novembro 21, 2019

[RESENHA] LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE, DE ZIAUDDIN YOUSAFZAI

Sinopse: Neste relato comovente sobre amor, paternidade e luta por direitos, Ziauddin Yousafzai, o pai da Malala, rememora sua história e sua longa batalha para que meninos e meninas tenham as mesmas oportunidades. Um livro para todos aqueles que desejam criar seus filhos num mundo mais justo e igualitário.

Ziauddin Yousafzai tem motivos de sobra para ser um pai orgulhoso: Malala sobreviveu a um atentado do Talibã, ingressou na prestigiosa Universidade de Oxford e se tornou a mais jovem vencedora do prêmio Nobel da paz e uma das principais vozes da luta pelos direitos das mulheres.
O que ele fez para criar uma menina tão extraordinária? A resposta é mais trivial do que se imagina: educou-a com amor, incentivo e gentileza ― e sobretudo com a convicção de que sua filha era digna das mesmas oportunidades que os meninos recebem.
Livre para voar é o relato inspirador de um menino gago que cresceu em uma pequena vila no Paquistão e se tornou um dos grandes ativistas pela igualdade de gênero. Exemplo para os pais que querem que seus filhos façam a diferença, Ziauddin mostra como o respeito e a educação são capazes de criar um mundo melhor para todas as crianças.”

 

Leia também: Eu sou Malala

Quando eu li Eu sou Malala, de Malala Yousafzai (Companhia das Letras, 2013), fiquei com a amarga impressão de que todos os males que a jovem ganhadora do Nobel da Paz sofreu, incluindo um atentado que quase lhe tirou a vida em 2012, era culpa da religião islâmica. Cheguei a estranhar o fato de que ela não perdeu a religiosidade, apesar de tudo. Pensei que ela devia “se livrar daquilo”, mas em sua narrativa e ações pelo mundo, Malala se manteve firme aos seus princípios. Apesar das restrições de sua cultura, apesar do extremismo do talibã.

Anos depois, no entanto, observo com mais respeito a crença de Malala. Não posso julgar a religiosidade desta menina com a minha visão ocidentalizada e que pouco conhece o islamismo. Não posso julgá-la nem mesmo em comparação a minha própria concepção de religiosidade. Mas consigo entender e admirar a jornada dessa jovem ativista pela educação que com seu pai, Ziauddin Yousafzai, ousou sonhar e lutar para que não só ela tivesse acesso à educação, mas todas as meninas pudessem ser reconhecidas e respeitadas da mesma forma que os meninos sempre foram.

Malala fala muito sobre a vida do pai em seu livro, mas em Livre para voar conhecemos um pouco mais de Ziauddin nas palavras do próprio, com a colaboração da jornalista e escritora Louise Carpenter. E se antes eu já o admirava, agora fiquei ainda mais fã de Ziauddin e quero seguir, de alguma maneira, os seus passos! Livre para voar é um livro extremamente necessário, um relato honesto de um pai que teve e têm dificuldades como todos os pais e cuidadores, mas sempre procura o caminho da compreensão e do amor para lidar com sua família.

Ziauddin percebeu desde bem jovem que as mulheres em sua cultura eram muito menosprezadas, tratadas como uma espécie de sub-criaturas que não mereciam nem registro de seus nascimentos, tamanho o infortúnio para uma família ter mais mulheres que homens, por exemplo. A própria mãe de Malala, Toor Pekai, não teve um registro formal de seu nascimento, portanto eles não podem ter certeza da idade correta que ela tem. Os pais de Malala cresceram em uma sociedade em que mulheres não podiam sequer olhar nos olhos dos homens, ou sair desacompanhadas, ou ainda comer bons pedaços de carne (os melhores eram destinados aos homens ou meninos, se houvessem), nem serem servidas. Cruel ou injusta (ou as duas coisas), era essa a sociedade em que eles cresceram. Mas Ziauddin, antes mesmo de se casar, sabia que seria diferente. Ele QUERIA ser diferente. Essa foi a chave que inspirou, inclusive, outros homens de sua própria família e continua inspirando várias pessoas mundo afora.

 

“Venho de um país onde fui servido por mulheres durante a vida inteira. Venho de uma família em que meu gênero me fazia especial. Mas eu não queria ser especial por essa razão.”

 

“Quando se defende uma mudança, essa mudança vem.”

 

“Quando penso nos feitos de Malala, penso também nas outras mulheres de minha vida a quem amei, mulheres como minha prima e minhas irmãs, que não pude proteger da crueldade e da injustiça da sociedade. Tive de presenciar a injustiça em suas vidas para prometer que minha família seguiria outro caminho. Essas outras mulheres, tias, primas de segundo grau e avós de Malala, passaram a vida sonhando os sonhos de outras pessoas e obedecendo aos desejos de outras pessoas. Penso em todo o potencial que traziam dentro de si. Mas esse potencial ficou inexplorado, subestimado, desconhecido. Ninguém queria acreditar nele.”

 

“Realmente acredito que as normas sociais são grilhões que nos escravizam. Acostumamo-nos a essa escravidão e então, quando rompemos os grilhões, a primeira sensação de liberdade pode assustar, mas, quando começamos a senti-la, percebemos na alma como é gratificante.”

 

Livre para voar é uma leitura rápida, que retoma e recorda alguns fatos sobre a família Yousafzai e seu ativismo pela educação. Desta forma, pode ser lido facilmente por aqueles que não leram Eu sou Malala (recomendo que o façam, pois também é ótimo). O título faz alusão ao que Ziauddin diz ter feito em como pai, em sua família: quebrar a tesoura. Ele diz que as meninas são como os pássaros que têm as asas cortadas tão rentes à carne que fica impossível o simples ato de voar. Tão impossível que os pássaros nesta condição logo desistem, pois “entendem” que não são capazes. Ele não queria isso para a sua filha, então “quebrou a tesoura”. Malala, assim como os irmãos, seriam livres para voar.

Um dos pontos mais interessantes desta leitura foi Ziauddin falando sobre feminismo. Hoje ele reconhece que é um ativista também pelo feminismo, essa palavra que ele conheceu apenas recentemente, mas que já estava, de certa forma, entranhada em sua luta pela educação das meninas. No entanto, esse é um assunto que a família Yousafzai não discute repetidamente em casa, não há nenhum tipo de doutrinação. Ele não diz que os meninos precisam respeitar Malala, ou que precisam agir desta ou de outra forma com a mãe deles. O feminismo da família Yousafzai está nas ações. É prática do dia a dia de Ziauddin respeitar a esposa e a filha como iguais, como tem que ser. E os meninos cresceram em meio a essa rotina, absorvendo esse comportamento. É o tipo de atitude que devemos ter, todos nós, ao invés de manter o discurso apenas da porta para fora, não acham? Não que já tenhamos falado o suficiente, mas talvez devêssemos ser mais como os Yousafzai e simplesmente viver aquilo que pregamos.

Ziauddin fala, ainda, das dificuldades que teve em ser um pai liberal no ocidente; do amor à poesia e sobre aprender a ficar nos bastidores, observando e torcendo pelos filhos em seu momento de levantar voo. Gostei de saber mais sobre Toor Pekai, “a ativista silenciosa”, neste livro. Ziauddin dedica o terceiro capítulo para falar sobre sua “esposa e melhor amiga”. Livre para voar é uma ótima leitura, um livro simplesmente inspirador!

 

 

 

Título: Livre para voar: a jornada de um pai e a luta pela igualdade

Autor: Ziauddin Yousafzai

Colaboração: Louise Carpenter

Prefácio: Malala Yousafzai

Tradução: Denise Bottmann

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 168

Compre na Amazon: Livre para voar

junho 24, 2019

[LETRAS] EU, ESTAGIÁRIA (PARTE IV – FINAL)

“Onde houver professores haverá sempre alguém dando o passo além” (Içami Tiba). 

 

Leia desde o começo: Estágio I, Estágio II e Estágio III.

 

Enfim cheguei ao Estágio Supervisionado IV, o último estágio! Aqui fui invadida por um estranho sentimento de saudosismo, ao mesmo tempo que o cansaço batia forte e a vontade de terminar (no meu caso, também, o curso) era maior que tudo.

O que eu mostro a seguir são os principais registros dessa trajetória e alguns excertos do meu Relatório Final de Estágio IV, que foi feito mostrando as atividades deste semestre e também relembrando todo o aprendizado dos outros três estágios.

 

“Com a experiência adquirida nos últimos semestres e chegando ao final desta jornada, é impossível não relembrar os momentos marcantes proporcionados pelos Estágios Supervisionados I, II, III e IV. O desafio de aplicar os conhecimentos estudados em prática na sala de aula, nas diversas atividades realizadas, ficarão na memória, sem dúvida, entre os momentos mais especiais do curso de Licenciatura em Letras.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Fachada do Polo CEDERJ Itaperuna, onde fiz boa parte das atividades presenciais do meu curso de Letras.

 

“O aluno do EAD, em geral, tem poucos momentos de descontração e entrosamento com os colegas; basicamente os encontros se dão nos dias de Avaliações Presenciais (APs), em algumas tutorias e/ou visitas docentes. Esses momentos de encontro físico são mais raros quanto mais longe o aluno residir do polo em Itaperuna. No meu caso, são pouco mais de 40 km percorridos para estar no polo ou na escola base. No entanto, cada viagem dessas valeu a pena.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Minha escola querida, o Colégio Estadual Rotary <3

 

“Os quatro semestres de estágio foram realizados no Colégio Estadual Rotary, localizado no bairro Ministro Sá Tinoco, em Itaperuna-RJ. O Rotary é uma escola que, atualmente, oferece apenas turmas de Ensino Médio, nos períodos matutino e noturno. Em outras épocas, no entanto, o colégio teve turmas que iam da Classe de Alfabetização até o 3º ano do Ensino. Tenho grande carinho por esta escola, pois fui aluna da antiga 4ª série do Ensino Fundamental (hoje, 5º ano) até o terceiro ano do Ensino Médio.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Relembrando a trajetória desde o comecinho:

“No Estágio Supervisionado I tínhamos ainda uma visão bastante superficial do que era, realmente, uma escola. Adentramos à rotina de confeccionar relatórios e selecionar leituras sobre a área da educação, mas o mais importante desse estágio foi aprender a ouvir. Foram realizadas algumas entrevistas com a Diretora do Colégio Rotary, Marilda Aleixo, sobre as condições materiais e estruturais da escola. Também houve um diálogo com as funcionárias de limpeza e da cozinha, o que proporcionou um panorama atual e realista do funcionamento da unidade escolar. Ainda no Estágio I, entrevistei a professora da rede pública estadual Julia Neri, e no Estágio II pude fazer semelhante arguição com a professora regente, Joelma Pimentel. Tais conversas versaram sobre planejamento e desafios da profissão docente, informações que foram muito úteis nos Estágios III e IV, os quais são realizadas a maior quantidade de atividades práticas.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Do Estágio I eu não tenho muitas fotos, apenas das dependências da escola, pois as atividades foram, basicamente, ouvir, ouvir e ouvir (e relatar). Ainda acho graça quando lembro do susto que eu tomei ao perceber que, a partir do Estágio II, a carga de trabalho (mão na massa MESMO) seria muuuuuuito maior.

 

A professora Joelma Pimentel e eu, no Estágio II, em uma apresentação sobre Bullying em que foi utilizado o varal poético elaborado para o estágio, sobre o poeta Manoel de Barros.

 

A professora Regente, Joelma, me acompanhou por praticamente todo o estágio. Fui aluna de inglês dela no ensino fundamental e sou muito grata pelos três semestres de acompanhamento, paciência, dicas e boa vontade que ela me dedicou nos trabalhos na escola.

 

No Polo CEDERJ Itaperuna, em um dia de apresentação de uma proposta de material didático para o Estágio II — dinâmica “telefone sem fio”.

 

Falando em paciência, a tutora presencial dos estágios (todos eles!), Danielle Marreiros Valleriote, essa que me ouve gaguejar com toda atenção do mundo nesta foto, foi uma das pessoas mais incríveis que eu tive o privilégio de contar no curso de Letras. Foi ela que, com toda a calma do mundo, explicou (VÁRIAS VEZES) o que era para fazer em determinada atividade, ouviu as minhas repetidas lamúrias e foi dando aquele super apoio até o final. Digo que fui sortuda em dobro, pois tive ótimas pessoas me acompanhando na escola e no CEDERJ.

 

“Do Estágio Supervisionado II a atividade mais marcante, sem dúvida, foi a de observação das aulas. É muito diferente assistir uma aula não sendo, necessariamente, uma aluna. Para o estagiário, como é evidente, importam as técnicas utilizadas pelo professor, ou seja, o jeito dele de dar aula. Esse primeiro contato com diversas turmas e a posterior escolha da turma base nos causa aquela conhecida sensação de frio na barriga ao percebermos o estágio acontecendo de fato, na sala de aula. Outra atividade interessante foi a de comparação entre livros didáticos, a partir das duas resenhas que fizemos. Como futuros professores, é fundamental que saibamos escolher ou reconhecer o melhor material para trabalhar em sala de aula. Essa foi uma atividade que estudamos teoricamente na disciplina de Fundamentos da Educação e que pudemos realizar na prática no Estágio Supervisionado.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Em uma das aulas para o Estágio III, sobre texto dissertativo-argumentativo.

 

Em outro momento do Estágio III, apresentando no Polo CEDERJ Itaperuna a proposta de “bingo literário”.

 

“Já no Estágio Supervisionado III foi o momento da prática, no sentido mais estrito da palavra em um curso de licenciatura: dar aula! O frio na barriga, as mãos suando e trêmulas e a dificuldade de iniciar o assunto que, no plano de aula parece bastante simples, foram algumas das dificuldades que logo foram superadas com o apoio, sobretudo, da professora regente Joelma. Ela que, anos atrás, foi minha professora de Inglês, agora me ajudou a dar o tom certo das aulas, colocando a minha disposição seus muitos anos de prática docente. Nesta altura do estágio podemos entender o real significado da palavra didática.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

O Estágio III é O ESTÁGIO! É onde você sua mais que tampa de panela, mas também começa a perceber se a profisão de docente é ou não a sua praia. Sem exagero algum, o Estágio Supervisionado foi um curso de Letras dentro do curso de Letras. Isso porque você acha que sabe tudo até precisar expor as suas ideias com clareza para um grupo de pessoas não necessariamente dispostas a ouvir você falar por mais que dez minutos. O aluno da licenciatura, em geral, mesmo sabendo que está estudando para dar aula, se acostuma com as boas notas das provas das disciplinas teóricas. Estudar e tirar nota boa em prova é fichinha perto de encarar uma sala de aula!

 

“Neste semestre, em vias de finalizar o Estágio Supervisionado IV, os sentimentos de dever cumprido e de amor por esta profissão a qual desejo muito atuar, são os mais fortes. Já não vejo como difíceis ou impeditivas as  papeladas e a burocracia que envolve esse processo, pois nenhuma dificuldade chega perto da experiência e dos momentos extraordinários proporcionados pelo estágio.

 O Estágio Supervisionado é realmente o divisor de águas de um curso de licenciatura. Cumprindo os requisitos, trabalhando, escrevendo e aprendendo a cada dia o que é ser de verdade um professor, especialmente tendo como base a rede pública estadual, o aluno saberá se tem condições e se deseja, ou não, atuar como docente.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Projeto de boas-vindas do Colégio Estadual Rotary, o qual pude participar logo no princípio do semestre.

 

Sala de leitura do Colégio Estadual Rotary, onde passei boa parte do meu tempo dos trabalhos de campo.

 

Na sala de leitura, com professoras e com a Diretora do Colégio Rotary, Marilda, presenteando a escola com um livro de minha autoria.

 

Em outro momento, também na sala de leitura, com a funcionária Tatiana, doando para o Colégio Rotary alguns livros do meu acervo pessoal.

 

Uma selfie com o material do plano de aula sobre o conto “Olhos D’Água”, da escritora mineira Conceição Evaristo.

 

Com o varal poético do plano de aula sobre o escritor Cruz e Sousa.

 

Varal poético (sim, eu gosto de fazer varal!) sobre o poeta Cuti.

 

Apresentação da proposta de projeto pedagógico “Racionais na Roda”, no polo CEDERJ Itaperuna.

 

E se dar aula pode ser uma das coisas mais aterrorizantes para quem não tem muita experiência em falar em público (leia-se experiência nenhuma e timidez quase extrema), aos poucos, para quem realmente tem essa vocação, começa a ser algo prazeroso como fazer uma tatuagem. Dói um pouco no começo, mas você sai da sala já pensando na próxima vez!

Outra experiência ímpar do Estágio, e aqui eu tiro todos os chapéus do mundo para os professores da rede pública, é que você, com zero experiência docente, chega na escola de salto alto, cheio de projetos bacanosos para revolucionar o ensino de língua portuguesa e literatura (no meu caso) e se depara com falta de papel, de caneta, pincel, data show… a lista é grande, então vou parar por aqui.

No Estágio IV eu já estava mais consciênte e pensando em projetos pedagógicos que não precisassem de tantos recursos da escola e que não fossem tão caros caso eu precisasse pagar (spoiler: precisei). A realidade pode ser (e é) muito mais difícil do que as pessoas ou alguns políticos gostam de falar nas redes sociais. Muitos trabalhos e projetos feitos na escola, idealizados por mim ou não, foram feitos com recursos dos professores, os mesmos que sempre me receberam de braços abertos e com um sorriso no rosto. Teve dia de eu ver professor trabalhar doente. A diretora teve Chikungunya e não tirou um único dia de repouso absoluto. Tudo isso pela escola, pelos alunos. E eles dizem que vale a pena, principalmente quando veem que um ex-aluno está bem encaminhado na vida.

 

Eu, orgulhosamente exibindo os meus Relatórios Finais de Estágio I, II, III e IV!

 

Eu tive muito mais que apenas o aprendizado formal nesses dois anos de estágio. Aprendi muito com as pessoas que eu reencontrei na escola, que eu conheci e que puderam me conhecer. A minha dica para você que chegou aqui interessado em informações extra-plataforma sobre o estágio na prática é: faça tudo o que puder fazer e faça bem feito. Pesquise, se informe, converse, pergunte e saiba ouvir. Talvez não seja possível fazer tudo o que é pedido da forma como é pedido; temos muita dificuldade, ainda, em estabelecer um modelo próprio de estágio para os alunos de educação a distância, mas pelo menos tente! Não deu para aplicar o projeto na turma? Apresente a proposta para o professor regente, ou para um grupo de professores. Converse com os alunos, com a equipe de limpeza e cozinha da escola, mostre as suas ideias, ouça o que eles têm a dizer. Você vai expandir seus horizontes!

Não acho que eu esteja plenamente preparada, pois nunca acho que estou até fazer o que tem de ser feito. Muitas vezes não acho que estava preparada mesmo depois de fazer. Mas agora só me resta esperar pela vida real, pois já treinei o bastante.

 

junho 14, 2019

[DIÁRIO] Cultura negra – v. 2 – Trajetórias e lutas de intelectuais negros

Abrangente recorte temporal e espacial, com 27 estudos que conferem visibilidade às vozes “esquecidas” e às trajetórias políticas silenciadas, revelando as múltiplas experiências socioculturais de homens e mulheres negros em seus dilemas, desafios, alegrias e dissabores cotidianos.

Em dois volumes, mostra formas variadas de viver, denunciar e enfrentar a opressão e as desigualdades raciais e de forjar laços de pertencimento e identidades ou estratégias para afirmar direitos e ampliar a cidadania antes e, sobretudo, após a abolição da escravidão. Obra que atende à reivindicação dos movimentos sociais negros do Brasil em prol do direito à memória, à história, à preservação e à valorização de seus bens culturais produzidos no contexto da diáspora.

Desde a lei 10.639, de 2003, que obriga o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, acompanha-se a revisão nos currículos escolares da valorização da história de luta dos negros no país. “Cultura negra” contribui com subsídios aos que desejam trabalhar com o tema na história e na escola. Oferece caminhos por meio de festas, carnavais, músicas, perfomances, patrimônios e trajetórias de artistas e intelectuais negros para se pensar cultura(s) negra(s) como arena de conflitos e transformação de relações de dominação, como canal de combate ao racismo e fortalecimento das identidades.

Por muitos anos estudiosos acionaram a ideia de cultura popular referindo-se às manifestações culturais e folclóricas que constituiriam a nacionalidade brasileira, quase sempre associando-a à valorização da miscigenação e à afirmação da democracia racial.

Para os autores, essas narrativas trazem armadilhas e efeitos nefastos, principalmente na negação do racismo e à invisibilização do protagonismo de pessoas negras na formação do Brasil. Este livro vai em sentido oposto: desvincula-se da ideia de cultura popular e assume a de cultura negra, como conceito dinâmico e inscrito nas práticas e experiências plurais de seus personagens.

No primeiro volume, a festa negra emerge em expressões que transformam, no tempo presente, a memória do cativeiro e a canção escrava em espetáculo, patrimônio cultural, local de conflito, de luta e afirmação da negritude.

No segundo volume, contribuindo de forma inovadora para a abertura de novos campos de investigação, as atenções são dirigidas para sujeitos sociais que, na prática, criaram novos sentidos de cultura e festas negras. Homens e mulheres, em geral esquecidos até pouco tempo, demonstram, por suas trajetórias e ação intelectual, como o campo cultural está repleto de iniciativas de combate ao racismo e de contraposições às relações de dominação, reconstruídas no pós-Abolição. Sob a ação desses sujeitos, definidos como intelectuais, os campos musical, teatral e educacional tornam-se importantes canais de afirmação de direitos e discussão das identidades negras. Mais ainda contribuem para o entendimento de uma outra história do Brasil republicano e suas lutas pela cidadania.

 

 

A Eduff me presenteou com os dois volumes da coletânea de artigos Cultura Negra, um importante apanhado histórico para que possamos repensar e atualizar as nossas leituras e também, no caso dos professores, a forma de ensinar história do Brasil,  especificamente no que concerne à valorização da luta e da cultura afro-brasileira. Falei sobre o primeiro volume com mais detalhes em outra postagem, confira clicando aqui!  Como eu já disse anteriormente e não é demais repetir, apesar da lei 10.639/2003 e dos resultados que estamos tendo com as ações afirmativas, que contribuíram para o ingresso de um contingente maior de negros nas universidades brasileiras, muito do que se reproduz no dia a dia das escolas sobre o negro no Brasil continua restrito à escravidão e/ou à abolição. Tudo o mais fica esquecido, injustamente. Mesmo no dia da consciência negra, uma data que deveria fomentar discussões sobre a cultura negra e ampliar os horizontes sobre essa temática, vemos reproduzidos os mesmos discursos sobre escravidão e abolição, ignorando o protagonismo e a luta dos negros ao longo dos séculos no nosso país.

O volume 2 centra-se nas lutas dos intelectuais negros e é dividido em 3 partes:

No segundo volume, contribuindo de forma inovadora para a abertura de novos campos de investigação, as atenções são dirigidas para sujeitos sociais que, na prática, criaram novos sentidos de cultura e festas negras. Homens e mulheres, em geral esquecidos até pouco tempo, demonstram, por suas trajetórias e ação intelectual, como o campo cultural está repleto de iniciativas de combate ao racismo e de contraposições às relações de dominação, reconstruídas no pós-Abolição. Sob a ação destes sujeitos, definidos como intelectuais, os campos musical, teatral e educacional tornam-se importantes canais de afirmação de direitos e discussão das identidades negras. Mais ainda, contribuem para o entendimento de uma outra história do Brasil republicano e suas lutas pela cidadania.

Na Parte I, Entre músicas e festas negras, os textos de Manuela Areias Costa, Rodrigo de Azevedo Weimer, Caroline Moreira Vieira, Silvia Brügger, Gabriela Busccio e Alexandre Reis reconstituem trajetórias de intelectuais que registraram no campo musical suas histórias, memórias e lutas políticas.

Na Parte II, Política negra no teatro, os textos de Rebeca Natacha de Oliveira Pinto, Júlio Cláudio da Silva e Maria do Carmo Gregório demonstram de forma contundente o quanto o teatro, território hegemonicamente branco, se tornou palco para o combate ao racismo através da valorização de atrizes e atores negros e sua cultura escrita.

Na Parte III, Lideranças negras e mobilização racial, tomamos conhecimento da trajetória de três homens negros que, através da atuação em associações civis, imprensa e produção acadêmica, conferiram visibilidade à mobilização racial e à afirmação de direitos, nos artigos de Luara dos Santos Silva, Eric Brasil e Ana Carolina Carvalho de Almeida Nascimento.

 

Cultura Negra: Volumes 1 e 2.

 

Sobre os organizadores

Robério S. Souza – Professor titular de História do Brasil da Universidade do Estado da Bahia.

Martha Abreu – Professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Autora de diversos trabalhos sobre cultura negra, patrimônio cultural e pós-abolição.

Giovana Xavier – Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, blogueira, coordenadora do Grupo Intelectuais Negras.

Eric Brasil – Professor da Unilab. Autor de “A Corte em festa: experiências negras em carnavais do Rio de Janeiro (1879-1888)”. Pesquisa experiências negras em perspectiva transacional.

Livia Monteiro – Professora no Centro Universitário Celso Lisboa. Autora de tese sobre as festas de Congada em Minas Gerais. Produtora e roteirista do documentário “Dos grilhões aos guizos: festa de maio e as narrativas do passado”.

 

Cultura negra – v. 2 – Trajetórias e lutas de intelectuais negros
Série Pesquisas, v. 6b
Autores: Martha Abreu, Giovana Xavier, Lívia Monteiro e Eric Brasil (Orgs.)
Páginas: 356
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-228-1313-1
Ano de publicação: 2018
Idioma: Português

 

Leia o sumário e a apresentação clicando aqui.

Compre o livro clicando aqui.

Veja também: Cultura negra – v. 1 – Festas, carnavais e patrimônios negros.

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