novembro 10, 2017

[RESENHA] ENCLAUSURADO, DE IAN McEWAN

Sinopse: “O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê —, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, ”Enclausurado” é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.”

 

Em Enclausurado, o escritor britânico Ian McEwan faz uma releitura moderna e inusitada de Hamlet, de Shakespeare. No entanto, o narrador da história, aqui, ainda não nasceu. E esse pequeno detalhe faz toda a diferença na história.

 

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito não fosse pelos meus sonhos ruins.” Shakespeare, Hamlet. (epígrafe)

 

Trudy envolve-se em um tórrido caso extraconjugal com seu cunhado, Claude. O marido, duplamente traído, John Cairncross, é um poeta decadente e apaixonado pela esposa. E também o herdeiro único de um imóvel que vale alguns milhões em dinheiro. No meio disso tudo, mais precisamente dentro da barriga de Trudy, o nosso narrador descobre detalhes sobre o mundo, a humanidade, e os planos nada ortodoxos de sua mãe e seu tio para se apoderarem do bem mais precioso da família Cairncross: o imóvel.

 

“No meio de uma noite longa e serena, posso sapecar um bom pontapé em minha mãe. Ela acorda, perde o sono, liga o rádio. Uma maldade, eu sei, mas estamos os dois bem informados pela manhã.” (p. 12)

 

“Vejamos. Minha mãe preferiu o irmão de meu pai, traiu seu marido, arruinou seu filho. Meu tio roubou a mulher de seu irmão, enganou o pai de seu sobrinho, insultou gravemente o filho de sua cunhada. Meu pai é indefeso por natureza, como eu sou por circunstancias.” (p. 40)

 

“Deus disse: que seja feita a dor. E depois se fez a poesia.” (p. 53)

 

“Certos artistas, escritores ou pintores, florescem em espaços confinados como bebês em gestação. Seus temas estreitos podem desconcertar ou desapontar algumas pessoas (…) Alguns escritores de prosa cuidam apenas de seus egos. Também no campo científico há quem dedique a vida a um caramujo albanês ou a um vírus. Darwin consagrou oito anos às cracas. E mais velho e mais sábio, às minhocas. Milhares de pesquisadores passaram a vida correndo atrás do bóson de Higgs, uma coisinha de nada. Estar circunscrito a uma casca de noz, ver o mundo em cinco centímetros de marfim, num grão de areia. Por que não, quando toda a literatura, toda a arte e a iniciativa humana não passam de uma partícula no universo das coisas possíveis? E mesmo esse universo pode ser uma partícula numa infinidade de universos reais ou possíveis?” (ps. 69,70)

 

Descobri, com essa leitura, que poetas nunca trancam o carro, e também que você pode conhecer uma pessoa por dentro, conhecer suas vísceras e as alterações de seus batimentos cardíacos e, ainda assim, não conhecê-la de fato ou entender suas motivações. Enclausurado é o tipo de livro que te prende até a última palavra, não só por ser um livro de suspense, mas por ser visivelmente bem trabalhado. O resto é o caos.

 

Tirei até uma selfie com o livro. Não me peça para explicar as minhas loucuras.

 

 

SOBRE O AUTOR: Ian McEwan nasceu em Aldershot, Inglaterra, em 1948. É um dos ficcionistas mais importantes de sua geração. Seus livros já lhe renderam uma série de prêmios literários, entre eles o Man Booker Prize e o Whitbread Award. Dele, a Companhia das Letras já publicou Reparação, Na Praia e A Balada de Adam Henry, dentre outros.

 

Título: Enclausurado
Autor: Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200

Compre na Amazon: Enclausurado.

Leia um trecho clicando aqui.

 

junho 27, 2017

[RESENHA] O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, ITV 2009

 

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) é uma adaptação do romance homônimo de Emily brontë, em dois episódios para a televisão, exibida em 2009 pelo canal ITV. Com roteiro de Peter Bowker, a série é estrelada por Tom Hardy e Charlotte Riley, como Heathcliff e Cathy Earnshaw.

 

Diferente do livro e da adaptação mais ilustre, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche (1992), aqui não temos a figura de Nelly como narradora da história, apenas como personagem. Para quem não se lembra ou ainda não leu o romance, Nelly conta toda a história dos personagens de O Morro dos Ventos Uivantes  para um inquilino de Heathcliff.

 

Após o falecimento da mãe Isabela, Linton passa a morar com o pai, Heathcliff. De saúde frágil e caráter duvidoso, o jovem vai ajudar o pai a atrair Catherine para a sua vingança. Heathcliff planeja unir Catherine Linton ao seu filho, para que o seu domínio sobre todos seja completo. No começo pode parecer um pouco complicado, pois os jovens não fizeram nada para merecerem que tamanho plano de vingança recaia sobre eles. Um pouco mais tarde, entretanto, a história fica mais clara.

 

 

Atormentado pelo fantasma de seu amor, Heathcliff comete uma loucura: profana o túmulo de Cathy, pois a cada dia é mais difícil viver sem ela. Após passar a noite com o cadáver e ao ver Catherine na janela do quarto que fora de sua mãe, ele se recorda de sua história com os Earnshaws, de quando foi acolhido pela família.

 

Em uma viagem, Sr. Earnshaw promete trazer um violino para o seu filho Hindley e um chicote para Cathy. Ao invés dos presentes, ele traz um novo membro para a família, o jovem Heathcliff, órfão e possivelmente de origem cigana. Hindley odeia o garoto desde o primeiro momento, mas Cathy não. Sr. Earnshaw queria transformar Heathcliff em um homem de bem, honrado e, de certa forma, seu relacionamento com o pobre órfão tinha mais afeto do que ele jamais conseguira ter com o próprio filho.

 

Cathy e Heathcliff eram uma só pessoa, desde o começo. Uma amizade sincera que transforma-se, mais tarde, em um amor avassalador. Eles viviam livres como o vento, correndo pelos morros de Wuthering Heighs. Até que um dia o Sr. Earnshaw morre e Hindley, que havia passado muito tempo em um colégio para rapazes, retorna já casado e disposto a tomar o seu lugar de direito em Heights.

 

 

A partir daí as coisas começam a mudar. Hindley expulsa Heathcliff de casa e relega ao rapaz o espaço dos estábulos, junto aos cavalos, tratando-o pior que a um criado. O cigano, então, passa a nutrir um forte desejo de vingança contra o irmão.

 

Um dia me vingarei de Hindley com dor e agonia.” (Heathcliff)

 

Muitos pensam em Heathcliff como um personagem detestável, que só tem ódio e rancor em seu coração. Aqui preciso sair em defesa dele: uma criança que fora abandonada, não sabia de suas origens, fora resgatada, mas ainda era subjugada. Perde o pai que o acolheu e não lhe é permitido que viva o seu amor, por razões diversas. Heathcliff era todo sentimento, para o bem ou para o mal. Seu amor por Cathy o inflamava, assim como o seu desejo de vingança por todos aqueles que  roubaram-lhe o direito de ser feliz. Sua trajetória pode não justificar os seus atos, mas nos permite entender melhor o personagem.

 

 

Cathy jamais poderia esquecer Heathcliff, mas acaba se envolvendo com Edgar Linton, que conhecia desde a infância. Mimada e de temperamento forte, ela vê em Edgar a segurança emocional e também financeira que ela não teria com Heathcliff. Linton era, inicialmente, uma alternativa mais fácil.

 

 

-Você ama o Sr. Edgar? – pergunta Nelly

– Claro que amo – responde Cathy.

– Por que você o ama?

– Eu o amo. Não é o suficiente?

– De jeito nenhum. Deve dizer o motivo.

– Por que ele é bonito e uma companhia agradável.

– Isso é ruim.

– Serei rica. Serei a mulher mais importante dos arredores.

– Continua ruim. Mas acho que o seu irmão ficará feliz. Edgar Linton é um homem bom e irá protegê-la. Não é conveniente nem desejável que você se case com Heathcliff. E, se você ama Edgar e ele também a ama… onde está o obstáculo?

– Nelly, meu amor por Edgar é como a folhagem da mata. O tempo há de mudá-lo, estou certa disso. Meu amor por Heathcliff é como as rochas eternas por baixo. Minhas maiores tristezas no mundo têm sido as de Heathcliff. Se tudo desaparecesse e ele ficasse, eu continuaria a existir. Nelly, eu sou Heathcliff! Não como um prazer, mas como meu próprio ser! Não posso pensar em nossa separação. Nunca mais falarei sobre a nossa separação de novo.”

(O Morro dos Ventos Uivantes, 2009)

 

 

O elenco inclui nomes como Andrew Lincoln (Edgar Linton), Kevin McNally (Sr. Earnshaw), Burn Gorman (Hindley Earnshaw), Sarah Lancashire (Nelly), Rosalinda Halstead (Isabela Linton), dentre outros. Grandes atuações e um casal de protagonistas que exalam paixão, assim é O Morro dos Ventos Uivantes de 2009. Estou certa de que até quem não gostou do livro vai gostar desta adaptação!

 

 

REFERÊNCIAS:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Wuthering_Heights_(2009)

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

abril 27, 2017

[RESENHA] JANE EYRE, ADAPTAÇÃO DA BBC (2006)

 

Jane Eyre é uma adaptação do romance homônimo de Charotte Brontë, em série de quatro episódios, produzida pela BBC no ano de 2006. Foi considerada um sucesso na época de sua estreia, tendo sido indicada a vários prêmios, ganhando três Emmys e um BAFTA.

Aqui temos uma heroína de espírito livre, que desde a infância não se deixa abater pelas maldades de sua tia Reed e de seus primos. Passamos rapidamente pela infância de Jane Eyre, mas todos os pontos mais importantes foram mostrados: o quarto vermelho e sua tortura psicológica, o retrato de família o qual ela não pôde participar e a sua passagem pela escola Lowood.

 

A pequena Jane Eyre no internato Lowood.

 

Ao mesmo tempo que clamava por liberdade, Jane Eyre ansiava por amar e ser amada, reciprocidade que ela teve poucas vezes em sua vida. Ir para Thornfield Hall, trabalhar como preceptora de Adele, traz para a vida da jovem um pouco de tudo aquilo que ela sempre sonhou: paz, um lar seguro e ser tratada como igual pelas outras pessoas.

O casal Jane e Rochester desta adaptação, interpretados por Ruth Wilson e Toby Stephens, foram os melhores que já vi até agora! Ambos possuem elementos que os tornam fieis ao casal do livro, portanto são verossímeis e apaixonantes. A sintonia entre os atores é tão boa que percebemos a faísca entre os personagens desde a primeira vez que Rochester chama Jane de bruxa, por ela ter enfeitiçado seu cavalo e tê-lo feito cair dele. Particularmente, adoro o Rochester desgrenhado de Toby Stephens, pois é como sempre imaginei o personagem. Além disso, o jeito grosseirão deste Rochester deu toques de comicidade ao personagem, o que achei bastante positivo, em contraponto a doçura e a inteligência de Miss Eyre.

 

 

Jane Eyre e Mr. Rochester são um dos meus casais favoritos da ficção. Não só por serem como iguais, como eles mesmos dizem em alguns momentos, mas também pela amizade que existe entre eles. Rochester confia a Jane quase todos os seus segredos e anseios mais profundos, sem reservas, e Jane, em contrapartida, é uma ótima ouvinte, pois não faz julgamentos, embora sempre exponha sua sincera opinião.

 

 

A aparição de Blanche Ingram, nobre e bela pretendente ao coração de Rochester, embora cruel com a apaixonada Jane Eyre, foi muito bem trabalhada e positiva para o casal nesta adaptação. A realidade é que Rochester tinha tanta necessidade de amar e ser amado quanto Miss Eyre, portanto não poupou esforços para deixar a jovem enciumada e assim ter provas de seu amor. O melhor de tudo é que ela terá a sua oportunidade mais tarde, rapidamente, contanto histórias do tempo que passou com St. John e suas irmãs, após a cerimônia frustrada de casamento entre ela e Mr. Rochester. Com todos os segredos revelados, nossa heroína deixa Thornfield Hall, mas apenas para descobrir que a ligação entre ela e o seu amado é forte demais para ser desfeita.

 

A “bela” Blanche Ingram.

 

Algum tempo depois de deixar Rochester, Jane retorna e o casal reafirma os seus sentimentos em uma das cenas mais belas das adaptações literárias; uma nova declaração para reafirmar tão grande amor:

“– Na noite em que fui embora… Na noite em que fui embora você falou de uma Villa que tinha no Mediterrâneo, onde poderíamos nos refugiar e viver como irmão e irmã.

– Eu me lembro.

(…)

– Jane, você ainda está aí? – pergunta Rochester sem poder enxergá-la.

– Estou, Senhor.

– Jane, esta Villa de que eu falei, com quartos separados e isso de beijos na bochecha nos nossos aniversários…

– Sim.

– Esse plano não me atrai como antes.

– Não quer que sejamos amigos? – pergunta Jane, temerosa de que o afeto de Mr. Rochester por ela tenha mudado.

– Jane, poderia fazer a gentileza de vir sentar-se ao meu lado? Jane… eu quero uma esposa. Eu quero uma esposa. Não uma enfermeira que cuide de mim. Eu quero uma esposa para compartilhar minha cama toda noite. Ou todo o dia, enfim… Se eu não puder ter isso, prefiro morrer. Jane, nós não somos do tipo platônico…

– Você pode me ver? – pergunta Jane, bem próxima a Rochester, que confirma.

– Então escute isso, Edward: sua vida não é sua para escolher se render, ela é minha. Ela é toda minha e eu o proíbo.” (Jane Eyre, BBC 2006)

 

 

O mais especial nesta adaptação é que a história prossegue um pouco mais além do reencontro do casal. Mesmo sabendo que nos filmes o tempo é mais curto, muitos diretores parecem ter predileção por finais abertos (vide Orgulho e Preconceito, 2005), mas considero um prejuízo quando diálogos importantes como o visto acima são cortados. Aqui, em quatro capítulos, toda a essência do maravilhoso romance de Charlotte Brontë consegue ser transmitida. Mais uma grande adaptação da BBC!

 

 

Elenco: Ruth Wilson (Jane Eyre); Toby Stephens (Edward Fairfax Rochester); Lorraine Ashbourne (Mrs. Fairfax); Tara Fitzgerald (Mrs. Reed); Andrew Buchan (St. John Rivers); Daniel Pirrie (Richard Mason); Christina Cole (Blanche Ingram); Claudia Coulter (Bertha); Georgie Henley (Jane Eyre, quando criança), dentre outros.

 

 

REFERÊNCIA:

https://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Eyre_(2006_miniseries)

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Veja também:

Jane Eyre, filme de Robert Stevenson (1943).

 

 

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