março 27, 2020

[RESENHA] O MUNDO SE DESPEDAÇA, DE CHINUA ACHEBE

Sinopse: Romance fundador da moderna literatura nigeriana, O mundo se despedaça narra a história de Okonkwo, guerreiro de um clã que se desintegra depois da chegada do homem branco e de suas instituições. Um dos mais importantes autores africanos da atualidade, Achebe recebeu o Man Booker International em 2007.
O mundo se despedaça conta a história de Okonkwo, guerreiro da etnia ibo, estabelecida no sudeste da Nigéria. O momento que a narrativa retrata é o da gradual desintegração da vida tribal, graças à chegada do colonizador branco. Os valores da Ibolândia são colocados em xeque pelos missionários britânicos que trazem consigo o cristianismo, uma nova forma de governo e a força da polícia. O delicado equilíbrio de costumes do clã atravessa um momento de desestabilização, pois os missionários europeus e seus seguidores, africanos convertidos, começam a acorrer às aldeias de Umuófia pregando em favor de uma nova crença, organizada em torno de um único Deus.
A nova religião contraria a crença nas forças anímicas e na sabedoria dos antepassados, em que acreditam os ibos. Além disso, os homens brancos trazem novas instituições: a escola, a lei, a polícia. Okonkwo, o mais bravo guerreiro do clã, é dos principais opositores dos missionários, mas ele não contava com a adesão à nova crença de muitos de seus companheiros.
O romance é considerado um dos livros mais importantes da literatura africana do século XX e fundador da moderna literatura nigeriana. Foi publicado originalmente em 1958, dois anos antes da independência da Nigéria. Primeiro romance do autor, foi publicado em mais de quarenta línguas.”

 

O mundo se despedaça, de Chinua Achebe é o romance africano mais lido do mundo. Vendeu milhões de cópias em dezenas de idiomas e é considerado o fundador da literatura nigeriana moderna. Publicado originalmente em 1958, pouco antes da independência da Nigéria, o romance é, de certa forma, uma resposta à representação quase sempre racista dos povos africanos em livros do cânone literário, especialmente de língua inglesa.

 

“A lúgubre descrição dos nativos em ‘Coração das trevas’, de Joseph Conrad, representava o racismo endêmico na literatura sobre a África mostrada pelos escritores europeus.” (Chinua Achebe)

 

O título do romance é tirado do poema “A segunda vinda”, de Yeats, escrito no final da Primeira Guerra Mundial. O apocalipse imaginado por Yeats em um mundo dominado pela anarquia e a chegada de um messias ambíguo, são um prenúncio da chegada dos colonizadores brancos cristãos que invadiram e destruíram culturas tribais.

(Antes que alguém possa pensar em dizer que eu deveria excluir a qualificação “brancos cristãos” de colonizadores no parágrafo acima, eu afirmo: não quero, nem posso. Leiam o livro e vocês entenderão.)

O mundo se despedaça mostra que a questão cultural de um povo colonizado é muito mais complexa do que afirmações rasas como “eles mesmos quiseram”, “eles deixaram”, “foi bom para eles” e, rebobinando um pouco mais a fita, “os próprios negros tinham escravos”. O livro de Achebe mostra uma sociedade sólida, que funcionava, mas tinha seus problemas — como toda sociedade.

Uma das características mais interessantes deste livro é que ele não é, de forma alguma, maniqueísta. Não tem bem versus mal, colonizador ruim e colonizado vítima. Nós conseguimos ver o todo da situação social por meio de pessoas normais. Um exemplo é o próprio protagonista, Okonkwo, que é um homem de atitudes bastante controversas. Algumas até condenáveis para os nossos padrões. Dentre os colonizadores, havia o Sr. Brown, um homem gentil e que respeitava (de certa forma) o povo da tribo de Okonkwo. Ele era um evangelizador, no conceito mais brando que possa ter esse ato. Ouvia os locais e ensinava seus próprios preceitos.

Chinua Achebe nos mostra lindamente como a cultura oral foi e é muito importante na Nigéria. Em O mundo se despedaça, vemos provérbios interessantíssimos, alguns reproduzo abaixo:

 

“Os provérbios são o azeite de dendê com o qual as palavras são engolidas” (p. 27)

 

“Desde que o homem aprendeu a atirar sem errar a pontaria, o pássaro aprendeu a voar sem pousar.” (p. 42)

 

“Ao se olhar a boca de um rei poderíamos pensar que ele jamais mamou em peito de mãe.” (p. 46)

 

“Pinto que há de ser galo a gente conhece assim que sai do ovo.” (p. 85)

 

“Os dedos de uma criança não se queimam com um pedaço de inhame quente que a mãe coloca na palma de sua mão.” (p. 86)

 

“Se um dedo estiver sujo de óleo, manchará os demais.” (p. 145)

 

O mundo se despedaça é o primeiro de uma trilogia, que segue com os romances A paz dura pouco e A flecha de Deus. A edição que eu li é da TAG Curadoria, enviada aos assinantes em outubro de 2019, mas o livro pode ser encontrado em sua edição padrão em livrarias e sites na internet (deixei um link abaixo). É uma leitura riquíssima, que muda a nossa visão sobre esse processo muitas vezes exposto de forma tão enviesada, como a colonização de países africanos.

 

 

 

Título: O mundo se despedaça
Autor: Chinua Achebe
Tradução: Vera Queiroz da Costa e Silva
Introdução e glossário: Alberto da Costa e Silva
Editora: TAG/ Companhia das Letras
Páginas: 240
Compre na Amazon: O mundo se despedaça.

 

 

REFERÊNCIAS:

Revista TAG Curadoria (Edição outubro/2019)

O livro da literatura. Org. James Canton… [et. al.]. Tradução Camile Mendrot… [et. al.]. Editora Globo (2016)

fevereiro 13, 2020

[RESENHA] AS ALEGRIAS DA MATERNIDADE, DE BUCHI EMECHETA

Sinopse: “Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.”

 

Ser mãe dói. Talvez seja por isso que se repita tanto que “ser mãe é padecer no paraíso”. Para algumas, talvez, seja padecer… e só. Bom, eu posso estar exagerando de propósito ao “esquecer” os momentos de amor e felicidade, mas a felicidade de uma mãe nunca é tranquila. Nosso trabalho nunca está acabado, nunca é perfeito. É frustrante. É lindo também, único. Mas vai ser sempre frustrante.

Talvez por isso, por ser mãe, eu já havia percebido a ironia no título do livro de Buchi Emecheta antes mesmo de saber mais detalhes sobre o romance. As alegrias da maternidade, publicado originalmente em 1979 e um recorte sobre a vida das mulheres da Nigéria colonial, é nada mais que um romance sobre ser mãe, em maior ou menor escala de sofrimento. Não por acaso Emecheta dedica o volume “Para todas as mães”.

A mãe deste livro, Nnu Ego, é filha de um grande líder do vilarejo de Ibuza, uma mulher típica de seu tempo, profundamente ligada aos costumes do povo igbo. Para realizar o grande desejo de sua vida, ser mãe, ela suporta todo tipo de dificuldades e privações em Lagos, capital da Nigéria (de população majoritariamente iorubá), com um marido horrível (em vários sentidos), distante de sua família e de seus costumes. Nnu Ego traz ao mundo muitos filhos, é uma mulher extremamente abençoada neste sentido. Mas precisa lutar com todas as suas forças para que eles tenham comida na mesa e possam ser pessoas honestas, bem criadas. Esforço e responsabilidade dos quais seu marido, Nnaife Owulum, se esquiva quase sempre sem a menor cerimônia.

 

“‘Deus , quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?’, orava ela em desespero. ‘Afinal, nasci sozinha e sozinha hei de morrer. O que ganhei com tudo isso? Sim, tenho muitos filhos, mas com que vou alimentá-los? Com minha vida. Tenho que trabalhar até o osso para tomar conta deles, tenho que dar-lhes meu tudo. E se eu tiver a sorte de morrer em paz, tenho que dar-lhes minha alma. Eles adorarão meu espírito morto para que zele por eles: ele será considerado um bom espírito enquanto eles tiverem fartura de inhame e de filhos na família, mas, se por acaso alguma coisa der errado, se uma jovem esposa deixar de conceber ou se houver escassez, meu espírito morto será culpado.Quando ficarei livre?’” (p. 257)

 

“Alguns pais, em especial os que têm muitos filhos de diferentes esposas, podem rejeitar um mau filho, um amo pode rejeitar um criado perverso, uma esposa pode chegar ao ponto de abandonar um mau marido, mas uma mãe nunca, nunca pode rejeitar seu filho. Se ele for condenado, ela será condenada ao lado dele…” (p. 295)

 

As alegrias da maternidade é um livro com uma prosa muito fácil de ler, a história é muito boa, nos prende até a última página. Além do tema principal da maternidade — que para mim teve mais apelo —, há outros traços da cultura nigeriana do início do século XX são interessantes de ler e de comparar com a nossa realidade aqui no Brasil (daquela época e, porque não, de agora): conflitos e preconceito entre etnias; racismo; a sociedade patriarcal que rege as relações; as mulheres que se viram para viver no caos sendo subjugadas a todo o momento; os efeitos da colonização pela ótica dos colonizados; questionamentos de quem participou da Segunda Guerra Mundial, mas não na condição de “protagonista”, e sim de “coro” ou “quorum” para as “grandes potências” e mais alguma coisa que eu talvez tenha deixado passar aqui, seja por esquecimento ou por não querer dar muito spoiler do livro. Nós precisamos ler mais literatura africana para entendermos a nós mesmos não só como povo descendente (boa parte da população negra no Brasil veio de terras iorubás), mas também como povo colonizado. Vai por mim: você não vai se arrepender dessa viagem histórica e cultural.

 

“Somos como irmãs numa peregrinação. Por que não ajudaríamos uma à outra?” (p. 75) 

 

Minha experiência de leitura foi enriquecida com o audiolivro disponibilizado gratuitamente pela editora Dublinense no Spotify e em várias outras plataformas. Fui caminhando pela narrativa de Emecheta ora pelo áudio, ora pelo livro, e tive momentos de mesclar os dois recursos. Minha dificuldade de concentração em audiolivros foi superada, pelo menos em As alegrias da maternidade. Foi uma leitura ímpar, recomendo enormemente!

 

“Pode ser que você tenha razão de novo, esposa mais velha. Só que quanto mais eu penso no assunto, mais me dou conta de que nós, mulheres, fixamos modelos impossíveis para nós mesmas. Que tornamos a vida intolerável umas para as outras. Não consigo corresponder a nossos modelos, esposa mais velha. Por isso preciso criar os meus próprios.” (p. 234)

 

 

 

Título: As Alegrias da Maternidade

Autora: Buchi Emecheta

Tradução: Heloisa Jahn

Editora: TAG Curadoria / Dublinense

Páginas: 320

 

Compre na Amazon: As alegrias da maternidade.

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