dezembro 06, 2016

[RESENHA] VILLETTE, DE CHARLOTTE BRONTË

Sinopse: “Villette é, de muitas formas, um romance delicado e deliciosamente difícil. Tudo o que diz respeito à sua heroína, Lucy Snowe, é encoberto por uma névoa de inacessibilidade e uma certa escuridão que sustenta a narrativa. Lucy se muda para a cidade fictícia de Villette, onde será professora de inglês em um internato. Ali, será confrontada pelos traumas do passado enquanto completa seu percurso de heroína, com os dissabores e conquistas de uma mulher vitoriana, mas eternamente atual. Uma obra-prima de Charlotte Brontë.” 

 

Villete é um romance escrito por Charlotte Brontë, publicado originalmente em 1853, que narra a vida de Lucy Snowe, uma jovem de poucos recursos que sai da Inglaterra com destino a cidade de Villette e acaba tornando-se professora de inglês em um internato.

A história começa em uma visita de férias que a protagonista faz a casa de sua madrinha, a Sra. Bretton. Pelo olhar de Lucy Snowe, conhecemos a casa dos Bretton’s e a pequena Polly, filha de um amigo da família. A menina desenvolve uma forte relação de amizade com jovem Graham Bretton, na época com 16 anos. A visita de Polly durou poucas semanas e também Lucy deixaria a casa da madrinha em breve.

Alguns anos depois desta visita, anos esses que Lucy não revela muito do que se passou, mas permite-nos saber que sua situação financeira não é das melhores, ela começa a trabalhar como dama de companhia da Srta. Marchmont, uma rica, porém reumática senhora.

“E, assim, dois quartos quentes e fechados se tornaram meu mundo; e uma senhora idosa e inválida, minha patroa, minha amiga, tudo para mim. Atendê-la era meu dever; sua dor, meu sofrimento; seu alívio, minha esperança; sua raiva, minha punição; sua apreciação, minha recompensa. Esqueci que havia campos, bosques, rios, mares, um céu sempre cambiante além da gelosia embaçada de seu quarto de inválida; eu quase me sentia contente por esquecer isso.” (p. 74)

 

Contudo, o destino reservara algo diferente para Lucy: com o falecimento da  Srta. Marchmont, ela se vê obrigada a procurar uma outra colocação. A jovem, então, seguiu para Londres e, de lá, para Villette, no reino (de língua francesa) de Labassecour. Seus caminhos levaram-na ao pensionato de Madame Beck, onde, a princípio, ela ficaria responsável pelos cuidados com as filhas da Madame, mas depois acabou assumindo o posto de professora de inglês na escola.

“Digo novamente: Madame era uma grande mulher, e muito capaz. Aquela escola proporcionava a seus poderes uma esfera muito limitada; ela deveria ter conduzido uma nação: deveria ter sido líder de uma turbulenta assembleia legislativa. Ninguém poderia tê-la desencorajado, ninguém irritava seus nervos, exauria sua paciência ou ultrapassava a sua astúcia. Em sua pessoa, ela poderia ter abarcado os deveres de um primeiro-ministro e de um superintendente de polícia. Sábia, firme, desconfiada; sigilosa, astuta, desapaixonada; vigilante e inescrutável; perspicaz e insensível; e, além disso, perfeitamente decorosa; o que mais poderia ser desejado?” (p. 136)

 

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Villette seria uma versão ficcional da cidade de Bruxelas, na Bélgica, onde a autora estudou com sua irmã Emily. Todo o romance tem elementos que indicam ser um relato autobiográfico de Charlotte Brontë e de posse desta informação o leitor torna-se ainda mais próximo da heroína Lucy Snowe, em seus devaneios e sofrimentos. As protagonistas de Charlotte Brontë, como eu tenho visto até agora, são mulheres a frente de seu tempo, como a autora mesma foi. Elas iam à luta, buscavam o seu sustento da forma que era possível, e tal atitude é exemplo para nós ainda nos dias de hoje.

“Não há nada como encarar tudo o que você faz com uma expectativa modesta: isso mantém a mente e o corpo tranquilos; enquanto as noções extravagantes podem levar ambos a um estado febril.” (p. 87)

 

No pensionato conhecemos também Dr. John, que ajudou Lucy em sua chegada a Villette e por quem ela nutriu sentimentos controversos, diria quase um amor platônico; Ginevra Fanshawe, um projeto de coquete que se diverte em um jogo de sedução envolvendo Dr. John e De Hamal, dentre outros. O personagem mais carismático e meu favorito neste romance é M. Paul Emanuel, que é um dos poucos, senão o único, a travar diálogos interessantes e estimulantes com Lucy. Ele é responsável pelas melhores cenas do livro e será muito importante na vida da nossa heroína.

Villette é de leitura mais lenta que Jane Eyre, romance mais conhecido da autora. Durante páginas e mais páginas a história de Lucy Snowe parece não avançar quase nada. Era o mar calmo na superfície com um turbilhão de sentimentos nas profundezas. Ainda assim, sabendo, como já foi dito, que trata-se de uma autobiografia de Charlotte Brontë, embora não com o compromisso de ser integralmente fiel a realidade, a motivação para prosseguir vinha até nos momentos em que desistir para retomar a leitura em outro momento apresentava-se como opção. Quando entendi o ritmo do romance a leitura fluiu melhor. Saber mais sobre uma mulher que mesmo com todas as adversidades e tristezas foi capaz de criar histórias que emocionam até os dias de hoje é recompensador. Charlotte Brontë é Lucy Snowe e Lucy Snowe é um pouquinho de cada uma de nós, mulheres.

“Seu tom é simultaneamente pessoal, profundo, altamente cultural e traz alguns indícios de feminismo, se fosse possível falar dele nesse período histórico.” (posfácio, por Lilian Cristina Corrêa)

 

A edição especial da Martin Claret conta com o prefácio de Lenita Maria Rimoli Esteves, uma nota da tradutora, Solange Pinheiro, e o pósfácio de Lilian Cristina Corrêa. Além do cuidado no acabamento do livro e da capa lindíssima, vê-se que a editora tem se preocupado em incluir em suas obras, sobretudo nas edições especiais, um material complementar que em muito enriquece a nossa experiência de leitura. Um ponto negativo para mim, mas que não diminui em nada o trabalho feito nesta edição, foi colocar todas as expressões em francês no final do volume. A tradutora optou por manter as expressões em francês no corpo do texto, para que este ficasse o mais próximo do original possível, mas teria sido mais confortável ter as traduções no rodapé das páginas. Contudo, entendo que isso poderia ser um problema no acabamento do livro, pois Villette segue o padrão das outras edições especiais das irmãs Brontë já publicadas pela editora, a saber: Agnes Grey, Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes.

 Destaco, sem spoilers, que o final da história é bastante interessante. É um final diferente, digamos, dos que vemos em livros similares. Para os fãs de Charlotte Brontë e de uma história bem escrita, Villette é uma ótima pedida!

 

 

Título: Villette
Autora: Charlotte Brontë
Tradutora: Solange Pinheiro
Editora: Martin Claret
Páginas: 856

 

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

 

novembro 28, 2016

[RESENHA] FLORBELA ESPANCA, ANTOLOGIA POÉTICA

Sinopse: “Florbela Espanca é considerada uma das maiores escritoras de Portugal. Sua temática nostálgica, cenas melodramáticas, contrastes artificiosos, exageros às vezes surpreendentes e máscaras frequentemente compostas com o auxílio oportuno de um pseudo-biografismo tornam sua obra um verdadeiro deleite. A edição traz a obra poética completa da autora, incluindo Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923), Charneca em Flor (1931), Reliquiae (sonetos inéditos acrescentados na segunda edição de Charneca em Flor), Trocando olhares (1915–1917) e O livro d’Ele (1915–1917).”

 

É difícil conceber uma resenha literária de um livro de poesias quando não há a intenção de fazer uma análise aprofundada, destrinchando cada verso, cada rima. Entretanto, ainda assim, chamarei esse texto de resenha e tentarei fazer algumas considerações sobre o livro em questão, desde já recomendando, obviamente, que ele seja lido.

Florbela Espanca (1894/1930) é uma figura que despertou a minha atenção e admiração desde o primeiro momento em que tive conhecimento de sua existência. Ela deve ser reconhecida e venerada pelo talento que tinha em colocar no papel da forma mais intensa os seus sentimentos.

A Editora Martin Claret lançou em edição especial, capa dura, esta antologia da autora, contendo toda a sua obra poética antes publicada separadamente nos volumes Livro de Mágoas; Livro Sóror Saudade; Charneca em Flor, Reliquiae; Trocando Olhares e O Livro D’ele. A edição conta, ainda, com uma introdução de Renata Soares Junqueira, que fala rapidamente sobre a vida e a obra de Florbela Espanca, a autora que é poesia até no nome.

 

 

“Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

 

Os meus gestos são ondas de sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

 

Dou-te o que tenho; o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é de oiro, a onda que palpita.

 

Dou-te comigo, o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A princesa do conto: ‘Era uma vez…’”

 

(Conto de Fadas, do livro Charneca em Flor, p. 97)

 

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Florbela Espanca

 

Uma curiosidade para nós, brasileiros, é que o cantor Fagner transformou vários sonetos da poetisa portuguesa em música! Deixo abaixo um vídeo em que ele canta com Zeca Baleiro o soneto Fanatismo, presente no Livro Sóror Saudade, página 56 da Antologia publicada pela Martin Claret. A edição é lindíssima e deixo aqui o convite para que vocês conheçam a obra de Florbela Espanca.

 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa…’
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…’”

(Fanatismo, do Livro Sóror Saudade, p. 56)

 

 

 

 

Título: Florbela Espanca, Antologia Poética
Autora: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Páginas: 298

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