julho 19, 2019

[RESENHA] PORNÔ CHIC, DE HILDA HILST

Sinopse: “Edição ilustrada reúne os quatro livros obscenos da poeta, incluindo um texto inédito e crítica de Humberto Werneck, Alcir Pécora, João Adolfo Hansen, Jorge Coli, Eliane Robert de Moraes e entrevista a Caio Fernando Abreu. Em 1990, Hilda Hilst completava 60 anos, 40 deles dedicados à literatura. Insatisfeita com a publicação de seus livros em pequenas tiragens, o silêncio da crítica e a repercussão restrita, a poeta decidiu escrever “adoráveis bandalheiras”. A experiência deu origem à Trilogia Obscena formada por “O caderno rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio – textos grotescos”, “Cartas de um sedutor” e ao livro de poemas “Bufólicas”. Pornô chic reúne os quatro títulos, ilustrados, traz o inédito Fragmento pornográfico rural e fortuna crítica que aborda a polêmica fase erótica de Hilst.”O caderno rosa de Lori Lamby” e “Bufólicas” recuperam as ilustrações de Millôr Fernandes e Jaguar para as primeiras edições. Para ilustrar “Contos d’escárnio” e “Cartas de um sedutor” foram convidadas Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli, que apresentaram uma abordagem contemporânea ao pornô de Hilst. Considerados pela autora uma “experiência radical e divertida”, estes livros misturam humor, críticas à sociedade, todo tipo de práticas sexuais e referências a autores célebres pelo erotismo como Henry Miller e Georges Bataille. A leitura de Pornô Chic revela o quanto Hilst pode ser irônica, debochada e divertida sem perder o refinamento. Se “O caderno rosa de Lori Lamby” parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho. “Cartas de um sedutor” narra o cotidiano de um homem rico, amoral e culto, que diante de sua incompreensão da vida recorre ao sexo em busca de respostas. “Contos d’escárnio” é uma reunião de textos satíricos, em que a sexualidade é matéria de reflexões imprevisíveis. “Bufólicas” é um livro de “fábulas safadas” concluídas com uma “moral da estória”. A fortuna crítica apresenta um texto inédito do professor de História da Arte e da História da Cultura da Unicamp Jorge Coli, e inclui textos de especialistas na obra de Hilst, como a professora do departamento de Literatura Brasileira da FFLCH-USP Eliane Robert de Moraes, e o professor de Teoria Literária da Unicamp Alcir Pécora – que organizou as obras completas de Hilst para a Globo Livros. Além disso, a edição recupera textos publicados na imprensa nos anos 1990, como um perfil da autora feito pelo jornalista Humberto Werneck e uma entrevista da poeta ao amigo e escritor Caio Fernando Abreu. O ciclo pornográfico de Hilst fez com que a escritora deixasse de ser considerada apenas uma autora sofisticada e lhe trouxe a fama de maldita – mas seu objetivo foi alcançado e sua obra atingiu um público maior. Aos 60 anos, ela expressou surpresa diante das críticas moralistas à suas bandalheiras: “A sexualidade pode ser adorável, perversa ou divertida, mas eu acho que o ato de pensar excita muito mais do que uma simples relação sexual. A mim pelo menos, há muitos anos é assim”.”

 

Apesar de não ser um gênero que atualmente eu leia muito, já li uma boa quantidade de Sabrinas, Julias… (insira um nome feminino qualquer aqui que estampou a capa de algum romance de banca de jornal). Além disso, não passei incólume à febre literária capitaneada por Cinquenta tons de cinza, que levou o estilo erótico soft porn para as prateleiras das livrarias e que ainda mantém a temperatura de alguns leitores lá nas alturas.

Mas Pornô Chic, coletânea dos livros eróticos de Hilda Hilst, é totalmente diferente de qualquer coisa que eu já tenha lido (e talvez ainda vá ler). Sabe aquele livro que você não sabe bem definir se gostou ou não logo depois de ler? É esse da Hilda Hilst.

Acontece que Pornô Chic é um ótimo livro. Se você gosta de literatura erótica e ainda não leu, leia assim que possível. Mas os livros que compõem a fase obcena de Hilst não são como os que comumente lemos como pornografia, como os citados acima. São textos (prosa e poesia) que exploram temas como incesto e pedofilia, e também prostituição e uma sexualidade despudorada, tudo isso com um refinamento ímpar de escrita, bom humor e brasilidade.

Confesso que, durante a leitura de O caderno rosa de Lori Lamby (1990), que abre a edição da Biblioteza Azul, eu senti um incômodo tão grande que pensei que não avançaria para os outros livros da coletânea, Contos d’Escárnio – Textos Grotescos (1990), Cartas de um sedutor (1991), Bufólicas (1992) e outros textos esparsos reunidos para essa edição. Hoje fala-se muito em causar; Hilda Hilst já fazia isso lá em 1990, antes mesmo do boom da internet e das redes sociais, ao lançar um livro em que a narradora, uma menina de oito anos, fala sobre as suas aventuras sexuais com homens mais velhos, atividade que lhe rendia mais dinheiro que os livros que seu pai escrevia. Lori nos conta que o editor de seu pai recomenda que ele parta para a bandalheira; bandalheira vende! Era Hilda Hilst criticando o mercado editorial brasileiro. A escritora sofreu com essa falta de leitores; por quase toda a vida foi publicada apenas em pequenas tiragens e por editoras independentes. Resolveu partir para a bandalheira para ser lida, mas não de forma comercial como muitos escritores. Hilda, que nunca teve medo das críticas, se jogou em uma literatura que explora o que temos de mais íntimo e grotesco.

Uma das coisas mais geniais deste livro é que, comparando com cenas de sexo de outros livros pretensamente eróticos, aqui temos sexo de verdade. A autora não usou artifícios de linguagem hoje repetidos quase a exaustão, como diversos eufemismos para os órgãos sexuais, cheiros irreais para o órgão sexual feminino, o leve conservadorismo travestido de libertinagem amplamente difundido (na atualidade) depois de Cinquenta Tons de Cinza e reproduzido por autoras de livros eróticos e romances de época mais ao estilo hot. Em Pornô Chic todos transam, ninguém precisa ensinar ninguém, com exceção, talvez, de O caderno de Lori Lamby. Também gostei das várias referências que Hilda fez a autores clássicos, grande parte ingleses, nos diálogos de seus personagens.

Pornô Chic foi um susto, um acontecimento literário na minha vida de leitora. Algo que vou ler e reler para entender (e me divertir, óbvio) e essa edição da Biblioteca Azul é perfeita, tanto na parte estética quanto no conteúdo. O livro é ilustrado (!) e conta com valiosos textos de apoio. Eu já era fã de Hilda Hilst por sua poesia, que foi outra experiência literária muito gratificante para mim. E agora tenho Pornô Chic: meu mais novo pornô de cabeceira.

Aprecie com moderação. Ou não.

 

 

 

 

 

Título: Pornô Chic

Autora: Hilda Hilst

Editora: Biblioteca Azul

Páginas: 276

Compre na Amazon: Pornô Chic

julho 12, 2019

[RESENHA] A VISITA DE JOÃO GILBERTO AOS NOVOS BAIANOS, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Neste originalíssimo livro de contos, o premiado autor do romance O drible e de Viva a língua brasileira! brinca com coisa séria. Depois de presenciar um encontro mitológico no céu da MPB, o leitor vai para a cama com Machado de Assis e acompanha um desfile de histórias cheias de graça, prosa afiada, erudição literária e cultura pop.

Nos contos de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, o prazer de contar histórias sobre histórias é o antídoto à alardeada perda de potência da literatura em nosso tempo. Assim, a história do mundo pode caber em treze tweets, tornamo-nos cúmplices de uma farsa erótica ambientada na Vila Rica dos inconfidentes e espiamos pela fechadura a intimidade de um famoso personagem machadiano.
No conto que abre e nomeia o livro, fantasia pop inspirada no encontro real entre o gênio da bossa nova e os jovens hippies liderados por Moraes Moreira, vislumbra-se uma síntese da contribuição original que a arte brasileira pode dar ao mundo: metade precisão rigorosa, metade delírio e festa. Os mesmos ingredientes podem ser encontrados na prosa entre o culto e o popular que anima um livro dividido em três partes, como um LP impossível.
No Lado A ficam as narrativas mais clássicas. O Lado B é dedicado aos fragmentos de um experimentalismo que examina com humor ferino, mas sem perder a ternura, os cacos restantes das velhas catedrais literárias e suas vaidades autorais na era da internet. Fecha o volume a deliciosa novela “Jules Rimet, meu amor”, publicada em 2014 como e-book.”

 

Eu pensei em muitas formas de iniciar essa resenha. Mas sempre acabava encurralada pela questão fundamental da existência desse blog (olha o drama!): indicar bons livros, mas sem prejudicar a experiência de leitura ou tornar nulo o fator surpresa das narrativas. Muitas sinopses (infelizmente) já fazem esse trabalho, mas o leitor tem sempre a opção de pular esse parágrafo — que, por aqui, sempre é bem sinalizado, — e ler apenas as impressões e sensações que esta resenhista teve com a leitura.

Pois bem, agora me sinto mais confortável em dizer que não vou dar muitos detalhes sobre os textos que compõem A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, de Sérgio Rodrigues, publicado recentemente pela Companhia das Letras. Não seria justo! Esse livro é tão bom, mas tão bom, que o melhor que eu posso dizer é que você pare agora tudo o que está fazendo e leia-este-livro! Não vou ficar chateada, pode clicar aqui e comprar agora mesmo (a versão em e-book tem a vantagem de poder começar imediatamente a leitura).

Se você permaneceu mais um pouco (obrigada), enquanto o e-book carrega no seu Kindle, no app do celular ou no navegador da internet mesmo, vou dizer mais o seguinte: eu li (e reli) o e-book de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ainda é difícil saber qual dos três lados desse disco-livro é o meu favorito. As faixas-capítulos A fruta por dentro e Conselhos literários fundamentais estão entre as que mais gostei, mas Jules Rimet, meu amor é de uma perfeição que faz querer voltar a agulha para o início do discoA visita de João Gilberto aos Novos Baianos é o tipo de livro que faz o leitor ter saudade, ter vontade de regressar e dar aquela espiadinha, uma relida em uma ou outra parte mais bacana. Nas vezes em que eu fiz isso, confesso, acabei lendo o livro inteiro novamente quase que em uma só sentada.

 

“O roubo da Jules Rimet revela tanto sobre o Brasil quanto a conquista da Jules Rimet. Inferno e céu. Uma coisa precisa da outra, do contrário a imagem do país fica incompleta. Aqui a gente vive no inferno e no céu ao mesmo tempo. E como menos com mais dá menos, fica matematicamente provado que não temos salvação!”

 

Do autor eu havia lido apenas Viva a língua brasileira, que eu amei, mas em nada é semelhante a esse livro de agora. A visita de João Gilberto aos Novos Baianos é conto, novela, crônica, divagação metalinguística e mais um monte de coisa que eu não vou saber explicar. Só sei dizer que é um livro maravilhoso, principalmente se você curte uma prosa mais enxuta, inteligente e tipicamente brasileira. Sem exagero, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

 

 

 

 

Título: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

Autor: Sérgio Rodrigues

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 144

Compre na Amazon: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

 

 

 

Faixa bônus (por minha conta) – Chega de Saudade, de João Gilberto, falecido no dia 06 de julho de 2019:

 

julho 10, 2019

[RESENHA] SOBRE A IMORTALIDADE DE RUI DE LEÃO, DE MACHADO DE ASSIS

Sinopse: “Quem quer viver para sempre?

Publicados pela primeira vez em 1872 e 1882, respectivamente, Rui de Leão e O imortal contam duas versões diferentes da mesma história de um homem que, após beber misteriosa poção que recebeu das mãos do sogro enfermo, descobre que não pode mais morrer. Nada poderia tê-lo preparado para isso, mas Rui de Leão não vê outra opção além de seguir em frente — e permitir que o leitor siga com ele.

A primeira publicação da Plutão Livros traz dois contos precursores da ficção científica brasileira, escritos por ninguém menos do que Machado de Assis, com prefácio de Roberto de Sousa Causo e ilustrações de Paula Cruz.”

 

Que Machado de Assis é um dos maiores escritores brasileiros (senão o maior!), todo mundo já sabe. Mas entre tantos escritos, romances, contos, crônicas, algum leitor de clássicos diria que Machado de Assis é também uma opção de leitura de ficção… científica?

Foi essa a novidade, pelo menos para os leitores não habituais de ficção científica (como eu) que a Editora Plutão trouxe no ano passado ao lançar o e-book Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, incluindo os contos Rui de Leão e O Imortal, duas versões de uma mesma história: a de um homem que, ao beber de um elixir mágico, adquire a imortalidade.

 

“Os dois textos de Machado de Assis reunidos aqui fazem parte, evidentemente, do Período Pioneiro da FC Brasileira. Rui de Leão foi publicado originalmente em 1872 no Jornal das Famílias, e O Imortal dez anos depois, em partes, na revista A Estação.” (Prefácio de Roberto de Sousa Causo para esta edição).

 

Sobre a Imortalidade de Rui de Leão tem prefácio de Roberto de Sousa Causo, que dá um panorama bem preciso e enxuto sobre a historiografia da Ficção Científica no Brasil e sobre o nome de Machado de Assis figurar entre os nomes do Período Pioneiro deste gênero em nosso país. É muito interessante e importante conhecer os escritos, autores e temáticas que não entraram para o nosso cânone literário e perceber que a nossa literatura é ainda mais rica do que aprendemos nos bancos escolares.

Machado produziu muito e com muita qualidade. Mesmo que haja certa dificuldade para algumas pessoas em enxergá-lo como autor também de ficção científica, a ideia de ter um autor clássico vinculado a uma temática tão atraente e amplamente difundida nos nossos dias é, quem sabe, uma possibilidade a mais para apresentar esse grande autor aos jovens de hoje (ou promover uma reconciliação com os jovens do passado). Sem tanto rigor ou sem forçar a leitura imatura de certas obras do Bruxo de Cosme Velho, certamente hoje teríamos bem menos leitores, ex-alunos, sobretudo, traumatizados só de ouvir falar o nome Machado de Assis.

 

“Imagine quem puder o suplício deste homem condenado a ser imortal, a ver os mesmos dias, as mesmas comédias — este Tântalo da morte, ambicionando aquilo que os outros receiam —, pedindo ao céu como a suprema felicidade uma cova para dormir.”

 

Rui de Leão e O Imortal são ótimas leituras, apesar de eu ter me divertido mais lendo o primeiro conto. Mas não quero dar muitos detalhes, além dos que já foram expostos aqui, sobre essas histórias. Leia e descubra, encante-se (mais uma vez, se for o caso) por esse escritor tão Imortal que nunca deixará de nos surpreender.

 

 

Confira a playlist desse livro no Spotify:

 

 

 

Título: Sobre a imortalidade de Rui de Leão

Autor: Machado de Assis

Prefácio: Roberto de Sousa Causo

Ilustrações: Paula Cruz

Editora: Plutão Livros

Páginas: 76

Compre na Amazon (e-book): Sobre a imortalidade de Rui de Leão.

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