dezembro 28, 2016

[RESENHA] A VERDADE É UMA CAVERNA NAS MONTANHAS NEGRAS, DE NEIL GAIMAN

Sinopse: “Publicada incialmente em uma coletânea de contos do autor, A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras é uma história fascinante sobre família, a busca por um tesouro e a descoberta de um mundo invisível. Em uma colaboração inédita, os personagens e as paisagens de Gaiman ganham forma com um traçado sombrio e impreciso do artista Eddie Campbell, e o resultado é uma obra que passeia entre o livro ilustrado e o graphic novel, desafiando os limites entre texto e imagem em uma explosão de cor e sombra, memória e arrependimento, vingança e, principalmente, amor.”

 

A Verdade é uma caverna nas montanhas negras, é um conto de Neil Gaiman, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca em 2015. É uma história densa sobre família, a busca por um tesouro escondido, vingança e a descoberta de um mundo invisível. O livro é fruto do trabalho de Gaiman e do ilustrador Eddie Campbell, que transformou a história em um misto de graphic novel e prosa ilustrada.

Neil Gaiman foi convidado para ler um conto em um festival no Sydney Opera House e indicou Campbell para fazer as ilustrações. Em agosto de 2010 a história foi apresentada para uma grande plateia, com o acompanhamento do Quarteto de Cordas FourPlay e foi um sucesso. A verdade é uma caverna nas montanhas negras, publicado originalmente na antologia Stories, recebeu os prêmios Locus e Shirley Jackson, ambos na categoria melhor conto.

“Pouco depois de me apaixonar pela ilha de Skye, descobri os livros da falecida Otta F. Swire, obras que contam lendas e a história das Hébridas Interiores e Exteriores. Esta história começou com uma frase de um dos livros da autora, e cresceu ao seu redor.” (Neil Gaiman)

 

Essa é uma história de leitura rápida não só por ser um conto, mas por ser um conto de Neil Gaiman, autor que consegue nos prender e nos encantar sejam em 10, 20 ou 500 páginas. Dificilmente uma pessoa conseguirá ler o início desta história e deixar o livro de lado:

“Indaga se sou capaz de me perdoar? Posso me perdoar por muitas coisas. Por onde o deixei. Por aquilo que fiz.” (p. 7)

 

O anão de “A verdade é uma caverna nas montanhas negras”.

 

Em A verdade é uma caverna nas montanhas negras, somos transportados para a nebulosa Escócia, onde um anão procura por Calum MacInnes para que este o acompanhe até a caverna na Ilha das Brumas. Chega sem se identificar, mas oferece um pagamento a Calum, que aceita prontamente.

A caverna era amaldiçoada e eles não tinham certeza se encontrariam a Ilha das Brumas, pois o lugar guardava certa magia em si. Os caminhos que os levariam até a caverna eram repletos de desconfianças e pequenas revelações sobre a vida e a personalidade de Colum e do anão.

“- Às vezes acho que a verdade é um lugar. Para mim, é como uma cidade: pode haver uma centena de estradas, uma centena de caminhos que, no fim, nos levarão ao mesmo lugar. Não importa de onde venhamos. Se seguirmos na direção da verdade, vamos alcançá-la, independentemente do rumo que tomarmos.

Calum MacInnes olhou para mim e nada disse. Então:

– Está enganado. A verdade é uma caverna nas montanhas negras. Há somente um caminho até lá, e um caminho apenas. Um caminho árduo e traiçoeiro. E, se seguir na direção errada, vai morrer sozinho na montanha.” (p. 27)

 

Gaiman nos envolve em sua história fazendo-nos acreditar que ela seguiria para um desfecho previsível, e quando estamos quase certos disso, uma grande revelação é feita, deixando-nos de queixo caído. O final desse conto é ótimo, um dos melhores que eu já li. E não perde a qualidade em uma releitura, muito pelo contrário. Recomendo!

 

“As montanhas negras são as Black Cuillins na ilha de Skye, também conhecida como ilha alada, ou talvez ilha das brumas. Dizem que há uma caverna cheia de ouro por lá, e que aqueles que a procuram para levar parte de seu ouro se tornam um pouco mais malignos…” (Neil Gaiman)

 

 

 

Título: A verdade é uma caverna nas montanhas negras
Autor: Neil Gaiman
Ilustrações: Eddie Campbell
Tradução: Augusto Calil
Editora: Intrínseca
Páginas: 80

 

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setembro 22, 2016

[RESENHA] A MARCA NA PAREDE, CONTO DE VIRGINIA WOOLF

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Virginia Woolf (1882-1941) é uma escritora bastante conhecida por romances como Mrs. Dalloway, Orlando, Rumo ao Farol, e também por seus ensaios, muitos com temática feminista. Mas uma faceta que, para muitos, ainda pode ser desconhecida, é o talento da autora também na escrita de contos. Quando a rotina fica meio apertada, mas não queremos deixar de ler alguma coisa, uma boa opção é embarcar em histórias curtas, que podem proporcionar leituras tão agradáveis quanto os grandes romances.

O título foi indicação da Francine Ramos, do blog Livro e Café, que está promovendo o Clube de Leitura de Virginia Woolf no facebook. Ainda que não tenha sido possível, para mim, acompanhar o cronograma de leituras, o Clube é uma boa dica para quem deseja conhecer mais sobre Virginia Woolf e suas obras.

A Marca na Parede foi escrito entre 1917 e 1921, período em que o mundo era palco da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nele, a partir de uma simples marca na parede, embarcamos em uma jornada mental sobre tudo o que aquela marca poderia significar.

 

Foi em meados de janeiro deste ano que olhei pela primeira vez para cima e vi a marca na parede. Para fixar uma data é preciso lembrar o que se viu. Por isso eu penso agora no fogo; no inalterável véu de luz amarela sobre a página do meu livro; nos três crisântemos na jarra de vidro redonda na lareira. Sim, deve ter sido no inverno, e tínhamos acabado de terminar o nosso chá, pois lembro que eu estava fumando quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez.” (p. 11)

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Além da técnica do fluxo de consciência, muito marcante nas obras da autora, também é uma felicidade ler ecos do discurso feminista tão bem elaborado e defendido na produção literária de Woolf.

 

Quão chocante, no entanto quão maravilhoso, descobrir que essas coisas verdadeiras, os almoços de domingo, os passeios de domingo, as casas de campo e as toalhas de mesa, não eram afinal tão verdadeiras assim, sendo de fato meio fantasmais, e que a danação que se abatia sobre quem não acreditava nelas era apenas um impressão de liberdade ilegítima. O que agora toma o lugar dessas coisas, pergunto-me, dessas coisas importantes e sérias? Talvez os homens, caso você seja mulher; o ponto de vista masculino que governa nossas vidas, que fixa o padrão, que estabelece a Ordem de Precedência de Whitaker, a qual desde a guerra se tornou meio fantasma, suponho eu, para muitos homens e mulheres, e que em breve, é lícito esperar, será motivo de riso na lata de lixo para onde vão os fantasmas, os bufês de mogno e as gravuras de Landseer, deuses e demônios, o Inferno e assim por diante, deixando-nos a todos uma impressão intoxicante de liberdade ilegítima – se existe liberdade…” (p. 18)

 

A Marca na Parede é um conto curto, porém muito bem escrito e trabalhado. É uma viagem na mente desta autora maravilhosa! Sim, creio que na mente dela mesmo, pois não há descrição de nomes dos personagens neste conto. Talvez seja um eu lírico, mas prefiro pensar que é a própria Virginia Woolf, em sua prosa poética. A marca na parede? Era uma coisa bastante simples. Tão simples quanto surpreendente.

Você pode encontrar este conto para leitura em coletâneas de contos da autora. As que conheço e recomendo são as edições da Cosac Naify, de contos completos ou selecionados, este último na edição portátil (de bolso), disponível em e-book e livro físico, na Amazon.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

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