A produção deixou muitas lacunas e, depois de ler o romance, tenho minhas dúvidas quanto a escolha do elenco (embora possua grandes nomes da teledramaturgia britânica). O positivo de assistir Wives and Daughters é, certamente, ver o final da história, pois ele consegue corresponder às nossas expectativas.

Esposas e Filhas da Pedrazul Editora conta com as lindíssimas ilustrações de George Du Marrier, presentes na publicação seriada e na primeira edição do livro. Para quem gosta de uma boa história, o romance é uma ótima pedida: cada página é um deleite e cada capítulo nos faz querer ler o próximo imediatamente. Amores, segredos e a vida na sociedade vitoriana, um verdadeiro clássico indispensável da literatura inglesa.

 

Título: Esposas e Filhas

Autora: Elizabeth Gaskell

Tradução: Ellen Cristina Bussaglia

Editora: Pedrazul

Páginas: 540

REFERÊNCIA

http://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Gaskell

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

agosto 14, 2016

[RESENHA] OS MISTÉRIOS DE UDOLPHO, DE ANN RADCLIFFE (VOL. II)

Sinopse: “Fora de Udolpho, Emily St. Aubert conhece Lady Blanche, a filha do Conde de Villefort, o nobre que herdou a propriedade do Marquês de Villeroi, situada perto do monastério de Santa Clara, em Languedoc, na França. Através dele, Emily toma conhecimento de segredos envolvendo Valancourt. No assombrado Chateau-le-Blanc, Emily percebe a assustadora semelhança entre ela própria e a Marquesa de Villeroi, o que a leva a desconfiar de uma estreita ligação entre seu pai e a misteriosa Lady. Documentos, que Monsieur St. Aubert havia mandado queimar, poderiam revelar o passado da marquesa e de Lady Laurentini, aquela que tanto havia impressionado Emily; o seu desaparecimento de Udolpho; a aparição sob o véu negro, segredos guardados há anos. Em meio a tudo isso, a volta de Valancourt e o retorno a La Valée.”

 

 

Veja a resenha de Os Mistérios de Udolpho, Vol. I aqui.

 

A situação da nossa heroína, Emily St. Aubert, não é das melhores ao final do volume I de Os Mistérios de Udolpho: Encarcerada no macabro castelo, sofre com terrores possivelmente sobrenaturais, armações por parte do Signor Montoni, que deseja a qualquer custo roubar a herança de Madame Montoni já prometida a jovem, dentre outras aflições. A tia de Emily foi aprisionada em uma parte isolada do castelo de Udolpho, sem água ou comida, em represália por não ter dado o seu dinheiro ao marido. Emily não tem certeza se sua ela está viva ou morta e sofre por se sentir cada vez mais distante de seu amado, Monsieur Valancourt.

Confesso que tive dúvidas se a história manteria o ritmo do volume anterior, pois muita coisa já havia acontecido. Felizmente, Ann Radcliffe possuía várias cartas ainda em sua manga, com muitos mistérios e situações para explicar.

Udolpho é tão macabro que qualquer barulho é considerado como algo sobrenatural, causando gritaria, confusão e, obviamente, desmaios. Emily, embora pareça uma moça frágil, precisou ter muita coragem, enfrentando os seus medos para saber da tia, além de pensar em alguma forma de escapar das garras de Montoni e seus caprichos.

A jovem logo descobre que Madame Montoni não está morta. Não ainda. Com ajuda de Annette, sua fiel criada, ela descobre o cativeiro da tia. Mesmo castigada e abandonada a própria sorte para morrer, Madame Montoni não satisfez os caprichos do marido, deixando todo o seu dinheiro para a sobrinha.

 

““Onde você esteve por tanto tempo?”, perguntou ela no mesmo tom. “Eu pensei que você tinha me abandonado.”

Você está mesmo viva”, disse Emily, finalmente, “ou isto é só uma aparição terrível?”, ela não recebeu resposta alguma, e novamente pegou a mão.

Isto é substância”, ela exclamou, “mas está fria… fria como mármore!” Ela a deixou cair. “Oh, se você está realmente viva, fale!”, disse Emily numa voz de desespero, “para que eu não perca os meus sentidos. Diga que você me conhece!”

Eu estou mesmo viva”, respondeu Madame Montoni, “mas, eu sinto que estou prestes a morrer”.” (p. 30)

Quando Montoni soube da morte de sua esposa, e considerou que ela havia morrido sem dar a ele a assinatura tão necessária para alcançar seus desejos, nenhum senso de decência restringiu a expressão do seu ressentimento. Emily evitou sua presença ansiosamente e ficou de vigia durante dois dias e duas noites, com poucos intervalos, ao lado do corpo de sua tia falecida.” (p. 40)

 

Signor Montoni vai manter Emily em Udolpho, mesmo após a morte de Madame Montoni, praticamente como uma prisioneira, pois almeja roubar-lhe todo o dinheiro.

 

““Julgando como eu”, continuou Montoni, “não posso acreditar que você vá se opor em questões que sabe não poder ganhar, ou de fato, que você queira ganhar, ou ter avareza por qualquer propriedade, quando não tem a justiça do seu lado. Contudo, eu acho que é apropriado lhe informar da alternativa. Se você tiver uma opinião justa quanto ao assunto em questão, você será levada em segurança para a França dentro de pouco tempo; mas, se for tão infeliz a ponto de ser enganada pela afirmação recente da Signora, você continuará sendo minha prisioneira até se convencer do seu erro”.

Emily disse calmamente:

Eu não sou tão ignorante, Signor, quanto às leis, neste assunto, a ponto de ser enganada por afirmações de qualquer pessoa. A lei, nesta instância presente, dá-me as propriedades em questão e a minha própria mão nunca trairá o meu direito.”” (p. 44)

““Assine os documentos”, disse Montoni, mais impacientemente do que antes.

Nunca, senhor”, respondeu Emily; “esse pedido teria provado para mim a injustiça de sua reivindicação, se eu estivesse ignorante quanto aos meus direitos”.

Montoni ficou pálido de raiva, enquanto o seu lábio tremendo e seu olhar à espreita quase a fizeram se arrepender da audácia de seu discurso.

Então, toda a minha vingança cairá sobre você”, ele exclamou, com um juramento terrível. “E não pense que ela será adiada. Nem as propriedades em Languedoc, nem as de Gasconha serão suas; você ousou questionar o meu direito. Ouse questionar o meu poder agora. Eu tenho uma punição que você não imagina; ela é terrível!”” (p. 56 e 57)

O vilão, que está sempre envolvido com alguma falcatrua para enriquecer, tem o castelo atacado por inimigos, pouco depois da morte de sua esposa. A situação, em parte, foi boa para Emily, que pôde sair um pouco de Udolpho, embora na condição de protegida do Signor. Neste ínterim, ela precisava descobrir a identidade de um dos prisioneiros do castelo, que ela acreditava esperançosamente ser o seu amado Valancourt.

 

Enquanto ela olhava, com essas emoções, para as torres do castelo, subindo sobre a floresta, por entre a qual ela serpenteava, o estranho, que ela acreditava estar preso lá, voltou à sua memória, e a ansiedade e o medo que ele fosse Valancourt passaram sobre a sua felicidade como uma nuvem. Ela relembrou cada circunstância sobre essa pessoa desconhecida desde a noite em que ela o ouviu tocar a canção de sua província natal pela primeira vez; circunstâncias que ela já havia relembrado e comparado antes, sem extrair delas nada perto de convicção, e que só a faziam acreditar que Valancourt era um prisioneiro em Udolpho. Era possível, contudo, que os homens que a conduziam pudessem dar-lhe informações sobre esse assunto; mas, temendo questioná-los imediatamente, com receio de que eles não quisessem contar nada para ela na presença dos outros, ela esperou por uma oportunidade de falar com eles separadamente.” (p. 62)

Após o conflito, Emily volta para Udolpho, pois Montoni a quer bem debaixo de seu nariz, pelo menos até conseguir todo o dinheiro da moça. Na esperança de voltar para França, a jovem fraqueja e cede às ameaças do Signor.

 

Ela foi incapaz de assiná-lo por um tempo considerável e seu coração estava dividido com interesses opostos, pois estava prestes a desistir da felicidade de todos os anos de seu futuro: a esperança que a havia sustentado durante tantos momentos de adversidade.

Após ouvir de Montoni uma recapitulação das condições da aceitação e uma demonstração de que o seu tempo era valioso, ela colocou sua mão no papel; quando o fez, caiu para trás em sua cadeira, mas, logo, recuperou-se e pediu para que ele desse ordens para a partida dela e que deixasse que Annette a acompanhasse. Montoni sorriu. “Foi preciso lhe enganar”, disse ele, “não havia outra maneira de fazer com que você agisse racionalmente; você irá, mas isto não será no presente. Primeiro eu devo garantir essas propriedades tomando posse; quando isso for feito, você poderá voltar para a França, se quiser.”” (p. 94)

 

O mistério sobre o tal prisioneiro é revelado, frustrando as expectativas de Emily a princípio. Contudo, o homem misterioso será a passagem da jovem de volta a França, longe do Signor Montoni e do castelo de Udolpho.

 

““Meu nome é Du Pont; eu sou da França, da Gasconha, a sua província natal, e tenho lhe admirado há muito tempo, e, por que eu deveria tentar esconder isso? Eu tenho lhe amado a muito tempo.”” (p. 104)

 

De volta a seu país de origem, é hora de sabermos os mistérios que envolvem outra propriedade, e que podem ter ligação direta com Emily: o Chateau-le-Blanc, antigo lar da Marquesa de Villeroi, a qual Emily guarda absurda semelhança. Haveria alguma relação entre o falecido pai de Emily e a Marquesa? Seria a mesma dama pela qual Monsieur St. Aubert sofrera em lágrimas na solidão de seu quarto, há algum tempo?

Monsieur Valancourt, antes um dedicado e amoroso cavalheiro, reencontra Emily, mas já não é o mesmo de antes. Envolvera-se com mulheres e jogatinas em Paris, tendo sua reputação jogada na lama, influenciado por amigos, na ocasião da guerra.

 

Valancourt ficou mais agitado do que antes. “Eu sou indigno de você, Emily”, disse ele, “eu sou indigno de você”; palavras que, pela maneira que foram faladas, fizeram Emily ficar mais chocada com elas do que com o seu significado.” (p. 154)

““Oh, Valancourt!”, ela exclamava, “tendo sido separados por tanto tempo… nós nos encontramos só para ficarmos infelizes… só para nos despedirmos para sempre?”” (p. 159)

O casal precisará superar alguns obstáculos e mal entendidos para, finalmente, encontrarem a felicidade juntos. Antes disso, Emily ainda terá mais alguns segredos envolvendo sua família para serem revelados.

Os Mistérios de Udolpho é o tipo de livro que pode assustar pelo tamanho, mas é certeza de satisfação garantida. Quando pensamos já ter acontecido de tudo nas viagens e nos castelos, algo mais, acontece e prende a nossa atenção. Os personagens secundários surpreendem e os cenários são minuciosamente retratados, o que nos permite embarcar de forma mais realista possível nos acontecimentos. Um ponto negativo, talvez, em minha opinião, seja o casal Emily e Valancourt, que não são do tipo apaixonantes. Neste volume, inclusive, achei o rapaz um tanto quanto chato. Acredito que o personagem atendia aos padrões da época da publicação (1794) e com tantas aventuras e mistérios para desvendar, o romance dos dois acabou fazendo um papel secundário na obra. Como fã de Jane Austen, foi ótimo ter lido este livro em português e o considero como uma das publicações mais importantes da Pedrazul Editora até o momento. Como foi dito na resenha do volume I, Os Mistérios de Udolpho é item indispensável na estante dos fãs de literatura inglesa, sobretudo do fãs de Jane Austen.

 

 

Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 312

 

Compre pela Amazon: Os Mistérios De Udolpho – Vol. 2 e Os Mistérios De Udolpho – Vol. 1

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

maio 25, 2016

[RESENHA] OS MISTÉRIOS DE UDOLPHO, DE ANN RADCLIFFE (VOL. I)

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Sinopse: “Após a perda trágica de sua mãe, Emily St. Aubert e seu pai viajam pelo sul da França à procura de paz e consolo, onde conhecem Valancourt, um cavalheiro honrado e belo que logo conquista a confiança do Monsieur St. Aubert e o coração de Emily. A aventura tem um final inesperado que abala Emily profundamente ao trazer a dolorosa morte de seu pai, assim como pistas sobre a relação obscura dele com a falecida marquesa de Villeroi. Em seu retorno para casa como órfã, Emily foi lançada nas mãos de uma tia frívola e gananciosa, Madame Cheron, sob cuja guarda seu pai ingenuamente a confiara. Por causa da tia e suas conexões ela enfrenta vários obstáculos em oposição ao seu romance com Valancourt. O destino parece estar prestes a sorrir para Emily quando Madame Cheron, finalmente, descobre algo sobre a nobreza de Valancourt e dá sua permissão para o casamento dela com o cavalheiro. Emily, porém, perceberá que sua felicidade pode estar mais longe do que ela imagina quando o novo marido de sua tia, o misterioso Montoni, as obriga a ir com ele para a Itália em direção ao intrigante e macabro Castelo de Udolpho, um cenário que parece ter estreita ligação com o passado e também com a misteriosa Marquesa de Villeroi.”

 

“Na manhã seguinte, fez um dia lindo, e Catherine se preparou para novas investidas do grupo reunido. Os Tilneys vieram buscá-la na hora combinada; e como não surgiu nenhum novo obstáculo, nenhuma recordação súbita, nenhum chamamento inesperado, nenhuma intrusão impertinente para perturbar os seus planos, minha heroína, por incrível que pareça, pôde cumprir seu compromisso, embora com o próprio herói. Decidiram passear por Beechen Cliff, a nobre colina cuja bela vegetação de arbustos suspensos fazia dela um objeto tão impressionante quando vista de Bath.

– Nunca olhei para lá – disse Catherine, ao caminharem às margens do rio sem pensar no sul da França.

– Já viajou para o exterior, então? disse Henry, um pouco surpreso.

– Ah, não! Só me refiro ao que li a respeito de lá. Sempre me faz lembrar do país pelo qual Emily e seu pai viajaram, em Os Mistérios de Udolpho. Mas o senhor nunca lê romances, não é?

Por que não?

Por que eles não são inteligentes o bastante para o senhor… Os homens leem livros melhores.

Aquele que, homem ou mulher, não sente prazer na leitura de um bom romance deve ser insuportavelmente estúpido. Li todas as obras da sra. Radcliffe, e a maioria delas com grande prazer. Quando comecei a ler Os Mistérios de Udolpho, não conseguia largá-lo; lembro-me de que o li em dois dias… de cabelos arrepiados o tempo inteiro.”

(AUSTEN, Jane. A Abadia de Northanger. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 129)

 

O fragmento acima é apenas uma das passagens em que Os Mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe, é citado em A Abadia de Northanger (1818), de Jane Austen. Lembro-me de terminar a leitura do romance de Austen e ir logo pesquisar sobre Udolpho, pois ele havia não só sido muito bem recomendado pelos queridos personagens de A Abadia de Northanger, como também, obviamente, pela própria Jane Austen. O antigo desejo de ler a obra em português se tornou possível com a publicação de Os Mistérios de Udolpho pela Pedrazul Editora! Agora, todos nós podemos nos sentir como Catherine Moorland, com o coração disparado a cada página e a cada mistério!

A princípio, Udolpho é uma leitura que demora algumas páginas para deslanchar. Acho que isso se deve, em parte, pela ansiedade de conhecer o famoso castelo. Ficamos acostumados com Miss Moorland falando de Udolpho, mas a realidade é que demoramos um pouco para chegar lá. Quando conseguimos entrar no ritmo da história, entretanto, é impossível parar de ler! Trata-se de um romance riquíssimo em detalhes e em conteúdo, surpreendente a cada página!

O livro começa dando informações sobre a vida e o dia a dia da família St. Aubert. O ano é 1584 e o primeiro castelo que conhecemos é o de Monsieur St. Aubert, localizado nos agradáveis bancos do rio Garona, na província da Gasconha (p. 9). Nele, vivem Madame e Monsieur St. Aubert e também sua filha, Emily.

 

“Em pessoa, Emily lembrava sua mãe; tendo a mesma simetria elegante da forma, a mesma delicadeza das feições e os mesmos olhos azuis cheios de doçura terna. (…)

St. Aubert cultivava o discernimento dela com o cuidado mais escrupuloso. Ele a deu visão geral das ciências, e uma familiaridade exata com cada parte da literatura elegante. Ele a ensinou latim e inglês, principalmente para que ela pudesse compreender a sublimidade de seus melhores poetas. Ela descobriu em seus anos mais jovens um gosto pelas obras dos gênios; e foi o princípio de St. Aubert, assim como a sua inclinação, promover cada meio inocente de felicidade. ‘Uma mente bem informada’, ele dizia, ‘é a melhor segurança contra o contágio da insensatez e do vício. A mente vaga está sempre à procura de alívio, e pronta para mergulhar no erro, para escapar do langor da ociosidade. Carregue-a de ideias, ensine-a o prazer de pensar, e as tentações do mundo lá fora serão contrabalanceadas pelas gratificações derivadas do mundo de dentro. Pensamento e instrução são igualmente necessários à felicidade de uma vida no campo e uma vida na cidade; na primeira eles previnem as sensações inquietas da indolência, e fornecem um prazer sublime no gosto que criam pelo belo e o grandioso; na última, eles fazem a depravação ser menos um objeto de necessidade e, consequentemente, de interesse.‘” (p. 13)

 

Logo no início da história, Emily passa por sua primeira tragédia: a morte da mãe. Uma tristeza muito grande abateu a família St. Aubert, que já era bem pequena. Nessa ocasião, surge o primeiro mistério: Na tristeza de seu quarto, Monsieur St. Aubert buscou a imagem de uma dama, que estava guardada em uma caixa. Emily o viu observar o retrato com ternura, beijá-lo e o levar ao coração, com uma paixão tremenda. A jovem pôde observar que a mulher do retrato não era a sua mãe e ficou surpresa com tal fato. Vendo o sofrimento do pai, ela se retira silenciosamente de seu quarto e ele parece não perceber a presença da filha.

A saúde de Monsieur St. Aubert não estava nas melhores condições, principalmente levando em consideração o trauma recente. Seu médico lhe recomenda, então, uma viagem: o ar de Languedoc e da Provença poderiam lhe fazer retornar à sua melhor constituição. Sendo assim, ele e Emily saíram do castelo em viagem às margens do mediterrâneo, em direção à Provença.

Na viagem, conhecem Valancourt, que se apaixonará por Emily. A jovem, muito devido à preocupação com o estado de saúde de seu pai e também pela tristeza causada pela recente morte de sua mãe, inicialmente se mostra tímida e não dá muitos sinais de encorajamento ao rapaz. Este, contudo, parece adquirir os sentimentos mais profundos por Emily desde o momento que conhece a jovem. Mas, como cada qual tem o seu destino, Valancourt logo se despede dos St. Auberts, que prosseguem em busca do ar da Provença.

 

“Ele (M. St. Aubert) sentiu muito quando chegaram ao local onde as estradas se separavam, e seu coração se despediu mais afetuosamente dele do que é comum depois de um relacionamento tão curto. Valancourt falou muito ao lado da carruagem; pareceu que ia embora mais de uma vez, mas ainda se demorava e parecia procurar ansiosamente por assuntos para a conversa a fim de justificar sua demora. Enquanto ia, St. Aubert o observou olhar para Emily com um olho sincero e pensativo, enquanto a carruagem seguia em frente. St. Aubert, por qualquer que fosse a razão, logo em seguida olhou pela janela, e viu Valancourt em pé na beira da estrada, se apoiando sobre a sua lança com os braços cruzados, e seguindo a carruagem com os olhos. Ele acenou, e Valancourt, parecendo ter acordado de seus devaneios, retornou a saudação, e se afastou apressadamente.” (p. 42)

O leitor vai perceber que nem tudo serão flores e galanteios na vida da jovem Emily: seu pai morre no meio da viagem, longe de casa, na cama de estranhos que lhe permitiram a estada, pois não havia nenhum outro lugar em que ele pudesse ficar. Percebendo que seus últimos momentos estavam próximos, M. St. Aubert faz Emily lhe prometer que quando voltar para casa pegará uns papeis que estão em seu escritório, escondidos debaixo de uma tábua, e que vai queimá-los sem ver do que trata o conteúdo. Mesmo surpresa com o pedido, Emily promete ao pai que vai cumprir com o que ele pediu, de acordo com as suas orientações.

Órfã, Emily foi posta aos cuidados da tia, Madame Cheron. A partir daí a história, em minha opinião, deslancha. Foi nessa parte que eu já não conseguia mais sair de casa sem levar o meu Udolpho! Madame Cheron é uma mulher mesquinha e insensível desde as primeiras páginas. Não lembra em nada o irmão, inclusive justifica sua postura sugerindo que M. St. Aubert teria sido um homem fraco ao longo da vida e que lhe destinou uma tarefa muito ingrata após a morte, cuidar da sobrinha praticamente adulta.

Madame Cheron, ao chegar a La Valée, se irrita profundamente ao encontrar Valancourt conversando com sua sobrinha. Ela faz julgamentos precipitados sem conhecer o rapaz e o caráter de Emily, o que deixa a jovem bastante triste, contudo, preparada para o que pode vir. Sua tia é enfática, quer partir o mais rápido possível para Toulouse e a Emily só resta se despedir do castelo onde viveu com sua falecida família.

 

“E quem é este jovem aventureiro, diga-me?’, perguntou Madame Cheron, ‘e quais as intenções dele?’ Emily respondeu: ‘isso ele mesmo deve explicar, senhora, meu pai não era ignorante quanto à família dele e eu acredito que ela seja irrepreensível’. (…)

‘Eu lamento perceber, sobrinha’, disse ela, aludindo a algo que Emily havia dito sobre fisionomia, ‘que você herdou muitos dos preconceitos de seu pai, e dentre eles aquela predileção repentina pelas pessoas por causa da aparência delas. Eu posso ver que você acha que está apaixonada violentamente por aquele jovem aventureiro, após conhecê-lo por apenas alguns dias. Também havia algo tão encantadoramente romântico na maneira do encontro de vocês’.

Emilyconteve as lágrimas que caíram de seus olhos enquanto falava: ‘quando a minha conduta merecer tal severidade, senhora, você fará bem em exercê-la; até lá a justiça, senão a ternura, deveria restringi-la. Eu nunca a ofendi deliberadamente; agora que perdi meus pais a senhora é a única pessoa de quem eu posso esperar bondade. Não me faça lamentar mais do que nunca a perda desses pais.‘” (ps. 111 e 112)

 

Emily fica totalmente à mercê de Madame Cheron, de seus humores e vontades. A vida da jovem não vai ser nada fácil junto da tia, que faz o papel da típica madrasta má, embora seja irmã do pai de Emily. 

“‘Estou contente por me encontrar em minha própria casa de novo’, disse ela, jogando-se em um grande divã, ‘e por ter minha própria criadagem à minha volta. Eu odeio viajar; embora, é claro, eu devesse gostar disso, pois o que vejo lá fora sempre me deixa maravilhada, ao voltar para o meu próprio castelo. O que lhe deixou tão silenciosa, criança? O que é que está lhe incomodando agora?'” (p. 117)

 

Pouco tempo depois somos apresentados ao personagem que nos deixa de cabelos arrepiados, como disse Mr. Tilney, em A Abadia de Northanger: Signor Montoni. Sedutor e misterioso, o italiano se torna amante de Madame Cheron e para a surpresa de Emily, casa-se com sua tia de uma hora para outra, sem que ninguém além do casal soubesse dos planos de matrimônio.

“Emily mal havia entrado no vestíbulo quando observou, com surpresa, o abatimento no rosto de sua tia, e a alegria contrastante de seu vestido. ‘Então, sobrinha!‘, disse, e ela parou com algum grau de constrangimento. ‘Eu a chamei… eu… eu queria vê-la; tenho notícias para lhe dar. A partir deste momento você deve considerar o Signor Montoni seu tio, nós nos casamos esta manhã.'” (p. 138)

 

Se, até o momento, a vida de Emily não estava das mais tranquilas, embora sua tia tenha permitido o seu noivado com Valancourt, depois de descobrir um parentesco entre ele e uma (rica) conhecida sua, Madame Clairval, as coisas ficariam ainda piores. Com o casamento, todos os assuntos da agora Madame Montoni e de sua sobrinha e protegida Emily viraram assunto do Signor Montoni! Depois do casamento, ele se tornou uma pessoa impraticável e apenas a sua vontade seria levada em conta. Emily, que pouco podia decidir sobre a sua vida, agora perdera o direito a qualquer reivindicação. Madame Montoni, que inicialmente concordava com todas as opiniões do marido, sua vida se transformar em um inferno a partir do momento em que todos deixam a França e se mudam para a Itália, principalmente quando chegam ao castelo de Udolpho.

 

“Apenas algumas semanas haviam decorrido desde o casamento, quando Madame Montoni informou Emily que o Signor pretendia retornar à Itália tão logo os preparativos necessários à viagem fossem feitos. ‘Nós iremos para Veneza’, disse ela, ‘onde o Signortem uma bela mansão, e de lá para a propriedade dele na Toscana. Por que você está tão grave, criança? Você que é apaixonada pelo interior romântico e por belas vistas, sem dúvida ficará encantada com essa jornada.

‘Então eu deverei fazer parte do grupo, senhora?’, disse Emily, com surpresa e emoção extremas. ‘Certamente’, respondeu sua tia, ‘como você pode imaginar que nós a deixaríamos para trás? Mas eu vejo que você está pensando no cavalheiro; ele ainda não foi informado da viagem, creio eu, mas logo ele será. SignorMontoni foi informar Madame Clairval de nossa jornada, e dizer que não se deverá pensar mais na conexão proposta entre as famílias, de agora em diante.‘” (p. 140)

“Mas Montoni, que havia sido atraído pela aparente fortuna de Madame Cheron, agora estava severamente desapontado com a sua pobreza relativa e altamente irritado com a enganação que ela havia empregado para escondê-la, até que esconder não fosse mais necessário. Ele havia sido enganado quando pretendia ser o enganador; superado pela astúcia superior de uma mulher, cujo discernimento ele desprezava, e por quem ele havia sacrificado o seu orgulho e a sua liberdade, sem se salvar da ruína que agora pendia sobre a sua cabeça.” (p. 183)

 

Signor Montoni garantirá momentos de suspense e terror para Emily, sua tia e para nós, leitrores de Udolpho! Quando chegamos ao final do volume 1 e percebemos que ainda tem muita história e mistérios pela frente, fica impossível não partir imediatamente para a leitura do volume 2! Os Mistérios de Udolpho superaram todas as minhas expectativas, foi uma ótima leitura, que recomendo a todos, especialmente para os fãs de Jane Austen. Para estes, é item obrigatório para ter na estante!  

 

 

 

Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 316

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

[ATUALIZAÇÃO] Veja a resenha de Os Mistérios de Udolpho Vol. II aqui!

 

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