abril 05, 2020

[RESENHA] A CASA NA RUA MANGO, DE SANDRA CISNEROS

Sinopse: “Esperanza tem um nome mexicano, origens mexicanas, aparência mexicana, mas nasceu nos Estados Unidos e mora num decadente bairro de Chicago. Nesse contraste cultural, ela observa a vida dos vizinhos e das amigas para aprender a construir sua própria identidade. Em fragmentos do cotidiano, a autora de A casa na Rua Mango nos apresenta um panorama do universo de Esperanza e costura uma linha que vai da infância envergonhada da menina à tomada de consciência e início do amadurecimento. Um romance ao mesmo tempo leve e intenso, no qual as vozes latinas reverberam com a força da prosa singular de Sandra Cisneros.”

 

Gosto de pensar que A casa na Rua Mango, de Sandra Cisneros, é uma bela colcha de retalhos. Como se fosse uma novela de contos em que cada pedaço da narrativa é costurado, mostrando em fragmentos de memórias, a vida da jovem Esperanza e de sua vizinhança. ⠀

Vale dizer que não se trata de uma vizinhança qualquer, são pessoas de origem hispânica (mexicana) vivendo nos Estados Unidos. Esperanza tenta aprender ou apreender uma identidade sua com o “seu povo”. Mas é difícil pertencer a uma espécie de “terceiro lugar”: nem ao país de origem, nem para onde emigrou. ⠀

“Quando ela para e pensa na língua do pai, ela sabe que filhos e filhas não saem da casa dos pais até que se casem. Quando ela pensa em inglês, ela sabe que deveria ter vivido por conta própria desde os dezoito.”


Os conceitos de deslocamento e diáspora na literatura tratam desse “terceiro lugar”, dessa experiência de ser múltiplo (falando de forma bem geral, tá?). O livro de Cisneros é um ótimo representante desse tema e seus retalhos são extremamente profundos e comoventes. O próprio nome da protagonista, “Esperanza”, sugere, além do próprio relato que ela faz por todo o livro, que ela está sempre a espera de algo. Em inglês, “Hope”, não teria uma conotação tão melancólica… ⠀

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A casa na Rua Mango tem sido usado nas escolas norte-americanas, para além da simples leitura, como uma forma de entender a realidade dos “chicanos” (norte-americanos de ascendência latino-americana). Pesquisando aqui e ali, a partir da dica do sempre simpático estagiário da Dublinense, Eduardo Krause, encontrei vários planos de aula e estratégias didáticas para trabalhar em sala de aula. Nesse site tem um plano de aula com ilustrações e resumo da obra, ideais para séries equivalentes ao nosso ensino fundamental. Temos pouca coisa no momento em português sobre Cisneros ou A casa na Rua Mango, mas encontrei esse artigo de Raimundo Expedito dos Santos Sousa e Ederson Luís Silveira que vale muito a leitura.

“Quando você for embora, você precisa lembrar de voltar pelos outros. Um círculo, entende? Você sempre será a Esperanza. Você sempre será a Rua Mango. Você não pode apagar o que sabe. Não pode esquecer quem é.”


A casa na Rua Mango está em pré-venda no site da editora Dublinense, com tradução da Natália Borges Polesso, mas eu pude ler o e-book previamente graças a ação super bacana da editora, de enviar o e-book do livro (+ outro e-book surpresa) nas compras no site deles. Para tanto, basta, além de, obviamente comprar no site da Dublinense, mandar um alô no direct da editora no Instagram. Garantia de boa leitura e bom papo, pode confiar!

Ter passado pela Rua Mango me trouxe sensações semelhantes as que tive quando estive na Rua Aribau, pelas mãos de Carmen Laforet. Nas duas narrativas senti esse desejo forte da busca por uma identidade própria pelas protagonistas ao passo que o meio em que elas estavam inseridas praticamente as obrigava a querer e a buscar ser algo diferente. Foram duas estadias que vou guardar bem aqui, no fundo do peito. ❤️

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Sobre a autora:
Sandra Cisneros nasceu em 1954, em Chicago, e cresceu entre o México e os Estados Unidos. Com talento para a escrita desde muito cedo, fez faculdade de Artes e cursou o célebre programa de Escrita Criativa na Universidade de Iowa, onde percebeu que seu meio social e cultural poderiam servir de inspiração para a sua literatura. Retratando a vizinhança, as pessoas e a pobreza que conheceu, Sandra escreveu mais de uma dúzia de livros, com destaque para A casa na Rua Mango, que vendeu mais de seis milhões de exemplares e foi traduzido para mais de vinte idiomas.

Título: A casa na Rua Mango (Publicação original: Estados Unidos, 1983)

Autora: Sandra Cisneros

Tradução: Natalia Borges Polesso

Editora: Dublinense

Páginas: 144

Compre no site da Dublinense: A casa na Rua Mango

Também disponível para compra na Amazon: A casa na Rua Mango

setembro 24, 2019

[RESENHA] INTÉRPRETE DE MALES, DE JHUMPA LAHIRI

Sinopse: “Celebrando vinte anos de lançamento, Intérprete de males continua mais relevante do que nunca, abarcando todas as consequências possíveis de um mundo globalizado. Jhumpa Lahiri nos toma pela mão e, a cada história, nos apresenta a personagens que se encontram no meio do caminho de um fio condutor identitário: em meio a deslocamentos e realocações, quantas origens e culturas podem habitar uma pessoa?”

 

“Intérprete de males é a prova de que um livro merece uma alegre festa de aniversário não somente por ter testemunhado naquele momento uma condição humana significativa, mas por fazê-lo com sensibilidade, inteligência e arte refinada.” (do prefácio de Domênico Starnone)

 

Esplêndido. É o que foi, para mim, o livro Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri (TAG/Biblioteca Azul, setembro-2019). Quem leu, sabe que o adjetivo não foi escolhido por acaso: é o que a centenária Sra. Croft acha sobre o homem ter posto uma bandeira (americana) na lua, retirado do último conto da coletânea, “O terceiro e último continente“.

Interprete de males é esplêndido por vários motivos. Seja pelos os personagens cativantes, trama envolvente ou pelos finais arrebatadores, é um livro de contos — nove, no total — em que todas as histórias são boas por uma ou outra característica. É difícil escolher um conto favorito, ou um personagem mais marcante. Desde a primeira narrativa, somos imersos no peso da intercultura: indianos ou descendentes que estão à margem do pertencimento, entre países completamente distintos, mas dos quais carregam características que formam o que eles são. Interprete de males, ganhador do Pulitzer no ano 2000, é um livro sobre imigrantes, mas não é só isso. É um livro sobre cotidiano, sobre o que nos torna aquilo que somos.

Jhumpa Lahiri é filha de indianos, nascida em Londres, naturalizada americana. Toda essa trajetória, ao meu ver, reflete em muita leveza e em muita verdade nos personagens deste livro. Mesmo nas tramas mais dramáticas, não há exagero. Todos os atos dos personagens e desfechos dos contos são extremamente convincentes. Gosto de imaginar o quanto de autobiográfico tem um livro e Intérprete de males aguça ainda mais esse tipo de curiosidade.

 

“Embora não o visse havia meses, só então senti a ausência do sr. Pirzada. Só então, erguendo meu copo de água em nome dele, foi que entendi como era sentir falta de alguém que estava a tantos quilômetros e horas de distância, assim como ele havia sentido falta da esposa e das filhas durante tantos meses.” (Quando o sr. Pirzada vinha jantar, p. 52)

 

“— Essa palavra: ‘sexy’. O que quer dizer?

(…)

— Quer dizer amar alguém que a gente não conhece.” (Sexy, p. 117)

 

“Sempre que ele desanima, digo que, se eu sobrevivi em três continentes, não há obstáculos que ele não possa superar.” (O terceiro e último continente, p. 207)

 

 

A edição da TAG teve como curadora a escritora Rupi Kaur, indiana radicada no Canadá, autora do maravilhoso Outros jeitos de usar a boca:

“Quando li Interprete de Males eu me senti vista, ouvida, entendida. Eu estava na beira da cadeira lendo cada história porque não tinha ideia do que aconteceria a seguir. Cada história tem uma reviravolta emocional e destruidora. É bem mágico. Jhumpa é maravilhosa em criar histórias lindamente dolorosas que tomam essas reviravoltas da mesma forma como acontece na vida real. Frequentemente estamos em situações em que as nossas mentes definem que os resultados vão ser de uma certa forma, mas raramente isso acontece de verdade. É assim que essas histórias fluem. Sirva uma taça de vinho e absorva cada frase.”

 

 

Kit TAG Curadoria de setembro-2019.

 

Uma coisa interessante na leitura do conto que dá nome ao livro é que ele explica não só a profissão de um dos personagens, mas, de certa forma, explica também o que faz Jhumpa Lahiri para nós leitores, especialmente os que não têm essa vivência de se estabelecer tão longe de sua cultura. Embora diferentes, os contos funcionam muito bem juntos e o título Intérprete de males acaba por traduzir e sintetizar cada um deles.

 

 

 

Título: Intérprete de males

Autora: Jhumpa Lahiri

Tradução: José Rubens Siqueira

Prefácio: Domenico Starnone

Editora: TAG/Biblioteca Azul

Páginas: 208

Ouça a playlist no Spotify clicando aqui.

 

Para comprar em outra edição, clique aqui.

 

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