outubro 29, 2019

[RESENHA] TEMPO DE GRAÇA, TEMPO DE DOR, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

Sinopse: Nascida na miséria e órfã de mãe, Das Dores trabalha na cozinha de um grande engenho de açúcar em Pernambuco, nos anos 1930. Um dia, a chegada de uma menina muda tudo. Graça, a filha mimada do novo senhor da fazenda, é esperta, bem alimentada, bonita – e encantadoramente malcomportada.

Vindas de mundos tão diferentes, elas constroem uma amizade que nasce das travessuras em dupla, floresce em seu amor pela música e marca para sempre sua vida e seu destino.

Quando veem o que o futuro no engenho lhes reserva, elas fogem para o Rio de Janeiro em busca de uma carreira como divas do rádio. Mas só uma está destinada a se tornar uma estrela. À outra restam os bastidores, longe das atenções e do reconhecimento do público.

Começando no Nordeste e passando pelas ruas da Lapa, no Rio de Janeiro, e pela Los Angeles da Era de Ouro hollywoodiana, Tempo de Graça, Tempo de Dor é o comovente retrato de uma amizade inabalável, marcada pelo orgulho, pela rivalidade e pelo ressentimento.

Escrito em forma de memórias, conta as alegrias e o lado sombrio do relacionamento de duas mulheres que encontram na música, e às vezes uma na outra, o sentido da própria existência.”

 

Leia também: Entre Irmãs, de Frances de Pontes Peebles.

 

Qual dessas personagens eu sou? Qual delas eu deveria ser? Não sei bem explicar o porquê, mas esses foram alguns dos questionamentos que invadiram a minha cabeça ao terminar a leitura de Tempo de Graça, Tempo de Dor, de Frances de Pontes Peebles, publicado recentemente pela Arqueiro.

Talvez seja uma necessidade minha de identificação com algum personagem quando estou lendo ficção. Talvez seja inevitável eu me colocar na pele do narrador, com exceção, que eu me lembre agora, de Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que o meu objeto de maior afeição é Capitu — ou a imagem desta mulher idealizada por Bentinho.

Em geral, as personagens que ocupam o segundo plano em sua trajetória são especialmente encantadoras para mim. Na Série Napolitana, de Elena Ferrante, apaixonei-me perdidamente por Lenu. E em Tempo de Graça, Tempo de Dor, não teve jeito: fiquei de joelhos por Das Dores, que personagem incrível!

Tempo de Graça, Tempo de Dor é uma verdadeira viagem — geográfica, histórica, emocional… Das dores é nossa condutora, desde sua vida difícil como órfã crescida em um engenho de açúcar nos anos 1920, até a realização do ambicioso sonho da emancipação social e econômica através da música.

E ela não está sozinha neste desejo de liberdade. Graça, filha dos novos patrões que assumiram o engenho após a crise de 1929, é alguém por quem Das Dores logo nutre uma forte dependência emocional (não sei se posso afirmar que o contrário também procede). É uma amizade incomum, quase anormal, entre moças de esferas sociais distintas. De certa forma, Graça é o tempero da vida de Das Dores; já nossa narradora é o apoio, a estabilidade que Graça, a patroinha, precisa para levar seus sonhos adiante.

 

“Ela era Maria das Graças e eu era Maria das Dores. Pegue qualquer nome, começando com qualquer letra do alfabeto, ponha Maria na frente e você terá o nome de três quartos das meninas da nossa geração, ricas ou pobres — Maria Emília, Maria Augusto, Maria Benedita, Maria do Carmo, Maria das Neves e assim por diante. Havia tantas Marias que ninguém nos chamava de Maria. Usávamos o segundo nome. Assim, Graça foi sempre Graça, até virar Sofia Salvador, e eu sempre fui Jega, até ela me chamar de Das Dores.” (p. 25, 26)

 

As duas querem ser divas do rádio, mas só uma consegue. E não é difícil imaginar quem fica nas sombras, nos bastidores do espetáculo. Das Dores, que é inteligente e habilidosa com as palavras, compõe os sambas que brilham na voz de Graça, autobatizada artisticamente de Sofia Salvador. Um detalhe interessante (e triste) sobre Das Dores é que mesmo distante do seu passado em Pernambuco, quando era apenas uma pobre coitada, as pessoas nunca deixam de despejar algumas verdades dolorosas diante dela. É como se ela tivesse uma capacidade surreal de aguentar tudo, como se não se magoasse. Ela se colocava à disposição dos desejos de Graça, é verdade, mas as pessoas só conseguiam enxergá-la com uma sombra de sua amiga, não importa o quão evidente estivesse também o seu brilhantismo.

 

“O que é a verdade? Uma pessoa pode ser completamente sincera na crença do que viu e de quando viu. Mas outra, ao ver a mesma coisa, tem uma percepção diferente. Um peixe vermelho se torna roxo ao pôr do sol, preto à noite. Uma formiga diria que o rio do Riacho Doce era um oceano. Um gigante diria que era um fio d’água. O que vemos no mundo depende muito de quem somos e do momento em que estamos.” (p. 31, 32)

 

 “Para além daquela cozinha e daqueles canaviais existia um mundo de possibilidades que eu não conseguia imaginar, mas queria. Fiquei pasma com a avidez daquele incêndio no canavial. Era lindo em sua necessidade constante, em sua fome sem limites. Olhei-o queimar, o calor golpeando minha pele, e soube que éramos parecidos, aquele fogo e eu. Queríamos mais do que nos davam, e sempre seria assim.” (p. 49)

 

Tempo de Graça, Tempo de Dor é uma leitura riquíssima. A jornada de Graça e de Das Dores, iniciada em Pernambuco, passando pela deliciosa Lapa, no Rio de Janeiro, até Hollywood, nos Estados Unidos, é cheia de camadas que nos fazem refletir sobre costumes de época, nossa história e também sobre uma amizade que é ao mesmo tempo bonita, cheia de companheirismo, mas também é uma prisão, cheia de ressentimentos. Inclusive, é nessa questão da amizade/rivalidade entre duas mulheres e na sensibilidade em retratar sentimentos de forma profunda, que o livro de Frances de Pontes Peebles assemelha-se ao estilo de Elena Ferrante.

 

“Eu podia suportar mil golpes de qualquer punho, mas palavras? As palavras sempre acabariam comigo.” (p. 75)

 

“Se eu fosse embora, como seria?

Ninguém percebe o ar que respira.” (p. 90)

 

“Se a lembrança nos diz quem somos, o esquecimento é o que nos mantém sãos.” (p. 211)

 

Tempo de Graça, Tempo de Dor foi escrito originalmente em inglês (The air you breathe) e é interessante pensar no jogo de linguagem do título em português com o nome das personagens e a oposição natural que eles carregam, alegria x tristeza. Além disso, é uma história cheia de referências a personagens reais da nossa cultura — Só não vou falar quais para não dar muito spoiler.

 

“Na vida existem incontáveis primeiras vezes e um número ainda maior de últimas vezes. As primeiras vezes são fáceis de reconhecer: quando nunca experimentou uma coisa — um beijo, um novo estilo de música, um lugar, uma bebida, uma comida —, a gente sabe exatamente que está encontrando aquilo pela primeira vez. Mas e as últimas? As últimas vezes quase sempre nos surpreendem. Só depois de terem desaparecido percebemos que nunca mais teremos aquele momento, aquela pessoa ou aquela experiência.” (p. 213)

 

Um dos detalhes que eu mais gostei nesta leitura é que cada capítulo é precedido de uma composição musical (da Das Dores) que vai dando o tom da narrativa. Falando nisso, pense no melhor samba dos velhos tempos e você conseguirá imaginar o ritmo deste livro. Comece a ler e esse ritmo permanecerá na sua memória, soltando ecos e pedindo bis.

 

 

 

Título: Tempo de Graça, Tempo de Dor

Autora: Frances de Pontes Peebles

Tradução: Alves Calado

Editora: Arqueiro

Páginas: 368

Compre na Amazon: Tempo de Graça, Tempo de Dor (com brinde) / Tempo de Graça, Tempo de Dor (e-book)

 

Playlist:

 

setembro 12, 2019

[LANÇAMENTO] TEMPO DE GRAÇA, TEMPO DE DOR, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

 

Se você ainda não conhece, vou te dizer: Frances de Pontes Peebles é uma das melhores escritoras do mundo inteiro. Esse lançamento, portanto, é IMPERDÍVEL!

 

A HISTÓRIA DE DUAS MULHERES E DE UMA INTENSA AMIZADE ALIMENTADA POR AMOR, INVEJA E ORGULHO – E PELO MEDO DE AMBAS DE NÃO SER NINGUÉM SEM A OUTRA.

Frances de Pontes Peebles também é autora de Entre irmãs, que foi traduzido para nove idiomas e recebeu os prêmios Elle Grand Prix for Fiction, o Friends of American Writers Award e o Michener-Copernicus Fellowship. Além disso, foi adaptado para o cinema pela Conspiração Filmes e para a TV pela Rede Globo, em formato de minissérie.

“Ecos de Elena Ferrante ressoam nesta saga esplêndida.” – O, The Oprah Magazine

“Uma obra-prima. Frances Peebles é uma mestra da tensão dramática, da intriga e da linguagem – e uma habilidosa observadora da intimidade humana.” – Lambda Literary

Nascida na miséria e abandonada pela mãe, Das Dores tem uma infância difícil trabalhando como ajudante de cozinha num grande engenho de açúcar em Pernambuco, nos anos 1930. Um dia, a chegada de uma menina muda tudo. Graça, a filha mimada do novo senhor da fazenda, é esperta, bem-alimentada, bonita – e encantadoramente malcomportada.

Vindas de mundos tão diferentes, elas constroem uma amizade que nasce das travessuras em dupla, floresce em seu amor pela música e marca para sempre sua vida e seu destino.

Quando não conseguem suportar o que o futuro no engenho lhes reserva, elas fogem para o Rio de Janeiro em busca de uma carreira como divas do rádio. Mas só uma está destinada a se tornar uma estrela. À outra restam os bastidores, longe das atenções e do reconhecimento do público.

Começando no Nordeste e passando pelas ruas da Lapa, no Rio de Janeiro, e pela Los Angeles da Era de Ouro hollywoodiana, Tempo de Graça, Tempo de Dor é o comovente retrato de uma amizade inabalável, marcada pelo orgulho, pela rivalidade e pelo ressentimento. Escrito em forma de memórias, conta as alegrias e o lado sombrio do relacionamento de duas mulheres que encontram na música, e às vezes uma na outra, o sentido da própria existência.

 

 

A Editora Arqueiro já liberou a pré-venda de Tempo de graça, tempo de dor com brinde exlusivo! Você pode comprar com frete grátis testando o Amazon Prime gratuitamente por 30 dias clicando aqui, ou ir direto para a página do livro, caso já tenha ou não queira testar o Prime no momento, clicando aqui.

agosto 07, 2018

[RESENHA] ENTRE IRMÃS, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

Sinopse: Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.

Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.

Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.

Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.

Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.”

 

Às vezes, tenho a impressão de que gastamos o nome heroína com personagens que são, simplesmente, protagonistas. Tal dispêndio, entretanto, não ocorre em Entre Irmãs (Arqueiro, 2017). Frances de Pontes Peebles nos presenteia com duas protagonistas que são verdadeiramente heroínas, cada uma a seu modo: Luzia, a Vitrola — alcunha que ganhou após sofrer um acidente que deixou um de seus braços defeituoso, torto como uma vitrola, — E Emília, uma jovem inconformada com sua condição social, uma matuta nas palavras da irmã, que deseja a todo custo ir para a cidade e ser como as mulheres que ela vê impressas nas páginas de sua revista favorita, a Fonfon.

A forma como o livro foi estruturado foi brilhante no sentido de fazer com que o leitor se afeiçoasse as duas irmãs quase não sendo possível ter uma preferência entre elas. Cada capítulo (e suas subdivisões) é centrado em uma das personagens, intercalando Emília e Luzia como uma colcha de retalhos em terceira pessoa. Apesar da prosa bastante descritiva da autora, Entre Irmãs é uma leitura saborosa e, em pouco tempo, o leitor devora as mais de quinhentas páginas quase sem pestanejar.

 

 

Uma curiosidade sobre Entre Irmãs é que o livro foi escrito originalmente em inglês. Embora a autora seja brasileira, a tradução do romance foi feita por Maria Helena Rouanet. Esse é um detalhe, entretanto, que não fica perceptível nem incomoda, acredito que pelo ótimo trabalho da tradutora e também pela obra em si, que tem uma temática bem brasileira. O romance foi publicado no Brasil com outro título, antes da adaptação em filme e série, com o nome de A Costureira e o Cangaceiro.

Entre Irmãs é o tipo de livro que fica na memória. É marcante, dá um nó na garganta. Por vezes tive vontade de que Emília e Luzia fossem reais, para que eu pudesse abraçá-las. Lembrei que mulheres fortes como elas existiram e ainda existem aos montes no nosso país.

As três personagens mais queridas por mim neste livro me ensinaram coisas valiosas que eu vou guardar para a vida. Tia Sofia me ensinou que eu não devo desperdiçar as minhas lágrimas. Luzia mostrou que as mulheres são ainda mais fortes do que imaginam. Emília me fez perceber que é preciso ter muita determinação para não ser levada pela maré das coisas tidas como fáceis, previsíveis.

 

 

Eu poderia ficar horas e horas falando sobre Entre Irmãs, mas esse é um livro bom demais para ser simplesmente resumido. Você precisa ler para fazer parte daquelas histórias, tornar-se íntima das irmãs Dos Santos. Ir embora de Taguaritinga e enfrentar uma sociedade implacável ou percorrer o sertão a ponto de ser parte dele.

Entre Irmãs me remeteu fortemente aO Quinze, de Rachel de Queiroz, quando, lá pelo capítulo 9, mostrou um dos campos de concentração criados pelo governo para tentar remediar a seca no sertão. Frances foi além ao mostrar, mais que a miséria, um pouco da corrupção que envolvia a distribuição de comida nos tempos mais severos dos períodos de seca.

Não foi somente uma das melhores leituras que fiz em 2018. Entre Irmãs foi um dos melhores livros que eu li na vida. É um monumento em forma de livro. Obrigada, Frances de Pontes Peebles.

 

 

 

Título: Entre Irmãs

Autora: Frances de Pontes Peebles

Tradução: Maria Helena Rouanet

Editora: Arqueiro

Páginas: 576

 

Compre na Amazon: Entre Irmãs.

 

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2019 • powered by WordPressDesenvolvido por