janeiro 22, 2019

[RESENHA] A VOLTA DE MARY POPPINS, DE P. L. TRAVERS

Sinopse: “Se você já leu Mary Poppins, não pode perder A volta de Mary Poppins! Se não leu nenhum dos dois, está esperando o que para começar essa viagem em dose dupla? Mary Poppins está de volta à família Banks – e com ela por perto a rotina se transforma em aventura! Uma babá na gaiola, o segredo dos bebês, as reviravoltas da segunda segunda-feira do mês, a noite de folga… Aproveite bem essa viagem mágica e misteriosa, antes que a corrente se quebre. Publicado em 1935, A volta de Mary Poppins é um clássico para crianças e adultos. Essa linda edição traz o texto integral em bem-cuidada tradução, uma ótima apresentação e todas as ilustrações originais de Mary Shepard! E ainda cronologia de vida e obra de P.L. Travers. A edição impressa apresenta capa dura e acabamento de luxo.”

 

Leia também: resenha de Mary Poppins, de P. L. Travers.

 

Quem conhece sabe: Mary Poppins não é dada a explicações. Quase da mesma forma em que os ventos mudaram e ela deixou as crianças Banks no número 17 da Cherry Tree Lane, a babá volta pela linha da pipa de Michael, saída de trás de uma nuvem, em uma tarde qualquer. E maiores explicações não são necessárias. Mary Poppins voltou e tudo se tornará mágico outra vez.

 

“Àquela altura, acima das árvores mais altas, a forma na ponta da linha já era nítida. Não havia sinal da Pipa amarela e verde: em seu lugar, dançava uma figura a um só tempo estranha e familiar, uma figura de casaco azul com botões dourados e um chapéu de palha com margaridas. Sob o braço, ela trazia um guarda-chuva com uma cabeça de papagaio à guisa de alça, e uma mala feita de tapete marrom balançava em uma de suas mãos, enquanto a outra segurava firme na ponta da linha que encurtava.” (p. 34)

Eles ficaram olhando por um bom tempo

Então assentiram um para o outro. Sabiam que não tinham nada a dizer, pois havia coisas sobre Mary Poppins que eles jamais poderiam entender. Mas ela estava de volta, e isso era tudo o que importava.” (p. 45)

 

A Volta de Mary Poppins (Zahar, 2018) é uma leitura tão prazerosa quanto a do livro anterior. É impossível não nos sentirmos como as crianças Banks, com uma alegria, uma satisfação e a certeza de que viveremos novas e grandiosas aventuras com uma das babás encantadas mais adoradas do mundo (para mim, empata com Nany McPhee dos filmes).

O filme da Disney, Mary Poppins Returns (2018), certamente motivou não só a edição no formato bolso de luxo da editora Zahar (linda, por sinal), como também outras edições e reimpressões mundo afora desse segundo, de oito livros, escritos por P. L. Travers com as histórias de Mary Poppins. Aqui acho importante ressaltar que esse é um dos casos em que o livro é bastante diferente de sua adaptação. Em A Volta de Mary Poppins, a babá volta para o número 17 da Cherry Tree Lane, ou seja, para a família Banks, apenas algum tempo depois de sua primeira passagem pela casa. Jane e Michael estão um pouco mais velhos (mas ainda crianças), assim como os gêmeos John e Barbara (que não aparecem no filme clássico da Disney). A Volta de Mary Poppins é composto por dez contos mais ou menos independentes entre si. As histórias são fechadas, dá para ler uma ou duas por dia, mas a leitura flui melhor se você ler o primeiro livro e, depois, este segundo.

 

Veja também: trailer legendado de Mary Poppins Returns (2018):

 

É difícil escolher, mas eu realmente gostei do capítulo/conto número quatro, Topsy e Turvy de pernas para o ar. Nessa história vemos o quanto a nossa vida pode mudar para melhor mesmo quando achamos que tudo está de ponta cabeça. Em uma segunda segunda-feira, dia em que as coisas parecem programadas para dar errado, tudo pode mudar. E para melhor! A Cotovia da Srta. Andrew me pareceu uma forma de justificativa para o jeito severo do Sr. Banks no primeiro livro. É um conto incrível sobre provar do próprio veneno. Os contos de Mary Poppins e A Volta de Mary Poppins estão sempre tentando nos passar uma lição, mas de uma forma doce, bem humorada e sutil. É uma leitura também para refletir, sem dúvidas!

 

“— Que pena não podemos ficar no Carrossel para sempre! — disse Michael, colocando Barbara ao lado do irmão.

Mary Poppins olhou para eles por um momento. Seus olhos estavam estranhamente  suaves e amorosos na penumbra que adensava.

— Tudo o que é bom acaba — disse ela, pela segunda vez naquele dia.” (p. 317)

 

Independente de qualquer diferença, ou do bolorento duelo livro versus filme, Mary Poppins é uma personagem tão cativante que, depois de conhecê-la você estará sempre ansiando por mais uma aventura, mais uma história, seja com uma colher de açúcar ou com a severidade no olhar de quem só nos quer bem.

Sobre a edição da Zahar, A Volta de Mary Poppins tem tradução e uma ótima apresentação de Bruno Gambarotto, inclui mais de cinquenta ilustrações originais de Mary Shepard e contém a cronologia de vida e obra de P. L. Travers, além do projeto gráfico lindíssimo. Vale muito a pena, para crianças de todas as idades.

 

 

Título: A Volta de Mary Poppins

Autora: P. L. Travers

Tradução: Bruno Gambarotto

Editora: Zahar

Páginas: 336

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setembro 26, 2018

[RESENHA] EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA, DE MONTEIRO LOBATO

Sinopse: “Este livro conta a viagem que Pedrinho, Narizinho, Visconde, Quindim e Emília fazem até o País da Gramática. Lá eles aprendem a língua portuguesa de um jeito muito divertido, usando a imaginação e a criatividade. Desse modo, ficam sabendo sobre a origem e o significado das palavras e como escrevê-las corretamente, formando frases coerentes e coesas. Como o livro foi lançado pela primeira vez em 1934, muitas regras e conceitos gramaticais antigos foram atualizados e comentados.”

 

Há algumas semanas eu precisei fazer uma resenha de um livro paradidático como atividade valendo nota para o meu Estágio Supervisionado. Assim que tive ciência da proposta, logo pensei em Emília no país da gramática, de Monteiro Lobato. O livro já estava na minha estante há algum tempo, esperando ser lido mais uma vez, com atenção, para que eu pudesse falar um pouco sobre ele. O tom dessa resenha, obviamente, é um pouco mais formal do que normalmente eu escrevo por aqui, mas, ainda assim, sugiro o livro como leitura para crianças de todas as idades!

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Monteiro Lobato (1882-1948), com a publicação de Emília no país da gramática em 1934, foi pioneiro ao iniciar no Brasil um tipo de literatura que também ensina, hoje conhecida como publicação paradidática.

Procurando ter certa distância do engessamento dos livros didáticos, os livros paradidáticos ou complementares muitas vezes conseguem atingir com maior eficiência os objetivos dos livros de base. Com leveza, bom humor e linguagem um pouco mais acessível, os paradidáticos conseguem fixar conteúdos das mais diversas disciplinas na mente dos alunos.

O país da gramática visitado por Emília em 1934 já não é o mesmo em que vivemos no século XXI, no entanto, o livro ainda pode ser muito bem trabalhado em sala de aula, abordando, inclusive, temas não necessariamente ligados à análise sintática, às classes de palavras, dentre outros assuntos tratados na publicação.

A edição lançada pela editora Globo, pelo selo de publicações infantis Globinho (2009), é lindamente ilustrada por Osnei e Hector Gomez, e conta, ainda, com os comentários da professora de língua portuguesa Maria Tereza Rangel Arruda Campos. Aliado ao texto original, que funciona como um retrato histórico tanto dos aspectos da sintaxe da nossa língua, quanto de preceitos sociais alguns já ultrapassados , os comentários da professora trazem o texto de Lobato para o nosso tempo, exemplificando a evolução natural e também política da língua portuguesa.

Emília no país da gramática, portanto, apesar de à primeira vista parecer obsoleto, pode ser um fortíssimo aliado dos professores de língua portuguesa. Ao invés de negar ou tentar apagar o passado, como se tem tentado fazer com algumas obras de Monteiro Lobato, é necessário falar sobre ele, especialmente sobre o que já foi superado em suas obras, para afastar o risco de cometer os mesmos julgamentos de antes.

Tomando como exemplo o seguinte trecho do livro, o professor pode abrir uma discussão entre os alunos sobre variantes linguísticas e preconceito linguístico:

Emília encaminhou-se para o último cubículo, onde estava preso um pobre homem da roça, a fumar o seu pito.

E este pai da vida que aqui está de cócoras? — perguntou ela.

Este é o Provincianismo, que faz muita gente usar termos só conhecidos em certas partes do país, ou falar como só se fala em certos lugares. Quem diz NAVIU, MÉNINO, MECÊ, NHÔ etc. está cometendo Provincianismos.

Emília não achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltou-o. — Vá passear, Seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia. Foi você quem inventou o VOCÊ em vez de Tu e só isso quanto não vale? Estamos livres da complicação antiga do Tuturututu. Mas não se meta a exagerar, senão volta para cá outra vez, está ouvindo?”

Comentário da edição sobre o termo Provincianismo: “O provincianismo não é mais considerado um erro, mas uma variedade da língua chamada de variedade regional. A variedade regional falada pelo caipira é tão legítima quanto todas as outras existentes na língua.” (p. 114)

Mesmo no original, Emília, ou seja, Monteiro Lobato, reconhece a evolução da língua, embora o capítulo trate o “provincianismo” como “vício de linguagem”, classificação comum naquele tempo. Na época da publicação, não havia o diálogo sobre variantes linguísticas, mas hoje temos material suficiente para que o assunto seja amplamente discutido e divulgado, evitando chavões típicos do preconceito linguístico.

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Referências Bibliográficas

AMORIM, Carmelita Minelio da Silva. ROCHA, Lucia Helena Peyroton da. ABRAÇADO, Jussara. Quem é você para falar assim? Por um ensino da língua materna que considere as diferenças. Linguística IV. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj.

FRAZÃO, Dilva. Monteiro Lobato. Disponível em < https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/> Acesso em 23/08/2018.

LOBATO, Monteiro. Emília no país da gramática. Ilustrações de Osnei e Hector Gomez. São Paulo: Editora Globo, 2009.

RAFAEL, Marcelo. Os paradidáticos e a literatura que transforma. Disponível em <https://blog.saraiva.com.br/os-paradidaticos-e-a-literatura-que-tambem-ensina/> Acesso em 09/08/2018.

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“Emília no país da gramática”, de Monteiro Lobato, ilustrações de Osnei e Hector Gomez e comentários de Maria Tereza Rangel Arruda Campos, publicado pela editora Globo (2009).

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abril 27, 2018

[RESENHA] O MARAVILHOSO MALABARISTA DE PORCELANA, DE JULIANA SCATOLIN

Sinopse: “O maravilhoso malabarista de porcelana não era um malabarista qualquer. Com destreza jamais vista em parte alguma do mundo, o maravilhoso malabarista da rua das Ondas fazia rodopiar suavemente pelos ares dúzias de xícaras de uma só vez. Em um mundo de bules, açucareiros e canecas de leite, o malabarista vivia solitário até ser confrontado por alguém que mudaria sua vida para sempre.”

 

O maravilhoso malabarista de porcelana, da escritora e ilustradora paulista Juliana Scatolin, foi uma indicação de leitura que eu peguei lá no blog Capitu Já Leu. O conto estava na minha estante do Kindle Unlimited há meses até que eu, finalmente, resolvi iniciar a leitura. Admito: devia ter lido há mais tempo.

O conto de Juliana Scatolin é uma fábula moderna, daquelas que a gente termina de ler sonhando. Não vou dar muitos detalhes sobre o enredo, além do que já foi dito na sinopse, pois o livro tem apenas 29 páginas! Mas acredite: serão as melhores 29 páginas que você vai ler hoje, se não em meses ou até mesmo na sua vida. Se você gosta de fábulas, contos de fadas e histórias do tipo, certamente vai amar. Uma última dica: leia, se possível, em um computador ou no app do Kindle para tabletsmartphone, pois as ilustrações são lindíssimas como já é possível perceber pela capa. Detalhe, as ilustrações são da própria autora.

 

 

Título: O maravilhoso malabarista de porcelana
Autora: Juliana Scatolin
Editora: Lemon Tree
Páginas: 29

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