dezembro 16, 2016

[RESENHA] LONGE DESTE INSENSATO MUNDO, DE THOMAS HARDY

Sinopse: “Bathsheba Everdene é espirituosa e expansiva demais para uma dama inglesa do século XIX. Antes uma simples camponesa, agora é herdeira de uma vasta propriedade rural em Weatherbury, mas seu temperamento independente e enigmático causa falatórios entre seus próprios empregados. Gabriel Oak, um fazendeiro que sofrera grandes perdas, é apaixonado por ela, mas a jovem tem outros pretendentes, o sedutor sargento Troy e o respeitável fazendeiro de meia-idade Boldwood. Ao mesmo tempo em que os destinos destes três homens dependem da escolha de Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. Um romance de paixão, com descrições da vida rural e paisagens idílicas, apresenta ao leitor uma obra-prima com extrema honestidade sobre as relações sexuais.”

 

Longe deste insensato mundo é um romance escrito por Thomas Hardy, publicado originalmente em 1874, sendo já nesta época um Best-seller. Neste livro, Hardy usa pela primeira vez o cenário rural que criou para suas histórias, Wessex, retratando o sudeste da Inglaterra, que ele conhecia muito bem.

O livro narra a história de Bathsheba Everdene, uma jovem que no início da história é pobre, mas logo tem sua vida transformada ao receber a herança de um tio, tornando-se dona de uma vasta propriedade rural. Antes de se tornar fazendeira, ela é pedida em casamento por Gabriel Oak, mas recusa-o, pois não se vê feliz ao vislumbrar um casamento. Afirma não amá-lo e dá sinais de ainda não estar pronta para tal compromisso, o que, para época, poderia ser considerado um tremendo disparate.

“‘Farei uma única coisa nesta vida, uma coisa certa, que é amá-la e esperá-la, e continuar a desejá-la até morrer.’ A voz dele tinha uma compaixão genuína agora e suas grandes mãos tremiam perceptivelmente.

‘Parece assustadoramente errado não aceitá-lo quando você tem tanto sentimento!’, disse ela com um pouco de angústia, olhando ao redor sem esperanças de escapar de seu dilema moral. ‘Como gostaria de não ter corrido atrás de você!’ No entanto, ela parecia encontrar um atalho para reencontrar a alegria e ajustou seu rosto para parecer brejeira. ‘Não seria possível, Mr. Oak. Quero alguém que me dome. Sou independente demais. Você nunca conseguiria, sei disso.’” (p. 29)

 

Assumindo a posição de fazendeira, Bathsheba dá mais sinais de sua personalidade forte e independente, pois, ao demitir o administrador da fazenda por motivo de roubo, decide, ela mesma, cuidar da administração da propriedade. Apesar de ser um romance vitoriano, Hardy não escreveu sua protagonista seguindo os moldes da época. Miss Everdene não é um modelo de candura, e sim uma mulher forte, que comete erros e tem seus momentos de acerto, como todas nós. Encanta, neste livro, o realismo dos personagens, suas declarações e, claro, as belíssimas paisagens da Inglaterra rural.

“‘Agora prestem atenção, vocês têm uma patroa em vez de um patrão. Ainda não conheço o meu poder e meus talentos para a agricultura, mas devo fazer o meu melhor e se me servirem, servirei a vocês. Se houver alguém desleal entre vocês (se houver alguém, mas espero que não) achando que por eu ser uma mulher não entendo a diferença entre mau e bom comportamento.’

‘Não, dona’, disseram todos.

‘Muitíssimo bem observado’, disse Liddy.

‘Acordarei antes de vocês; estarei nos campos antes que cheguem e tomarei o meu desjejum antes que estejam nos campos. Resumindo, surpreenderei todos vocês.’”

 (p. 68)

 

Quando a protagonista pensou ter deixado sua antiga vida para trás, eis que surge novamente em sua vida Gabriel Oak. O homem ajudou os funcionários de Bathsheba a salvarem o trigo da fazenda que estava prestes a ser consumido em um incêndio. Tendo perdido sua propriedade, Oak torna-se funcionário de Bathsheba, no cargo de pastor de ovelhas. Com o desenvolvimento da história vemos uma relação de cumplicidade acontecer entre Gabriel e Bathsheba. Ele, mais que um homem apaixonado, dispõe-se a ajudar e a aconselhar a jovem sempre que é preciso. Fiquei encantada com o personagem, modelo de tudo o que uma mulher poderia desejar em um homem.

Miss Everdene, apesar de assumir um posto que demandava muita responsabilidade, era apenas uma jovem, e, como toda jovem, era dona de um coração inconstante. Além de Gabriel, ela despertou os sentimentos do respeitável fazendeiro de meia idade, Mr. Boldwood. A princípio, ele não a havia notado, mas, a partir de uma brincadeira com um cartão de dia dos namorados, ele apaixona-se perdidamente por Bathsheba.

 

“‘Oh, o fazendeiro Boldwood’, murmurou Bathsheba e olhou para ele enquanto este ia ainda mais rápido. O fazendeiro não virou a cabeça em nenhuma vez, seus olhos estavam fixos num ponto mais distante da estrada, que passou tão inconscientemente e distraidamente como se Bathsheba e seus encantos fossem o mais diluído ar.’” 

(p. 76)

 

“‘Sofro – muito – ao pensar’, declarou ele com simplicidade solene. ‘Venho conversar com você pela primeira vez. Minha vida não me pertence mais desde que a vi, Miss Everdene. Venho para pedir-lhe em casamento.’” (p. 103)

 

 

Em um esbarrão na mata de abetos, surge o Sargento Troy. Um encontro inusitado, após o entardecer entrelaça, literalmente, o destino dele e de Bathsheba. A roupa dela ficara presa na espada do oficial. Neste incidente, surgem os primeiros diálogos e uma tensão sexual entre os dois, principalmente da parte da jovem.

Troy é um sedutor por natureza, e consegue fazer com que Bathsheba perca o juízo. Nos dias atuais, ele certamente seria um flerte, ou um caso de uma noite só. Mas estamos no século XIX, Inglaterra Vitoriana, então desde a sua primeira aparição não é difícil imaginar o caos que o personagem será capaz de causar na vida da nossa protagonista e dos seus admiradores.

“‘Bathsheba amou Troy da maneira que somente as mulheres autoconfiantes amam quando abandonam sua autoconfiança. Quando uma mulher forte de forma imprudente joga fora sua força é pior do que uma mulher fraca que nunca teve força para jogar para fora. Uma fonte de sua inadequação é a novidade da ocasião. Ela nunca teve prática em fazer o melhor de tal condição. A fraqueza é duplamente fraca por ser nova.’” (p. 152)

 

“‘E os defeitos de Troy ficavam completamente distantes da visão de uma mulher, enquanto seus encantos estavam bem na superfície, contrastando assim com o humilde Oak, cujos defeitos eram evidentes a um cego e cujas virtudes eram como metais em uma mina.’” (p. 153)

 

Longe deste insensato mundo foi o primeiro livro que li de Hardy e, certamente, não será o último. Suas descrições na medida certa e seus personagens inconstantes e errantes tornaram-me a mais nova fã de carteirinha do autor. Vi que muitas pessoas criticam sua Bathsheba. Eu a amo justamente por ser uma mulher falha, que aprende com a vida e com as circunstâncias. Um romance inesquecível e uma das melhores leituras do ano.

 

Além de tudo o que falei acima, que é só uma parte da história para que o leitor da resenha não perca o prazer de surpreender-se com Longe deste insensato mundo, preciso dizer mais uma vez, pois quem me acompanha nas redes sociais já sabe, o quão maravilhoso foi ter esta que é a primeira edição dessa super história, em português, dedicada a mim. Serei eternamente grata à Pedrazul Editora pelo carinho comigo nesta edição.

 

 

 

Título: Longe deste insensato mundo
Autor: Thomas Hardy
Tradução: Ellen Bussaglia
Editora: Pedrazul
Páginas: 328

 

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Ouça a playlist da adaptação de 2015:

dezembro 06, 2016

[RESENHA] VILLETTE, DE CHARLOTTE BRONTË

Sinopse: “Villette é, de muitas formas, um romance delicado e deliciosamente difícil. Tudo o que diz respeito à sua heroína, Lucy Snowe, é encoberto por uma névoa de inacessibilidade e uma certa escuridão que sustenta a narrativa. Lucy se muda para a cidade fictícia de Villette, onde será professora de inglês em um internato. Ali, será confrontada pelos traumas do passado enquanto completa seu percurso de heroína, com os dissabores e conquistas de uma mulher vitoriana, mas eternamente atual. Uma obra-prima de Charlotte Brontë.” 

 

Villete é um romance escrito por Charlotte Brontë, publicado originalmente em 1853, que narra a vida de Lucy Snowe, uma jovem de poucos recursos que sai da Inglaterra com destino a cidade de Villette e acaba tornando-se professora de inglês em um internato.

A história começa em uma visita de férias que a protagonista faz a casa de sua madrinha, a Sra. Bretton. Pelo olhar de Lucy Snowe, conhecemos a casa dos Bretton’s e a pequena Polly, filha de um amigo da família. A menina desenvolve uma forte relação de amizade com jovem Graham Bretton, na época com 16 anos. A visita de Polly durou poucas semanas e também Lucy deixaria a casa da madrinha em breve.

Alguns anos depois desta visita, anos esses que Lucy não revela muito do que se passou, mas permite-nos saber que sua situação financeira não é das melhores, ela começa a trabalhar como dama de companhia da Srta. Marchmont, uma rica, porém reumática senhora.

“E, assim, dois quartos quentes e fechados se tornaram meu mundo; e uma senhora idosa e inválida, minha patroa, minha amiga, tudo para mim. Atendê-la era meu dever; sua dor, meu sofrimento; seu alívio, minha esperança; sua raiva, minha punição; sua apreciação, minha recompensa. Esqueci que havia campos, bosques, rios, mares, um céu sempre cambiante além da gelosia embaçada de seu quarto de inválida; eu quase me sentia contente por esquecer isso.” (p. 74)

 

Contudo, o destino reservara algo diferente para Lucy: com o falecimento da  Srta. Marchmont, ela se vê obrigada a procurar uma outra colocação. A jovem, então, seguiu para Londres e, de lá, para Villette, no reino (de língua francesa) de Labassecour. Seus caminhos levaram-na ao pensionato de Madame Beck, onde, a princípio, ela ficaria responsável pelos cuidados com as filhas da Madame, mas depois acabou assumindo o posto de professora de inglês na escola.

“Digo novamente: Madame era uma grande mulher, e muito capaz. Aquela escola proporcionava a seus poderes uma esfera muito limitada; ela deveria ter conduzido uma nação: deveria ter sido líder de uma turbulenta assembleia legislativa. Ninguém poderia tê-la desencorajado, ninguém irritava seus nervos, exauria sua paciência ou ultrapassava a sua astúcia. Em sua pessoa, ela poderia ter abarcado os deveres de um primeiro-ministro e de um superintendente de polícia. Sábia, firme, desconfiada; sigilosa, astuta, desapaixonada; vigilante e inescrutável; perspicaz e insensível; e, além disso, perfeitamente decorosa; o que mais poderia ser desejado?” (p. 136)

 

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Villette seria uma versão ficcional da cidade de Bruxelas, na Bélgica, onde a autora estudou com sua irmã Emily. Todo o romance tem elementos que indicam ser um relato autobiográfico de Charlotte Brontë e de posse desta informação o leitor torna-se ainda mais próximo da heroína Lucy Snowe, em seus devaneios e sofrimentos. As protagonistas de Charlotte Brontë, como eu tenho visto até agora, são mulheres a frente de seu tempo, como a autora mesma foi. Elas iam à luta, buscavam o seu sustento da forma que era possível, e tal atitude é exemplo para nós ainda nos dias de hoje.

“Não há nada como encarar tudo o que você faz com uma expectativa modesta: isso mantém a mente e o corpo tranquilos; enquanto as noções extravagantes podem levar ambos a um estado febril.” (p. 87)

 

No pensionato conhecemos também Dr. John, que ajudou Lucy em sua chegada a Villette e por quem ela nutriu sentimentos controversos, diria quase um amor platônico; Ginevra Fanshawe, um projeto de coquete que se diverte em um jogo de sedução envolvendo Dr. John e De Hamal, dentre outros. O personagem mais carismático e meu favorito neste romance é M. Paul Emanuel, que é um dos poucos, senão o único, a travar diálogos interessantes e estimulantes com Lucy. Ele é responsável pelas melhores cenas do livro e será muito importante na vida da nossa heroína.

Villette é de leitura mais lenta que Jane Eyre, romance mais conhecido da autora. Durante páginas e mais páginas a história de Lucy Snowe parece não avançar quase nada. Era o mar calmo na superfície com um turbilhão de sentimentos nas profundezas. Ainda assim, sabendo, como já foi dito, que trata-se de uma autobiografia de Charlotte Brontë, embora não com o compromisso de ser integralmente fiel a realidade, a motivação para prosseguir vinha até nos momentos em que desistir para retomar a leitura em outro momento apresentava-se como opção. Quando entendi o ritmo do romance a leitura fluiu melhor. Saber mais sobre uma mulher que mesmo com todas as adversidades e tristezas foi capaz de criar histórias que emocionam até os dias de hoje é recompensador. Charlotte Brontë é Lucy Snowe e Lucy Snowe é um pouquinho de cada uma de nós, mulheres.

“Seu tom é simultaneamente pessoal, profundo, altamente cultural e traz alguns indícios de feminismo, se fosse possível falar dele nesse período histórico.” (posfácio, por Lilian Cristina Corrêa)

 

A edição especial da Martin Claret conta com o prefácio de Lenita Maria Rimoli Esteves, uma nota da tradutora, Solange Pinheiro, e o pósfácio de Lilian Cristina Corrêa. Além do cuidado no acabamento do livro e da capa lindíssima, vê-se que a editora tem se preocupado em incluir em suas obras, sobretudo nas edições especiais, um material complementar que em muito enriquece a nossa experiência de leitura. Um ponto negativo para mim, mas que não diminui em nada o trabalho feito nesta edição, foi colocar todas as expressões em francês no final do volume. A tradutora optou por manter as expressões em francês no corpo do texto, para que este ficasse o mais próximo do original possível, mas teria sido mais confortável ter as traduções no rodapé das páginas. Contudo, entendo que isso poderia ser um problema no acabamento do livro, pois Villette segue o padrão das outras edições especiais das irmãs Brontë já publicadas pela editora, a saber: Agnes Grey, Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes.

 Destaco, sem spoilers, que o final da história é bastante interessante. É um final diferente, digamos, dos que vemos em livros similares. Para os fãs de Charlotte Brontë e de uma história bem escrita, Villette é uma ótima pedida!

 

 

Título: Villette
Autora: Charlotte Brontë
Tradutora: Solange Pinheiro
Editora: Martin Claret
Páginas: 856

 

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

 

setembro 29, 2016

[RESENHA] ESPOSAS E FILHAS, DE ELIZABETH GASKELL

Sinopse: “Inglaterra provincial, 1830. Molly Gibson, filha única de um médico viúvo, é negligenciada por Miss Clare, ex-governanta. Sete anos depois, Molly é uma atraente jovem que desperta o interesse de um dos aprendizes de seu pai, Mr. Coxe. O afeto é descoberto, e Mr. Gibson envia a filha para ficar com os Hamleys, de Hamley Hall, uma família da pequena nobreza. Lá ela se torna amiga do Hamley mais novo, Mr. Roger. O filho mais velho da família, Osborne Hamley, um jovem bonito, inteligente e mais elegante do que seu irmão, é esperado para fazer um casamento brilhante após uma excelente carreira na Universidade de Cambridge. Porém, um grande segredo o envolve. Intrigas, mexericos, preconceitos, traições, tragédias e amor marcam este formidável romance considerado pela autora como Uma História Cotidiana.”

 

Elizabeth Gaskell é muito conhecida dentre os admiradores da literatura inglesa, especialmente pelo romance Margaret Hale (Norte e Sul). Quem conhece a história de Margaret e Mr. Thornton pensa que já leu o melhor da autora. Contudo, Esposas e Filhas, embora não tenha um personagem masculino tão marcante como John Thornton, possui um enredo riquíssimo e tem todas as qualidades para se tornar o novo favorito da autora na estante de muitos leitores.

O romance narra a história de Molly Gibson e também dos habitantes da cidade interiorana de Hollingford. Mrs. Gaskell, como assinava as suas obras, ficou famosa por detalhar com maestria as muitas camadas da sociedade da Inglaterra Vitoriana. Seus romances, inclusive, foram e continuam sendo fonte de pesquisa para historiadores sociais e para os leitores que gostam de saber mais sobre a cultura da época.

Não ensine muitas coisas a Molly. Ela deve saber costurar, ler, escrever e fazer cálculos, mas quero que continue sendo uma criança, e, se eu descobrir que ela precisa aprender mais do que o desejável, eu mesmo providenciarei. Afinal, não tenho certeza se ler e escrever sejam necessários. Muitas mulheres de boas condições casam-se usando um ‘X’ ao invés do nome. Isto é mais para uma dissolução do juízo materno. Contudo, devemos nos render aos danos da sociedade, Miss Eyre, então, você pode ensinar a menina a ler.” (ps. 30 e 31)

 

Molly, em visita à mansão de Towers, quando ainda criança, passa por uma situação desagradável durante o passeio: adormece e é negligenciada por Clare, antiga governanta das crianças da mansão, que esquece de acordar a menina a tempo de ir para casa quando todos os convidados já haviam ido embora. Mal sabia a garota que o destino das duas se cruzaria novamente, alguns anos depois.

Mr. Gibson, pai de Molly e médico de Hollingford, recebe em sua casa alguns estudantes a fim de lhes ensinar o ofício da medicina. Com sua filha tornando-se moça, ele se preocupa com as investidas de um de seus alunos e decide enviar Molly para passar algum tempo com a família Hamley.

Na casa dos Hamleys, Molly estabelece uma grande amizade com o casal Hamley, sobretudo com Mrs. Hamley. A jovem torna-se como uma filha para a senhora, que possui uma saúde frágil. O fazendeiro, Mr. Hamley, muito amigo de Mr. Gibson, também nutre uma forte afeição pela jovem, vendo o bem que ela faz a sua esposa. Todo esse afeto também se estende aos filhos do casal, Osborne e Roger, sendo este último objeto de um carinho mais especial por parte de Molly.

Ela sentiu que ele lhe fazia bem, mas não sabia como ou por quê. Depois de uma conversa com ele, sempre achava que tinha encontrado o caminho para a bondade e a paz, o que quer que acontecesse.” (p. 115)

 

Neste ínterim, percebendo que o mais adequado seria arrumar uma nova mãe para Molly, a fim de orientá-la e ajudá-la com os assuntos da mocidade, o médico decide se casar justamente com Mrs. Kirkpatrick, Clare, e assim formar uma nova família. Ela também é viúva e tem uma filha mais ou menos da idade de Molly, Cynthia.

Molly, a princípio, detesta a ideia de ver seu pai casando-se novamente, ainda mais com uma mulher por quem ela não tem muita simpatia. Contudo, por amor a ele e também por sua índole gentil, aceita o casamento e faz o possível para viver bem com a madrasta. O casamento, no final das contas, teve seu ponto positivo, pois Molly e Cynthia tornam-se grandes amigas, apesar da personalidade complicada da filha de Clare.

‘Eu gostaria de poder amar as pessoas como você, Molly!’

‘Você não pode?’, perguntou Molly com surpresa.

‘Não. Acredito que muitas pessoas me amam, ou pelo menos é o que penso, mas nunca me importo muito com ninguém. Acredito que amo mais você, Molly, que conheço a dez dias, mais do que a muitos.’” (p. 182)

 

Cynthia e sua mãe são personagens fascinantes. Não são essencialmente boas, mas também não posso dizer que são más. Nem mocinhas, nem vilãs. Mesmo Mrs. Gibson, com seu caráter duvidoso, não poderia assumir a máscara de vilã. Apenas dissimulada, ou, se pensarmos em como era a sociedade da época, uma sobrevivente, disposta a usar das artimanhas que fossem possíveis para conseguir atingir os seus objetivos.

Gaskell enfatiza o papel das mulheres em seus livros ao criar personagens femininas que fugiam do lugar comum. Em Esposas e Filhas podemos observar que todo o enredo é estruturado em torno das mulheres, as esposas e filhas de Hollingford, suas ações e convicções.

A autora faleceu em 12 de novembro de 1865, aos 55 anos, em decorrência de um ataque cardíaco. Seu último livro, Esposas e Filhas, que estava sendo publicado de forma seriada desde o mês de agosto de 1864, ficou inacabado. Nós podemos imaginar o destino dos personagens e o editor da Cornhill Magazine, Frederick Greenwood, fez algumas considerações sobre o que estaria reservado para o destino dos nossos queridos personagens, especialmente o de Molly e Roger. Confesso que ao chegar às últimas páginas senti uma grande melancolia, mesmo sabendo previamente que o livro havia ficado inacabado. Como leitora, imagino quantas histórias Mrs. Gaskell ainda seria capaz de escrever e como seria ótimo ler o final de Esposas e Filhas escrito por ela.

A história é interrompida aqui, e nunca será terminada. O que prometia ser a obra-prima de uma vida é um memorial da morte. (…) Mas, se a obra não foi terminada, pouco resta para ser adicionado e este pouco se reflete claramente em nossa imaginação.” (p. 533)

 

O romance foi adaptado pela BBC em 1999, mas a produção não é a das melhores feitas pela emissora britânica. Quem, como eu, assistiu a série antes de ler o livro, fica com a impressão de que a história é razoavelmente boa. Nada mais do que isso. Mas não é verdade! A produção deixou muitas lacunas e, depois de ler o romance, tenho minhas dúvidas quanto a escolha do elenco (embora possua grandes nomes da teledramaturgia britânica). O positivo de assistir Wives and Daughters é, certamente, ver o final da história, pois ele consegue corresponder às nossas expectativas.

Esposas e Filhas da Pedrazul Editora conta com as lindíssimas ilustrações de George Du Marrier, presentes na publicação seriada e na primeira edição do livro. Para quem gosta de uma boa história, o romance é uma ótima pedida: cada página é um deleite e cada capítulo nos faz querer ler o próximo imediatamente. Amores, segredos e a vida na sociedade vitoriana, um verdadeiro clássico indispensável da literatura inglesa.

 

Título: Esposas e Filhas

Autora: Elizabeth Gaskell

Tradução: Ellen Cristina Bussaglia

Editora: Pedrazul

Páginas: 540

REFERÊNCIA

http://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Gaskell

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

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