novembro 23, 2016

[RESENHA] MOBILIDADE SOCIAL EM ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN, E SENHORA, DE JOSÉ DE ALENCAR

Sinopse: “Mobilidade Social em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e Senhora, de José de Alencar” é o resultado de minha pesquisa de mestrado, defendido na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em abril de 2015. O desafio deste trabalho é aproximar autores tão distintos em seus estilos de escrita, porém, perfeitamente aproximáveis quanto às similaridades que se encontram nas duas obras em questão, como as abordagens a respeito da condição da mulher na sociedade patriarcal, o casamento entre pessoas de classes sociais distintas, o que tornava possível a mobilidade social de um status de pobreza à riqueza. Outro aspecto relevante na comparação dos livros, diz respeito aos casais protagonistas. Darcy e Elizabeth Bennet, na trama de Austen, além de Fernando Seixas e Aurélia Camargo, no romance de Alencar, que nos convidam a entrar em um universo de desencontros e dissabores até o desenlace do final feliz.”

 

Mobilidade Social em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e Senhora, de José de Alencar, foi escrito por Márcio Azevedo e publicado pela editora Livrus neste ano. O texto é fruto da pesquisa de mestrado do autor, defendida em 2015 na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Desde que eu soube do lançamento deste livro, me peguei pensando nas possíveis semelhanças entre os romances e seus autores, tão distintos: Jane Austen, da Inglaterra, tendo seu livro publicado originalmente em 1813 e, José de Alencar, brasileiro, tendo publicado Senhora em 1875. Márcio Azevedo nos mostra que há sim, muitas semelhanças além do romance conturbado entre os protagonistas dos dois livros.

Quem não está inserido neste meio acadêmico pode desconfiar de uma indicação minha, sendo eu uma estudante (apaixonada) de Letras, para a leitura de um livro de Literatura Comparada. É natural que exista o medo de que seja uma leitura densa, maçante. Felizmente, inclusive para mim, o livro de Márcio Azevedo é uma ótima leitura, leve e precisa, com todo o embasamento teórico apresentado de forma simples e pertinente. É uma leitura rápida por seu conteúdo interessante e, certamente, será bem avaliada por todos os seus leitores, sobretudo os fãs de Austen e Alencar.

O livro foi dividido em três capítulos: Contexto histórico e apresentação dos autores; Análise comparativa: contrastes e semelhanças em Orgulho e Preconceito e Senhora e, Literatura e Cinema. Neste último, o autor destrincha a adaptação de Orgulho e Preconceito, produzida em 2005, com direção de Joe Wright e também a adaptação de Senhora, do diretor e roteirista Geraldo Vietri, do ano de 1976. Aqui, além de comparações sobre livro e filme, Azevedo fala sobre limitações e liberdades criativas em relação às histórias contadas através do cinema. Nós leitores muitas vezes criticamos os roteiristas e diretores por não transcreverem o livro integralmente para as telas, quando na realidade as adaptações são releituras e podem seguir caminhos diferentes para contar a história.

 

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Foi muito interessante descobrir, em cada página, detalhes que uma leitura mais superficial dos livros em questão não nos permite perceber. Já li Orgulho e Preconceito algumas vezes; Senhora, preciso reler, e agora terei o cuidado de observar um ponto importante sobre o personagem Seixas, muito bem fundamentado pelo autor que eu, a contragosto, percebo ter sua verdade: Fernando Seixas seria, na visão de Azevedo, o verdadeiro protagonista do livro de Alencar.

“Fernando Seixas é o homem por quem Aurélia se apaixona. Apesar de o romance se chamar Senhora e ter grande parte dos estudos acadêmicos voltados para a imagem feminina, supostamente tendo Aurélia como sua protagonista, Fernando é o desencadeador de diversas ações, quando precisa se redimir moralmente e descobrir o verdadeiro amor. Não é Aurélia que sofre todo esse processo de mudança durante o romance todo. Em Orgulho e Preconceito, o foco narrativo estabelece Elizabeth Bennet como epicentro das ações, portanto não há dúvidas de que ela é a protagonista, tendo em vista que é a responsável por promover várias mudanças no Sr. Darcy.” (p. 103)

 

Para adquirir um exemplar do livro, basta entrar em contato com o autor, via mensagem direta, em sua página no facebook. Garanto, é leitura mais que recomendada!

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Sobre o autor: Márcio Azevedo da Silva nasceu em 21 de novembro de 1980, em Parintins, Amazonas. Graduado em Letras, Língua e Literatura de Língua Portuguesa (UEA-2005), Letras – Língua e Literatura de Língua Inglesa (UFAM-2012), Especialização em Metodologias de Língua Inglesa (UEA-2007), Mestrado em Letras, com ênfase em estudos literários (UFAM-2015).

Compositor de oito toadas publicadas na história centenária do Boi-bumbá Garantido. Publicou os contos Desromantizando (2013), Predestinação (2013) e Prisão sem Muro (2015).

É professor de Língua Inglesa do quadro efetivo da Secretaria de Estado de Educação do Amazonas (Seduc). (orelha do livro)

 

 

Título: Mobilidade Social em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e Senhora, de José de Alencar
Autor: Márcio Azevedo
Editora: Livrus
Páginas: 168

 

Leia também: Leituras de Jane Austen no Século XXI.

 

Conheça o filme Senhora, de 1976:

novembro 11, 2016

[RESENHA] O DIÁRIO DE MR. DARCY, DE AMANDA GRANGE

Sinopse: “Best-seller na Inglaterra e na lista do New York Times, O Diário de Mr. Darcy (Darcy’s diary), de autoria da inglesa Amanda Grange, conta a história do mesmo casal de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, mas do ponto de vista do Mr. Darcy, e não de Elizabeth. Um dos romances clássicos mais famosos do mundo que conta o drama de um cavalheiro que luta para não sucumbir ao amor. Uma imaginação hábil e graciosa do ponto de vista de um dos heróis mais amados da mais duradoura história de amor de todos os tempos.”

 

O Diário de Mr. Darcy foi escrito por Amanda Grange e publicado no Brasil pela Pedrazul Editora. Neste romance, somos transportados de volta ao mundo de Orgulho e Preconceito, e conhecemos um pouco mais de um dos heróis mais amados da literatura mundial, Mr. Darcy.

Quando eu soube que O Diário ia ser publicado no Brasil, minha primeira reação foi a de não querer ler de forma alguma. Muito desta antipatia inicial foi motivada por uma antiga e inacabada leitura do livro Cinquenta tons do Sr. Darcy. Não estou comparando, nem poderia, mas disse a mim mesma que nunca mais leria nenhuma história paralela, inspirada, ou que tivesse qualquer relação com o meu querido Orgulho e Preconceito. Com a proximidade da pré-venda, li muitos comentários elogiando o livro e me interessei. Li  As Sombras de Longbourn e adorei. Conheci outras boas adaptações do clássico e fiquei encantada… Meu preconceito, então, foi superado e comprei o livro. Não me arrependi e a leitura superou todas as minhas expectativas! O Diário de Mr. Darcy é ótimo e quem ama Orgulho e Preconceito pode e deve ler, sem medo de ser feliz!

Uma ressalva que faço é que quem não leu o livro de Jane Austen, leia-o antes do Diário. Aqui, temos a visão do Mr. Darcy sobre a história, assim como seus sentimentos e desejos. Justamente por ter sido escrito em forma de diário, o livro retoma muitas situações e diálogos de Orgulho e Preconceito, mas também exclui bastante coisa. Afinal, só escrevemos em nosso diário aquilo que mais nos interessa, o que é mais marcante em nossas vidas, não é verdade?

 

 

O primeiro relato de Mr. Darcy em seu diário é sobre o que aconteceu entre Wickham e Georgiana. Foi bem interessante ler algumas partes que não foram contempladas no livro de Austen, como detalhes do casamento entre Wickham e Lydia, por exemplo. Não tem como não rir das observações de Mr. Darcy quando este conhece a sociedade de Hertfordshire. Do ponto de vista dele, realmente, muitas pessoas, creio eu, agiriam da forma como ele agiu. De repente, com um pouco menos de antipatia, mas isso depende da personalidade de cada um.

Quando conhece Elizabeth, nosso herói passa a escrever mais e com mais vontade em seu diário. A personalidade dela o encanta, mas, como sabemos, muita coisa acontecerá até que o orgulho e o preconceito sejam superados. Mesmo sabendo da história, fiquei na expectativa dos acontecimentos; o que me fez ler o livro em tempo recorde! Mesmo equivocado em algumas situações, é impossível não se apaixonar por Mr. Darcy novamente com a leitura deste livro.

A única coisa que não sai da minha cabeça enquanto escrevo é o olhar que vi nos olhos de Miss Elizabeth Bennet quando eu disse que ela não era bonita o suficiente para me despertar o desejo de dançar. Se não fosse experiente, eu o teria achado irônico. Sinto-me um pouco desconfortável por ela ter me ouvido, não tive a intenção de que as minhas palavras chegassem aos seus ouvidos. Mas seria tolo em me preocupar com os sentimentos dela, seu temperamento não é delicado, e se puxar à sua mãe, não se sentirá magoada.” (p. 28)

 

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Muitas mulheres daquela época, especialmente no círculo social ao qual Mr. Darcy pertencia, eram caçadoras de fortuna e prestígio. Eram muito prendadas em bordado, pintura, mas não tinham personalidade. Eram ensinadas a viver de acordo com o que fosse adequado para um marido, qualquer que fosse. Mr. Darcy fica, de certa forma, surpreso com o jeito de Elizabeth. Ela era uma mulher inteligente, de espírito livre e, mesmo negando-se a admitir, ele sente-se atraído por sua mente, além dos seus belos olhos, é claro.

Conversar com Elizabeth é diferente de conversar com qualquer outra pessoa. Não é uma atividade comum. Pelo contrário, é um exercício estimulante para a mente.” (p. 42)

“Ela é diferente de qualquer mulher que eu tenha conhecido. Ela não é bonita, mas ainda assim acho que preferiria olhar para o rosto dela a olhar para qualquer outro. Ela não é graciosa, mas ainda assim seus modos me agradam mais do que qualquer outro que eu tenha conhecido. Ela não é culta, mas ainda assim ela tem uma inteligência  que faz dela uma oradora vigorosa, e que deixa suas conversas estimulantes. Havia muito tempo que eu não esgrimia com as palavras, na verdade, não estou certo se havia feito isso alguma vez antes… E ainda assim com ela estou frequentemente engajado em um duelo de sagacidade.”

“Seria ela uma esfinge enviada para me torturar? Deve ser, pois os meus pensamentos não costumam ser tão poéticos.” (p. 46)

 

Prepare-se para odiar (ainda mais) Caroline Bingley e também para uma cena inusitada em Pemberley (imagine Mrs. Bennet e Lady Catherine de Bourgh juntas)! Sobretudo, prepare-se para um Mr. Darcy como você nunca viu.

Chegamos ao topo da colina.

‘Bom, e o que você acha da vista?’, Elizabeth perguntou para mim.

Eu me virei para olhar para ela.

‘Gosto bastante’, eu disse.

Ela estava tão bonita que eu me rendi ao desejo de beijá-la. Ela ficou surpresa a princípio, mas então correspondeu carinhosamente, e eu soube que o nosso casamento seria feliz em todos os aspectos.” (p. 187)

 

Agora a vontade de ler todos os outros Diários que a Amanda Grange publicou é enorme! Quem sabe o sucesso desta primeira publicação em português motive a Pedrazul Editora a trazer também os outros livros da autora inspirados nos heróis dos romances de Jane Austen? Vamos ficar na torcida!

 

 

Título: O Diário de Mr. Darcy
Autora: Amanda Grange
Tradução: Andrea Carvalho
Editora: Pedrazul
Páginas: 220

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novembro 07, 2016

[RESENHA] ORGULHO E PRECONCEITO, BBC 1995

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Orgulho e Preconceito é a adaptação do romance homônimo de Jane Austen, em série de seis episódios, produzida pela BBC no ano de 1995. Jennifer Ehle e Colin Firth protagonizam esta que é, na opinião de muitos, a melhor adaptação em vídeo do clássico de Jane Austen.

Nós, fãs de Jane Austen, sobretudo de seu romance mais famoso, fomos agraciados com uma produtora e um roteirista que encararam o desafio de adaptar Orgulho e Preconceito de forma que ficasse o mais fiel possível ao livro. Definitivamente, o resultado foi um trabalho de fã para fã. Andrew Davies, o roteirista, quis passar toda a energia do livro para a adaptação, desde a primeira cena. Por esse motivo escolheu começar com uma sequência de Darcy e Bingley chegando à Netherfield para vistoriar a propriedade. Ao longe, Elisabeth Bennet observa tudo, durante uma de suas caminhadas.

Tão logo o jovem (e solteiro) Mr. Bingley resolve alugar Netherfield, somos apresentados à família Bennet; especialmente aos poor nerves de Mrs. Bennet, que anseia, mais do que qualquer outra coisa na vida, casar suas cinco filhas (de preferência com homens de boa fortuna).

Mr. e Mrs. Bennet nessa adaptação são um capítulo a parte. Alison Steadman conseguiu dosar a histeria e a comicidade no ponto certo, assim como Benjamin Whitrow foi o Mr. Bennet mais irônico e carismático que já vi. Ver os dois em ação se assemelha a uma leitura em voz alta do romance; nem mais nem menos, eles são o casal Bennet na medida certa.

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Elisabeth Bennet desta adaptação também é bastante fiel ao livro. É irônica, inteligente e simpática. Uma comparação que sempre faço entre uma das cenas da série de 1995 e o filme de 2005 é que quando Miss Elisabeth ouve Mr. Darcy dizendo que ela seria apenas tolerável, mas não o bastante para tentá-lo, a Elisabeth de 1995 ri da situação (e do autor da frase), enquanto a de 2005 fica sentida. Obviamente, é difícil e um pouco injusto comparar uma adaptação feita em seis episódios e um filme, mas ainda assim, para quem é apegado ao que está impresso, uma adaptação fiel ao livro faz toda a diferença.

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Outro personagem de bastante destaque é Mr. Collins. Desde a primeira leitura o considero adoravelmente divertido e a série confirma tal opinião. Sua petulância e ousadia em suas conquistas são o que o faz mais divertido. Ele poderia muito bem ter se casado com Mary, sua igual em personalidade, mas vai logo se interessando por Jane e depois por Elisabeth. Apesar de um suposto carisma, sabemos que ele seria um par detestável para nossa querida Lizzie, mesmo que isso fosse por sua segurança financeira. O mesmo não podemos dizer de Charlote Lucas, que o aceitou prontamente para se livrar da pecha de solteirona.

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Lady Catherine de Bourgh também é um espetáculo a parte nesta adaptação. Chata, inconveniente, amarga e… divertida! Ela foi retratada com toda a comicidade e delicadeza possíveis. Outra “vilã” de destaque é Caroline Bingley. Elegante e refinada, mas sem um pingo de personalidade, faz de tudo para chamar a atenção de Mr. Darcy, o que rende boas risadas aos telespectadores.

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Orgulho e Preconceito da BBC está completando vinte anos em 2015 e tão cedo creio que precisaremos de outra adaptação com a proposta de ser fiel ao livro. É evidente que a obra de Jane Austen é inesgotável em fonte de inspiração, haja vista a grande quantidade de adaptações, spin-offs, sátiras etc que são lançadas todos os anos. Esta adaptação, contudo, é aquela que podemos mostrar para um amigo (tendo um pouco mais de tempo disponível) que deseja conhecer o clássico best-seller de Jane Austen, sem ler o livro.

O Mr. Darcy de Collin Firth ficou para o final porque até agora faltam palavras para descrevê-lo. Embora Matthew Macfadyen tenha feito nossos olhos grudarem na tela com sua interpretação no filme de 2005, Collin Firth ainda é o Darcy mais próximo do livro, com seu modo rude, embora seja um homem supostamente educadíssimo. Costumo brincar dizendo que ele é tão Darcy que foi Darcy em outros dois filmes (e será em um terceiro também, pois Bridget Jones 3 vem aí!). A cena do lago, presente no episódio 4 e que, embora não esteja no livro é totalmente aceitável, foi apontada pelo The Guardian como “um dos mais inesquecíveis momentos da história da TV britânica”. Sem levar em consideração a sensualidade de um Collin Firth todo desgrenhado e com a camisa molhada, a cena também é bonita por mostrar um Darcy vulnerável, quase doente de amor. Por esta cena e por toda a série, Mr. Firth sempre ocupará um lugar especial no cânone das adaptações das obras de Jane Austen.

 

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Se você ainda não assistiu, assista o quanto antes! É uma adaptação clássica de um clássico da literatura mundial. E é como dizem, um clássico não é um clássico à toa.

 

Elenco de destaque: Benjamin Whitrow e Alison Steadman como Mr. e Mrs. Bennet; Crispin Bonham-Carter, como Mr. Bingley; Anna Chancellor, como Caroline Bingley; David Bamber, como Mr. Collins; Barbara Leigh-Hunt, como Lady Catherine de Bourgh.

 

 

REFERÊNCIAS:

https://en.wikipedia.org/wiki/Pride_and_Prejudice_(1995_TV_series)#Cast

Making-Of  presente no DVD A Obra Completa de Jane Austen – LogOn DVD

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

 

Ouça a trilha sonora da série abaixo:

 

 

 

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