fevereiro 02, 2017

[RESENHA] “VASTO MAR DE SARGAÇOS” OU A HISTÓRIA DE (BERTHA) ANTOINETTE MASON

ATENÇÃO: A resenha contém spoiler para quem não leu ou não conhece o romance “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë.

 

Sinopse: Publicado em 1966 e inédito até então no Brasil, Vasto mar de sargaços é a obra-prima de Jean Rhys. Nascida na Dominica, em 1890, e radicada na Inglaterra desde os 17 anos, Rhys foi uma das primeiras escritoras a falar da questão feminina e da colonização em sua obra, precursora das chamadas narrativas pós-coloniais. Inspirado na personagem Bertha Antoinette Mason, a ‘louca do sótão’ do clássico vitoriano Jane Eyre, de Charlotte Brontë, o romance dá voz à caribenha vivendo na Inglaterra que, assim como a própria autora, sofria com as dificuldades originadas do choque entre culturas. Fonte: Editora Rocco.

 

Jane Eyre é um dos meus romances favoritos! A protagonista, que dá nome ao livro e a várias adaptações cinematográficas e para televisão, é uma mulher de espírito livre, em uma época em que as mulheres não podiam ser muita coisa, sobretudo as mulheres pobres. A jovem encontra o amor nos braços de Edward Rochester, dono do castelo de Thornfield, em um amor que seria impossível do ponto de vista social e econômico, mas aconteceu graças à união das mentes tidas como iguais. Entretanto, como nem tudo são flores, principalmente na vida de Miss Eyre, no dia de seu casamento com Mr. Rochester, quase ao final da cerimônia, uma pessoa aparece e interrompe o sonho romântico da jovem. Mr. Mason informa aos presentes que Rochester é um homem casado e que sua esposa está viva. Portanto, a cerimônia ali realizada era ilegal. Parecendo pouco surpreso, Rochester volta para casa e mostra a todos, incluindo a sua noiva Jane, o estado deplorável da mulher a qual ele está preso pelo laço sagrado do matrimônio. Ninguém a não ser Mr. Rochester e a funcionária que cuidava de Bertha Mason, Grace Poole, sabia que havia alguém vivendo no sótão de Thornfield Hall. Os gritos ocasionais da mulher eram tidos como o de algum fantasma ou da própria Grace Poole. A partir daí, com o coração partido, Jane Eyre muito corajosamente abandona o seu posto em Thornfield Hall, embora o seu ex-patrão e ex-noivo tenha lhe proposto uma vida clandestina a seu lado. Jane Eyre não tinha família, mas tinha princípios, então fez o que era o mais correto naquele momento. Partiu sem olhar para trás.

O casamento sendo interrompido. Jane Eyre, BBC 2006.

No entanto, havia mais ali e nem sempre prestamos muita atenção. Havia uma mulher que, diziam, era louca, e vivia em cárcere. Nos idos de 1847, quando o livro de Charlotte Brontë foi lançado, as instituições que se propunham a cuidar dos deficientes mentais utilizavam métodos semelhantes a tortura, ocasionando a morte de seus internos. Rochester tenta se justificar dizendo que as condições para Bertha fora dali seriam as piores possíveis, mas será que ele realmente não teria condições de manter a esposa em uma habitação mais digna? Pensando nisso e em como a mulher caribenha foi retratada em Jane Eyre, Jean Rhys escreveu, por longos vinte anos, o livro Vasto mar de Sargaços, com o intuito de dar voz à mulher silenciada pelo choque cultural e também pelo marido.

 

“As irmãs Brontë tinham, é claro, o toque de genialidade (ou muito mais), especialmente Emily. Então, lendo ‘Jane Eyre’ não se pode evitar a leitura fluente, em maiores considerações. Mas, eu, lendo mais tarde, e muitas vezes, fiquei chocada com o retrato de lunática que ela traça, as cenas crioulas erradas, e sobretudo a crueldade real do Sr. Rochester. Afinal de contas, ele era um homem abastado e haveria maneiras mais gentis de dispor (ou esconder) uma mulher indesejada – ouvi a história de uma – e o marido se comportou de forma bem diferente. (Outra pista).

Mesmo quando eu sabia que tinha que escrever o livro – ainda assim não parecia tocar no ponto certo – e essa é uma razão (embora não a única) por que demorou tanto. Não tinha havido o clique. Não estava lá. Por mais que eu tentasse.

Foi só quando eu escrevi este poema – aí o clique aconteceu – e tudo estava lá e sempre tinha estado.” (Trecho de carta escrita em 14 de abril de 1964 por Jean Rhys para seu amigo Francis Wydham, a respeito de “Vasto mar de sargaços”.)

 

“O mar de Sargaços é uma vasta região do oceano Atlântico, próxima ao Caribe, que compreende mais de três milhões de quilômetros quadrados. Nesta área proliferam algas (conhecidas como ‘sargaços’, daí o nome que se dá ao mar), que cobrem sua superfície como um tapete, dificultando a navegação. (…) Trata-se de uma região polvilhada de belas ilhas, dentre as quais está a Jamaica, escolhida pela escritora antilhana Jean Rhys como cenário para o seu romance ‘Vasto mar de Sargaços’, publicado originalmente em 1966. (…)” (Prefácio de Carla Portilho, Profesora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal Fluminense.)

 

A Inglaterra da era vitoriana podia ser bastante cruel para uma mulher de sangue quente, que não estivesse acostumada a tantos códigos que cerceavam a conduta. Por mais que alguns homens, como Mr. Rochester aparentava ser, permitissem uma maior liberdade de pensamento em suas companheiras, haviam limites para a vida em sociedade, sobretudo inglesa. A partir daí, começamos a perceber que a loucura de Antoinette Cosway poderia não ser, exatamente, uma deficiência mental. Antes de prosseguirmos, é bom deixar claro que o nome Bertha foi inventado por Rochester, que decidiu rebatizar a esposa, pois o nome Bertha parecia-lhe mais agradável. Anteriormente ela já havia ganhado um novo sobrenome, o do padastro, tornando-se Antoinette Mason.

Vasto mar de Sargaços é dividido em três partes: na parte 1, conhecemos as origens de Antoinette, sua família e as marcas deixadas pela colonização em sua região. Na parte 2, ora Antoinette, ora Rochester narram a história; os dois já estão casados. A parte 3 contempla o finalzinho da trágica história da nossa protagonista.

Antoinette não teve uma vida fácil. Vivendo entre aqueles que carregavam as marcas da escravidão, ela era uma mistura que estava perdida em algum lugar dos opostos: não era considerada negra, mas também não tinha o refinamento necessário para ser considerada educada, como os antigos colonos. Filha e neta de senhores de escravos, viu de perto toda a podridão do sistema escravista. Sua mãe, Annete, tendo ficado viúva, casa-se com Mr. Mason, que a tira, de certa forma, da miséria a qual estava vivendo com sua filha. Mr. Mason também tinha um filho do primeiro casamento, Richard, que anos mais tarde chegaria a tempo de interromper a cerimônia de casamento de Mr. Rochester e Jane Eyre.

 

“Então eu desviei os olhos dela e olhei para o meu quadro favorito, ‘A Filha de Miller’, uma linda moça inglesa de cachos castanhos e olhos azuis e um vestido decotado. Depois olhei por cima da toalha branca e do vaso de flores amarelas para o Sr. Mason, tão seguro de si, tão indubitavelmente inglês. E para a minha mãe, tão indubitavelmente não inglesa, mas também não negra branca. Não a minha mãe. Nunca tinha sido. Nunca poderia ser. Sim, ela teria morrido, eu pensei, se não o tivesse conhecido. E pela primeira vez eu me senti grata e gostei dele. Há mais de uma maneira de ser feliz, talvez seja melhor ter paz, sentir-se satisfeita e protegida, como eu me sinto, viver muitos e muitos anos em paz, e depois talvez eu me salve, apesar do que Myra diz.” (p. 31)

 

Annete tinha plena consciência do ódio que os negros sentiam dela e de sua família e temia que algo de ruim acontecesse. Mr. Mason, por outro lado, não acreditava que os negros pudessem fazer algo em represália pelos anos de escravidão. Ele gostava de Coulibri e não queria ir embora do lugar tão cedo. Annete temia por seu filho mais novo, o bebê Pierre. De certa forma, ela não queria que ele crescesse ali, tendo as marcas da colonização refletidas em sua personalidade, como Antoinette.

Um tempo depois os temores de Annete se confirmam verdadeiros.  Um grupo de ex-escravos, incluindo empregados da casa, puseram fogo em sua propriedade, o que acabou resultando na morte do pequeno Pierre. Annete surtou com a tragédia, mas ao invés de ter o apoio da família, sobretudo do marido, foi posta em uma casa sob os cuidados de um casal de negros e era abusada sexualmente por eles. Torna-se louca, vítima das fatalidades que culminaram na morte de seu filho. Ataca Antoinette quando a menina a visita, pouco depois do incêndio, e também ao marido. Depois disso Antoinette é educada em um internato de freiras, até completar a idade matrimonial de 17 anos.

“- Eu convidei uns amigos ingleses para virem passar o próximo inverno aqui. Você não ficará entediada.

– O senhor acha que eles virão? – eu disse, meio em dúvida.

– Um deles virá. Eu tenho certeza.” (p. 55)

 

“Bertha” Antoinette Mason. Jane Eyre, BBC 2006.

 

Edward Rochester, o filho mais novo, portanto, sem direito a uma farta herança ou a grandes propriedades, é o referido inglês que Mr. Mason tem absoluta certeza que conhecerá a sua filha. Antoinette carrega o estigma de ser filha de uma mulher louca, mas também tem um grande dote. É a pretendente ideal para um cavalheiro empobrecido como Rochester. Com a leitura de Jane Eyre, sabemos que o pai de Mr. Rochester tinha apenas o primogênito como favorito e grande herdeiro de suas propriedades. Desta forma, ao filho mais novo restava fazer um casamento vantajoso. Não sendo tão chegado a Edward, planeja casá-lo com Antoinette sem que o jovem saiba absolutamente nada sobre as origens da moça. Tudo fora combinado anteriormente pelo pai do rapaz e o irmão da moça, sendo o casal mero fantoche em um casamento de conveniência.

Mr. Rochester, ao chegar a Spanish Town, é acometido de uma febre muito forte, que o faz perder os sentidos. Seu noivado fora acertado quando ele estava ainda em recuperação, por indicação de seu pai. Quando recuperou-se, já estava comprometido. Ele achava tudo muito primitivo, não amou verdadeiramente sua esposa nem por um momento. Houve, de fato, um pequeno esforço para que eles pudessem viver tranquilamente, mas tudo naquelas Índias Ocidentais espantava Rochester. Quando aos poucos ele foi descobrindo a verdade por trás de seu casamento e as origens de sua esposa, tudo começou a desmoronar.

 

“Ela usava um chapéu de três bicos que lhe caía muito bem. Pelo menos sombreava seus olhos, que são grandes demais e podem ser desconcertantes. Tenho a impressão de que ela nunca pisca. Olhos oblíquos, tristes, escuros e estrangeiros. Ela pode ser crioula de pura descendência inglesa, mas eles não são ingleses nem europeus. E quando foi que eu comecei a notar tudo isso a respeito da minha esposa Antoinette? Acho que foi depois que saímos de Spanish Town. Ou notei antes, mas me recusei a admitir o que estava vendo? Não que eu tenha tido muito tempo para notar alguma coisa. Casei-me um mês depois de ter chegado à Jamaica, e nesse período passei três semanas de cama, com febre.” (p. 63)

 

“Tudo é demais, eu senti enquanto cavalgava cansadamente atrás dela. Azul demais, roxo demais, verde demais. As flores vermelhas demais, as montanhas altas demais, as colinas próximas demais. E a mulher é uma estranha. Sua expressão suplicante me aborrece. Eu não a comprei, ela é que me comprou, ou pensa que comprou. Eu olhei para a crina grossa do cavalo. Querido pai. As 30 mil libras me foram pagas sem discussão ou restrição. Não foi feita nenhuma provisão para ela (isso tem de ser providenciado). Agora eu tenho uma renda modesta. Nunca envergonharei o senhor nem o meu querido irmão, o filho que o senhor ama. Nem cartas suplicantes nem pedidos sórdidos. Nenhuma das manobras furtivas de um filho mais moço. Eu vendi a minha alma, ou o senhor a vendeu, e, afinal de contas, será que foi um mal negócio? A moça é considerada linda, ela é linda. E no entanto…” (p. 66)

 

Mr. Rochester. Jane Eyre, BBC 2006.

 

Antoinette, embora com medo do que pudesse acontecer, uma premonição, talvez, aceita casar-se com Rochester. Aqui cabe informar que, com o casamento, ela torna-se uma mulher pobre, pois todo o seu dinheiro, o seu dote, é de propriedade de seu marido, de acordo com as leis inglesas. Ela dá mostras de que realmente ama o marido, ou tentará amar como for possível. Antoinette é uma mulher marcada por muitos acontecimentos ruins e desejava ter uma vida tranquila, com amor, e se possível no lugar que ela tanto amava. Ela viu em Rochester a oportunidade de ser feliz, mas alguma coisa sempre fazia com que ela tivesse medo. Medo de ser feliz. Ele a fez apaixonar-se, mas não se apaixonou de volta, e pior, acionou o gatilho que destruiu o breve instante de felicidade que ela teve no matrimônio, deixando-a transtornada, presumidamente louca. Daí para o sótão do castelo de Thornfield, que tornou-se propriedade de Rochester com a morte de seu pai e também de seu irmão, foi apenas uma viagem.

 

“- Eu nunca desejei viver antes de conhecê-lo. Sempre achei que seria melhor se eu morresse. Tanto tempo de espera antes que tudo se acabe.

– E você alguma vez contou isso a alguém?

– Não havia ninguém para contar, ninguém para ouvir.

(…)

– Por que você me fez desejar viver? Por que fez isso comigo?

– Por que eu quis. Não é o bastante?

– Sim, é o bastante. Mas se um dia você não quiser. O que eu faço então? Suponhamos que você leve embora essa felicidade quando eu não estiver olhando…” (p. 88)

 

Confesso que quando eu vi o tamanho do livro Vasto mar de Sargaços (191 páginas), fiquei um pouco decepcionada. Imaginei que seria um livro com muitas páginas e embarquei na leitura temendo que ela fosse ruim. Estava completamente enganada! Nos 20 anos que Jean Rhys levou para dar voz a Antoinette ela conseguiu fazer de sua história um rico panorama da colonização, da questão escravista, da questão da mulher neste contexto e tanta coisa, com tanta clareza e concisão, que não é à toa que esta obra seja referência nos estudos de literatura inglesa no mundo todo. Vasto mar de Sargaços é um super livro e, apesar de usar uma personagem quase apagada de um clássico da literatura inglesa, não é, nem por um momento, uma cópia ou mais um livro que pega carona nos clássicos. Antoinette é mais que a esposa louca de um nobre cavalheiro inglês. Ela é um pouquinho de cada mulher silenciada e usada como instrumento sexual ou barganha financeira daquela época. Ela teve o azar de ser as duas coisas e não receber nada em troca. Apenas mais combustível para justificar e alimentar a sua suposta loucura.

 

 

SOBRE A AUTORA: Jean Rhys nasceu em Dominica, nas Índias Ocidentais (Caribe). Mudou-se para Londres aos 16 anos e começou a escrever em Paris, na década de 1920, incentivada pelo escritor Ford Madox Ford. Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos The Left Bank (1927). A obra que deflagrou sua carreira foi Voyage in the Dark (1934), assumidamente autobiográfica, escrita no calor dos acontecimentos de sua juventude e burilada mais tarde. Entre seus maiores sucessos estão Quartet (1929), romance transposto por James Ivory para o cinema em 1981, com Isabelle Adjani, Alan Bates e Maggie Smith. Vasto mar de sargaços (1966), escrito ao longo de 20 anos, é hoje referência nos estudos de literatura de língua inglesa em todo o mundo.

Jean Rhys, autora de “Vasto mar de Sargaços”.

 

Título: Vasto mar de Sargaços
Autora: Jean Rhys
Tradução: Lea Viveiros de Castro
Páginas: 191
Editora: Rocco

Compre na Amazon:Vasto mar de Sargaços.

 

 

Existem alguns filmes que adaptaram Vasto Mar de Sargassos, para o cinema e para a TV. Abaixo, deixo o trailer da adaptação do ano de 1993 (em inglês).

Sinopse do filme: Uma jovem herdeira crioula nascida numa sociedade colonialista e opressiva na década de 1840 se casa com um recém-chegado inglês para evitar perder seus bens. Tudo parece estar perfeito, o amor surge, e a felicidade está a caminho, mas ela esconde um antigo segredo sobre sua infância e sua mãe. Aos poucos, esse segredo começa a erodir este relacionamento perfeito e, talvez, a história de sua mãe vai começar de novo … com ela. Fonte: Filmow.

janeiro 10, 2017

[RESENHA] MISS AUSTEN REGRETS, ADAPTAÇÃO DA BBC

Miss Austen Regrets é uma adaptação com base em cartas e informações biográficas da escritora Jane Austen, produzida pela BBC e exibida originalmente em 2007. O elenco contou com nomes como Olivia Williams (Jane Austen), Hugh Bonneville (Mr. Bridges), Greta Scacchi (Cassandra Austen), Imogen Poots (Fanny Austen Knight), Tom Hiddleston (Mr. Plumptre), dentre outros.

Diferente de Becoming Jane (no Brasil, Amor e Inocência), aqui vemos uma Jane Austen madura. A série é bastante melancólica e retrata uma Jane até então desconhecida; uma mulher insegura e com possíveis arrependimentos.

 

Escrever cartas era algo muito agradável para Jane Austen.

 

A série começa em 1802, com o pedido de casamento de Harris Bigg-Whiter e a resposta positiva de Jane, motivada, talvez, pela surpresa que ela teve com a proposta. Logo na manhã seguinte, Jane e Cassandra Austen deixavam Manydown House, pois Jane se arrependera de ter aceitado o pedido.

Doze anos depois, sua sobrinha, Fanny, está prestes a se casar e deseja a opinião da tia Jane sobre um pretendente, Mr. Plumptre.

Fanny: “Por favor, não espere por um Mr. Darcy”. Jane Austen: “Minha querida, isto é o mundo real. A única maneira de ter um Mr. Darcy é inventando-o”.

 

Fanny é romântica e inspira-se nos livros da tia. Mas também é uma jovem que não tem outro objetivo a não ser o matrimônio; não ficará satisfeita até se tornar a esposa de alguém. É imatura e acha que tudo deve girar em torno dela e de seus planos.

“Moças de 20 anos estão tão desesperadas para se apaixonarem. É tão difícil dizer se é real. Todos deviam ter a chance de se casar uma vez por amor, se puderem.”  (Jane Austen sobre os sentimentos de Fanny pelo Sr. Plumptre)

 

A opinião de Jane sobre os assuntos do coração era frequentemente solicitada, contudo, sua família não perdia tempo em lembrar-lhe que ela não tinha experiência no assunto. O fato de nunca ter se casado foi um fardo sempre presente na vida da autora, lembrado sempre e toda vez que havia uma oportunidade.

Seus livros eram um sucesso, mas a pobreza era uma realidade. Ela chegou a cogitar pedir mais dinheiro pela publicação de Emma, mas seus irmãos não viam com bons olhos que ela pedisse um aumento. Não era elegante uma mulher aos 40 anos de idade escrever para o seu sustento, isso envergonharia a família.

Miss Austen Regrets também retrata a visita de Jane Austen ao Príncipe Regente, onde ela foi recebida pelo bibliotecário James Stanier Clarke. Na ocasião, a autora foi autorizada a dedicar o próximo romance a ser publicado, Emma, a Sua Alteza Real, o Príncipe Regente. Ele era fã de Austen e tinha cópias dos romances dela em todas as suas residências.

 

Nesta adaptação, o pretendente principal é o afetuoso Mr. Bridges. Não tinha lido ou ouvido falar dele antes de assistir Miss Austen Regrets. Existem tantas suposições sobre a vida amorosa de Jane Austen, seus pretendentes etc., que nunca temos certeza se as histórias retratadas nos filmes e em algumas biografias são realmente verdade.

Mr. Bridges: “Não a teria impedido de escrever, se era isso que temia”.

Jane Austen: “Como poderia ter escrito se tivéssemos casado? Todo o trabalho de ser mãe…”.

 

Jane menciona um antigo pretendente, Tom Lefroy, que foi retratado em Becoming Jane.  Ela simplesmente diz que ele não foi o cara.

 

Cassandra desenhando sua irmã, Jane Austen. A cena recria o momento da pintura do único retrato que conhecemos da autora.

 

Nesta altura, aos 40 anos, Jane já dava sinais que estava adoecendo. A autora estava escrevendo Persuasão e se preocupava se conseguiria terminar o romance.

Jane Austen faleceu aos 41 anos, numa sexta feira, 18 de julho de 1817. Com base nas cartas às quais temos acesso e que falam sobre os sintomas da doença que lhe tirou a vida, a opinião médica atual acredita que a autora tenha sofrido de Doença de Addison; uma perda da função das glândulas suprarrenais.

A tristeza de Cassandra por perder o sol de sua vida, como dito na adaptação, é comovente. As duas irmãs tiveram uma amizade tão forte e bela que, quando assistimos Cassandra queimar algumas cartas escritas por Jane, entendemos e perdoamos tal fato. Penso, assim como muitos admiradores e estudiosos de Jane Austen, que ela quis preservar a imagem da irmã e alguma história que não fosse adequada tornar pública.

Se alguém tinha esse direito, definitivamente esse alguém era Cassandra Austen.

 

Miss Austen Regrets foi lançado no Brasil como integrante do DVD de Razão e Sensibilidade (BBC, 2008), e também faz parte do box A Obra Completa de Jane Austen, da extinta produtora LogOn, com 10 discos.

 

 

Referências:

James, Syrie. As Memórias Perdidas de Jane Austen. Tradução de Claudia Melo. Rio de Janeiro: Galera Record, 2013.

https://en.wikipedia.org/wiki/Miss_Austen_Regrets

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

dezembro 16, 2016

[RESENHA] LONGE DESTE INSENSATO MUNDO, DE THOMAS HARDY

Sinopse: “Bathsheba Everdene é espirituosa e expansiva demais para uma dama inglesa do século XIX. Antes uma simples camponesa, agora é herdeira de uma vasta propriedade rural em Weatherbury, mas seu temperamento independente e enigmático causa falatórios entre seus próprios empregados. Gabriel Oak, um fazendeiro que sofrera grandes perdas, é apaixonado por ela, mas a jovem tem outros pretendentes, o sedutor sargento Troy e o respeitável fazendeiro de meia-idade Boldwood. Ao mesmo tempo em que os destinos destes três homens dependem da escolha de Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. Um romance de paixão, com descrições da vida rural e paisagens idílicas, apresenta ao leitor uma obra-prima com extrema honestidade sobre as relações sexuais.”

 

Longe deste insensato mundo é um romance escrito por Thomas Hardy, publicado originalmente em 1874, sendo já nesta época um Best-seller. Neste livro, Hardy usa pela primeira vez o cenário rural que criou para suas histórias, Wessex, retratando o sudeste da Inglaterra, que ele conhecia muito bem.

O livro narra a história de Bathsheba Everdene, uma jovem que no início da história é pobre, mas logo tem sua vida transformada ao receber a herança de um tio, tornando-se dona de uma vasta propriedade rural. Antes de se tornar fazendeira, ela é pedida em casamento por Gabriel Oak, mas recusa-o, pois não se vê feliz ao vislumbrar um casamento. Afirma não amá-lo e dá sinais de ainda não estar pronta para tal compromisso, o que, para época, poderia ser considerado um tremendo disparate.

“‘Farei uma única coisa nesta vida, uma coisa certa, que é amá-la e esperá-la, e continuar a desejá-la até morrer.’ A voz dele tinha uma compaixão genuína agora e suas grandes mãos tremiam perceptivelmente.

‘Parece assustadoramente errado não aceitá-lo quando você tem tanto sentimento!’, disse ela com um pouco de angústia, olhando ao redor sem esperanças de escapar de seu dilema moral. ‘Como gostaria de não ter corrido atrás de você!’ No entanto, ela parecia encontrar um atalho para reencontrar a alegria e ajustou seu rosto para parecer brejeira. ‘Não seria possível, Mr. Oak. Quero alguém que me dome. Sou independente demais. Você nunca conseguiria, sei disso.’” (p. 29)

 

Assumindo a posição de fazendeira, Bathsheba dá mais sinais de sua personalidade forte e independente, pois, ao demitir o administrador da fazenda por motivo de roubo, decide, ela mesma, cuidar da administração da propriedade. Apesar de ser um romance vitoriano, Hardy não escreveu sua protagonista seguindo os moldes da época. Miss Everdene não é um modelo de candura, e sim uma mulher forte, que comete erros e tem seus momentos de acerto, como todas nós. Encanta, neste livro, o realismo dos personagens, suas declarações e, claro, as belíssimas paisagens da Inglaterra rural.

“‘Agora prestem atenção, vocês têm uma patroa em vez de um patrão. Ainda não conheço o meu poder e meus talentos para a agricultura, mas devo fazer o meu melhor e se me servirem, servirei a vocês. Se houver alguém desleal entre vocês (se houver alguém, mas espero que não) achando que por eu ser uma mulher não entendo a diferença entre mau e bom comportamento.’

‘Não, dona’, disseram todos.

‘Muitíssimo bem observado’, disse Liddy.

‘Acordarei antes de vocês; estarei nos campos antes que cheguem e tomarei o meu desjejum antes que estejam nos campos. Resumindo, surpreenderei todos vocês.’”

 (p. 68)

 

Quando a protagonista pensou ter deixado sua antiga vida para trás, eis que surge novamente em sua vida Gabriel Oak. O homem ajudou os funcionários de Bathsheba a salvarem o trigo da fazenda que estava prestes a ser consumido em um incêndio. Tendo perdido sua propriedade, Oak torna-se funcionário de Bathsheba, no cargo de pastor de ovelhas. Com o desenvolvimento da história vemos uma relação de cumplicidade acontecer entre Gabriel e Bathsheba. Ele, mais que um homem apaixonado, dispõe-se a ajudar e a aconselhar a jovem sempre que é preciso. Fiquei encantada com o personagem, modelo de tudo o que uma mulher poderia desejar em um homem.

Miss Everdene, apesar de assumir um posto que demandava muita responsabilidade, era apenas uma jovem, e, como toda jovem, era dona de um coração inconstante. Além de Gabriel, ela despertou os sentimentos do respeitável fazendeiro de meia idade, Mr. Boldwood. A princípio, ele não a havia notado, mas, a partir de uma brincadeira com um cartão de dia dos namorados, ele apaixona-se perdidamente por Bathsheba.

 

“‘Oh, o fazendeiro Boldwood’, murmurou Bathsheba e olhou para ele enquanto este ia ainda mais rápido. O fazendeiro não virou a cabeça em nenhuma vez, seus olhos estavam fixos num ponto mais distante da estrada, que passou tão inconscientemente e distraidamente como se Bathsheba e seus encantos fossem o mais diluído ar.’” 

(p. 76)

 

“‘Sofro – muito – ao pensar’, declarou ele com simplicidade solene. ‘Venho conversar com você pela primeira vez. Minha vida não me pertence mais desde que a vi, Miss Everdene. Venho para pedir-lhe em casamento.’” (p. 103)

 

 

Em um esbarrão na mata de abetos, surge o Sargento Troy. Um encontro inusitado, após o entardecer entrelaça, literalmente, o destino dele e de Bathsheba. A roupa dela ficara presa na espada do oficial. Neste incidente, surgem os primeiros diálogos e uma tensão sexual entre os dois, principalmente da parte da jovem.

Troy é um sedutor por natureza, e consegue fazer com que Bathsheba perca o juízo. Nos dias atuais, ele certamente seria um flerte, ou um caso de uma noite só. Mas estamos no século XIX, Inglaterra Vitoriana, então desde a sua primeira aparição não é difícil imaginar o caos que o personagem será capaz de causar na vida da nossa protagonista e dos seus admiradores.

“‘Bathsheba amou Troy da maneira que somente as mulheres autoconfiantes amam quando abandonam sua autoconfiança. Quando uma mulher forte de forma imprudente joga fora sua força é pior do que uma mulher fraca que nunca teve força para jogar para fora. Uma fonte de sua inadequação é a novidade da ocasião. Ela nunca teve prática em fazer o melhor de tal condição. A fraqueza é duplamente fraca por ser nova.’” (p. 152)

 

“‘E os defeitos de Troy ficavam completamente distantes da visão de uma mulher, enquanto seus encantos estavam bem na superfície, contrastando assim com o humilde Oak, cujos defeitos eram evidentes a um cego e cujas virtudes eram como metais em uma mina.’” (p. 153)

 

Longe deste insensato mundo foi o primeiro livro que li de Hardy e, certamente, não será o último. Suas descrições na medida certa e seus personagens inconstantes e errantes tornaram-me a mais nova fã de carteirinha do autor. Vi que muitas pessoas criticam sua Bathsheba. Eu a amo justamente por ser uma mulher falha, que aprende com a vida e com as circunstâncias. Um romance inesquecível e uma das melhores leituras do ano.

 

Além de tudo o que falei acima, que é só uma parte da história para que o leitor da resenha não perca o prazer de surpreender-se com Longe deste insensato mundo, preciso dizer mais uma vez, pois quem me acompanha nas redes sociais já sabe, o quão maravilhoso foi ter esta que é a primeira edição dessa super história, em português, dedicada a mim. Serei eternamente grata à Pedrazul Editora pelo carinho comigo nesta edição.

 

 

 

Título: Longe deste insensato mundo
Autor: Thomas Hardy
Tradução: Ellen Bussaglia
Editora: Pedrazul
Páginas: 328

 

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Ouça a playlist da adaptação de 2015:

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