janeiro 24, 2016

[RESENHA] CINCO CONTOS, DE KATHERINE MANSFIELD

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Sinopse: “Nascida em Nova Zelândia, a escritora Katherine Mansfield (1888-1923) foi uma mestra na difícil arte do conto. As narrativas reunidas neste volume são exemplo desta sua capacidade de retratar. em precisas pinceladas. personagens marcantes e concentrar o sentido de uma vida em poucas páginas. Seu talento de miniaturas permite-lhe captar e registrar com nitidez inesquecível o detalhe revelador dos momentos mais triviais da vida.”

 

 

Cinco Contos, da autora Katherine Mansfield, faz parte da Coleção Leitura, geralmente encontrada em sebos, publicada pela Editora Paz e Terra, em 1996. Integram o livro os contos Senhorita Brill, Tomada de hábito, A vida de Mãe Parker, A fuga e Je ne parle pas français.

 

Senhorita Brill já me deu uma ideia sobre o que viria depois; gostei muito e reli, antes mesmo de ler os outros. Ele conta a história de uma senhora que passa os seus domingos em uma praça, e através dela, de sua solidão, um mundo de sentimentos nos invade, como se em algum momento da vida todos fossemos um pouco como a velha senhorita Brill: um pouco atores, um pouco expectadores, nesta vida ao mesmo tempo rotineira e cheia de incertezas.

“Ah, como era fascinante! Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”

 

Imagine se descobrir apaixonada por um ator, assim, de repente, estando comprometida com outra pessoa! Assim é a história de Tomada de hábito, que narra a trajetória da jovem Edna, que se vê confusa entre dois cavalheiros. A partir daí só haveria um destino para a moça: ir para um convento.  

“Algo horrível tinha acontecido. Inesperadamente, no teatro, a noite passada, quando ela e Jimmy estavam sentados um ao lado do outro no balcão nobre, sem nenhum aviso prévio – na verdade, Edna tinha acabado de comer uma amêndoa coberta com chocolate e devolvera a caixa para Jimmy – ela se apaixonou por um ator. Realmente se apaixonou.”

 

A vida de Mãe Parker é um conto marcante! Retrata uma mulher de vida difícil, dura… Tão dura e tão atarefada que não havia sequer tempo ou lugar adequados para chorar os seus infortúnios! A história começa com a notícia do falecimento do neto de Mãe Parker e a partir daí conhecemos sua trajetória. 

“Não haveria um lugar onde ela pudesse se esconder e ficar consigo mesma o tempo que quisesse, sem perturbar ninguém, e sem que ninguém a importunasse? Não haveria algum lugar no mundo onde ela pudesse chorar abertamente – por fim?”

 

No conto A fuga, um casal perde o trem e tem de fazer parte da viagem em uma carruagem, para a fúria da esposa. A partir daí somos transportados para os conflitos da viagem do casal, “um retrato divertido da vida doméstica inglesa”. 

Oh, por que é que eu tenho que suportar essas coisas? Por que tinha que estar sujeita a elas? () A claridade, as moscas, enquanto ele e o chefe da estação juntavam suas cabeças sobre a tabela dos horários, tentando encontrar aquele outro trem, o qual certamente eles não conseguiriam pegar. 

 

Por fim, tendo como cenário uma pequena cafeteria, em Je ne parle pas français (eu não falo francês), um escritor narra a sua história ao ler a frase título do conto em um pedaço de papel, que o faz relembrar fatos importantes de seu passado.

“Mas, então, mais que de repente, no fim da página, escrito em tinta verde, me deparei com aquela estúpida frasezinha: Je ne parle pas français. (…) Deus do céu! Serei capaz de vivenciar sentimentos tão fortes quanto esse? Mas eu estava absolutamente inconsciente! Não possuía uma frase sequer para defini-lo! Estava arrebatado, abismado. Nem mesmo tentei, sequer da maneira mais obscura, tentar entendê-lo.”.

 

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

janeiro 18, 2016

[RESENHA] O SOL E O PEIXE, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca e incerta comparada com a dos peixes.” É Virginia Woolf, em “O sol e o peixe”, ensaio que dá título à presente coletânea, na qual se reúnem nove de suas prosas mais poéticas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens de se ficar doente; celebra as belezas naturais de Sussex e as delícias urbanas de uma caminhada fortuita por Londres. Eis aqui Virginia, em toda a força poética de sua prosa.”

 

O Sol e o Peixe é um livro com ensaios de Virginia Woolf, selecionados e traduzidos por Tomaz Tadeu, publicado pela editora Autêntica no ano de 2015.

Os ensaios estão divididos em três temas: A vida e a arte; A rua e a casa; e O olho e a mente. O trabalho de seleção foi muitíssimo bem feito, e nós podemos verificar tal fato, pois, ao contrário de muitos livros de ensaios, esse tem certa continuidade. Você sente um ensaio levando ao outro e os finais vão justificando os que vieram primeiro, o que tornou a leitura muito agradável. A autora, que dispensa comentários, transmite em suas palavras tanto sentimento falando sobre situações em que, supostamente, não há nenhum lirismo, que acaba por abrir os nossos olhos para a poesia do dia a dia.

Sobre o subtítulo, Prosas poéticas, o tradutor explica que, com exceção dos ensaios sobre Montaigne e sobre a leitura, o que temos em O Sol e o Peixe “talvez pudessem ser considerados como pertencendo ao gênero que os franceses chamam de ‘poema em prosa’ e que teve vários praticantes ilustres como Mallarmé e Boudelaire, para não falar de Valéry. Por não se inserirem na mesma tradição, prefiro vê-los como ‘prosas poéticas’” (p.8)

Todos os ensaios são ótimos, mas elegi três como os meus favoritos. São os três que compõem A vida e a arte: Montaigne; Memórias de uma filha; e A paixão da leitura.

Falando sobre os Ensaios, de Michel de Montaigne, Virgínia Woolf nos ensina a melhor maneira de escrever:

“Todos os extremos são perigosos. É melhor ficar no meio da estrada, nas trilhas costumeiras, por mais lamacentas que sejam. Ao escrever, escolha as palavras comuns; evite a rapsódia e a eloquência – mas, é verdade, a poesia é deliciosa; a melhor prosa é aquela que está mais plena de poesia.” (p. 18)

 

Em Memórias de uma filha me tocou a forma com que a autora fala sobre o seu pai. Apesar da relação complicada que tiveram, ela o descreve com muita delicadeza.

Sobre A paixão da leitura, ela diz o que todos nós, pelo menos uma vez na vida, tivemos vontade de falar para os que não entendem (ou não querem entender) o amor que temos aos livros e à leitura:

“Assim, pois, quando os falsos moralistas nos perguntam o que ganhamos quando os nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer bons livros ao mundo e tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente.” (p. 39)

 

O Sol e o Peixe é uma leitura muito prazerosa, de uma autora incrível, com ensaios selecionados de forma muito criteriosa pelo seu tradutor, enfim, é leitura mais que recomendada!

 

 

 

Título: O Sol e o Peixe: Prosas Poéticas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Tomaz Tadeu
Editora: Autêntica
Páginas: 112

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 

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