fevereiro 15, 2017

[ETC.] PEDRAZUL EDITORA LANÇA O SELO REVELAÇÕES COM O LIVRO “PRIMEIRAS IMPRESSÕES”, DE LAÍS RODRIGUES

 

“Referência no mercado nacional na publicação de clássicos românticos da literatura mundial, a Pedrazul Editora abre definitivamente suas portas para os autores brasileiros. O selo Pedrazul Revelações, recém-criado, possibilita ao autor contemporâneo a publicação de seu livro, com objetivos comerciais ou não, sem os entraves convencionais do mercado editorial. Todo o processo é simples e rápido. Para submeter sua obra à apreciação, o autor deverá entrar em contato exclusivamente por e-mail — revelacoes@pedrazuleditora.com.br — respondendo ao “Formulário de Avaliação Técnica” (incluindo a sinopse do livro), que se encontra neste link, ao final da página. O arquivo eletrônico com o original completo somente deverá ser enviado mediante solicitação expressa da editora.”

 

Inaugurando o novo selo a editora aposta em uma história apaixonante, já conhecida entre os fãs brasileiros de Jane Austen, mas que até então não havia tido toda a publicidade que merece: Primeiras Impressões, de Laís Rodrigues.

O livro é uma releitura moderna do clássico Orgulho e Preconceito, com cenários paradisíacos do balneário de Búzios-RJ. Há algum tempo falei brevemente sobre a história, publicada anteriormente pela editora Kiron, mas certamente vale a pena aproveitar essa nova edição lindíssima que a Pedrazul está trazendo para os leitores para uma releitura (ou várias), além da possibilidade de prestigiar uma autora nacional talentosíssima! Veja abaixo a sinopse divulgada pela editora:

“A surpreendente temporada de Mr. Darcy no Brasil!

Charles Bing, um otimista incorrigível, decide que está na hora de internacionalizar a sua bem-sucedida cadeia de restaurantes nova-iorquina. Deseja começar pelo país que sempre incitou sua curiosidade: o Brasil. E nada melhor que Búzios, uma belíssima cidade turística no litoral do Rio de Janeiro. A fim de garantir que sua escolha será acertada, ele leva a tiracolo o seu melhor amigo, Frederick Darcy, um político americano de família conservadora, que se orgulha de ser um homem racional e prático. Mal sabem eles que, ao chegar à cidade paradisíaca, virarão alvo de Janaína Benevides, dona das pousadas mais requisitadas do balneário. Ela é mãe de quatro belas moças, que são, para sua tristeza, solteiras. Janaína preocupa-se, em especial, com a solidão de Jane e Lizzie Benevides, as mais velhas. Enquanto a primeira acaba se decepcionando em seus relacionamentos, por ser uma pessoa que sempre busca ver o melhor nas pessoas, a outra não deixa nenhum homem se aproximar.

Primeiras Impressões é uma deliciosa adaptação de Orgulho e Preconceito, numa releitura moderna dos personagens georgianos que há gerações encantam os leitores.”

 

 

SOBRE A AUTORA: Laís Rodrigues, que inaugura o selo Pedrazul Revelações, é uma advogada de 30 anos que lê desde criança. Ao contrário da maior parte dos autores, nunca havia sonhado em escrever. No entanto, depois que começou, apaixonou-se totalmente pela escrita, e, para a sorte do leitor, não consegue mais parar. Além de Primeiras Impressões, é dela também Do Outro Lado do Oceano, ambas adaptações contemporâneas de obras de Jane Austen, de quem é grande fã. Também é apreciadora da autora inglesa vitoriana Elizabeth Gaskell. Ela também é autora de Heart of Fire, fantasia para jovens adultos que faz parte da série The Elements. Laís é baiana e mora no Rio de Janeiro com o marido e dois gatos.

 

O livro já está em pré-venda e você pode adquiri-lo neste link. Lembrando sempre que a Pedrazul envia vários e lindíssimos marcadores em todas as compras que fazemos no site da editora.

Ficha técnica da obra: Tamanho 16X23cm. 252 páginas. Miolo em papel pólen-soft. Brochura. Tamanho similar ao Diário de Mr. Darcy.

 

P.S.: Sou só eu, ou vocês também estão ansiosos pela publicação de Do Outro Lado do Oceano? Trata-se de uma adaptação contemporânea de Northanger Abbey!

janeiro 13, 2017

[RESENHA] DOIS IRMÃOS, DE MILTON HATOUM

Sinopse: “Onze anos depois da publicação de Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum retoma os temas do drama familiar e da casa que se desfaz. Dois irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. O enredo desta vez tem como centro a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar.Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance”

 

Milton Hatoum é um escritor brasileiro, nascido em Manaus-AM em 1952, descendente de libaneses e considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade. Seus livros foram bastante premiados, com destaque para o romance Dois Irmãos, vencedor do prêmio Jabuti no ano de 2001 e traduzido para oito idiomas. Este romance foi adaptado em série pela TV Globo, sendo transmitida atualmente.

Dois Irmãos, conta a história dos gêmeos idênticos Yaqub e Omar, este último o Caçula. Os dois possuem personalidades bem diferentes e viverão em conflito por toda a vida, muito em razão da preferência que a mãe, Zana, tem pelo Caçula, nascido quase morto devido a complicações no parto.

A narrativa é feita por Nael, filho da empregada Domingas e de um dos gêmeos, e não é nada linear. O livro foi concebido como uma espécie de relato de memórias do personagem narrador, desta forma, à medida que ele lembra ou narra certos eventos, muitas vezes nos conta o que aconteceu no passado para explicar sua narrativa. Particularmente gostei muito desse estilo de escrita, pois o autor está sempre nos surpreendendo com alguma revelação sobre os personagens. A história começa com a morte de Zana, questionando se os filhos já fizeram as pazes, e o silêncio que antecede sua morte nos mostra que não.

O primeiro capítulo mostra a volta de Yaqub para o Brasil, depois de uma temporada no Líbano. Seu retorno, conclui-se, acontece no ano de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, pela movimentação no porto do Rio de Janeiro, “apinhado de parentes de pracinhas e oficiais que regressavam da Itália”. Posteriormente vemos o episódio que é o estopim para a viagem do gêmeo mais velho, numa tentativa de evitar um conflito maior entre os irmãos: ambos estavam apaixonados pela mesma moça, Livia, e Omar, por ciúme, dá uma garrafada no irmão, cortando-lhe a face e deixando uma cicatriz no local. Em um primeiro momento, Halim, pai dos Gêmeos, tem a ideia de enviar os dois para o Líbano, mas Zana convence-o a enviar apenas Yaqub, pois não conseguiria separar-se de Omar.

 

“Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quando os gêmeos completaram treze anos de idade. Halim queria mandar os dois para o sul do Líbano. Zana relutou, e conseguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub. Durante anos Omar foi tratado como filho único, único menino.”

 

O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, ‘porque nunca se sabe como vão reagir depois…’ Ele nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após a longa separação.”

 

Zana tinha três filhos. Além de Yaqub e Omar, havia também Rânia. Mas Omar era o rei absoluto em seu coração. O amor dela por este filho rompia barreiras, beirava o incesto. Mimava-o e sempre o protegia como se ainda fosse aquele bebê acometido por uma pneumonia logo ao nascer. Mesmo ficando separada de Yaqub, não chegou nem perto de tratá-lo com o mesmo carinho que dispensava a Omar.

“O rosto de Zana se iluminou ao ouvir um assobio prolongado – uma senha, o sinal da chegada do outro filho. Era quase meia-noite quando o Caçula entrou na sala. Vestia calça branca de linho e camisa azul, manchada de suor no peito e nas axilas. Omar se dirigiu à mãe, abriu os braços para ela, como se fosse ele o filho ausente, e ela o recebeu com uma efusão que parecia contrariar a homenagem a Yaqub. Ficaram juntos, os braços dela enroscados no pescoço do Caçula, ambos entregues a uma cumplicidade que provocou ciúme em Yaqub e inquietação em Halim.”

 

Ela sempre achava uma maneira de justificar algum ato de Omar, colocando-o como um pobre indefeso, desprovido de capacidade para cuidar de si próprio. Yaqub apenas teve o apoio do pai e da empregada Domingas durante o tempo que viveu em Manaus.

“Não queria morrer vendo os gêmeos se odiarem como dois inimigos. Não era mãe de Caim e Abel. (…) Então que Yaqub refletisse, ele que era instruído, cheio de sabedoria. Ele que tinha realizado grandes feitos na vida. Que a perdoasse por tê-lo deixado viajar sozinho para o Líbano. Ela não deixou Omar ir embora, pensava que longe dela ele morreria.”

 

O centro da história, obviamente, são os conflitos entre os irmãos, mas há muito mais em Dois Irmãos, que também comprovam a qualidade desta história e do autor. Como exemplo, o cenário manauara que foi lindamente bem descrito; também a história de Domingas, a índia que foi adotada para servir como ajudante de Zana, mostrando a realidade de muitos indígenas que foram retirados de suas aldeias, tendo sua liberdade e cultura arrancados de si, escravizados e, no caso das mulheres, violentadas; vemos ainda o saudosismo dos imigrantes libaneses que vieram fazer a vida em uma terra tão distante e diferente como o Brasil; uma rápida menção de como era a vida no norte do país nos tempos da ditadura militar; e a mistura, a sedução e a falta de limites com os quais estamos acostumados nas relações familiares. Tudo isso o leitor verá em Dois Irmãos. É um orgulho ter um autor como Milton Hatoum em terras brasileiras e ainda em atividade. Eu e, acredito, os leitores brasileiros em geral, precisamos conhecer e prestigiar nossos autores, especialmente aqueles que estão vivos e em atividade.

 

“Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.”

 

 

Título: Dois Irmãos

Autor: Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 270

Compre na Amazon: Dois Irmãos, de Milton Hatoum

novembro 18, 2016

[RESENHA] O QUINZE, DE RACHEL DE QUEIROZ

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Sinopse: ” Lançado originalmente em 1930, O Quinze foi o primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz. Ao narrar as histórias de Conceição, Vicente e a saga do vaqueiro Chico Bento e sua família, Rachel expõe de maneira única e original o drama causado pela história da seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro, sem perder de vista os dilemas humanos universais, que fazem desse livro um clássico de nossa literatura.”

 

Em O Quinze, Rachel de Queiroz narra o drama da seca no Ceará, especificamente a seca de 1915. Foi o primeiro romance da autora, publicado originalmente em 1930, quando ela ainda não havia completado 20 anos.

A história mostra diferentes pontos de vista sobre a seca, pois cada personagem tem o seu drama particular, embora haja certa conexão entre eles. Sendo um livro pequeno, minha edição tem 160 páginas, não vou me alongar sobre as características de todos os personagens, evitando, assim, que esta resenha seja um grande spoiler. Falarei daqueles que mais me marcaram e de determinados pontos de suas histórias.

 

Chico Bento e sua família

O núcleo mais marcante do romance, certamente, é o de Chico Bento e sua família. Eles representam o povo que passou fome nas secas do nordeste. Perderam tudo, pois não havia criação ou plantação que sobrevivesse a falta de chuva. Como muitos, Chico Bento só podia arribar; sair em busca de qualquer coisa em outro lugar. Inicialmente, pensou em ir para a Amazônia, por fim, acabou indo para São Paulo. Sua Jornada inclui fome, morte e desespero. Imagine sair em busca de não se sabe o quê em cima apenas dos próprios pés! Caminhou com rumo incerto, como tantos antes e depois dele fizeram. Viveu com a família em um Campo de Concentração, comendo a ração dada pelo governo, até finalmente conseguir ir em busca do seu destino. É um retrato perfeito do pobre sertanejo feito por Rachel de Queiroz; praticamente uma transcrição da realidade para as páginas do livro.

 

Ilustração de Shiko para a obra de Rachel de Queiroz (Divulgação)

Ilustração de Shiko para a obra de Rachel de Queiroz (Divulgação)

 

“Caindo quase de joelhos, com os olhos vermelhos cheios de lágrimas que lhe corriam pela face áspera, suplicou de mãos juntas:

 – Meu senhor, pelo amor de Deus! Me deixe um pedaço de carne, um taquinho ao menos, que dê um caldo para a mulher mais os meninos! Foi para eles que eu matei! Já caíram com a fome!…

(…)

E o homem disse afinal, num gesto brusco, arrancando as tripas da criação e atirando-as para o vaqueiro:

– Tome! Só se for isto! A um diabo que faz uma desgraça como você fez, dar-se tripas é até demais!…

A faca brilhava no chão, ainda ensanguentada, e atraiu os olhos de Chico Bento.

Veio-lhe um ímpeto de brandi-la e ir disputar a presa; mas foi ímpeto confuso e rápido. Ao gesto de estender a mão, faltou-lhe o ânimo.

O homem, sem se importar com o sangue, pusera no ombro o animal sumariamente envolvido no couro e marchava para casa, cujo telhado vermelhava, lá além.” (p. 72 e 73)

 

A professora Conceição

Conceição foi outra personagem que me marcou. Embora não tenha passado pelas situações extremas que Chico Bento e sua família passaram, ela era uma mulher a frente de seu tempo e não deixou de ter seus sofrimentos, ainda que vivendo uma vida mais confortável. Professora, solteira, amante dos livros e apaixonada pelo primo Vicente, nunca conseguiu dar o próximo passo em direção ao altar, como o esperado por todos. Seu medo de não ser capaz de lidar com as diferenças que existiam entre ela e o primo, para mim, foi uma atitude corajosa. Inserida em uma sociedade patriarcal em que o papel da mulher era ser esposa, Conceição escolheu ser ela mesma, temendo não poder exercer os dois papéis.

 

“Dona Inácia tomou o volume das mãos da neta e olhou o título:

– E esses livros prestam para moça ler, Conceição? No meu tempo, moça só lia romance que o padre mandava…

Conceição riu de novo:

 – Isso não é romance, Mãe Nácia. Você não está vendo? É um livro sério, de estudo…

 – De que trata? Você sabe que eu não entendo francês…

Conceição, ante aquela ouvinte inesperada, tentou fazer uma síntese do tema da obra, procurando ingenuamente encaminhar a avó para suas tais ideias:

 – Trata da questão feminina, da situação da mulher na sociedade, dos direitos materiais, do problema…

 – E minha filha, para que uma moça precisa saber disso? Você quererá ser doutora, dar para escrever livros?

Novamente o riso da moça soou:

 – Qual quê, Mãe Nácia! Leio para aprender, para me documentar…

 – E só para isso, você vive queimando os olhos emagrecendo, lendo essas tolices…

 – Mãe Nácia, quando a gente renuncia a certas obrigações, casa, filhos, família, tem que arranjar outras coisas com que se preocupe… Senão a vida fica vazia demais…

 – E para que você torceu sua natureza? Por que não casa?

Conceição olhou a avó de revés, maliciosa:

 – Nunca achei quem valesse a pena…” (p.130 e 131)

 

Eu já havia lido sobre as inúmeras secas no nordeste, mas a leitura desse livro contribuiu para que eu me aproximasse um pouco mais do sofrimento daquele povo. Vi que os campos de concentração realmente existiram; eram conhecidos como currais do governo e neles morriam cerca de 150 pessoas diariamente. Rachel de Queiroz inspirou-se no campo da cidade de Alagadiço, no Ceará, onde cerca de oito mil pessoas recebiam um auxílio do governo e eram vigiadas por soldados. A família de Chico Bento, como disse anteriormente, representou os milhares de brasileiros que iam perdendo os seus filhos para a miséria. As verbas do governo destinadas às regiões assoladas pela seca eram sistematicamente desviadas para suprir necessidades dos mais abastados, o que ficou conhecido como indústria da seca.

Ler O Quinze é importante para conhecermos a nossa história, a história do nosso país. Rachel de Queiroz conseguiu, em poucas páginas, eternizar a história de um povo que passou muito tempo esquecido pelo poder público e pelos próprios brasileiros. Leitura indispensável!

 

 

Título: O Quinze
Autora: Rachel de Queiroz
Editora: José Olympio
Páginas: 160

Compre na Amazon: O Quinze

 

 

Referências e leituras complementares:

Brasil Escola: secas no nordeste.

G1: cem anos da seca de 1915.

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