dezembro 09, 2019

[RESENHA] LAÇOS, DE DOMENICO STARNONE

Sinopse: Laços é um romance provocativo e de leitura irresistível sobre os vínculos familiares e as amarras do casamento. Uma obra vulcânica e marcante escrita por um dos principais autores italianos da atualidade.

Vanda e Aldo estão casados há mais de cinco décadas. Ao voltarem de uma agradável semana de férias na praia, eles encontram seu apartamento completamente revirado. Reorganizando seus papeis, Aldo se vê forçado a encarar lembranças de décadas atrás: os anos que abandonara Vanda e os filhos para viver com outra mulher. As fissuras causadas por esse trauma familiar permanecem latentes no presente.”

 

Laços, do escritor italiano Domenico Starnone (Todavia, 2017), foi um dos livros mais intensos que eu li neste ano de 2019. Fiquei profundamente mexida, a ponto de ter que engolir o choro — meu marido e minha filha de três anos talvez não entendessem tamanho descontrole (e eu não conseguiria explicar). Foi impressionante perceber que um homem do outro lado do oceano tenha escrito algo que poderia ser sobre o casamento dos meus própios pais.

O título desse livro reverbera: pode ser interpretado como os laços familiares, consanguíneos, sentimentais ou mesmo uma passagem sensível como uma lembrança da infância dos filhos, a forma estranha de amarrar os sapatos, herdada do pai. Os laços, sobretudo, amarram esse romance dividido em três partes relativamente independentes, mas que juntas traçam, de forma muito precisa, a falência de uma família.

 

“Laços é um romance cheio de recipientes, de coisas que contêm outras, tanto no sentido literal quanto no simbólico. Apesar desses recipientes, há coisas que se perdem.” (Introdução, por Jhumpa Lahiri)

 

A primeira parte é formada por cartas. A narrativa é feita por Vanda, a esposa abandonada pelo marido que, de uma hora para outra, resolve deixá-la — e também aos filhos —, para viver com uma mulher bem mais jovem que ele. Mesmo que por relatos esparsos, percebemos toda a dificuldade e ressentimento desta mulher que há pouco mais de uma década vive em função de uma família que, sem que ela possa fazer nada, deixa de existir em sua forma original.

A segunda parte é uma narrativa em primeira pessoa feita a partir da visão de Aldo, um homem de setenta e quatro anos, casado há cinquenta dois, segundo ele em uma relação que é “um longo fio de tempo enovelado”. Aldo, obviamente, é o marido de Vanda, que nesta parte tem setenta e seis anos e vive a paz doméstica de um casamento maduro. Esta última frase pode não ser exatamente verdade e aos poucos vamos percebendo os motivos. Embora Aldo em algum momento tenha voltado para casa, as feridas do período em que ele esteve com outra pessoa, do período em que ele traiu a esposa, estão falsamente cicatrizadas. Afinal, em quanto tempo uma família consegue esquecer algo desse tipo? Quanto tempo demora para que as coisas voltem ao seu devido lugar? Nossos laços, quaisquer que sejam eles, são o suficiente para algo desse tipo seja superado? Esses questionamentos e lembranças voltam para assombrar o casal quando eles retornam de uma pequena viagem de férias e encontram seu apartamento completamente revirado. Aldo, em especial, acaba revendo algumas lembranças do passado ao reorganizar o escritório de casa.

 

“Da crise de tantos anos atrás ambos aprendemos que, para viver juntos, é preciso dizer bem menos do que calamos.”

 

A terceira e última parte parece vir para (tentar) desembolar antigos nós. O foco da narrativa recai sobre os filhos de Aldo e Vanda, Sandro e Anna, que ficam responsáveis por cuidar da casa e do gato, Labes, durante a viagem de férias dos pais. Essa última parte amarra tão bem o romance que não admira que o autor tenha sido o vencedor do Prêmio Strega (2011) — o mais importante em seu país —, com este livro.

 

“Mas o que é que a gente pode fazer, não se escapa dos cromossomos, não é culpa minha nem sua, herda-se tudo, até o modo de coçar a cabeça.”

 

Terminei sem ar, mas também grata pela oportunidade de ler algo tão poderoso!

 

 

 

P.s.: sobre a semelhança com Dias de abandono, de Elena Ferrante, não posso, ainda, opinar sobre. Até tentei pegar o livro dela para ler em seguida, mas achei melhor dar um tempo entre uma leitura e outra (leia-se: não consegui).

 

 

 

Título: Laços

Autor: Domenico Starnone

Tradução: Mauricio Santana Dias

Introdução de Jhumpa Lahiri

Editora: Todavia

Páginas: 144

 

Compre na Amazon: Laços

novembro 04, 2019

[RESENHA] UM AMOR INCÔMODO, DE ELENA FERRANTE

Sinopse: Uma história perversa e delicada sobre mãe e filha unidas por um complicado nó de mentiras e emoções.

Aos quarenta e cinco anos, Delia retorna a sua cidade natal, Nápoles, na Itália, para enterrar a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas: a humilde costureira, que se acostumou a esconder a beleza com peças simples e sem graça, usava nada além de um sutiã caro no momento da morte.

Revelações perturbadoras a respeito dos últimos dias de Amalia impelem Delia a descobrir a verdade por trás do trágico acontecimento. Avançando pelas ruas caóticas e sufocantes de sua infância, a filha vai confrontar os três homens que figuraram de forma proeminente no passado de sua mãe: o irmão irascível de Amalia, conhecido por lançar insultos indistintamente a conhecidos e estranhos; o ex-marido, pai de Delia, um pintor medíocre que não se importava em desrespeitar a esposa em público; e Caserta, uma figura sombria e lasciva, cujo casamento nunca o impediu de cortejar outras mulheres.

Na mistura desorientadora de fantasia e realidade suscitada pelas emoções que vêm à tona dessa investigação, Delia se vê obrigada a reviver um passado cuja crueza ganha contornos vívidos na prosa elegante de Elena Ferrante.”

 

Leia também: Em Nápoles com Elena Ferrante: A Amiga Genial

 

Por mais que a relação mãe e filha seja vendida pela nossa sociedade como um paraíso cor de rosa, a realidade pode não ser tão vibrante assim. No fundo, apesar da superfície alegre, essa relação pode ter muitas camadas de dúvidas e idealizações. Uma verdadeira escala de tons nebulosos e cinzentos.

Um amor incômodo, de Elena Ferrante (Intrínseca, 2017) explora bastante essa névoa que embaça a relação entre mãe e filha. Com o falecimento de Amalia, Delia, sua filha, embarca em uma viagem de volta ao passado, o que inclui, além das lembranças, reencontros com pessoas que podem dar a ela pistas sobre as circunstâncias do trágico falecimento de sua mãe.

Amalia foi encontrada sem vida em uma praia, vestindo apenas um sutiã de uma refinada grife de Nápoles. Mas Amalia não era esse tipo de mulher, que vai à praia sozinha e usa esse tipo de roupa íntima. Ou era? Delia precisa de respostas para entender a mãe, mas, sobretudo, para entender a si própria.

Um amor incômodo é um romance curto, com uma trama bastante densa. É de leitura rápida, mas não pela quantidade de páginas, e sim por todo o suspense que permeia a trama. Entre situações reais e fluxo de consciência, visitamos o passado de Delia, fatos ocorridos há décadas, os quais ela mal se recorda, mas que foram imprescindíveis para torná-la a mulher que se tornou.

O título do romance explica muito bem a relação dessas duas personagens. Não é saudável a idealização exagerada da filha em relação à mãe, e vice versa. Não é saudável a renúncia da mãe à própria felicidade, em favor da família. É injusto o desejo de liberdade da filha, liberdade para ser o extremo oposto da mãe. Não pode ser normal, mas acontece, inclusive fora dos livros, e é amor. Um amor incômodo.

 

“Eu não quis ou não consegui enraizar ninguém em mim. Mais algum tempo e perderei até a possibilidade de ter filhos. Nenhum ser humano jamais se desligaria de mim com a mesma angústia com que me desliguei  da minha mãe apenas porque nunca consegui me apegar a ela definitivamente. Não haveria nenhum mais ou nenhum menos entre mim e outro ser feito de mim. Eu permaneceria sendo eu até o final, infeliz, insatisfeita com aquilo que arrastara furtivamente para fora do corpo de Amalia.” (p. 78)

 

 

 

Título: Um amor incômodo

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca

Páginas: 176

 

Compre na Amazon: Um amor incômodo

 

 

Veja também: trailer da adaptação (filme) Amore Molesto (Nasty Love), de Mario Martone (1995).

setembro 12, 2019

[LANÇAMENTO] TEMPO DE GRAÇA, TEMPO DE DOR, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

 

Se você ainda não conhece, vou te dizer: Frances de Pontes Peebles é uma das melhores escritoras do mundo inteiro. Esse lançamento, portanto, é IMPERDÍVEL!

 

A HISTÓRIA DE DUAS MULHERES E DE UMA INTENSA AMIZADE ALIMENTADA POR AMOR, INVEJA E ORGULHO – E PELO MEDO DE AMBAS DE NÃO SER NINGUÉM SEM A OUTRA.

Frances de Pontes Peebles também é autora de Entre irmãs, que foi traduzido para nove idiomas e recebeu os prêmios Elle Grand Prix for Fiction, o Friends of American Writers Award e o Michener-Copernicus Fellowship. Além disso, foi adaptado para o cinema pela Conspiração Filmes e para a TV pela Rede Globo, em formato de minissérie.

“Ecos de Elena Ferrante ressoam nesta saga esplêndida.” – O, The Oprah Magazine

“Uma obra-prima. Frances Peebles é uma mestra da tensão dramática, da intriga e da linguagem – e uma habilidosa observadora da intimidade humana.” – Lambda Literary

Nascida na miséria e abandonada pela mãe, Das Dores tem uma infância difícil trabalhando como ajudante de cozinha num grande engenho de açúcar em Pernambuco, nos anos 1930. Um dia, a chegada de uma menina muda tudo. Graça, a filha mimada do novo senhor da fazenda, é esperta, bem-alimentada, bonita – e encantadoramente malcomportada.

Vindas de mundos tão diferentes, elas constroem uma amizade que nasce das travessuras em dupla, floresce em seu amor pela música e marca para sempre sua vida e seu destino.

Quando não conseguem suportar o que o futuro no engenho lhes reserva, elas fogem para o Rio de Janeiro em busca de uma carreira como divas do rádio. Mas só uma está destinada a se tornar uma estrela. À outra restam os bastidores, longe das atenções e do reconhecimento do público.

Começando no Nordeste e passando pelas ruas da Lapa, no Rio de Janeiro, e pela Los Angeles da Era de Ouro hollywoodiana, Tempo de Graça, Tempo de Dor é o comovente retrato de uma amizade inabalável, marcada pelo orgulho, pela rivalidade e pelo ressentimento. Escrito em forma de memórias, conta as alegrias e o lado sombrio do relacionamento de duas mulheres que encontram na música, e às vezes uma na outra, o sentido da própria existência.

 

 

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