agosto 30, 2019

[RESENHA] FLUSH: MEMÓRIAS DE UM CÃO, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “A obra é a biografia de um cão que mostra aventuras e mistérios da existência percebidos através dos olhos do melhor amigo do homem. O personagem central dessa história é um cocker spaniel de origem inglesa, Flush. Em pleno processo de apreensão do mundo e de si mesmo, ele ama tanto os raios de sol quanto um pedaço de rosbife, a companhia de cadelinhas malhadas assim como a companhia de seres humanos, o cheiro de campos abertos tanto quanto ruas cimentadas e o burburinho da cidade. A autora tece comentários sobre a sociedade inglesa e vitoriana e seus valores.”

 

Faz bastante tempo que eu recebi Flush: memórias de um cão, de uma troca pelo Skoob. Apesar do bilhetinho carinhoso da Araceli — que eu conservei no livro porque eu AMO dedicatórias, — o livro da escritora inglesa Virginia Woolf permaneceu na minha estante, praticamente intocado, de 2015 até alguns dias atrás. Eu poderia usar a desculpa universal de todos os leitores, a de que adquirimos muito mais livros do que conseguimos ler, para justificar essa demora em ler Flush, mas a verdade é a que eu já falei aqui em outra oportunidade: amo os ensaios de Virginia Woolf, mas seus textos ficcionais me dão um pouco de medo…

É uma bobagem, eu sei. Na verdade, é (também) um leve trauma por ter iniciado e não ter concluído Mrs. Dalloway há alguns anos (!), em uma péssima escolha que fiz em iniciar essa leitura em um momento em que eu não conseguia me concentrar o suficiente para entender as minúcias desse romance. Então Flush, e todos os outros livros de ficção de Virginia Woolf que comprei ou troquei, permaneceram parados na minha estante. Até a véspera do show da dupla Sandy e Junior em Belo Horizonte.

Essa sou eu virada de sono na rodoviária de BH, pós Sandy & Junior.

Pode parecer um rolê aleatório misturar Virginia Woolf e Sandy e Junior, mas, para mim, esse livro e essa viagem estarão para sempre conectados. Eu sempre gosto de carregar um livro na bolsa e em viagens longas essa necessidade é ainda mais urgente. Basta informar a você que lê agora — e não me segue no Instagram, — que eu viajei umas sete horas da minha casa em Patrocínio do Muriaé, Interiorzão de Minas Gerais, até Belo Horizonte, capital linda do pão de queijo, para assistir ao show da turnê Nossa História, de Sandy Junior, dupla pela qual fui fanática durante a minha infância e adolescência. Uma viagem longa, ninguém pode negar. Mas eu estava indo para um show, quem é que leva livro para a balada? Antes de dormir, envolvida com os preparativos da viagem (passar a roupa, verificar ingresso, dinheiro, documentos etc.), meu marido sugeriu que eu levasse sim, um livro, pois seria uma boa forma de economizar a bateria do celular, além de ótimo para passar o tempo na viagem de ida. Eu não tinha pensado em levar nada além da carteira e do celular, mas encarnei a Rory Gilmore e parei em frente à estante, de mãos na cintura, pensando em quem seria meu companheiro de viagem. Mesmo com a restrição de tamanho, opções não faltavam.

Pensei em levar A arte do romance, também de Virginia Woolf, mas achei que seria muito sério para uma mulher de 29 anos indo atrás de seu sonho adolescente. Outras opções não me atraíram muito até que passei os olhos pela lombada de Flush. Uma premissa tão interessante apresentada já no subtítulo, “memórias de um cão”. Uma autora de que eu gosto muito, apesar de… vocês já sabem. E o tamanho correto para preencher (sem estufar muito) a minha bolsa. Era isso, Flush era o livro ideal e foi uma leitura surpreendentemente boa!

Flush: memórias de um cão, de Virginia Woolf, foi publicado originalmente em 1933. É interessante saber que a autora escreveu esse livro no seu período de descanso, um pouco depois de ter escrito As ondas (1931). Ao ler a coletânea de cartas de amor dos poetas vitorianos Robert Browning (1812-1889) e Elizabeth Barret Browning (1806-1889), Virginia percebeu um personagem que era presença constante nessas correspondências: Flush, um cão da raça cocker spaniel, companheiro inseparável de Elizabeth. Se é verdade que as melhores ideias surgem nos momentos de descontração eu não sei, mas Virginia Woolf conseguiu escrever uma história realmente apaixonante a partir da sua leitura de férias. E com um ponto de vista bastante incomum para a sua época: o do cachorro.

Flush, é importante dizer, não é o tipo de história de cachorro como as que conhecemos nos últimos anos. Não é drama, superação ou tudo aquilo que nos faz chorar até desidratar. Aqui temos a trajetória de um ser, da infância até a maturidade, com seus sentimentos, confusões, desejos e olfato. Sim, uma vez que o protagonista é um cão e toda a história é contada do ponto de vista dele, os cheiros são praticamente um personagem a parte, impossível não imergir nesse sentido que nem sempre usamos de forma muito apurada.

É um livrinho pequeno, mas são incontáveis as tiradas irônicas, as sutilezas e os momentos de carinho, amizade — e ciúme — que vemos nessa história. Muito da correspondência entre Elizabeth e Robert estão neste livro, e é interessante imaginar como Virginia Woolf costurou as menções ao Flush nas cartas ao que ela imaginou como sendo uma biografia dele, pelo olhar do próprio. Flush certamente é mais que uma boa porta de entrada para os textos ficcionais de Virginia Woolf, é uma leitura gostosa sobre a vida e sobre todas as pequenas coisas que às vezes ignoramos.

 

“À medida que as semanas se passavam, Flush sentia, de maneira cada vez mais acentuada, que havia entre os dois uma ligação, uma proximidade desconfortável e portanto emocionante; de modo que, se o prazer dele era a dor dela, o prazer dele deixava de ser prazer para transformar-se em tripla dor. A verdade dessa afirmação era comprovada todos os dias. Alguém abria a porta e assobiava para chamá-lo. Por que não sair? Estava ávido por ar e exercício; suas patas pareciam rígidas de tanto ficar deitado no sofá. Ele nunca se acostumara completamente ao cheiro de eau-de-Cologne. Mas não — apesar de a porta continuar aberta, não abandonaria a Senhorita Barrett. Hesitava até o meio do caminho em direção à porta e então voltava ao sofá. ‘Flushie’, escreveu a Senhorita Barrett, ‘é meu amigo — meu companheiro — e me adora mais do que adora a luz do sol lá fora.’ Ela não podia sair. Estava acorrentada ao sofá. ‘Um passarinho em uma gaiola teria uma história de vida tão boa quanto a minha’, escreveu. E Flush, a quem o mundo todo se abria, escolheu privar-se de todos os cheiros de Wimpole Street para ficar ao lado dela.” (p. 39 e 40).

 

 

 

Título: Flush: memórias de um cão

Autora: Virginia Woolf

Tradução: Ana Ban

Editora: L&PM Pocket

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