fevereiro 19, 2019

[LANÇAMENTO] A FALÊNCIA, DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA, EM NOVA EDIÇÃO PELA PENGUIN-COMPANHIA

Sinopse: “Leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp, A falência se consolida como um dos mais importantes romances do modernismo brasileiro. Ícone do modernismo brasileiro, Júlia Lopes de Almeida consegue oferecer um notável panorama das repercussões do boom do café no final do século XIX na formação da nascente burguesia urbana, e também retratar, com impecável maestria, os meandros de uma sociedade machista e hipócrita, em que subsistem as relações escravocratas e aprofundam-se as desigualdades sociais. Rio de Janeiro, 1891. Francisco Teodoro, um bem-sucedido e ambicioso comerciante de café, conhece Camila. Em busca de um casamento que traga estabilidade, ele não vê melhor opção que desposar tal jovem, bela e de boa e humilde família. Os filhos Mário, Rachel, Lia e Ruth crescem a olhos vistos, enquanto a empresa do pai continua a prosperar. Nem só de flores, contudo, vivem os Teodoro. Francisco, cada vez mais ganancioso, vê outros comerciantes se arriscando no trato com o café e decide fazer o mesmo. Afinal, é preciso aumentar o patrimônio familiar que Mário insiste em dilapidar. Camila, alheia aos movimentos econômicos e cada vez mais absorta em sua relação com o médico Gervásio, nada opina. Em um revés do destino, a fortuna da família acaba. Francisco Teodoro se suicida e todos, mãe e filhos, precisam aprender a lidar com a nova situação social.”

 

Quanto mais Júlia Lopes de Almeida, melhor! Já está em pré-venda o livro A Falência, em edição da Penguin-Companhia, com previsão de lançamento em 14 de março de 2019.

Júlia Lopes de Almeida foi a primeira injustiçada da Academia Brasileira de Letras, pois participou do grupo de intelectuais que criou a ABL, tendo ficado de fora por ser mulher, embora fosse uma escritora de bastante expressão na época. É muito bom ver escritoras que ficaram esquecidas pelo cânone literário nacional por motivos alheios a sua competência e capacidade de escrita (leia-se machismo) ressurgirem no cenário literário.

 

Veja outros textos da autora já publicados aqui no blog:

 

dezembro 17, 2018

[DIÁRIO] FOLHAS DE UMA VELHA CARTEIRA: O LIVRO DAS DONAS E DONZELAS, DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

 

Não se deixe enganar pelo título: Livro das donas e donzelas (1906), de Júlia Lopes de Almeida, é um apanhado de textos da autora que falam de temas variados, alguns deles ligados ao feminismo. Estou cada vez mais apaixonada pela inteligência e intelectualidade da autora, que foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, no entanto preterida a ocupar uma das cadeiras simplesmente por ser mulher. Compartilho abaixo um dos textos que mais gostei do Livro das donas e donzelas. O melhor de tudo: você pode ler o livro na íntegra clicando aqui ou baixando o e-book (também gratuito) na Amazon. 

 

“Vi em uma revista francesa o retrato de uma velhinha que aprendeu a ler depois dos setenta anos. Olhando-lhe para a cabecinha e para o rostinho todo sulcado de rugas, tive vontade de beijá-la.

A história dela: Todas as manhãs costurava a septuagenária junto à janela da sua choupana, à sombra de um castanheiro que lhe dava perfumes na primavera, sombras no verão, frutos no outono e ouriços para o foguinho do inverno.

Que mais seria preciso para a vida? O alfabeto não foi feito por Deus; e para amá-lo e servi-lo bastaria adorar a natureza. Entretanto eis que depois de longos anos lhe cortam a frente da casa por um caminho novo, atalho para a vila, por onde o rapazio de uma aldeia próxima passava para a escola.

A doce velhinha, ouvindo todos os dias a tagarelice das crianças levantou os olhos da costura e voltou-os para o horizonte infinito.

Saber ler seria tão útil, que os pobres pais, cavadores sem vintém, se abalançassem a mandar os filhos todos os dias à escola, com prejuízo do seu trabalho?

Alguns desses pequenos já sabiam lidar nos campos, e tinham força para mover a enxada ou guiar os bois… Com que duros sacrifícios a mãe lhes compraria os sapatos e as roupas de ir ao mestre!

Esse exemplo fê-la pensar que vivera toda a sua longa vida de setenta anos, como um animal inferior, em que o pensamento mal animava a matéria. A vida teria outros intuitos mais elevados que os de servir a carne com o alimento e o agasalho?

Dos seus dedos encarquilhados e trêmulos a costura caiu, e no dia seguinte ela se incorporou ao bando das crianças, a caminho da escola.

Foi uma alegria. Os pequenos não riram. Emprestou-lhe, um, uma cartilha; outro ofereceu-lhe uma tabuada; e todos se sentiram muito honrados com aquela condiscípula de rosto franzido e cabelo nevado.

No fim de três meses de uma aplicação teimosa, a velha aldeã, escrevia a sua primeira carta à neta mais velha, que vivia numa colônia francesa da África. Nas suas garatujas aconselhava ela a moça a ir à escola, para aprender a mandar-lhe notícias com a sua própria letra.

As cartas escritas pelos outros não são inteiramente nossas; nas letras como nas palavras vai alguma coisa do ente amado e ausente…”

novembro 29, 2018

[RESENHA] DE UM GRANDE AMOR E DE UMA PERDIÇÃO MAIOR AINDA, DE LETÍCIA WIERZCHOWSKI

Sinopse: “De um grande amor e de uma perdição maior ainda apresenta uma inovação de Leticia Wierzchowiski diferente do que os leitores estão acostumados. A trama, protagonizada por um malandro tipicamente brasileiro, lembra muito mais o universo de Jorge Amado do que o dos heróis de guerra das obras anteriores. Com muito humor, a autora conta as incríveis aventuras amorosas de Bibico Nunes, um mulato de inesquecíveis olhos azuis que coleciona mulheres por onde passa, até o dia em que se apaixona por Cecília Antônia de Alfierez, a rica viúva de um deputado. Cecília, percebendo que está prestes a cair num despenhadeiro de amores, cria um sistema de regras para sua paixão: um calendário com dias e horas para amar. Como na mitologia grega, quando as deusas do Olimpo disputam o belo Páris, filho do rei de Troia, Bibico Nunes é ambicionado não apenas pelas mulheres de carne e osso, mas também pelas deusas de areia, vento e mar, senhoras do Candomblé, Iansã, Oxum, Obá e Iemanjá. De um grande amor e de uma perdição maior ainda traz sexo, pimenta, magia, cenários cintilantes e intrigas amorosas.”

 

Há alguns anos, quando eu era uma auxiliar administrativa recém-contratada, precisei viajar até a cidade de Manhuaçu, pois havia uma palestra do CRO-MG para acontecer naquela cidade, organizada pela regional a qual eu faço parte, Muriaé. Uma das minhas atribuições na época era prestar assistência na organização desses eventos. Nessa viagem, que foi a primeira que eu fiz a trabalho (sem contar o treinamento em Belo Horizonte), eu encontrei o livro De um grande amor e de uma perdição maior ainda, da Letícia Wierzchowski. De imediato a capa de conquistou e eu, que estava fazendo uma baldeação no distrito de Realeza, aguardando um ônibus para o meu destino, comprei o livro e fiquei com ele nas mãos até chegar ao hotel.

Não tive muito tempo para ler, pois não conhecia a cidade e estava a trabalho. Dei uma olhada nas primeiras páginas, mas tive meu encontro com Bibico Nunes só à noite. Fui fisgada pela leitura e, na manhã seguinte, quando eu estava novamente em Realeza, esperando um ônibus para Muriaé, já havia acabado de ler. Há pouco tempo trabalhando no Conselho, eu tinha o hábito de carregar um caderno com várias anotações sobre procedimentos burocráticos diversos e foi nesse caderno que eu fiz um esboço de resenha, porque terminada a leitura, eu precisava colocar algumas palavras para fora, precisava recomendar o livro para alguém. Mas quem?

De um grande amor e de uma perdição maior ainda foi o primeiro livro que me fez ter vontade de ter um blog literário. Nesta última semana eu reli o romance de Letícia Wierzchowski e não só me apaixonei novamente por seu protagonista, mas também por esse ofício irresistível de indicar livros para pessoas que, na maioria dos casos, eu nem conheço (mas considero pacas, como dizíamos no finado Orkut)!

A antiga resenha, das primeiras que eu postei no Skoob, você pode ler abaixo:

“De um grande amor e de uma perdição maior ainda” é um romance de Letícia Wierzchowski, autora do aclamado “A casa das sete mulheres”, que retrata o amor e a paixão que o mulato Bibico Nunes tem pelas mulheres.

É uma história para quem, pelo menos, respeita a magia dos orixás. Se você se sente incomodado (a) com esse tipo de assunto, talvez possa não gostar tanto do livro, pois paralelamente às confusões e amores de Bibico Nunes, vemos um pouco sobre os orixás e sua disputa pelo mulato.

Bibico Nunes, como todo malandro, seduz até quem lê a sua história. Mulato dos olhos azuis, de cabelo europeu, asseado no terno branco e na água de colônia, é a perdição das mulheres de Rio Partido. Apaixona-se pela viúva de um deputado, engravida (de gêmeos) a filha de um general, e também a prima dela, além de despertar a paixão de Iemanjá.

Letícia Wierzchowski nos presenteia com a vida, os amores e as confusões do malandro Bibico, numa história envolvente e muito gostosa de ler. Recomendo!

 

 

Veja bem: o que eu disse na resenha não é (tanto) spoiler: o romance de Wierzchowski não é linear, tipo início, meio e fim. Ela usa muito o recurso do flashback, então desde o começo já sabemos que a história não trata de um romance tradicional porque além das mulheres, Bibico Nunes, o irresistível malando, é cobiçado desde o nascimento pelos orixás. A escrita da autora é de um lirismo belíssimo, encantará até mesmo quem não tem muito conhecimento sobre religiões de matriz africana, como o Candomblé. Além disso, a forma como foi estruturado o romance não faz com que a gente desista da história. Mesmo sabendo o que acontece, queremos saber o porquê e como. Nisso a autora foi perfeita!

O romance é ambientado no Brasil de 1965 e, embora não se aprofunde na questão da ditadura, temos algumas pinceladas críticas sobre a política da época (Bibico se envolve com a viúva de um deputado e com a filha de um general — torturador — do exército). Esse é um detalhe que eu percebi apenas agora, mais calejada nesse ofício de ler e escrever sobre as minhas leituras e, claro, por ter lido novamente a obra.

 

“Bibico Nunes era um homem do mundo, não de uma ou outra mulher. Querê-lo só para si era como querer engarrafar o mar.” (p. 117)

 

Essa pode não ser uma leitura fácil ou agradável para quem segue religiões que não acreditam em orixás. No entanto, mais uma vez digo que recomendo essa leitura! Para quem não é do axé, creio que será mais simples se você encarar os personagens simplesmente como literatura. Sem dúvidas, a leitura é uma boa forma de sairmos da zona de conforto e de se abrir a culturas diferentes da nossa.

 

 

Título: De um grande amor e de uma perdição maior ainda

Autora: Letícia Wierzchowski

Editora: Record

Páginas: 266

Compre na Amazon: De um grande amor e de uma perdição maior ainda.

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