setembro 14, 2017

[RESENHA] A ALEGRIA DE ENSINAR, DE RUBEM ALVES

 

A Alegria de Ensinar é um livro de crônicas do escritor Rubem Alves, publicado pela editora Papirus, voltado para a temática do ensino, aprendizagem e vida escolar. Neste livro aprendemos, de forma encantadora, o real papel de um educador.

Ensinar, na visão de Rubem Alves, torna os professores imortais. O educador é aquele que desperta a paixão e a vocação quando ela ainda está adormecida na mente dos alunos. Infelizmente, ele também tem o poder de matar os sonhos de seu educando, quando ao invés de guiá-lo no caminho da educação, resolve por si só o que é ou não adequado para o aluno, tendo em vista os pré-conceitos enraizados em nossa sociedade. Sendo assim, o professor, de uma forma ou de outra, viverá eternamente nos pensamentos daqueles a quem ensinou.

“O mestre nasce da exuberância da felicidade.”, diz a primeira crônica. O autor já começa pedindo, ainda que indiretamente, que esqueçamos as mazelas, as tristezas do ofício, que muitas vezes são mais evidenciadas que as alegrias. Ele compara a dor de ensinar à dor do parto: a mãe logo se esquece dela ao ver o lindo rosto de seu filho.

Educar, portanto, deve ser um exercício de alegria. Como aluna e aspirante a professora, entendo essa fala do autor como um clamor para que não nos deixemos contaminar pela burocracia, pela falta de reconhecimento do estado e da sociedade e por outras dificuldades diversas. Que consigamos não envenenar nossas aulas com o que há de ruim e que não permitamos que os muros da escola barrem a sede de conhecimento dos alunos e a nossa própria sede de ensinar.

E, falando sobre a escola, Rubem Alves fala dela como um obstáculo no processo de ensino-aprendizagem. Infelizmente, todos nós que a frequentamos por anos e anos a fio sabemos que essa é uma grande verdade. A escola às vezes aprisiona. Pior que isso: despeja inúmeros conteúdos nos cérebros dos alunos sem que eles consigam descobrir, em tempo hábil, para que serve tudo aquilo. Já ouviram por aí que os jovens aprendem bhaskara, mas não sabem noções básicas de trânsito ou vida em sociedade? Não sabem elaborar um currículo ou marcar e ir sozinhos a uma consulta médica? Pior ainda: não sabem ler e interpretar uma notícia de jornal? É verdade. A escola prepara para o vestibular, e muitas vezes apenas para o vestibular. É uma decoreba que será esquecida tão logo o aluno consiga (ou não) sua aprovação.

Desejo profundamente não esquecer as palavras de Rubem Alves, pois, olhando para trás, vejo que vários dos professores que tive não tinham alegria em ensinar ou em estar em sala de aula. Ainda quando aluna do ensino fundamental e médio eu percebia a diferença: alguns professores nos faziam crer que podíamos ir ao infinito e além, bastava um pouco de coragem e trabalhar duro em nosso propósito. Outros, simplesmente passavam o conteúdo previsto na matriz curricular e não permitiam questionamentos que fugissem da matéria do vestibular.

Finalizada a leitura, sonho com o dia em que as nossas crianças não sejam mais simples repetidoras de conteúdo, pois a educação não pode ser resumida em fazer o aluno passar em uma prova. É da vida e da sociedade que estamos falando. E que os professores tenham condições de sempre serem felizes, tendo alegria em ensinar.

 

 

Obs.: esta resenha foi parte de uma avaliação do curso de Letras (UFF/Cederj), disciplina Estágio Supervisionado I. A proposta era ler apenas metade do livro e fazer um comentário, mas não resisti: li as todas as crônicas do livro, algumas mais de uma vez!

 

 Título: A Alegria de Ensinar
Autor: Rubem Alves
Editora: Papirus
Páginas: 96

 

Compre na Amazon: A Alegria de Ensinar.

fevereiro 15, 2017

[LETRAS] FONÉTICA FORENSE: O PROFISSIONAL DE LETRAS COMO INVESTIGADOR CRIMINAL

Fonte da imagem: IBP Peritos.

 

Ao estudar o conteúdo da semana, de acordo com o cronograma da disciplina Português V do meu curso de Letras (UFF/Cederj), deparei-me com uma área da fonética muito interessante e resolvi investigar: a fonética forense.

Antes de tudo, vamos ver o que é fonética:

“À fonética tem-se atribuído o papel de estudar os sons da linguagem humana do ponto de vista material ou físico, descrevendo detalhadamente como eles são produzidos e quais são os seus efeitos acústicos.”

“A fonética, como disciplina que estuda o som linguístico em seu aspecto material, pode ser subdividida em três áreas bem definidas: a fonética articulatória, a fonética acústica e a fonética auditiva. A primeira descreve e classifica os sons da fala de acordo com sua articulação no aparelho fonador. À segunda cabe o estudo das propriedades físicas dos sons linguísticos e do percurso que as ondas sonoras trilham para chegar aos ouvidos do ouvinte. Já a terceira ocupa-se da maneira como os sons da fala são captados pelo aparelho auditivo e interpretados pelo cérebro humano.”

PEREIRA, Marli Hermenegilda. ROBERTO, Mikaela. CAVALIERE, Ricardo Stavola. Português V: volume 1, p. 11 e 23. Rio de Janeiro. Fundação CECIERJ, 2015.

 

Sendo assim, a fonética forense é uma ciência forense e também um procedimento de perícia, que atua na transcrição de áudios e conversas telefônicas para a identificação de traços característicos da fala de determinado indivíduo. Com o procedimento podem ser verificadas a região e a condição social do falante, seu estado emocional no momento da fala e outras informações diversas. É um tipo de perícia que exige bastante tempo de trabalho, pois nem sempre o material – áudio – está em boas condições.

 

Veja os procedimentos periciais realizados pelo setor de fonética do IGP, Instituto Geral de Perícias da Secretaria de Estado da Segurança Pública de Santa Catarina:

Transcrição de dados de áudio: Trata-se de procedimento pericial denominado popularmente de “transcrição de conversas telefônicas”. O processamento dos dados de áudio inicia-se na digitalização dos mesmos para a posterior transcrição com o auxílio de softwares como o Sound Forge e o Col Edit. Este tipo de perícia exige muito tempo de trabalho, principalmente quando os dados a serem transcritos são de baixa qualidade. Como parâmetro temos que o tempo médio necessário para transcrever 01 hora de conversa é de aproximadamente 20 horas, envolvendo a transcrição propriamente dita, a revisão e a formatação do laudo pericial.  Nesse processo, é fundamental que o Perito possa transcrever apenas os dados relacionados aos fatos investigados e a Autoridade Policial ou Judiciária,  ao requerem tais perícias, devem informar no requerimento os dados necessários para que o Perito possa estabelecer sua rotina de trabalho de forma objetiva e produtiva.

Tratamento de dados de áudio: Quando os dados de áudio a serem transcritos são de baixa qualidade, após o processo de digitalização dos mesmos, ocorre o tratamento dos dados com softwares específicos. Normalmente o processo de tratamento destes dados de baixa qualidade, demanda um longo tempo de trabalho até chegar ao nível mínimo de qualidade exigida para a transcrição. Os principais programas utilizados são os seguintes: Sound Forge, Col Edit e Adobe Audition.

Exames periciais em vídeos: No setor de Fonética, também são processados procedimentos periciais em vídeos. Durante assaltos em lojas, às vezes os sistemas de segurança gravam a ação dos criminosos. Para facilitar os procedimentos investigativos e de identificação dos autores, os vídeos de segurança são submetidos a tratamentos específicos com o auxílio de programas computacionais com a finalidade de melhorar a qualidade das imagens, extrair fotografias e facilitar a descrição da dinâmica do evento criminoso. Normalmente, o trabalho é realizado com o auxílio de dois programas, o Adobe Premier e o Vídeo Investigador.

 

Apesar de ser uma ramificação, por assim dizer, da Linguística, a maior parte dos profissionais que atuam na perícia fonética têm formação em outras áreas diferentes de Letras ou Linguística. Este fato pode ser verificado, inclusive, pelos concursos públicos para o cargo de perito. Tratando-se de uma área nova no Brasil, vamos torcer para que mais profissionais de Letras conheçam esse campo de atuação e possam contribuir para o desenvolvimento desta ciência, assim como para a resolução de crimes.

 

 

Saiba mais:

A fonética forense no Brasil: cenários e atores, trabalho de Maria Lúcia de Castro Gomes e Denise de Oliveira Carneiro, da UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

 

Fonética Forense, por Welton Pereira

 

Veja também:

O papel da Linguística Forense em uma investigação, artigo da fonoaudióloga Monica Azzariti.

 

Pós Graduação em Linguística Forense, pelo Instituto Paulista de Estudos Bioéticos e Jurídicos, IPEBJ.

julho 21, 2016

[LETRAS] LATIM, PRA QUE TE QUERO

latin

Estou iniciando, neste segundo semestre, o estudo da disciplina que está dentre as mais importantes do curso de Letras, o Latim. Voltarei a falar mais sobre as aulas na medida em que eu for assimilando o conteúdo. Enquanto isso, compartilho aqui o texto abaixo, retirado do blog Quando Tudo é Importante, que foi disponibilizado no ambiente virtual de boas vindas da disciplina Latim Genérico, na Plataforma Cederj.

 

DAD SQUARISI: LATIM, PRA QUE TE QUERO?

 Expulsaram o latim da escola há meio século. Não adiantou. Teimosa, a “linguinha” bate à nossa porta sem cerimônia. Na televisão, o ministro diz que é demissível ad nutum. O jornal anuncia que o presidente recebeu o título de doutor honoris causa. O advogado afirma que vai entrar com pedido de habeas corpus em favor do cliente.

 

Mais: a placa do restaurante ostenta o nome Carpe Diem. O professor pede: “Escreva assim, ipsis litteris”. O repórter considera sui generis a reação do candidato. O diplomata foi tratado como persona non grata. Dura lex, sed lex, consola o juiz.

 

Criaturas tão íntimas merecem tratamento respeitoso. A reverência impõe duas condições. Uma: grafá-las como manda a norma culta. A outra: dominar-lhes o significado. Vamos lá?

 

Ad nutum quer dizer à vontade. O empregado sem estabilidade pode ser demitido segundo o humor do patrão — a qualquer momento.

 

Honoris causa significa pela honra. Para ostentar o título de doutor, a maioria dos mortais tem de ralar. Mas pessoas ilustres podem chegar lá sem exame. Tornam-se doutores honoris causa.

 

 Habeas corpus é o nome da lei inglesa que garante a liberdade individual. Em português claro: que tenhas o corpo livre para te apresentares ao tribunal.

 

 Carpe Diem dá o recado: aproveita o dia de hoje. A vida é curta; a morte, certa.

 

 Ipsis litteris tem a acepção de textualmente — sem tirar nem pôr.

 

 Sui generis: ímpar, sem igual.

 

 Persona non grata: usada em linguagem diplomática para dizer que a pessoa não é bem-aceita por um governo estrangeiro. Pessoa que não é bem-vinda.

 

 Dura lex sed lex? Está na cara, não? É isso mesmo. A lei é dura, mas é lei.

 

 Reparou? As expressões latinas não têm acento nem hífen. Se aparecer um ou outro, elas perdem a originalidade. Entram, então, na vala comum dos compostos. Ganham hífen. Compare: via crucis e via-crúcis, habeas corpus e hábeas-corpus, in octavo e in-oitavo.

 

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