agosto 06, 2019

[RESENHA] O OLHO MAIS AZUL, DE TONI MORRISON

Sinopse: “Como aceitar sua identidade num mundo que não parece ter sido feito para você? Todas as noites Pecola Breedlove reza para ter olhos azuis. Zombada pelas outras crianças por sua pele negra e seu cabelo crespo, a menina anseia por se encaixar no padrão de beleza da sociedade americana dos anos 1940: quer ser branca e loira, assim como a atriz mirim Shirley Temple. No entanto, à medida que cresce seu delirante e inconsciente desejo de aceitação, Pecola se vê presa a uma realidade cada vez mais violenta. Primeiro romance de Toni Morrison, vencedora do Nobel de Literatura de 1993, O olho mais azul é uma poderosa reflexão sobre raça, desigualdade e o peso esmagador da história.”

 

Ninguém que tenha o mínimo de sensibilidade vira a última página de O olho mais azul, de Toni Morrison, sendo a mesma pessoa de antes desta leitura. Tendo a pensar que, mesmo entre os mais insensíveis, pode haver certo incômodo com as situações vividas pelos personagens deste livro, especialmente se compararmos ao que vivemos hoje, no Brasil e no mundo, em matéria de racismo estrutural.

O olho mais azul é um livro essencialmente humano e isso foi o que considero como o mais marcante nessa leitura. As pessoas são boas e ruins — não necessariamente o tempo todo ou nesta ordem, umas mais outras menos — assim como são as pessoas da vida real. Pecola Breedlove é, sem dúvidas, a personagem que (mais) sofre todo tipo de violência e por quem temos a maior compaixão, especialmente por seu desejo de ter olhos azuis e ser, finalmente notada (e amada), mas em cada um dos personagens que compõem a teia dessa história percebemos os efeitos da exclusão, da violência e do sofrimento na vida de uma pessoa negra.

Pecola Breedlove sonha, deseja, pede a Deus olhos azuis. Isso, por si só, já é uma tragédia emocional (e social) de cortar o coração (o nosso e o dela). Mas o livro, com seus capítulos aparentemente avulsos, aborda, de forma bem clara e cirúrgica, como era ser negro nos Estados Unidos da década de 1940. Mais do que isso, Toni Morrison — primeira escritora negra a ganhar o Nobel de Literatura, em 1993 — mostra como ainda é ser negro em vários outros lugares, em várias outras épocas. Inclusive a que estamos vivendo agora.

O olho mais azul é um livro triste, difícil, mas que pode ser também inspirador. Há verdades que não podem ficar para sempre debaixo do tapete e quanto mais tomamos ciência e consciência de atitudes racistas, de realidades racistas, de coisas que acontecem mesmos nos dias atuais, temos mais chances de conquistar uma sociedade realmente justa e igualitária.

O olho mais azul foi o livro de março da TAG Curadoria, indicado por Djamila Ribeiro, autora do maravilhoso Quem tem medo do feminismo negro?  

***

Eu sempre escrevo grande parte de uma resenha em um dia para só depois aparar algumas arestas, escrever mais um pouco e então publicar a versão final aqui no site. Hoje, ao revisitar esse meu pequeno texto sobre O olho mais azul para fazer algumas alterações e finalizá-lo, fui surpreendida com a notícia do falecimento de Toni Morrison, após uma breve doença. Hoje, dia 6 de agosto de 2019, recebemos a notícia de que Toni Morrison partiu para eternidade. Mas ficam seus escritos. Fica o seu legado de luta e a inspiração por tudo o que ela representa.

 

No discurso que proferiu ao receber o Nobel, Morrison disse: “Nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas.”

(Fonte: Companhia das Letras. Foto: Timothy Greenfield-Sanders)

 

Destaco, abaixo, alguns trechos marcantes de O olho mais azul:

 

“Se tivesse outra aparência, se fosse bonita, talvez Cholly fosse diferente, e a sra. Breedlove também. Talvez eles dissessem: ‘Ora, vejam que olhos bonitos os da Pecola. Não devemos fazer coisas ruins na frente desses olhos bonitos.’” (p. 56)

 

“Em algum ponto entre a retina e o objeto, entre a visão e a vista, os olhos recuam, hesitam, pairam. Em algum ponto fixo no tempo e no espaço, ele sente que não precisa desperdiçar o esforço de um olhar. Não a vê, porque, para ele, não há nada a ver. Como é que um comerciante branco, imigrante, de 52 anos, com gosto de batatas e cerveja na boca, a mente adestrada na Virgem Maria de olhos meigos, a sensibilidade embotada por uma permanente consciência de perda, pode ver uma menina negra? Nada em sua vida nunca sequer sugeriu que a proeza fosse possível, que dirá desejável ou necessária.” (p. 58)

 

“Imaginou como seria o amor. Como é que os adultos agem quando se amam? Comem peixe juntos? Veio-lhe aos olhos a imagem de Cholly e da sra. Breedlove na cama. Ele fazendo ruídos como se sentisse dor, como se alguma coisa o segurasse pela garganta e não soltasse. Terríveis como eram, esses sons só não eram tão maus quanto a ausência de som da mãe. Era como se ela nem estivesse lá.  Talvez o amor fosse aquilo. Sons estrangulados e silêncio.” (p. 67)

 

“Entraram devagar na vida pela porta dos fundos. Transformaram-se. Todo mundo podia lhes dar ordens. As mulheres brancas diziam ‘Faça isso’. As crianças brancas diziam ‘Me dá aquilo’. Os homens brancos diziam ‘Venha cá’. Os homens negros diziam ‘Deita’. As únicas pessoas de quem não precisavam receber ordens eram as crianças e as outras mulheres negras. Mas elas pegaram tudo isso e recriaram à sua própria imagem. Administravam a casa dos brancos, e sabiam disso. Quando os brancos espancavam os seus homens, elas limpavam o sangue e iam para casa receber os maus-tratos da vítima. Batiam nos filhos com uma mão e com a outra roubavam para eles. As mãos que cortavam árvores também cortavam cordões umbilicais; as mãos que torciam o pescoço de galinhas e abatiam porcos também cuidavam de violetas africanas até que florissem; os braços que carregavam feixes, fardos e sacos também embalavam bebês. Elas moldavam biscoitos farinhentos em ovais de inocência — e amortalhavam os mortos. Aravam o dia inteiro e iam para casa se aninhar  sob os membros de seus homens. As pernas que cavalgavam o dorso de uma mula eram as mesmas que cavalgavam os quadris de seus homens. E a diferença era toda diferença do mundo.” (p. 145)

 

“O amor nunca é melhor que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro. Não há dádiva para o ser amado. Só o amante possui a dádiva do amor. O ser amado é espoliado, neutralizado, congelado no fulgor do olho interior do amante.” (p. 212)

 

 

 

 

Título: O olho mais azul

Autora: Toni Morrison

Tradução: Manoel Paulo Ferreira

Prefácio de Djamila Ribeiro e posfácio da autora.

Editora: TAG Curadoria / Companhia das Letras

Páginas: 226

 

outubro 03, 2018

[CATARSE] O Crime da Quinta Avenida, de Anna Katharine Green

 

Se você, assim como eu, é fã de literatura policial, não pode perder essa novidade: a Monomito Editorial e a escritora Cláudia Lemes estão preparando a primeira edição brasileira do bestseller da mãe da literatura policial! Vem aí O Crime da Quinta Avenida, de Anna Katharine Green:

 

CROWDFOUNDING VAI PUBLICAR NO BRASIL ESCRITORA QUE INVENTOU O ROMANCE POLICIAL MODERNO

Autora americana foi inspiração para os britânicos Agatha Christie e Artur Conan Doyle – o pai de Sherlock Holmes

 

Anna Katherine Green vai renascer num financiamento coletivo que promete balançar o mercado editorial. A escritora americana icônica dos romances policiais, famosa em sua época e esquecida pelo tempo, vai ter seu romance de estreia relançado no Brasil: The Leavenworth Case: A Lawyer’s Story. Escrito há 140 anos, O crime da quinta avenida, foi o primeiro livro de mistério que convidou o leitor a desvendar um assassinato junto com o detetive.

O financiamento coletivo será feito através do Catarse e está sendo organizado por uma parceria entre a jovem editora Monomito Editorial e a tradutora e autora Cláudia Lemes, uma das escritoras de romances policiais mais importantes da literatura brasileira da atualidade. A capa foi desenha pelo estúdio da ProjectNine que escondeu easter eggs para proporcionar desde o princípio a experiência de mistério e investigação ao leitor.

O estilo de escrita de Green foi tão marcante em seu primeiro romance que arrebatou fãs em diversos países. Naquela ocasião ela se tornou referência para escritores de todo o mundo, tendo entre seus fãs o britânico Arthur Conan Doyle, o pai de Sherlock Holmes, que viajou para conhecer a escritora americana. Outra fã foi ninguém mais ninguém menos que Agatha Christie.

Entre os elementos criados por Green – e que são usados à exaustão por livros, filmes e séries de televisão – destacam-se: um detetive experiente que suspeita de “todos e de ninguém”, um jovem apaixonado pela mulher cuja evidência aponta como culpada e tentando provar que não é ela a assassina, o uso de lógica e técnicas forenses para encontrar o culpado (pedaços de cartas, testemunhas desaparecidas) e técnicas de escritas de mistério que oferecem pistas – muitas falsas – para que o caso seja investigado também pelo leitor. Além disso, Ebenezer Gryc,e se tornou o primeiro detetive serial da literatura

Green escreveu “O Crime da quinta avenida”, escondida, durante seis anos, enquanto cuidada de seus três filhos.  A obra foi publicada quando ela tinha 32 anos.

 

Sinopse

O rico homem de negócios Horatio Leavenworth foi assassinado dentro de sua mansão com um tiro. Ele deixou uma grande fortuna e duas sobrinhas, e uma delas, Eleanore, se torna a principal suspeita ao ser revelado que ela não herdaria os bens do tio. A incumbência de descobrir o assassino e o motivo do crime recai sobre o investigador Ebenezer Gryce que usa inteligência e capacidade de dedução, acima da média, para juntar pistas e revelar segredos. Em paralelo, o jovem advogado Everett Raymond decide conduzir sua própria investigação com o intuito de provar a inocência de Eleanore, a mulher por quem se apaixonou.

Saiba mais sobre a vida de Anna, a obra, este projeto e a equipe por trás dele clicando aqui. Você já pode apoiar o projeto clicando aqui. 

janeiro 20, 2017

[RESENHA] OS OITO PRIMOS, DE LOUISA MAY ALCOTT

Sinopse: “A história da órfã Rose que, ainda muito jovem vai morar com suas ricas tias solteironas e com seus sete primos. As adversidades as quais ela passa, o relacionamento com seu tutor, o tio Alec, e o aprendizado que a faz ver o mundo com outros olhos.”

 

Os Oito Primos foi escrito por Louisa May Alcott (1832-1888), escritora norte-americana dedicada principalmente à literatura infantojuvenil, tendo sido publicado originalmente em 1875.  No Brasil, foi publicado em e-book pela Pedrazul Editora, em dezembro de 2016, com tradução de Michelle Gimenes.

A narrativa conta a história da jovem Rose, uma órfã vivendo com várias tias a espera de seu tutor, o tio Alec, que está em viagem pelo exterior. Ela é uma criatura frágil, delicada, e, desta forma, tratada como uma um boneca de porcelana por seus familiares, que acreditam que a menina é muito doente por sua pouca disposição. Rose não conhecia o tio Alec nem os primos, desta forma, temia o encontro com eles e os rumos que sua vida tomaria com todas as mudanças prestes a acontecer.

 

“Rose, de fato, tinha alguns motivos para estar triste, pois não tinha mãe e também perdera o pai recentemente, o que deixou-a sem outro lar além desse onde passara a viver com suas tias-avós. Ela estava na casa há apenas uma semana e, embora as estimadas senhoras tentassem fazer o possível para deixá-la feliz, não haviam obtido muito sucesso, visto que Rose não era como nenhuma outra criança que elas conheciam, e as tias sentiam como se tivessem que cuidar de uma melancólica borboleta.”

 

“Minha criança, não espero que você me ame e confie em mim logo de uma vez, mas quero que acredite que colocarei todo meu coração neste novo dever; e, se eu fizer algo errado, e provavelmente farei, ninguém sofrerá mais amargamente do que eu por esse erro. É culpa minha que eu seja um estranho para você, quando o que eu quero é ser  seu melhor amigo.  Esse é um dos meus erros, e  nunca me arrependi tão profundamente quanto agora. Seu pai e eu tivemos um desentendimento uma vez, e eu pensava que nunca fosse perdoá-lo; então, me afastei por anos. Graças a Deus, fizemos as pazes na última vez que o vi e, naquela ocasião, ele me disse que, se fosse obrigado a partir, deixaria sua garotinha sob meus cuidados como símbolo de seu amor. Não posso tomar o lugar dele, mas tentarei ser um pai para você; e, se aprender a me amar a metade do que amava aquele que você perdeu, serei um homem orgulhoso e feliz. Acredita nisso e está disposta a tentar?”

 

Rose é a única garota entre os primos, o barulhento Clã de sete rapazes. Ao descobrirem que o avô era escocês, os meninos aprenderam sobre a cultura da Escócia, tudo pela glória do Clã. Após conhecê-los a resistência inicial da jovem foi se dissipando, e ela pôde ver nos meninos amigos valiosos. A partir do experimento de tio Alec, que propunha criar Rose a sua própria maneira por um ano, sem interferência das tias, a menina desabrochou, e mostrou-se tão cheia de vitalidade quanto os primos. Alec não pretendia criar Rose nos moldes de criação das meninas da época. Para ele, além de aprender tarefas domésticas, a menina também devia ser livre para brincar e aprender sobre anatomia, por exemplo. Ao término do primeiro ano, Rose poderia escolher continuar com o tio Alec ou viver com alguma das outras tias. Nesta parte, é difícil até para nós leitores esboçar uma preferência, pois cada tia uma tem uma particularidade e contribui para a formação da jovem de sua própria maneira, sempre com muito afeto.

Os Oito Primos ressalta valores familiares e de amizade dos quais estamos muito carentes na atualidade. Por exemplo, em um dos capítulos Rose promete não usar mais brincos, adorno que ela gostava muito, caso os primos concordassem em não fumar. Ou quando deixou de participar de uma festa, para que a empregada Phebe fosse em seu lugar. Pode parecer uma coisa boba, mas abrir mão de uma coisa que se quer ou goste muito não é fácil nem comum. A história de Louisa May Alcott nos deixa esse tipo de lição ao mostrar o desenvolvimento dos jovens primos e suas aventuras.

Em uma rápida pesquisa no Google, vi que existe uma continuação da história Os Oito Primos, chamada Rose in Bloom. Na continuação, acompanhamos a protagonista Rose em sua vida na sociedade. Todos os nossos queridos personagens continuam na sequência, o que me deixou bastante animada para prosseguir com a leitura. Infelizmente, Rose in Bloom não foi publicado em português ainda. Fica aqui registrado o pedido para a Pedrazul Editora trazer mais essa história para o nosso idioma.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

https://pt.wikipedia.org/wiki/Louisa_May_Alcott

https://en.wikipedia.org/wiki/Rose_in_Bloom

 

 

Título: Os Oito Primos
Autora: Louisa May Alcott
Tradução: Michelle Gimenes
Páginas: 232
Editora: Pedrazul

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