setembro 26, 2018

[RESENHA] EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA, DE MONTEIRO LOBATO

Sinopse: “Este livro conta a viagem que Pedrinho, Narizinho, Visconde, Quindim e Emília fazem até o País da Gramática. Lá eles aprendem a língua portuguesa de um jeito muito divertido, usando a imaginação e a criatividade. Desse modo, ficam sabendo sobre a origem e o significado das palavras e como escrevê-las corretamente, formando frases coerentes e coesas. Como o livro foi lançado pela primeira vez em 1934, muitas regras e conceitos gramaticais antigos foram atualizados e comentados.”

 

Há algumas semanas eu precisei fazer uma resenha de um livro paradidático como atividade valendo nota para o meu Estágio Supervisionado. Assim que tive ciência da proposta, logo pensei em Emília no país da gramática, de Monteiro Lobato. O livro já estava na minha estante há algum tempo, esperando ser lido mais uma vez, com atenção, para que eu pudesse falar um pouco sobre ele. O tom dessa resenha, obviamente, é um pouco mais formal do que normalmente eu escrevo por aqui, mas, ainda assim, sugiro o livro como leitura para crianças de todas as idades!

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Monteiro Lobato (1882-1948), com a publicação de Emília no país da gramática em 1934, foi pioneiro ao iniciar no Brasil um tipo de literatura que também ensina, hoje conhecida como publicação paradidática.

Procurando ter certa distância do engessamento dos livros didáticos, os livros paradidáticos ou complementares muitas vezes conseguem atingir com maior eficiência os objetivos dos livros de base. Com leveza, bom humor e linguagem um pouco mais acessível, os paradidáticos conseguem fixar conteúdos das mais diversas disciplinas na mente dos alunos.

O país da gramática visitado por Emília em 1934 já não é o mesmo em que vivemos no século XXI, no entanto, o livro ainda pode ser muito bem trabalhado em sala de aula, abordando, inclusive, temas não necessariamente ligados à análise sintática, às classes de palavras, dentre outros assuntos tratados na publicação.

A edição lançada pela editora Globo, pelo selo de publicações infantis Globinho (2009), é lindamente ilustrada por Osnei e Hector Gomez, e conta, ainda, com os comentários da professora de língua portuguesa Maria Tereza Rangel Arruda Campos. Aliado ao texto original, que funciona como um retrato histórico tanto dos aspectos da sintaxe da nossa língua, quanto de preceitos sociais alguns já ultrapassados , os comentários da professora trazem o texto de Lobato para o nosso tempo, exemplificando a evolução natural e também política da língua portuguesa.

Emília no país da gramática, portanto, apesar de à primeira vista parecer obsoleto, pode ser um fortíssimo aliado dos professores de língua portuguesa. Ao invés de negar ou tentar apagar o passado, como se tem tentado fazer com algumas obras de Monteiro Lobato, é necessário falar sobre ele, especialmente sobre o que já foi superado em suas obras, para afastar o risco de cometer os mesmos julgamentos de antes.

Tomando como exemplo o seguinte trecho do livro, o professor pode abrir uma discussão entre os alunos sobre variantes linguísticas e preconceito linguístico:

Emília encaminhou-se para o último cubículo, onde estava preso um pobre homem da roça, a fumar o seu pito.

E este pai da vida que aqui está de cócoras? — perguntou ela.

Este é o Provincianismo, que faz muita gente usar termos só conhecidos em certas partes do país, ou falar como só se fala em certos lugares. Quem diz NAVIU, MÉNINO, MECÊ, NHÔ etc. está cometendo Provincianismos.

Emília não achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltou-o. — Vá passear, Seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia. Foi você quem inventou o VOCÊ em vez de Tu e só isso quanto não vale? Estamos livres da complicação antiga do Tuturututu. Mas não se meta a exagerar, senão volta para cá outra vez, está ouvindo?”

Comentário da edição sobre o termo Provincianismo: “O provincianismo não é mais considerado um erro, mas uma variedade da língua chamada de variedade regional. A variedade regional falada pelo caipira é tão legítima quanto todas as outras existentes na língua.” (p. 114)

Mesmo no original, Emília, ou seja, Monteiro Lobato, reconhece a evolução da língua, embora o capítulo trate o “provincianismo” como “vício de linguagem”, classificação comum naquele tempo. Na época da publicação, não havia o diálogo sobre variantes linguísticas, mas hoje temos material suficiente para que o assunto seja amplamente discutido e divulgado, evitando chavões típicos do preconceito linguístico.

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Referências Bibliográficas

AMORIM, Carmelita Minelio da Silva. ROCHA, Lucia Helena Peyroton da. ABRAÇADO, Jussara. Quem é você para falar assim? Por um ensino da língua materna que considere as diferenças. Linguística IV. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj.

FRAZÃO, Dilva. Monteiro Lobato. Disponível em < https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/> Acesso em 23/08/2018.

LOBATO, Monteiro. Emília no país da gramática. Ilustrações de Osnei e Hector Gomez. São Paulo: Editora Globo, 2009.

RAFAEL, Marcelo. Os paradidáticos e a literatura que transforma. Disponível em <https://blog.saraiva.com.br/os-paradidaticos-e-a-literatura-que-tambem-ensina/> Acesso em 09/08/2018.

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“Emília no país da gramática”, de Monteiro Lobato, ilustrações de Osnei e Hector Gomez e comentários de Maria Tereza Rangel Arruda Campos, publicado pela editora Globo (2009).

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julho 16, 2018

[LETRAS] EU, ESTAGIÁRIA (PARTE II)

Minha escola querida, C. E. Rotary, em Itaperuna-RJ.

 

Uau! Foi exatamente essa a minha reação quando vi a quantidade de atividades que envolviam o Estágio Supervisionado II da Licenciatura em Letras da UFF/CEDERJ. Desta vez, além das atividades na escola, que envolveram observação e coparticipação, eu também precisei passar algumas horas frente ao computador selecionando e elaborando materiais que poderiam ser usados em sala de aula. Foi bastante coisa, mas depois de transcorrido o Estágio I eu já estava bem menos perdida em relação ao estágio como um todo.

 

Leia também: Eu, Estagiária (Parte I)

 

“Para o Estágio Supervisionado II foram realizadas atividades de observação em diferentes turmas do Ensino Médio, atividades de coparticipação como correção de atividades e redações, auxílio individual aos alunos, apresentação de materiais de apoio, além de atividades realizadas em casa. O estágio, neste semestre, teve muitas facetas e desafios. Felizmente, com todo o suporte do polo regional CEDERJ, pela tutora presencial Danielle Marreiros Valleriote; da escola, pela direção, professores e equipe pedagógica, com destaque para a professora regente Maria Joelma C. D. Pimentel; tudo ficou, se não fácil, pelo menos, menos difícil. O volume de trabalho nesta etapa foi maior e causou certo espanto no início do semestre. No entanto, passadas as avaliações e refletindo sobre os momentos de aprendizagem vividos no ambiente escolar, especialmente com os professores e com os alunos, percebemos e podemos reafirmar a importância dessa trajetória.” (Relatório final Estágio Supervisionado II)

 

Até que fosse possível ir à escola, algumas semanas  foram perdidas com a burocracia para a liberação do estágio. É um processo totalmente compreensível precisar da liberação da Regional de Ensino do Estado do Rio de Janeiro para poder fazer os trabalhos de campo, no entanto é inegável que os alunos precisam dispor — em todos os semestres de estágio, quatro ao todo — de tempo e paciência para liberação do seu estágio. Esse tempo perdido acaba atropelando um pouco as atividades de campo, tendo em vista que o prazo final para as atividades na escola permanece inalterado, independente dos atrasos com a documentação.

Depois da papelada inicial, passamos à papelada do estágio propriamente dito. No final até que foi bem bacana, desta vez percebi o estágio como algo mais relevante ao elaborar planos de aula e ter de pensar em atividades lúdicas para os alunos. Não posso deixar de pontuar o quanto foi assustador entrar pela primeira vez em sala de aula, ainda que na condição de estagiária. Fiquei quietinha no meu canto até ter coragem para conversar com os alunos. Algum tempo depois, no entanto, já estava recomendando leituras e dando dicas de redação, conversando sobre o livro didático que eles usam ou outros assuntos do dia. Foi um susto que logo se transformou em prazer.

 

Eu e o meu projeto de atividade complementar “varal de poesias Manoel de Barros”. Colégio Estadual Rotary, 2018.

 

“Neste sentido, é gratificante chegar ao final de mais um semestre de estágio acumulando uma imensa bagagem de aprendizado e percebendo que as atividades contribuíram verdadeiramente para a formação docente. Obviamente, é público e notório que as disciplinas de estágio — como todas as outras — são pensadas e planejadas com esse objetivo, no entanto, não é em todo processo que conseguimos ter essa sensação de acréscimo, de engrandecimento.

As dificuldades, que felizmente não foram muitas, ficaram restritas ao campo burocrático, pela demora em reunir a documentação para liberação do estágio na regional de Ensino, e alguns obstáculos para cumprir as atividades na escola, por motivos profissionais, sobretudo.

Mattos e Santos (2018) falam sobre um possível motivo para essa “dificuldade burocrática” encontrada pelos alunos EAD. Segundo as autoras, a modalidade a distância ainda não teria um modelo próprio de estágio. Ainda vivemos uma cultura “presencialista” e os estágios em EAD acabam por adaptar o modelo presencial, inclusive suas deficiências.

Entendendo a necessidade de uma forma de avaliação que seja condizente com o curso e com a instituição de ensino que o oferta, no entanto é necessária também uma reflexão acerca dos trabalhos solicitados e o público alvo da modalidade EAD. Longe de sugerir um modelo abrandado, é imprescindível que se pense, pelo menos, em um modelo mais flexível.

Apesar de tudo, vejo o Estágio Supervisionado II de forma bastante positiva. Com o apoio da tutora presencial e da professora regente, além dos colegas, alunos e comunidade escolar, o semestre foi bem produtivo e as experiências, boas ou nem tanto, contribuirão para as etapas que estão por vir.” (Relatório Final Estágio Supervisionado II)

 

Apresentação de proposta de material didático “dinâmica telefone sem fio” (Tá vendo a mão desfocada? Eu estava tremendo de nervoso!).

 

Tenho certeza de que daqui a alguns dias vou estar reclamando da papelada do Estágio III, pois as férias já foram pelo ralo. No entanto, agora que começo a ver o diploma no fim do túnel, talvez as coisas fiquem um pouco mais fáceis. Dois já foram, agora só faltam mais dois. Até lá!

 

 

Referência Bibliográfica do excerto do relatório final sobre estágio em EAD:

MATTOS, Layla Julia Gomes; SANTOS, Silvana Claudia dos. Os desafios do estágio supervisionado em um curso de licenciatura a distância. Rev. EaD em Foco, 2018, 8 (1): e643. doi: http://dx.doi.org/10.18264/eadf.v8i1.643.

 

junho 07, 2018

[LANÇAMENTO] POESIA NA SALA DE AULA, DE HÉLDER PINHEIRO

Sinopse: Vale a pena trabalhar poesia em sala de aula? Qual a função social da poesia?
A resposta a essas duas questões poderá abrir nossos olhos para o que estamos perdendo ao marginalizar a poesia no cotidiano escolar. Não se pode abandoná-la só porque a leitura do texto poético tem peculiaridades e carece de mais cuidados do que o texto em prosa.
Este livro mantém, ao mesmo tempo, um caráter de relato de vivências e de sugestões de abordagem do poema no contexto escolar. Não se trata de um livro didático, tampouco de um livro teórico, embora por trás de muitas práticas e sugestões haja uma base de leituras teóricas tanto do universo da poesia quanto das metodologias e de concepções pedagógicas.
Aqui, cada capítulo enfrenta problemas específicos, com o autor buscando constantemente ocupar um entrelugar bastante significativo, sobretudo para instigar o leitor-professor a realizar suas próprias experiências sem seguir um roteiro prévio, como ocorre em muitas obras que trazem sequências didáticas prontas.
Além de refletir sobre a função social da poesia e sobre as condições para melhor efetivar o encontro com a poesia no espaço escolar, Poesia na sala de aula amplia sugestões e experiências, bem como indica dezenas de antologias e livros de poemas.
Certo é que todo leitor vai em busca de seu caminho, e eles são diversos. Um poema ouvido ou lido na escola, um livro visto de relance, uma antologia, a audição de um link de internet, tudo pode servir de estímulo para a descoberta da poesia. Mas não basta descobrir, é preciso dar continuidade à experiência de leitura.”

 

Os deuses da poesia ouviram as minhas preces, ou a minha tentativa um pouquinho desastrada de introduzir a poesia de Manoel de Barros no projeto anti-bullying da escola onde estou fazendo estágio. Lembro-me de falar com os alunos “poesia cura tudo. Até bullying”. E eles ficaram me olhando como se eu fosse um pouco lunática (acertaram!) e eu olhei de volta morrendo de vontade de saber trabalhar melhor esse tema, porque é uma coisa em que eu realmente acredito. Pouco tempo depois do meu período de estágio na escola, a editora Parábola lançou o livro Poesia na Sala de Aula, de Hélder Pinheiro. E a minha ideia, que tem ainda mais um ano para ser desenvolvida (estágios 3 e 4), vai poder ser, de fato, bem embasada.

 

Neste link você pode saber mais informações sobre o livro e ler um trechinho de degustação.

 

SOBRE O AUTOR: José Hélder Pinheiro Alves é graduado em Letras pelas Faculdades Integradas de Uberaba (1983), mestre em Letras (Literatura brasileira) pela Universidade de São Paulo (1992), doutor em Letras (Literatura brasileira) pela Universidade de São Paulo (2000) e pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (2004). Atualmente é professor titular em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Campina Grande, PB. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura e ensino, poesia, literatura infantil e literatura de cordel. É membro do GT Literatura e ensino da ANPOLL.

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