abril 11, 2017

[RESENHA] COM OUTROS OLHOS, DE THATI MACHADO

Sinopse: “A vida perfeita de aparências da jovem Lana se desfaz como pó depois de um trágico acidente com seu então namorado Lucas. Destinada a ultrapassar todos os obstáculos que a vida lhe impõe, Lana ingressa na Companhia Raoul de Teatro – com a ajuda de seu irmão – sem que saibam das suas limitações. Seus companheiros de trabalho parecem não facilitar a vida da moça, principalmente Arthur, que interpreta seu par romântico na peça. Ironia do destino ou não, Lana vai descobrir que uma vida sem luz ainda pode lhe oferecer tudo que uma garota sempre sonhou. E que as aparências… Sempre enganam.”

 

Emendei a leitura de Com Outros Olhos tão logo li as últimas palavras de Contando Estrelas, aproveitando a gentileza da autora, Thati Machado, de me enviar os dois e-books. Mais uma vez, surpreendo-me com uma temática que não tenho por hábito ler com frequência, mas que, prometo, vou prestar mais atenção.

Na leitura de Contando Estrelas, conheci superficialmente a irmã de Leo, Lana, que perdeu a visão em um acidente de trânsito que sofrera com o namorado, Lucas. O rapaz estava alcoolizado e a imprudência dos dois, especialmente a dele, fez com que a vida de Lana virasse de cabeça para baixo repentinamente. Após o acidente, Lucas, que saíra ileso, abandona a namorada quando esta vivia o seu momento de maior fragilidade. Ela aprende a viver sem enxergar, mas as cicatrizes mais difíceis de curar estão em seu coração.

Lana consegue entrar em uma badalada companhia de teatro, a Companhia Raoul, e para sua surpresa, consegue o papel de Julieta na montagem do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare! O detalhe é que embora o diretor saiba de sua deficiência, nenhum de seus outros colegas sabe, ou tem certeza. Com a ajuda de Leo, ela vai ao teatro sem sua bengala e se esforça para parecer o mais normal possível.

Na companhia de teatro, entretanto, havia uma pessoa que conhecia a nossa protagonista de antes do acidente: Arthur. O jovem, que outrora nutria sentimentos por Lana e fora rejeitado por ela, atuaria como Romeu na peça. Ele, não sabendo o rumo que a vida de Lana tomou, não facilita em nada o trabalho da jovem no teatro. Uma mistura de sentimentos envolve os dois, um magnetismo que os une como um irremediável casal, embora tentem resistir.

 

 “Senti um arrepio estranho e um tanto avassalador. Prendi a respiração. A respiração dele, no entanto, estava quente e arfante próxima ao meu pescoço. Aquele sujeito estava me cheirando. Fungando em meu cangote como se eu fosse sua presa. Eu podia me sentir acuada, mas resolvi jogar o seu jogo. Aproximei-me de seu pescoço e senti seu cheiro. Era forte e autêntico, talvez também houvesse a lembrança de um suor salgado junto à essência… Não era ruim, de maneira nenhuma. Tive vontade de lamber seu pescoço e em seguida mordê-lo. Contive-me graças à voz de Julie que ordenou que nos afastássemos e retirássemos nossas vendas. Retiramos. Todos voltaram a enxergar. Exceto eu.”

 

Ler sobre personagens que geralmente são postos a margem da sociedade, e, por conseguinte, da literatura, é engrandecedor. A capacidade de empatia que nós leitores conseguimos adquirir com essas histórias abriu-me os olhos para buscar por mais leituras assim. Posso afirmar, embora esteja dizendo algo óbvio, que não houve nenhum prejuízo em relação ao romance e às sensações que buscamos em uma história de amor.

 

“Fazia um tempo que eu não era beijada. Mas fazia uma vida inteira que eu não era beijada daquela forma.”

 

Além do romance entre Lana e Arthur, que foi belamente escrito pela Thati Machado, e a protagonista da história lidando com situações inimagináveis para quem possui a visão perfeita, o ponto alto de Com Outros Olhos foi uma de suas cenas finais, o confronto cara a cara entre Lana e Lucas. Ele, tentando uma reconciliação agora que Lana recuperou-se psicologicamente, chama-nos atenção para uma característica física de Arthur. Não vou falar qual é, mas foi um susto para Lana, um susto para mim e, acredito, para boa parte dos leitores. Ponto positivo para a autora que, sutilmente, mostra como o preconceito está mais enraizado do que pensamos, até em pessoas que, supostamente, não são preconceituosas.

 

“É irônico precisar perder a visão para só então começar a enxergar certas coisas, você não acha?”

 

Lana era uma garota popular, com um namorado popular e, embora tivesse um irmão gay e estivesse tranquila com a orientação sexual dele, não era uma pessoa tão legal assim. Precisou passar por uma situação traumática para poder enxergar a vida com outros olhos. E com essa história eu aprendi muito. Recomendo!

 

 

 

Título: Com Outros Olhos
Autora: Thati Machado
Editora: Publicação Independente / Amazon
Páginas: 62

 

Compre na Amazon: Com Outros Olhos.

Saiba mais sobre a autora visitando o blog Nem Te Conto.

janeiro 18, 2017

[CONTO] O MATADOR NOTURNO, PARTE 1

Sinopse: “Mulheres sendo assassinadas de forma dramática e dois policiais que precisam resolver suas diferenças para solucionar o mistério do assassino que só age sob a luz da lua: o matador noturno.”

 

Capítulo 1

 

O sangue escorria ladeira abaixo, como se o ser humano inerte à beira da calçada fosse uma fonte inesgotável do líquido escuro. Uma mulher, por volta de trinta anos, pele levemente bronzeada e corpo voluptuoso, jazia enquanto a noite ainda estava longe de terminar. Na estreita rua em que ocorrera o assassinato, janelas fechadas e nenhuma movimentação. O único barulho que se ouvia era de uma goteira vinda de uma das marquises, denunciando uma chuva que caíra horas antes.

Evangeline era apenas mais uma das vítimas do Matador Noturno. Desconfiava-se de que era um homem, ainda que não houvesse provas do fato. Simplesmente corpos de mulheres do mesmo padrão estético de Evangeline eram encontrados em vielas silenciosas, no alto da madrugada, sempre pouco depois do crime, a tempo suficiente de seu sangue pintar a rua e dar um ar dramático ao acontecimento.

— Se eu pudesse dar um palpite – Rony disse timidamente –, diria que se trata de algo mais que um crime serial. Em todos os corpos, havia sinais de que existe uma mensagem prestes a ser desvendada. O assassino quer nos dizer algo, tenho certeza. Se não descobrirmos, mais mulheres serão mortas.

— Perdoe-me, meu caro Rony – o detetive Almeida disse, sorrindo –, mas você não disse nada além do que qualquer pessoa habituada a assistir filmes de suspense policial diria. Caso queira realmente ajudar, terá de decifrar o suposto enigma desse assassino.

Rony assentiu, mesmo contrariado. Trabalhava com o detetive Almeida havia poucos meses e não conseguira dar nenhuma pista importante ou concluir algum caso sem que o detetive tivesse de ajudá-lo. Na verdade, Almeida fazia quase todo o trabalho do jovem investigador. Não gostava de ter Rony como parceiro, um jovem inexperiente e trapalhão. Nunca teve vocação para professor, gostava de trabalhar com quem sabia do ofício, ou de fazer tudo sozinho. No caso das mulheres assassinadas pelo Matador Noturno, ele sabia que pegaria o homem, se é que se tratava de um. Rony não tinha a menor condição de resolver esse caso.

A perícia não dera nenhuma informação que acrescentasse algo de substancial à investigação. A morte de Evangeline fora como a das outras mulheres: cortes em artérias que proporcionassem todo o sangue a compor o cenário favorito do matador, ausência de sinais de violência sexual, falta de evidências de roubo e um souvenir colocado delicadamente sobre o peito da vítima, resguardado pela mão do cadáver. Em Evangeline, o matador deixou uma rosa vermelha. Já foram encontradas outras flores, um cartão romântico, um chaveiro de coração e uma pequena garrafa com um barquinho de papel dentro. O melhor palpite até então era de que o matador poderia ter um interesse romântico pelas vítimas ou por alguém que guardasse semelhança com elas. Sua motivação poderia ser acabar com a vida de qualquer mulher que o lembrasse de sua amada. Mas era apenas um palpite, dentre muitos que a investigação já teve.

— Por onde continuamos, detetive? – quis saber Rony.

— Continuar? Essas mortes quase não deixam rastros que nos levem ao criminoso. Na verdade, acho que a pergunta mais correta seria por onde vamos começar.

Evangeline, diferente das outras vítimas, era uma conhecida modelo fotográfica, garota-propaganda de uma famosa loja de roupas íntimas da cidade. Seu rosto e, sobretudo, seu corpo estampavam os catálogos de moda praia de vários estados e decoravam as paredes da grife Oceano. Uma pequena mudança no perfil social das mulheres assassinadas, que anteriormente era composto apenas por estudantes, vendedoras, uma costureira e uma professora de primário. Evangeline era a décima vítima. Sua morte, obviamente, causou comoção nas redes sociais, e o caso foi ficando conhecido em todo o país, o que dificultava ainda mais a investigação.

— Almeida, eu quero esse matador preso o mais rápido possível! – disse o delegado. – Até o governador já ligou querendo saber sobre o andamento da investigação.

— O governador? – perguntou Almeida, empalidecendo. – Ele não pode pensar que nos pressionando será mais rápido encontrar o assassino. Esse é o caso mais difícil em que já trabalhei, e o Rony bonitão ali não é de grande ajuda.

Rony, que ouvia atentamente o diálogo, abaixou a cabeça, levemente constrangido pela humilhação. Havia se acostumado com o tratamento pouco cortês de Almeida, mas se envergonhava com frequência com os comentários feitos publicamente sobre sua aparência ou falta de talento para a profissão. Almeida fazia questão de que todos soubessem da incompetência do jovem rapaz.

— Na verdade – disse o delegado –, o governador ligou para o prefeito e o prefeito passou lá em casa ontem à noite e comentou, enquanto jogávamos pôquer, sobre a urgência que o governador quer na resolução deste caso.

— Delegado, se me permite – arriscou Rony, sob o olhar impaciente de Almeida –, creio que estamos mais perto do suspeito do que imaginamos. É só uma questão de observar os detalhes dos crimes, sobretudo o de Evangeline.

— Obrigado, Rony. Fico feliz que esteja se esforçando neste caso – disse o delegado, mas a simpatia em sua voz não chegara aos seus olhos. Era o tipo de pessoa que sabia ser simpaticamente falsa.

— É, Rony, belo esforço, parabéns! – Ironizou Almeida.

Com as falsas congratulações, terminaram mais um expediente sem que soubessem por onde procurar pelo Matador Noturno.

 

 

Continue lendo essa história aqui.

dezembro 28, 2016

[RESENHA] A VERDADE É UMA CAVERNA NAS MONTANHAS NEGRAS, DE NEIL GAIMAN

Sinopse: “Publicada incialmente em uma coletânea de contos do autor, A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras é uma história fascinante sobre família, a busca por um tesouro e a descoberta de um mundo invisível. Em uma colaboração inédita, os personagens e as paisagens de Gaiman ganham forma com um traçado sombrio e impreciso do artista Eddie Campbell, e o resultado é uma obra que passeia entre o livro ilustrado e o graphic novel, desafiando os limites entre texto e imagem em uma explosão de cor e sombra, memória e arrependimento, vingança e, principalmente, amor.”

 

A Verdade é uma caverna nas montanhas negras, é um conto de Neil Gaiman, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca em 2015. É uma história densa sobre família, a busca por um tesouro escondido, vingança e a descoberta de um mundo invisível. O livro é fruto do trabalho de Gaiman e do ilustrador Eddie Campbell, que transformou a história em um misto de graphic novel e prosa ilustrada.

Neil Gaiman foi convidado para ler um conto em um festival no Sydney Opera House e indicou Campbell para fazer as ilustrações. Em agosto de 2010 a história foi apresentada para uma grande plateia, com o acompanhamento do Quarteto de Cordas FourPlay e foi um sucesso. A verdade é uma caverna nas montanhas negras, publicado originalmente na antologia Stories, recebeu os prêmios Locus e Shirley Jackson, ambos na categoria melhor conto.

“Pouco depois de me apaixonar pela ilha de Skye, descobri os livros da falecida Otta F. Swire, obras que contam lendas e a história das Hébridas Interiores e Exteriores. Esta história começou com uma frase de um dos livros da autora, e cresceu ao seu redor.” (Neil Gaiman)

 

Essa é uma história de leitura rápida não só por ser um conto, mas por ser um conto de Neil Gaiman, autor que consegue nos prender e nos encantar sejam em 10, 20 ou 500 páginas. Dificilmente uma pessoa conseguirá ler o início desta história e deixar o livro de lado:

“Indaga se sou capaz de me perdoar? Posso me perdoar por muitas coisas. Por onde o deixei. Por aquilo que fiz.” (p. 7)

 

O anão de “A verdade é uma caverna nas montanhas negras”.

 

Em A verdade é uma caverna nas montanhas negras, somos transportados para a nebulosa Escócia, onde um anão procura por Calum MacInnes para que este o acompanhe até a caverna na Ilha das Brumas. Chega sem se identificar, mas oferece um pagamento a Calum, que aceita prontamente.

A caverna era amaldiçoada e eles não tinham certeza se encontrariam a Ilha das Brumas, pois o lugar guardava certa magia em si. Os caminhos que os levariam até a caverna eram repletos de desconfianças e pequenas revelações sobre a vida e a personalidade de Colum e do anão.

“- Às vezes acho que a verdade é um lugar. Para mim, é como uma cidade: pode haver uma centena de estradas, uma centena de caminhos que, no fim, nos levarão ao mesmo lugar. Não importa de onde venhamos. Se seguirmos na direção da verdade, vamos alcançá-la, independentemente do rumo que tomarmos.

Calum MacInnes olhou para mim e nada disse. Então:

– Está enganado. A verdade é uma caverna nas montanhas negras. Há somente um caminho até lá, e um caminho apenas. Um caminho árduo e traiçoeiro. E, se seguir na direção errada, vai morrer sozinho na montanha.” (p. 27)

 

Gaiman nos envolve em sua história fazendo-nos acreditar que ela seguiria para um desfecho previsível, e quando estamos quase certos disso, uma grande revelação é feita, deixando-nos de queixo caído. O final desse conto é ótimo, um dos melhores que eu já li. E não perde a qualidade em uma releitura, muito pelo contrário. Recomendo!

 

“As montanhas negras são as Black Cuillins na ilha de Skye, também conhecida como ilha alada, ou talvez ilha das brumas. Dizem que há uma caverna cheia de ouro por lá, e que aqueles que a procuram para levar parte de seu ouro se tornam um pouco mais malignos…” (Neil Gaiman)

 

 

 

Título: A verdade é uma caverna nas montanhas negras
Autor: Neil Gaiman
Ilustrações: Eddie Campbell
Tradução: Augusto Calil
Editora: Intrínseca
Páginas: 80

 

Compre na Amazon:A verdade é uma caverna nas montanhas negras.

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2019 • powered by WordPressDesenvolvido por