outubro 31, 2019

[RESENHA] POR QUE LUTAMOS? UM LIVRO SOBRE AMOR E LIBERDADE, DE MANUELA D’ÁVILA

Sinopse: “Um livro sobre feminismo. Através do olhar amoroso, da acolhida generosa, do entendimento de que este é um assunto de todas, todos, todxs nós. Não pretende ser uma bíblia do feminismo, mas sim, uma conversa, um abraço, um ponto de apoio, um boas-vindas pra quem acaba de chegar, um “que bom que você está aqui” pra quem já anda cansada de lutar. Escrito em tom de conversa, traz referências, sugere reflexões, desfaz o medo. Sin perder la ternura.”

 

Leia também: Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e resistência, de Manuela D’Ávila.

 

 

Uma das fake news mais absurdas que eu tive o desprazer de ouvir até hoje foi sobre a Manuela D’Ávila. Estava aguardando a minha vez na fila de votação, era o primeiro turno das últimas eleições. Uma senhora que estava atrás de mim na fila disse a quem quisesse ouvir que não residia em meu município, mas gostava de votar lá por ser amiga de alguns políticos. Continuou, dizendo que precisávamos banir a corrupção e o comunismo do Brasil e, para tanto, era necessário não votar nunca mais no PT. Essa senhora sabia de fontes seguras que a Manuela D’Ávila, sabendo que perderia a eleição, teria sacrificado 300 touros para virar o jogo e vencer o pleito.

Eu soube de coisas ainda piores, oriundas do Whatsapp, e me intriga até hoje o porquê de grande parte dos boatos das eleições terem a Manuela D’Ávila como protagonista. Sei de muitas mulheres que acharam um absurdo ela ter aceitado compor a chapa com o Haddad, pois viram como subalternidade o que foi, simplesmente, uma decisão política (pelo menos essa é a minha visão). A internet tem dessas coisas, ao mesmo tempo em que aproxima as pessoas, também pode nos inundar com o pior que existe nelas.

 

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Sendo eu admiradora da Manu, não poderia deixar de ler o seu livro mais recente, Por que lutamos? Um livro sobre amor e liberdade, publicado recentemente pela Editora Planeta. É uma leitura leve, embasada e que vai agradar a todas nós que, de alguma maneira, acabamos perdidas no mar de nomenclaturas e pautas feministas. Com tanta informação (e desinformação) hoje em dia, até mesmo quem afirma a plenos pulmões que é, sim, feminista, pode se confundir ou duvidar ao encontrar pelo caminho outra feminista de visão — e fala — radicalmente diferente da sua. Imagina então quem nunca sequer parou para pensar nesse tema? Mas está tudo bem pensar diferente e ser diferente. O importante é estarmos juntas, para somar e não diminuir. Em um primeiro momento pode parecer que Por que lutamos? é um livro que “chove no molhado”, por tratar de temas que já foram e são debatidos quase à exaustão. No entanto, essa impressão vai embora nas primeiras páginas. Porque lutamos? é, sobretudo, um convite à reflexão.

 

“Assim, quando nós falamos que homens não dividem responsabilidades, nós não estamos falando sobre o meu ou o seu marido que divide responsabilidades. Estamos falando da maioria. Quando nós questionamos a compulsoriedade da maternidade, não estamos falando da tua escolha de ser mãe, mas sobre um ideal na sociedade que diz que mulheres somente são felizes quando são mães. Quando falamos que mulheres são machistas, não estamos falando de ti, mas de nós todas que estamos em constante processo de desconstrução de verdades outrora tão absolutas.”

 

“Quero que olhes para os lados e percebas teus privilégios para que tenhamos mais força para as lutas que temos pela frente. Quero que tu possas escutar uma mulher dizendo: ‘Eu não preciso do feminismo, eu odeio as feministas, eu não sou feminista’ e — afetuosa e generosamente — perguntar e ouvir os motivos, apresentar informações e convidar a refletir.”

 

“O machismo, afinal, é como uma piscina. Todas as pessoas estão se molhando. Algumas, apenas a sola dos pés, outras quase morrendo afogadas.

Como a gente sai dela?

Com liberdade, voz e coragem.

De mãos dadas e ao mesmo tempo.

Vem.”

 

“Porque as opiniões podem e devem ser diferentes, o que interessa é descobrir qual o caminho que nos faz respeitar as nossas diferenças, para que jamais voltemos a silenciá-las e guardando a convicção que quanto mais próximas andarmos, mais alto ecoará o barulho dos nossos passos.”

 

“Nosso papel de militante é disputar a consciência social e não meramente hostilizar e ridicularizar quem não está conosco. Pois assim como é preciso se colocar no lugar da outra pessoa pra entender que fome não é aquela sensação de vazio antes da hora do almoço, é urgente ter empatia e acolher pessoas em suas ignorâncias, no literal sentido de ignorar.”

 

 

A maior lição que eu vou levar a partir deste livro é pelo menos tentar não revirar os olhos quando uma mulher diz que não é feminista ou que odeia o feminismo. Agora, vou querer saber mais, vou querer saber o porquê. Assim, vamos poder pelo menos conversar, vamos pelo menos tentar nos entender e nos respeitar, como tem que ser. Manu diz: “Não somos todas iguais. Temos causas que nos unem.” 

Por que lutamos? Um livro sobre amor e liberdade tem prefácio de Maria Ribeiro, atriz e escritora. Concordo quando ela diz querer ser amiga da Manuela D’Ávila, por sua trajetória e por ser “a detentora oficial da camiseta ‘Lute como uma garota’”. De certa forma, lendo esse livro (e tendo lido o outro, Revolução Laura) é como se já estivéssemos na mesma roda, uma roda imensa de mulheres caminhando juntas. Vocês estão ouvindo nossos passos? Eu estou.

 

 

 

 

Autora: Manuela D’Ávila

Editora: Planeta

Páginas: 160

Compre na Amazon: Por que lutamos? Um livro sobre amor e liberdade.

abril 02, 2019

[RESENHA] REVOLUÇÃO LAURA: REFLEXÕES SOBRE MATERNIDADE E RESISTÊNCIA, DE MANUELA D’ÁVILA

Sinopse: “Este livro é o registro afetivo de uma mulher, mãe de uma criança de dois anos, que aceitou o desafio de concorrer à presidência do Brasil em novembro de 2017 e que, em agosto de 2018, tornou-se candidata a vice-presidente, chegando ao segundo turno. Uma mulher que percorreu um país continental, amamentando sua filha e construindo uma nova forma de ocupação do espaço político. Também é uma conversa, sobre uma jornada de aprendizado e acolhimento. Sobre privilégios; sobre as lutas para que privilégios não existam mais. É sobre direitos. É sobre feminismo e liberdade. É sobre afeto, carreira e amor, porque não tem sentido ser pela metade. É sobre estar e não estar; presença e ausência. Sobre ser mãe e mulher; ser madrasta e não ser bruxa. Sobre acolher, sonhar um outro mundo e ser o outro mundo sonhado. E, profundamente, é sobre uma revolução chamada Laura. Uma revolução de amor, de amor próprio, de potência. Porque depois de gerar um filho não há nada, nadica de nada que uma mulher não possa fazer.”

 

Em que possa pesar os posicionamentos políticos da autora para alguns leitores na escolha deste livro (não é o meu caso, mas acho importante fazer essa observação), Revolução Laura: Reflexões sobre maternidade e resistência, de Manuela D’Ávila (Belas-Letras, 2019) é um livro sobre mães e para mães, sejam elas de esquerda ou de direita (ou de nenhum lado).

Eu acompanhei admirada a jornada da Manu na última eleição presidencial. Não votei na chapa dela no primeiro turno, mas, confesso, tinha um orgulho danado daquela mulher com sua filha pequena ocupando espaços majoritariamente masculinos. Quem é mãe sabe que é difícil ocupar qualquer lugar depois da maternidade. As pessoas, em geral, acham que a mãe e seu filho devem ficar trancados até que ele complete uma idade em que não cause transtorno para a sociedade. Por transtorno entenda qualquer barulho, seja choro ou risada.

Quando criei este blog, eu estava grávida da Olívia. O blog nasceu em janeiro e, a Olívia, em abril de 2016. Antes de ter este espaço eu colaborava com outro blog de muito sucesso, o Escritoras Inglesas, atualmente desativado. Quanto mais avançada ia ficando a minha gestação, mais eu ouvia que eu podia esquecer esse negócio de livro. Falavam que filho dá trabalho, nunca mais eu ia ler nada etc. Pessoas próximas e pessoas da internet que, apesar de dizerem gostar dos meus textos, praticamente me davam os pêsames porque certamente eu ia interromper por tempo indeterminado as leituras e os trabalhos de escrita. Ainda tinha a faculdade, que eu não tinha terminado. Muita gente olhava torto e achava que eu estava doida (foi uma gravidez planejada!), porque uma criança ia estragar tudo. Ao mesmo tempo em que a sociedade nos cobra um filho, ela diz que a nossa vida vai acabar tão logo termine a gestação. Felizmente eu tive apoio do meu marido para tocar o projeto do blog e a faculdade precisou ser trancada apenas por um semestre, porque eu quis ter esse tempo sem estudar. Eu sabia que ia dar tudo certo, tinha certeza disso. Meu rendimento acadêmico depois da Olívia melhorou e eu devo concluir o curso neste semestre (2019-1). Quanto ao blog e aos projetos de escrita, vocês podem ver por si mesmos por aqui. Tenho quatro e-books lançados na Amazon, um livro físico, dezenas de leituras e resenhas, além de muitas ideias ainda na cachola!

Por essa e outras razões mulheres públicas como Manuela D´Ávila são um bálsamo para mulheres anônimas como eu. Uma mulher que é mãe e que se faz conhecer como mãe na política, mostra a todas nós que nós podemos. Nós podemos ser mães e continuarmos nós mesmas, trabalhadoras, escritoras, e o que mais quisermos ser!

 

Manuela D´Ávila e sua filha, Laura. O livro é recheado de fotos das duas.

 

“QUANDO A GENTE VIRA MÃE OU PAI, A DOR DO MUNDO DEVE DOER MAIS. Foi o Duca que me falou. Eu achava impossível ser mais doído do que pra mim sempre foi. Mas ele estava certo. Ser mãe da Laura me fez querer ainda mais que toda criança tenha arroz, feijão, casa, amor, escola.

Porque a gente entende o quão indefesa é a criança. Porque a gente sabe o tamanho de sua ingenuidade. Porque a gente sabe que precisam de pouco e que esse pouco é negado para quase todas.”

 

“Por que somos marcadas pela certeza (sobretudo dos outros) de que é impossível ter felicidade profissional, de que a mulher sempre precisa abrir mão de algo precioso para realizar sonhos? Quem nos contou essa mentira? Por que a gente acreditou?”

 

Eu ri e me emocionei com essa leitura, e não podia ser diferente. A Revolução Laura na verdade é a revolução que a maternidade bem vivida, com divisão justa das responsabilidades e desejada causa na vida de uma mãe. É uma delícia, mas dá trabalho. Os relatos não lineares da vida da Laura, a jornada dela e de sua mãe pelo Brasil nos mostram que ainda vamos brigar muito para ter uma sociedade mais igualitária, mas isso começa dentro da nossa casa, muitas vezes precisa acontecer ainda dentro da nossa cabeça. Fiquei muito feliz de ver, com esse livro, que não fui a única em algumas situações — os melhores livros sobre maternidade (escritos por mães) têm esse efeito terapêutico — como a sensação estranha de descobrir a gravidez, mesmo planejando e esperando por ela, ou se olhar no espelho e se despedir daquele corpo e daquela pessoa que você é antes do nascimento do seu filho. Ainda, as frustrações que podem acontecer já no parto, pois assim como a Manuela D´Ávila eu quis muito o parto normal e acabei tendo que fazer uma cesariana (o que não é demérito, mas não era o que eu sonhava) e não me lembro do parto, pois simplesmente apaguei com as anestesias. Conheci a Olívia já no quarto, de roupinha, quando imaginava que a teria no meu peito em seus primeiros instantes de vida. A maternidade é assim, espontânea, e a gente percebe antes mesmo de sair do hospital.

Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e resistência foi uma leitura muito boa, tornou-se um dos meus livros de cabeceira nesta temática revolução maternidade. Eu gosto desse tipo de livro porque serve para rir, se emocionar, mas também para mostrar que não estamos sozinhas. A mãe moderna, apesar de muito cobrada, não precisa estar sozinha. Estamos juntas e vamos chegar lá. Pela Laura, pela Olívia e para que todas as meninas possam ter a liberdade de serem quem elas quiserem.  

 

 

 

Título: Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e existência.

Autora: Manuela D’Ávila

Editora: Belas-Letras

Páginas: 192

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