junho 25, 2019

[RESENHA] NORTE: EM BUSCA DOS PAIS PERFEITOS, DE ALAN ZWEIBEL

Sinopse: “A história de um garoto que viaja o mundo em busca dos pais perfeitos.”

 

Certa vez, um projeto de incentivo à leitura passou pela escola em que eu estudava. Era um ônibus que deixava uma caixa com livros nas escolas e os alunos podiam pegar qualquer exemplar emprestado e devolver, mas sem o rigor de uma biblioteca. Você podia devolver outro livro em bom estado no lugar do que você pegou no ônibus, por exemplo. O controle era feito apenas em relação à quantidade de livros, para que o projeto não saísse prejudicado ao terminar a temporada em alguma das cidades percorridas.

Lembro que eu li muita coisa, talvez a caixa inteira, mas, estranhamente, apenas um título jamais se perdeu na minha memória: “Norte, a história do garoto que viaja o mundo em busca dos pais perfeitos”. Na época, eu não tinha livros para trocar, mas esperava um dia reencontrar essa história.

Dia desses, enfim, comprei Norte em um sebo pela Amazon. Não lembrava muitos detalhes e até tive receio de não curtir tanto a leitura, pois me encontro em um lugar bem distinto daquele com o qual tive o primeiro contato com a história, mas Norte ainda teve valor para mim, mesmo já adulta.

O livro é uma narrativa breve sobre um garoto que, insatisfeito com pais negligentes, resolve entrar na justiça e conseguir o direito a uma espécie de divórcio dos pais. Norte, que é um menino espetacular, ótimo candidato a filho para qualquer boa família, cansou de implorar pela atenção dos pais (leia-se fingir ataques cardíacos), que parecem interessados demais em qualquer coisa que não seja o filho.

Estranhamente — ou não — a justiça concede rapidamente o direito a Norte de sair em busca dos pais perfeitos e candidatos não faltam! Ele percorre os Estados Unidos experimentando pais e, longe de casa, começa a perceber que essa aventura e a decisão de escolher novos pais pode não ser tão fácil quanto ele pensava. Enquanto isso, o país fica de ponta cabeça, com o precedente legal aberto a partir do caso dele. As crianças, quem imaginaria (!), passaram a encurralar os próprios pais para terem tudo o que quiserem, ou então pediriam, também, o divórcio.

 

O livro tem ilustrações de Alex Tiani.

 

Para nós, adultos, é bem fácil entender que Norte chegou àquela fase da infância ou pré-adolescência em que começamos a perceber que os nossos pais têm falhas. Aquela revolta de querer mais, de achar que merece mais, atrelada ao distanciamento que muitas vezes ocorre nessa fase de bebê crescido talvez tenham sido, inclusive, o que me chamou tanto a atenção na época em que li pela primeira vez e que me fez guardar o nome desse livro por tantos anos.

 

“Era como Joey tinha ensinado: ‘Nada é novo. Pode ser mais, pode ser menos. Pode estar disfarçado. Mas não muda.’” (p. 102)

 

Para quem está forçando a memória dos tempos de Sessão da Tarde por causa da foto do ator Elijah Wood na capa do livro, a história foi adaptada para o cinema em 1994 com o mesmo nome do livro, North. Aqui no Brasil o filme teve o título traduzido para O Anjo da Guarda. Pelo o que eu pesquisei depois de ler, algumas mudanças parecem ter sido feitas para o roteiro, assinado pelo próprio Alan Zweibel e também por Andrew Scheinman.

 

“Uma nota para o leitor”.

 

Publicado originalmente em 1984 (no Brasil, dez anos depois), Norte é uma leitura rápida e bem divertida. O tom nonsense do poder infantil e a ironia fina de Alan Zweibel fazem com que o leitor devore as páginas dessa novela. Leitura recomendada para pais e filhos!

 

 

 

 

Título: Norte (A história de um garoto que viaja o mundo em busca dos pais perfeitos)

Autor: Alan Zweibel

Tradução: Leo Cunha

Ilustrações: Alex Tiani

Editora: 34

Páginas: 120

Compre na Amazon: Norte, em busca dos pais perfeitos.

outubro 05, 2018

[RESENHA] TENTE OUTRA VEZ, DE FABIANO JUCÁ

Sinopse: “E se uma música fosse a chave de comunicação entre dois mundos? Um convite para esta obra de gênero híbrido entre a ficção científica, o espiritual e o drama.

Tente Outra Vez é sobre a brevidade da vida. Sobre como a vida é breve e bela. Bela em sua brevidade e breve em sua beleza. Não espere por dias melhores. Faça de hoje o seu melhor dia.
Tente Outra Vez é sobre a aceitação do inevitável, é sobre a superação da dor. É sobre, principalmente, o amor. Sobre o amor e sobre amar. Ame incondicionalmente.

Uma história surpreendente. Uma grande reviravolta. Uma jornada de autoconhecimento e superação. Solomon, às voltas com problemas no casamento, se vê, em dado momento, num mundo onde sua esposa e sua filha… nunca existiram. É nesse ponto que começa sua batalha, com a ajuda de um velho tagarela e risonho chamado Amit, que mais atrapalha que ajuda.

Tente Outra Vez é nome de uma música de Raul Seixas, e a letra dela dá o tom da luta de Solomon.

Venha se encantar e se apaixonar por uma história verdadeiramente de amor!”

 

QUE. LIVRO. INCRÍVEL. Eu sei que essa é uma forma bastante estranha para se começar uma resenha, mas cá entre nós, minha intenção aqui é, quase sempre, fazer com que você parta o quanto antes para a leitura e não perca muito tempo comigo (é sério!). Tente Outra Vez, do escritor paranaense Fabiano Jucá foi uma das melhores leituras que eu fiz neste ano. É um livro curto, com uma trama muito envolvente e um enredo diferente. O leitor logo percebe que está diante de uma ótima ideia e que ela foi muito bem desenvolvida.

Solomon é uma pessoa que em determinado momento da vida sente-se cansado. A rotina, nós pobres mortais que somos casados e batemos ponto diariamente sabemos muito bem, pode ser bem estressante. Certo dia, em uma viagem com sua esposa e filha, ele estaciona o carro em uma lanchonete de beira de estrada para dar uma pausa após algum tempo de rusga com a esposa e sente uma coisa estranha, uma fraqueza. Passado o mal estar, qual não é a surpresa de Solomon ao perceber que sua família havia sumido! Não havia rastro da esposa ou da filha, sequer uma prova que elas realmente existiam.

A partir desse susto, Solomon embarca em uma jornada de autoconhecimento e nós viajamos com ele, afinal, temos dois pés para cruzar a ponte. Prepare-se para ter a voz de Raul Seixas ecoando em sua mente ao longo da leitura — e também depois dela — pois Tente Outra Vez (a música) é muito marcante nesta novela.

 

 

Tente Outra Vez é uma obra híbrida que une o melhor de todos os temas a que se propõe: é ficção científica, mas é acessível; é espiritual, mas não é doutrinadora; e é drama, mas tem pitadas muito assertivas de humor. Particularmente, incluiria também o gênero filosófico. Em dado momento percebi que a história de Solomon conversa muito com o livro Ei! Tem Alguém Aí?, de Jostein Gaarder. Aliás, Tente Outra Vez transmite tantas lições, de forma tão despretensiosa, que Gaarder ficaria confuso se pudesse ler um livro que parece dele, mas foi lindamente escrito por um brasileiro.

“O que é a loucura afinal? Viver coisas que não existiram é loucura? Os loucos realmente existem? Perceba: o mundo é feito de perguntas, muito mais que de respostas. Para cada resposta, podemos formular um número infinito de perguntas. Será mesmo que você quer respostas?”

 

Com a leitura, tive reforçada a convicção de que o amor é o que temos de mais belo e importante na vida e de que todo dia é dia de respirar fundo e pensar alguns segundos antes de ter uma discussão banal com alguém, pois cada minuto conta e pode ser definitivo. Temos mais facilidade para falar algo que magoa do que simplesmente fazer um elogio ou dizer um “eu te amo”, já percebeu?

Cada página de Tente Outra Vez foi uma descoberta. Garanto que vai ser assim quando você embarcar na estrada com Solomon.

 

“Cometemos muitos erros, o tempo todo. Não estamos livres. Não crescemos sem errar. E quem vive em função de não errar, já erra exatamente aí, pela covardia e omissão diante da vida.”

 

 

*** Não posso falar de Amit (ver sinopse) sem dar spoilers significativos sobre a obra. Mas estou sempre disponível nos inbox da vida para comentar algo que precisa ficar de fora da resenha pelo bem da sua leitura e do meu pescoço.

 

 

Título: Tente Outra Vez

Autor: Fabiano Jucá

Editora: Independente

Páginas: 113

Compre na Amazon (gratuito para assinantes Kindle Unlimited): Tente Outra Vez.

Disponível em formato físico para compra direto com o autor.

julho 12, 2017

[RESENHA] UM COCHEIRO EM PARIS, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Quando o duque de Belvoir teve que sair às pressas da casa de Juliette Drouet, a amante de Victor Hugo, para não ser pego em flagrante pelo próprio escritor, sua única alternativa foi dirigir a própria carruagem pelas vielas de Paris. O que ele não esperava, contudo, era que tivesse que socorrer uma dama que acabara de chegar à cidade. A carruagem do Hôtel de Ville, que fora buscá-la no porto, havia quebrado um eixo e ele passava no exato momento do acidente. Não teve alternativa senão esconder a sua identidade, pois a jovem estava acompanhada justamente da ordinária baronesa viúva de Patchetts, uma antiga vizinha do duque seu pai, no Norte da Inglaterra. Tudo o que ele — o duque inglês bastardo — não podia, naquele momento, era ser reconhecido. Assim, apresentou-se como o cocheiro do conde Filippo Raspail e prestou socorro às damas.

Fruto da relação de um poderoso duque inglês, que não tivera filhos no casamento, com uma cortesã francesa, Belvoir — assumido pelo pai — vivia uma vida desregrada em Paris. Embora na juventude tivesse tido certa proteção moral por parte dos amigos, o duque de Prudhoe e o conde de Northumberland, sofrera muita rejeição da aristocracia britânica, sendo chamado de ‘lorde bastardo’. Por isso, tinha convicção absoluta de que nunca se casaria com a filha de nenhum deles. Belvoir só não contava que Harriet Neville, a lady que socorrera, se apaixonaria de verdade por ele, mesmo achando que fosse um humilde cocheiro.”

 

Um Cocheiro em Paris é o terceiro livro da série independente O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken, publicado pela Pedrazul Editora. Aqui, temos a história de um simples cocheiro e de uma dama, que se apaixonam contrariando todas as expectativas da sociedade.

O simples cocheiro na verdade, nós logo descobrimos, é Oliver Ashlie Stanhope, o duque de Belvoir. Ele vivia uma aventura com ninguém menos que a amante de Victor Hugo e no meio da noite teve de sair às pressas do quarto da mulher, pois o escritor, por pouco, não os pegara em flagrante.

Chegando à sua carruagem, Belvoir percebe que o cocheiro havia sumido, de forma que resolve, ele próprio, conduzir o veículo. Um pouco à frente, um acidente travava o caminho e ele resolve ajudar os feridos, desalinhado como estava.

Entre os feridos estavam a velha baronesa de Patchetts e Harriet Neville, esta última, a prima prometida em casamento ao conde de Northumberland via acordo familiar, amplamente discutido em A Estrangeira.

A baronesa, histérica, ordena que o maldito cocheiro, aquele bastardo, tirem-nas logo daquela confusão de carruagens quebradas. Belvoir as ajuda, assumindo ser um simples cocheiro, e fica encantado com a doçura de Harriet, que corresponde.

Harriet Neville, embora prometida ao primo, jamais pensara em se casar com ele. Inclusive, soube que ele estaria fortemente envolvido com a tal estrangeira, a miss Schumacher. Ela achava melhor assim. Era uma jovem fora dos padrões físicos impostos pela sociedade, tinha formas voluptuosas e era complexada pelo tamanho dos seios, bastante fartos. Belvoir adorava-a também por ser assim, uma moça que não era bela como as mais belas da sociedade, como fora sua mãe, uma mulher promíscua na juventude.

Um Cocheiro em Paris é menos picante que A Ama Inglesa, mas sua história é igualmente linda e tem seus toques de sensualidade. Em meio a casamentos por interesse e arranjos matrimoniais selados na infância, esta novela mostra que um amor verdadeiro pode nascer na situação mais improvável.

 

 

 

Título: Um Cocheiro em Paris (O Quarteto do Norte, livro 3)
Autora: Chirlei Wandekoken
Editora: Pedrazul
Páginas: 86

 

Para ler um trecho deste livro, clique aqui.

 

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