agosto 12, 2019

[RESENHA] O PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA, DE CHIMAMANDA NGOZIE ADICHIE

Sinopse: Uma das palestras mais assistidas do TED Talk chega em formato de livro. Para os fãs de Chimamanda, e para todos os que querem entender a fonte do preconceito.

O que sabemos sobre outras pessoas? Como criamos a imagem que temos de cada povo? Nosso conhecimento é construído pelas histórias que escutamos, e quanto maior for o número de narrativas diversas, mais completa será nossa compreensão sobre determinado assunto. 
É propondo essa ideia, de diversificarmos as fontes do conhecimento e sermos cautelosos ao ouvir somente uma versão da história, que Chimamanda Ngozi Adichie constrói a palestra que foi adaptada para livro. O perigo de uma história única é uma versão da primeira fala feita por Chimamanda no programa TED Talk, em 2009. Dez anos depois, o vídeo é um dos mais acessados da plataforma, com cerca de 18 milhões de visualizações. 
Responsável por encantar o mundo com suas narrativas ficcionais, Chimamanda também se mostra uma excelente pensadora do mundo contemporâneo, construindo pontes para um entendimento mais profundo entre culturas.”

 

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O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozie Adichie (Companhia das Letras, 2019), é a terceira palestra que a autora nigeriana ministrou para o TED Talks que acabou virando livro, tamanha a importância do assunto tratado. De forma bem simples, Chimamanda fala sobre o perigo (constante, ao qual ninguém está livre) de nos apegarmos a uma única narrativa, dando exemplos de sua própria trajetória.

Nós, seres humanos, somos feitos de histórias. Tudo o que sabemos e transmitimos é história, é construção social. Pensar nos perigos de uma história única vai bem mais além, portanto, de apenas ouvir os dois lados da história. Nos livrarmos das armadilhas da história única requer rever nossos próprios conceitos, pensar e pelo menos tentar entender o porquê pensamos determinadas coisas sobre pessoas, entidades, países etc.

A primeira vez que tive contato com essa palestra foi quando cursei a primeira disciplina de literaturas africanas de língua portuguesa, da UFF/CEDERJ. A nossa primeira tarefa desta disciplina foi responder a um fórum sobre qual seria a primeira coisa que nos vinha à mente quando o assunto era África. Podíamos responder com textos e/ou imagens, desde que com as devidas referências e justificativas. Acredito que não deve ser difícil para você que está lendo agora imaginar o que foi 99% das respostas. Praticamente todo mundo (incluindo eu) respondeu com imagens de fome, pobreza, exclusão social… daí para pior. Nenhum de nós sequer respondeu que a África é um continente imenso, bastante diverso e não um país. Todos caímos no estereótipo da narrativa única sobre a África.

Outro exemplo de narrativa única é, de modo geral, as comemorações do Dia da Consciência Negra nas escolas. O dia que poderia ser usado para mostrar narrativas diversas acaba caindo sempre no tema escravidão. Como se esse fosse o único assunto possível envolvendo os negros no Brasil.

 

“É assim que se cria uma história única: mostre um povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna.”

 

“O poeta palestino Mourid Barghouti escreveu que, se você quiser espoliar um povo, a maneira mais simples é contar a história dele e começar com ‘em segundo lugar’. Comece a história com as flechas dos indígenas americanos e não com a chegada dos britânicos, e a história será completamente diferente. Comece a história com o fracasso do Estado africano e não com a criação colonial do Estado africano, e a história será completamente diferente.”

 

 

Trazendo para o nosso presente atual, ainda no contexto da educação, recentemente as Universidades Federais foram acusadas de promover balbúrdia, de não fazer pesquisa, de serem de qualidade inferior etc., pelo próprio Ministro da Educação. Sem entrar em discussões político-partidárias no momento, será mesmo que as nossas Universidades estão assim tão exclusivamente desordeiras? Não existem, para dizer o mínimo, hospitais, clínicas, creches, bibliotecas etc. administradas por essas Universidades que atendem à população que não pode pagar e/ou não consegue atendimento em outros lugares? Estão restringindo toda a rede federal de ensino a uma história única, pelo que parece. Por qual motivo deveria ser o nosso questionamento.

 

“A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.”

 

“As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.”

 

 

Esse é um tema extremamente importante e muito pertinente termos essa palestra também em livro, para ser multiplicada em todos os canais possíveis. A fala de Chimamanda Ngozie Adichie é bem direta e nos convida a pensar. Assista, leia e reflita. Precisamos disso mais do que nunca.

 

 

 

Título: O perigo de uma história única

Autora: Chimamanda Ngozie Adichie

Tradução: Julia Romeu

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 64

Compre na Amazon: O perigo de uma história única.

 

 

Assista a palestra O perigo de uma história única, que deu origem a este livro (com legendas em português!):

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