maio 22, 2020

[RESENHA] VAMOS COMPRAR UM POETA, DE AFONSO CRUZ

Sinopse: “Numa sociedade dominada pelo materialismo, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. É nesse cenário, onde cada espaço tem um patrocinador, cada passo é medido com exatidão, e até a troca dos afetos é contabilizada, que uma menina pede ao pai um poeta. Com humor e leveza, Afonso Cruz conduz uma narrativa para fazer pensar sobre o utilitarismo e o papel da arte em um mundo onde tudo precisa ser mensurado.”

 

Imagine um mundo em que o Deus por quem mais se clama é o dinheiro. Imagine um mundo em que as nossas roupas, móveis, eletrodomésticos, sapatos (…) fossem patrocinadas por empresas. Imagine um mundo em que o nosso pensamento e ações sejam puramente numéricos. Imagine que até as nossas opiniões sejam algum tipo de publicidade (ou, para falar a linguagem da internet, #publi).

Fala sério: não é nem um pouquinho difícil de imaginar. Em maior ou menor medida, esse é o nosso mundo, o mundo em que vivemos.

No livro “Vamos comprar um poeta”, do escritor português Afonso Cruz, publicado no BR pela Dublinense, essa realidade “distópica” é mostrada a partir de uma família. Aqui os artistas são como animais de estimação, podem ser, inclusive, comprados em lojas. E a menina pede ao pai que lhe compre um poeta. E o poeta vai pingando seus versos aqui e ali, transformando aquelas pessoas. Cativando a todos nós.

 

“A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.

Um poeta é como quem sai do banho e passa a mão pelo espelho embaciado para descobrir o seu próprio rosto.” (p. 76)⠀


O estagiário da @dublinense (ver Instagram, especialmente os stories) tem razão quando fala apaixonadamente sobre Vamos comprar um poeta: esse é o tipo de livro que a gente tem vontade de comprar aos montes e colocar debaixo da porta de todo mundo. Lindo, delicado, comovente. Já está na minha estante dos favoritos (e presenteáveis).

 

Sobre o autor:
Afonso Cruz nasceu em 1971, na Figueira da Foz e, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Publicou mais de trinta livros, entre romances, teatro, não ficção, ensaio, álbuns ilustrados, novelas juvenis e ainda uma enciclopédia inventada, que conta com sete volumes. Colabora regularmente para jornais e revistas, e recebeu vários prêmios pelos seus livros, cujos direitos estão vendidos para vinte idiomas.

 

 

Título: Vamos comprar um poeta (Coleção Gira)

Autor: Afonso Cruz

Editora: Dublinense

Páginas: 96

Compre em e-book na Amazon ou na Livraria Dublinense, clicando aqui.

 

 

abril 05, 2020

[RESENHA] A CASA NA RUA MANGO, DE SANDRA CISNEROS

Sinopse: “Esperanza tem um nome mexicano, origens mexicanas, aparência mexicana, mas nasceu nos Estados Unidos e mora num decadente bairro de Chicago. Nesse contraste cultural, ela observa a vida dos vizinhos e das amigas para aprender a construir sua própria identidade. Em fragmentos do cotidiano, a autora de A casa na Rua Mango nos apresenta um panorama do universo de Esperanza e costura uma linha que vai da infância envergonhada da menina à tomada de consciência e início do amadurecimento. Um romance ao mesmo tempo leve e intenso, no qual as vozes latinas reverberam com a força da prosa singular de Sandra Cisneros.”

 

Gosto de pensar que A casa na Rua Mango, de Sandra Cisneros, é uma bela colcha de retalhos. Como se fosse uma novela de contos em que cada pedaço da narrativa é costurado, mostrando em fragmentos de memórias, a vida da jovem Esperanza e de sua vizinhança. ⠀

Vale dizer que não se trata de uma vizinhança qualquer, são pessoas de origem hispânica (mexicana) vivendo nos Estados Unidos. Esperanza tenta aprender ou apreender uma identidade sua com o “seu povo”. Mas é difícil pertencer a uma espécie de “terceiro lugar”: nem ao país de origem, nem para onde emigrou. ⠀

“Quando ela para e pensa na língua do pai, ela sabe que filhos e filhas não saem da casa dos pais até que se casem. Quando ela pensa em inglês, ela sabe que deveria ter vivido por conta própria desde os dezoito.”


Os conceitos de deslocamento e diáspora na literatura tratam desse “terceiro lugar”, dessa experiência de ser múltiplo (falando de forma bem geral, tá?). O livro de Cisneros é um ótimo representante desse tema e seus retalhos são extremamente profundos e comoventes. O próprio nome da protagonista, “Esperanza”, sugere, além do próprio relato que ela faz por todo o livro, que ela está sempre a espera de algo. Em inglês, “Hope”, não teria uma conotação tão melancólica… ⠀

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A casa na Rua Mango tem sido usado nas escolas norte-americanas, para além da simples leitura, como uma forma de entender a realidade dos “chicanos” (norte-americanos de ascendência latino-americana). Pesquisando aqui e ali, a partir da dica do sempre simpático estagiário da Dublinense, Eduardo Krause, encontrei vários planos de aula e estratégias didáticas para trabalhar em sala de aula. Nesse site tem um plano de aula com ilustrações e resumo da obra, ideais para séries equivalentes ao nosso ensino fundamental. Temos pouca coisa no momento em português sobre Cisneros ou A casa na Rua Mango, mas encontrei esse artigo de Raimundo Expedito dos Santos Sousa e Ederson Luís Silveira que vale muito a leitura.

“Quando você for embora, você precisa lembrar de voltar pelos outros. Um círculo, entende? Você sempre será a Esperanza. Você sempre será a Rua Mango. Você não pode apagar o que sabe. Não pode esquecer quem é.”


A casa na Rua Mango está em pré-venda no site da editora Dublinense, com tradução da Natália Borges Polesso, mas eu pude ler o e-book previamente graças a ação super bacana da editora, de enviar o e-book do livro (+ outro e-book surpresa) nas compras no site deles. Para tanto, basta, além de, obviamente comprar no site da Dublinense, mandar um alô no direct da editora no Instagram. Garantia de boa leitura e bom papo, pode confiar!

Ter passado pela Rua Mango me trouxe sensações semelhantes as que tive quando estive na Rua Aribau, pelas mãos de Carmen Laforet. Nas duas narrativas senti esse desejo forte da busca por uma identidade própria pelas protagonistas ao passo que o meio em que elas estavam inseridas praticamente as obrigava a querer e a buscar ser algo diferente. Foram duas estadias que vou guardar bem aqui, no fundo do peito. ❤️

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Sobre a autora:
Sandra Cisneros nasceu em 1954, em Chicago, e cresceu entre o México e os Estados Unidos. Com talento para a escrita desde muito cedo, fez faculdade de Artes e cursou o célebre programa de Escrita Criativa na Universidade de Iowa, onde percebeu que seu meio social e cultural poderiam servir de inspiração para a sua literatura. Retratando a vizinhança, as pessoas e a pobreza que conheceu, Sandra escreveu mais de uma dúzia de livros, com destaque para A casa na Rua Mango, que vendeu mais de seis milhões de exemplares e foi traduzido para mais de vinte idiomas.

Título: A casa na Rua Mango (Publicação original: Estados Unidos, 1983)

Autora: Sandra Cisneros

Tradução: Natalia Borges Polesso

Editora: Dublinense

Páginas: 144

Compre no site da Dublinense: A casa na Rua Mango

Também disponível para compra na Amazon: A casa na Rua Mango

março 09, 2020

[RESENHA] PASTA SENZA VINO, DE EDUARDO KRAUSE

Sinopse: “Na Florença dos anos 60, o jovem Antonello Bianchi é um italiano indolente, machista e metido a conquistador. Sua única ocupação é atrair clientes para o restaurante em que trabalha (ou para si, quando for una bella donna). Essa vida de aventuras amorosas sofre uma virada quando ele conhece uma turista carioca, que o leva a atravessar o oceano para compreender o próprio coração. Em tom leve e envolvente, Eduardo Krause apresenta um romance com sabor e graça, os ingredientes da boa literatura.”

 

Não leia se estiver com fome. Quando comprar este livro, compre, também, uma garrafa do melhor vinho, o seu favorito. Pronto! Assim você já pode ser deliciar com Pasta Senza Vino, de Eduardo Krause (Terceiro Selo, 2014).

Ao provar as primeiras páginas você será transportado (em maior parte) para as décadas de 1960 e comecinho de 1970, numa ponte irresistível entre Itália e Brasil. Adianto que leva pouco tempo até estarmos irremediavelmente apaixonados por Antonello, o charmoso protagonista e narrador deste romance.

Eu li Pasta Senza Vino em um único dia. O plano era ler só um pouquinho numa sexta-feira e terminar no final de semana, mas estrutura estilo folhetim — com ganchos irresistíveis entre um capítulo e outro —, tornou impossível que eu me afastasse por muito tempo deste livro. Foi como se eu estivesse embevecida por todos aqueles aromas que emanavam das páginas. E, é claro, pelo vinho!

Tony trabalha em um restaurante; sua atividade principal é conquistar clientes e assim manter o estabelecimento sempre cheio. Obviamente, esse é um ofício bastante estratégico para um conquistador profissional como ele, que está sempre dando uma escapadinha do trabalho para se encontrar com uma bella donna. A arte da conquista, entretanto, não é a única que ele domina: a culinária italiana, que ele traz de berço, é algo extremamente importante tanto na vida do protagonista, quanto para o livro. Na verdade, a culinária, ou seja, o gesto de amor em preparar ou sugerir uma boa comida para alguém é, certamente, uma espécie de coprotagonista de Pasta Senza Vino.

Antonello está “de boas” conquistando clientes para o Giubbe Rosse e bellas donnas para si próprio (não necessariamente nesta ordem), quando conhece uma brasileira. Aline viaja de férias para Florença e acaba se envolvendo com Tony, mas não cai na lábia do italiano tão fácil quanto ele está acostumado. Os dois se apaixonam, é claro, mas (não tive como fugir do clichê) há um oceano que os separa… A partir daí, Tony empreende uma viagem (em vários sentidos) em busca do amor, da realização profissional e, o mais importante: em busca de conhecer a si mesmo.

 

“Pasta senza vino è come um bacio senza amore. Massa sem vinho é como um beijo sem amor.”

 

Confesso que o adjetivo “machista”, designado a Antonello na sinopse, em um primeiro momento quase me desestimulou a ler. Pensei que o personagem seria alguém muito difícil de gostar, um embuste de marca maior, na pior acepção que este termo tem atualmente. Mas Tony me ganhou logo nas primeiras páginas e tudo o que eu consegui pensar dele é que sim, ele é aquele machista clássico (anos 1960, galera), mas é tão divertido e o romance é tão gostoso de ler, com tanta riqueza de sabores, lugares, referências literárias, musicais, cinéfilas… Fiquei com vergonha pela resistência inicial que tive por uma única palavra. Logo eu, que tenho histórico em gostar, NA FICÇÃO, de homens não muito certinhos (Capitão Rodrigo, Kurt Seyit, Nino Sarratore etc.). Literariamente falando, esses personagens são muito mais interessantes!

Pasta Senza Vino é um romance sensacional. Bem escrito, bem dosado (é divertido, tem romance, tem drama, tem realismo), é uma ótima pedida para qualquer hora do dia. Só recomendo (mais uma vez, sinceramente) que você não esteja com fome ao ler este livro. E, ah: vinho sempre!

 

 

 

Título: Pasta Senza Vino

Autor: Eduardo Krause

Editora: Terceiro Selo (Dublinense)

Páginas: 288

Compre na Amazon (E-book no Kindle Unlimited) clicando aqui, ou diretamente na Livraria Dublinense.

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