junho 24, 2019

[LETRAS] EU, ESTAGIÁRIA (PARTE IV – FINAL)

“Onde houver professores haverá sempre alguém dando o passo além” (Içami Tiba). 

 

Leia desde o começo: Estágio I, Estágio II e Estágio III.

 

Enfim cheguei ao Estágio Supervisionado IV, o último estágio! Aqui fui invadida por um estranho sentimento de saudosismo, ao mesmo tempo que o cansaço batia forte e a vontade de terminar (no meu caso, também, o curso) era maior que tudo.

O que eu mostro a seguir são os principais registros dessa trajetória e alguns excertos do meu Relatório Final de Estágio IV, que foi feito mostrando as atividades deste semestre e também relembrando todo o aprendizado dos outros três estágios.

 

“Com a experiência adquirida nos últimos semestres e chegando ao final desta jornada, é impossível não relembrar os momentos marcantes proporcionados pelos Estágios Supervisionados I, II, III e IV. O desafio de aplicar os conhecimentos estudados em prática na sala de aula, nas diversas atividades realizadas, ficarão na memória, sem dúvida, entre os momentos mais especiais do curso de Licenciatura em Letras.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Fachada do Polo CEDERJ Itaperuna, onde fiz boa parte das atividades presenciais do meu curso de Letras.

 

“O aluno do EAD, em geral, tem poucos momentos de descontração e entrosamento com os colegas; basicamente os encontros se dão nos dias de Avaliações Presenciais (APs), em algumas tutorias e/ou visitas docentes. Esses momentos de encontro físico são mais raros quanto mais longe o aluno residir do polo em Itaperuna. No meu caso, são pouco mais de 40 km percorridos para estar no polo ou na escola base. No entanto, cada viagem dessas valeu a pena.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Minha escola querida, o Colégio Estadual Rotary <3

 

“Os quatro semestres de estágio foram realizados no Colégio Estadual Rotary, localizado no bairro Ministro Sá Tinoco, em Itaperuna-RJ. O Rotary é uma escola que, atualmente, oferece apenas turmas de Ensino Médio, nos períodos matutino e noturno. Em outras épocas, no entanto, o colégio teve turmas que iam da Classe de Alfabetização até o 3º ano do Ensino. Tenho grande carinho por esta escola, pois fui aluna da antiga 4ª série do Ensino Fundamental (hoje, 5º ano) até o terceiro ano do Ensino Médio.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Relembrando a trajetória desde o comecinho:

“No Estágio Supervisionado I tínhamos ainda uma visão bastante superficial do que era, realmente, uma escola. Adentramos à rotina de confeccionar relatórios e selecionar leituras sobre a área da educação, mas o mais importante desse estágio foi aprender a ouvir. Foram realizadas algumas entrevistas com a Diretora do Colégio Rotary, Marilda Aleixo, sobre as condições materiais e estruturais da escola. Também houve um diálogo com as funcionárias de limpeza e da cozinha, o que proporcionou um panorama atual e realista do funcionamento da unidade escolar. Ainda no Estágio I, entrevistei a professora da rede pública estadual Julia Neri, e no Estágio II pude fazer semelhante arguição com a professora regente, Joelma Pimentel. Tais conversas versaram sobre planejamento e desafios da profissão docente, informações que foram muito úteis nos Estágios III e IV, os quais são realizadas a maior quantidade de atividades práticas.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Do Estágio I eu não tenho muitas fotos, apenas das dependências da escola, pois as atividades foram, basicamente, ouvir, ouvir e ouvir (e relatar). Ainda acho graça quando lembro do susto que eu tomei ao perceber que, a partir do Estágio II, a carga de trabalho (mão na massa MESMO) seria muuuuuuito maior.

 

A professora Joelma Pimentel e eu, no Estágio II, em uma apresentação sobre Bullying em que foi utilizado o varal poético elaborado para o estágio, sobre o poeta Manoel de Barros.

 

A professora Regente, Joelma, me acompanhou por praticamente todo o estágio. Fui aluna de inglês dela no ensino fundamental e sou muito grata pelos três semestres de acompanhamento, paciência, dicas e boa vontade que ela me dedicou nos trabalhos na escola.

 

No Polo CEDERJ Itaperuna, em um dia de apresentação de uma proposta de material didático para o Estágio II — dinâmica “telefone sem fio”.

 

Falando em paciência, a tutora presencial dos estágios (todos eles!), Danielle Marreiros Valleriote, essa que me ouve gaguejar com toda atenção do mundo nesta foto, foi uma das pessoas mais incríveis que eu tive o privilégio de contar no curso de Letras. Foi ela que, com toda a calma do mundo, explicou (VÁRIAS VEZES) o que era para fazer em determinada atividade, ouviu as minhas repetidas lamúrias e foi dando aquele super apoio até o final. Digo que fui sortuda em dobro, pois tive ótimas pessoas me acompanhando na escola e no CEDERJ.

 

“Do Estágio Supervisionado II a atividade mais marcante, sem dúvida, foi a de observação das aulas. É muito diferente assistir uma aula não sendo, necessariamente, uma aluna. Para o estagiário, como é evidente, importam as técnicas utilizadas pelo professor, ou seja, o jeito dele de dar aula. Esse primeiro contato com diversas turmas e a posterior escolha da turma base nos causa aquela conhecida sensação de frio na barriga ao percebermos o estágio acontecendo de fato, na sala de aula. Outra atividade interessante foi a de comparação entre livros didáticos, a partir das duas resenhas que fizemos. Como futuros professores, é fundamental que saibamos escolher ou reconhecer o melhor material para trabalhar em sala de aula. Essa foi uma atividade que estudamos teoricamente na disciplina de Fundamentos da Educação e que pudemos realizar na prática no Estágio Supervisionado.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Em uma das aulas para o Estágio III, sobre texto dissertativo-argumentativo.

 

Em outro momento do Estágio III, apresentando no Polo CEDERJ Itaperuna a proposta de “bingo literário”.

 

“Já no Estágio Supervisionado III foi o momento da prática, no sentido mais estrito da palavra em um curso de licenciatura: dar aula! O frio na barriga, as mãos suando e trêmulas e a dificuldade de iniciar o assunto que, no plano de aula parece bastante simples, foram algumas das dificuldades que logo foram superadas com o apoio, sobretudo, da professora regente Joelma. Ela que, anos atrás, foi minha professora de Inglês, agora me ajudou a dar o tom certo das aulas, colocando a minha disposição seus muitos anos de prática docente. Nesta altura do estágio podemos entender o real significado da palavra didática.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

O Estágio III é O ESTÁGIO! É onde você sua mais que tampa de panela, mas também começa a perceber se a profisão de docente é ou não a sua praia. Sem exagero algum, o Estágio Supervisionado foi um curso de Letras dentro do curso de Letras. Isso porque você acha que sabe tudo até precisar expor as suas ideias com clareza para um grupo de pessoas não necessariamente dispostas a ouvir você falar por mais que dez minutos. O aluno da licenciatura, em geral, mesmo sabendo que está estudando para dar aula, se acostuma com as boas notas das provas das disciplinas teóricas. Estudar e tirar nota boa em prova é fichinha perto de encarar uma sala de aula!

 

“Neste semestre, em vias de finalizar o Estágio Supervisionado IV, os sentimentos de dever cumprido e de amor por esta profissão a qual desejo muito atuar, são os mais fortes. Já não vejo como difíceis ou impeditivas as  papeladas e a burocracia que envolve esse processo, pois nenhuma dificuldade chega perto da experiência e dos momentos extraordinários proporcionados pelo estágio.

 O Estágio Supervisionado é realmente o divisor de águas de um curso de licenciatura. Cumprindo os requisitos, trabalhando, escrevendo e aprendendo a cada dia o que é ser de verdade um professor, especialmente tendo como base a rede pública estadual, o aluno saberá se tem condições e se deseja, ou não, atuar como docente.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio IV)

 

Projeto de boas-vindas do Colégio Estadual Rotary, o qual pude participar logo no princípio do semestre.

 

Sala de leitura do Colégio Estadual Rotary, onde passei boa parte do meu tempo dos trabalhos de campo.

 

Na sala de leitura, com professoras e com a Diretora do Colégio Rotary, Marilda, presenteando a escola com um livro de minha autoria.

 

Em outro momento, também na sala de leitura, com a funcionária Tatiana, doando para o Colégio Rotary alguns livros do meu acervo pessoal.

 

Uma selfie com o material do plano de aula sobre o conto “Olhos D’Água”, da escritora mineira Conceição Evaristo.

 

Com o varal poético do plano de aula sobre o escritor Cruz e Sousa.

 

Varal poético (sim, eu gosto de fazer varal!) sobre o poeta Cuti.

 

Apresentação da proposta de projeto pedagógico “Racionais na Roda”, no polo CEDERJ Itaperuna.

 

E se dar aula pode ser uma das coisas mais aterrorizantes para quem não tem muita experiência em falar em público (leia-se experiência nenhuma e timidez quase extrema), aos poucos, para quem realmente tem essa vocação, começa a ser algo prazeroso como fazer uma tatuagem. Dói um pouco no começo, mas você sai da sala já pensando na próxima vez!

Outra experiência ímpar do Estágio, e aqui eu tiro todos os chapéus do mundo para os professores da rede pública, é que você, com zero experiência docente, chega na escola de salto alto, cheio de projetos bacanosos para revolucionar o ensino de língua portuguesa e literatura (no meu caso) e se depara com falta de papel, de caneta, pincel, data show… a lista é grande, então vou parar por aqui.

No Estágio IV eu já estava mais consciênte e pensando em projetos pedagógicos que não precisassem de tantos recursos da escola e que não fossem tão caros caso eu precisasse pagar (spoiler: precisei). A realidade pode ser (e é) muito mais difícil do que as pessoas ou alguns políticos gostam de falar nas redes sociais. Muitos trabalhos e projetos feitos na escola, idealizados por mim ou não, foram feitos com recursos dos professores, os mesmos que sempre me receberam de braços abertos e com um sorriso no rosto. Teve dia de eu ver professor trabalhar doente. A diretora teve Chikungunya e não tirou um único dia de repouso absoluto. Tudo isso pela escola, pelos alunos. E eles dizem que vale a pena, principalmente quando veem que um ex-aluno está bem encaminhado na vida.

 

Eu, orgulhosamente exibindo os meus Relatórios Finais de Estágio I, II, III e IV!

 

Eu tive muito mais que apenas o aprendizado formal nesses dois anos de estágio. Aprendi muito com as pessoas que eu reencontrei na escola, que eu conheci e que puderam me conhecer. A minha dica para você que chegou aqui interessado em informações extra-plataforma sobre o estágio na prática é: faça tudo o que puder fazer e faça bem feito. Pesquise, se informe, converse, pergunte e saiba ouvir. Talvez não seja possível fazer tudo o que é pedido da forma como é pedido; temos muita dificuldade, ainda, em estabelecer um modelo próprio de estágio para os alunos de educação a distância, mas pelo menos tente! Não deu para aplicar o projeto na turma? Apresente a proposta para o professor regente, ou para um grupo de professores. Converse com os alunos, com a equipe de limpeza e cozinha da escola, mostre as suas ideias, ouça o que eles têm a dizer. Você vai expandir seus horizontes!

Não acho que eu esteja plenamente preparada, pois nunca acho que estou até fazer o que tem de ser feito. Muitas vezes não acho que estava preparada mesmo depois de fazer. Mas agora só me resta esperar pela vida real, pois já treinei o bastante.

 

junho 14, 2019

[DIÁRIO] Cultura negra – v. 2 – Trajetórias e lutas de intelectuais negros

Abrangente recorte temporal e espacial, com 27 estudos que conferem visibilidade às vozes “esquecidas” e às trajetórias políticas silenciadas, revelando as múltiplas experiências socioculturais de homens e mulheres negros em seus dilemas, desafios, alegrias e dissabores cotidianos.

Em dois volumes, mostra formas variadas de viver, denunciar e enfrentar a opressão e as desigualdades raciais e de forjar laços de pertencimento e identidades ou estratégias para afirmar direitos e ampliar a cidadania antes e, sobretudo, após a abolição da escravidão. Obra que atende à reivindicação dos movimentos sociais negros do Brasil em prol do direito à memória, à história, à preservação e à valorização de seus bens culturais produzidos no contexto da diáspora.

Desde a lei 10.639, de 2003, que obriga o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, acompanha-se a revisão nos currículos escolares da valorização da história de luta dos negros no país. “Cultura negra” contribui com subsídios aos que desejam trabalhar com o tema na história e na escola. Oferece caminhos por meio de festas, carnavais, músicas, perfomances, patrimônios e trajetórias de artistas e intelectuais negros para se pensar cultura(s) negra(s) como arena de conflitos e transformação de relações de dominação, como canal de combate ao racismo e fortalecimento das identidades.

Por muitos anos estudiosos acionaram a ideia de cultura popular referindo-se às manifestações culturais e folclóricas que constituiriam a nacionalidade brasileira, quase sempre associando-a à valorização da miscigenação e à afirmação da democracia racial.

Para os autores, essas narrativas trazem armadilhas e efeitos nefastos, principalmente na negação do racismo e à invisibilização do protagonismo de pessoas negras na formação do Brasil. Este livro vai em sentido oposto: desvincula-se da ideia de cultura popular e assume a de cultura negra, como conceito dinâmico e inscrito nas práticas e experiências plurais de seus personagens.

No primeiro volume, a festa negra emerge em expressões que transformam, no tempo presente, a memória do cativeiro e a canção escrava em espetáculo, patrimônio cultural, local de conflito, de luta e afirmação da negritude.

No segundo volume, contribuindo de forma inovadora para a abertura de novos campos de investigação, as atenções são dirigidas para sujeitos sociais que, na prática, criaram novos sentidos de cultura e festas negras. Homens e mulheres, em geral esquecidos até pouco tempo, demonstram, por suas trajetórias e ação intelectual, como o campo cultural está repleto de iniciativas de combate ao racismo e de contraposições às relações de dominação, reconstruídas no pós-Abolição. Sob a ação desses sujeitos, definidos como intelectuais, os campos musical, teatral e educacional tornam-se importantes canais de afirmação de direitos e discussão das identidades negras. Mais ainda contribuem para o entendimento de uma outra história do Brasil republicano e suas lutas pela cidadania.

 

 

A Eduff me presenteou com os dois volumes da coletânea de artigos Cultura Negra, um importante apanhado histórico para que possamos repensar e atualizar as nossas leituras e também, no caso dos professores, a forma de ensinar história do Brasil,  especificamente no que concerne à valorização da luta e da cultura afro-brasileira. Falei sobre o primeiro volume com mais detalhes em outra postagem, confira clicando aqui!  Como eu já disse anteriormente e não é demais repetir, apesar da lei 10.639/2003 e dos resultados que estamos tendo com as ações afirmativas, que contribuíram para o ingresso de um contingente maior de negros nas universidades brasileiras, muito do que se reproduz no dia a dia das escolas sobre o negro no Brasil continua restrito à escravidão e/ou à abolição. Tudo o mais fica esquecido, injustamente. Mesmo no dia da consciência negra, uma data que deveria fomentar discussões sobre a cultura negra e ampliar os horizontes sobre essa temática, vemos reproduzidos os mesmos discursos sobre escravidão e abolição, ignorando o protagonismo e a luta dos negros ao longo dos séculos no nosso país.

O volume 2 centra-se nas lutas dos intelectuais negros e é dividido em 3 partes:

No segundo volume, contribuindo de forma inovadora para a abertura de novos campos de investigação, as atenções são dirigidas para sujeitos sociais que, na prática, criaram novos sentidos de cultura e festas negras. Homens e mulheres, em geral esquecidos até pouco tempo, demonstram, por suas trajetórias e ação intelectual, como o campo cultural está repleto de iniciativas de combate ao racismo e de contraposições às relações de dominação, reconstruídas no pós-Abolição. Sob a ação destes sujeitos, definidos como intelectuais, os campos musical, teatral e educacional tornam-se importantes canais de afirmação de direitos e discussão das identidades negras. Mais ainda, contribuem para o entendimento de uma outra história do Brasil republicano e suas lutas pela cidadania.

Na Parte I, Entre músicas e festas negras, os textos de Manuela Areias Costa, Rodrigo de Azevedo Weimer, Caroline Moreira Vieira, Silvia Brügger, Gabriela Busccio e Alexandre Reis reconstituem trajetórias de intelectuais que registraram no campo musical suas histórias, memórias e lutas políticas.

Na Parte II, Política negra no teatro, os textos de Rebeca Natacha de Oliveira Pinto, Júlio Cláudio da Silva e Maria do Carmo Gregório demonstram de forma contundente o quanto o teatro, território hegemonicamente branco, se tornou palco para o combate ao racismo através da valorização de atrizes e atores negros e sua cultura escrita.

Na Parte III, Lideranças negras e mobilização racial, tomamos conhecimento da trajetória de três homens negros que, através da atuação em associações civis, imprensa e produção acadêmica, conferiram visibilidade à mobilização racial e à afirmação de direitos, nos artigos de Luara dos Santos Silva, Eric Brasil e Ana Carolina Carvalho de Almeida Nascimento.

 

Cultura Negra: Volumes 1 e 2.

 

Sobre os organizadores

Robério S. Souza – Professor titular de História do Brasil da Universidade do Estado da Bahia.

Martha Abreu – Professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Autora de diversos trabalhos sobre cultura negra, patrimônio cultural e pós-abolição.

Giovana Xavier – Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, blogueira, coordenadora do Grupo Intelectuais Negras.

Eric Brasil – Professor da Unilab. Autor de “A Corte em festa: experiências negras em carnavais do Rio de Janeiro (1879-1888)”. Pesquisa experiências negras em perspectiva transacional.

Livia Monteiro – Professora no Centro Universitário Celso Lisboa. Autora de tese sobre as festas de Congada em Minas Gerais. Produtora e roteirista do documentário “Dos grilhões aos guizos: festa de maio e as narrativas do passado”.

 

Cultura negra – v. 2 – Trajetórias e lutas de intelectuais negros
Série Pesquisas, v. 6b
Autores: Martha Abreu, Giovana Xavier, Lívia Monteiro e Eric Brasil (Orgs.)
Páginas: 356
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-228-1313-1
Ano de publicação: 2018
Idioma: Português

 

Leia o sumário e a apresentação clicando aqui.

Compre o livro clicando aqui.

Veja também: Cultura negra – v. 1 – Festas, carnavais e patrimônios negros.

maio 06, 2019

[RESENHA] EU SOU MALALA, DE MALALA YOUSAFZAI

Sinopse: “Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz. Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã. Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente. “Sentar numa cadeira, ler meus livros rodeada pelos meus amigos é um direito meu”, ela diz numa das últimas passagens do livro. A história de Malala renova a crença na capacidade de uma pessoa de inspirar e modificar o mundo.”

 

Esta resenha foi publicada originalmente no dia 21 de janeiro de 2016 no site Minas Nerds, de minha autoria com edição e revisão de Camila Fernandes. Em tempos como os que estamos vivendo, acho importante e extremamente necessário fazer reverberar vozes que transmitem esperança, vozes de luta pela paz e por uma educação para todos.

***

 

Malala foi baleada pelo Talibã em nove de outubro de 2012, quando voltava da escola no vale do Swat, Paquistão. Na época, tinha 14 anos e muitos sonhos. Felizmente, o Talibã não conseguiu matar nem a menina nem seus sonhos; pelo contrário, fez com que eles tomassem uma dimensão global. No livro Eu Sou Malala: A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013, Malala conta a sua história a partir da pergunta feita pelo terrorista que a baleou: quem é Malala?

A jovem foi perseguida pelo Talibã por ser a menina que queria estudar e também porque seu pai era um grande defensor e ativista pela educação para todas as crianças. Os terroristas queriam manter as mulheres em burcas e dentro de suas casas. Segundo a crença local, aos 14 anos uma moça já é considerada adulta.

Os pais de Malala têm um bom relacionamento, baseado em amor e respeito. O pai, Ziauddin Yusafzai, é um personagem chave na vida da jovem e em sua história como ativista pela educação. Diferente de boa parte dos homens da região, como ela mesma conta, seu pai não despreza as mulheres e não as considera inferiores. Sempre tratou a esposa com respeito e não se indignou quando Malala nasceu, como normalmente acontece no nascimento de meninas. Pelo contrário, ficou muito feliz com o nascimento da filha. Pode parecer que, em boa parte do livro, a história que estamos lendo é a do pai de Malala, e não a dela. Contudo, levando com consideração que aquela é uma sociedade bastante excludente para as mulheres, saber sobre o pai dela é fundamental para entender quem é Malala.

 

“No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu os parabéns a meu pai. (…) Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar.”

 

A mãe, Tor Pekai Yousafzai, começou a estudar aos seis anos, mas não prosseguiu com os estudos. Gostava da escola, mas considerava um desperdício estudar para depois ficar restrita ao espaço doméstico e ao cuidado dos filhos. Acabou continuando analfabeta e se arrependeria de ter largado os estudos depois de se casar com Ziauddin, muito inteligente e grande amante de poesia. Contudo, tanto Malala quanto o seu pai enfatizam que Tor tem um outro tipo de inteligência, voltada para relacionamentos e pessoas. Seu marido constantemente lhe pede conselhos e valoriza muito a sua opinião.

 

“Enquanto os homens e os meninos podem andar livremente pela cidade, minha mãe não tinha autorização para sair de casa sem que um parente do sexo masculino a acompanhasse, mesmo que esse parente fosse um garotinho de cinco anos de idade. É a tradição.”

 

Malala conta que sob o regime do General Zia, a partir de 1947, a situação das mulheres no Paquistão ficou ainda mais complicada. Antes disso, as questões se baseavam em restringir a mulher ao espaço doméstico, sem condições de igualdade com os homens, mas com um mínimo de respeito. Depois, a forte islamização do Paquistão, em oposição ao laicismo, reduziu quase a nada o valor das mulheres. Malala conta que o testemunho de uma mulher equivalia à metade do testemunho de um homem, por exemplo. As mulheres não conseguiam fazer nada sem a autorização de um homem.

A leitura de Eu Sou Malala também nos permite conhecer, com uma visão regionalizada, o início das tensões causadas pelos terroristas, assunto muito em voga em razão dos últimos ataques promovidos pelo ISIS. Por meio da experiência de Ziauddin, que se aprofundou nos estudos do islã quando jovem, tornando-se quase um fanático, entendemos como é feita a doutrinação dos meninos e quais governos financiaram e fortaleceram as ditaduras daquelas áreas, em especial do Paquistão e Afeganistão. Felizmente, o pai de Malala encontrou um bom lugar entre dois extremos, o secularismo socialista e o islã militante.

Malala tem muito orgulho de sua terra e de seus costumes, mas não fecha os olhos para as injustiças cometidas contra as mulheres, justificadas pela tradição. Ela conta casos de machismo envolvendo pessoas próximas e também do estranhamento causado por sua personalidade e criação. Ela sempre foi protegida pelo pai, mas muitas outras meninas não. Ziauddin, como educador e dono da escola onde Malala estudava, não só acreditava na educação como elemento fundamental para a transformação da realidade das pessoas no Paquistão, como defendia o direito da filha batalhar por um futuro diferente daquele sacramentado para as mulheres e meninos pobres do vale do Swat.

 

“Eu lia livros como Ana Karênina, de Leon Tolstói, e os romances de Jane Austen. Confiava nas palavras de meu pai: Malala é livre como um pássaro. Quando ouvia as histórias sobre as atrocidades que aconteciam no Afeganistão, eu celebrava o Swat. Aqui uma menina pode ir à escola, eu dizia. Mas o Talibã estava logo ali, na esquina, e era pachtum* como nós. Para mim, o vale era um lugar ensolarado. Não pude ver as nuvens se juntando atrás das montanhas. Meu pai costumava falar: Vou proteger sua liberdade, Malala. Pode continuar sonhando.”

 

“Em fins de 2008, cerca de quatrocentas escolas haviam sido destruídas pelo Talibã.”

 

“Papai argumentava que a única coisa que sempre quis foi criar uma escola para ensinar as crianças. Não nos restara alternativa, a não ser o envolvimento em política e em campanhas pela educação. Minha única ambição, ele dizia, é educar meus filhos e minha nação até onde eu for capaz. Mas, quando metade dos nossos líderes mente e a outra metade negocia com o Talibã, não há outra saída. Temos de nos manifestar.”

 

Malala reafirma sua fé no islã em várias passagens do livro. Explica que o Corão não diz que as mulheres devem andar de burca ou deixar de receber educação, por exemplo. Pelo contrário, segundo o seu entendimento da religião, todas as criaturas devem buscar o conhecimento. O Talibã seria um grupo que interpreta o islã de forma errada, assim como vários grupos fundamentalistas de várias religiões ao redor do mundo. Isso, pessoalmente, me entristece. O fato de livros tidos como sagrados, escritos há milênios, servirem de norma de conduta para pessoas que vivem hoje é absurdo. Creio que seria uma boa ideia o lançamento de uma edição revista e atualizada dos livros sagrados para que se eliminasse, de uma vez por todas, a possibilidade de má interpretação das escrituras, que agride e mata tanta gente ao redor do mundo.

Malala, felizmente, fez e faz a sua parte, lutando para que o direito pela educação seja garantido também às meninas. Foi enriquecedor conhecer uma realidade tão diferente da nossa pelos olhos de uma mulher. Obrigada, Malala, por contar a sua história.

 

*Pachtum ou pastó é um grupo etnolinguístico que habita algumas regiões do Afeganistão do Paquistão.

 

 

 

Título: Eu Sou Malala: A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã

Autoras: Malala Yousafzai e Cristina Lamb

Tradução: George Schlesinger, Luciano Vieira Machado, Denise Bottmann e Caroline Chang

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 360

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