julho 22, 2019

[RESENHA] AUTOBIOGRAFIA, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Sinopse: “Na Lisboa dos anos 1990, um jovem escritor vê seu caminho se cruzar com o de José Saramago em diversas ocasiões. Desses encontros, nasce uma história em que realidade e ficção se mesclam, num engenhoso jogo de espelhos construído habilmente por José Luís Peixoto que evidencia as possibilidades que cercam o universo da metaliteratura.”

 

Autobiografia, de José Luís Peixoto (TAG/Companhia das Letras, 2019), foi um livro que dividiu opiniões entre os assinantes do clube TAG Curadoria. Particularmente foi uma leitura que gostei, mas não pude deixar de pensar, em um primeiro momento, que eu não absorvi tudo desse livro ou realmente não tenha entendido completamente o enredo dele.

A proposta do autor foi genial: fazer uma espécie de biografia de José Saramago, incluindo alguns personagens de livros do autor ganhador do Nobel de Literatura do ano de 1998. Autobiografia é um livro que joga o tempo todo com a questão do processo de tecitura de um romance. José (não o Saramago, e sim o personagem condutor do livro) é um jovem escritor encarregado de escrever a biografia de um famoso escritor português com quem pode ter em comum mais que apenas o prenome.

 

“Se alguém lhe tivesse contado que o filho se perdera em Lisboa, a mãe demoraria a acreditar. Por um lado, José estava sozinho na cidade havia dez anos, tempo de conhecer todas as vielas; por outro lado, não era capaz de imaginar que a escrita de um livro fosse razão para problemas de tal ordem. Para sua própria expiação, o filho alimentava essa influência cega, os livros. Antes tivesse apanhado meningite como o rapaz da vizinha, perdeu alguma audição, mas tornou-se num mecânico gabado por todos. Em julhos da puberdade, enquanto os outros rapazes acertavam pardais com tiros de pressão de ar, saudável treino de pontaria, José passava horas oculto e silencioso, lia deitado na cama ou escrevia doidices, inclinado sobre um caderno. No princípio, a mãe rezou, pediu a Santa Cecília, protetora dos poetas, que lhe poupasse o filho, que o libertasse dessas ideias. Não alcançando resposta, conformou-se e baixou os olhos perante Deus, aceitando os seus mistérios. A partir daí, passou a rezar pelo filho a Santo Aleixo, protetor dos mendigos.” (ps. 13 e 14)

 

Diferente de outros meses, esse livro não teve um curador. Julho é o mês de aniversário da TAG e eles têm apresentado propostas diferenciadas para esse mês, nos últimos anos. Em 2018, por exemplo, recebemos em primeira mão o livro As últimas testemunhas, de Svetlana Alexijévitch, que ainda não havia sido publicado no Brasil.

Autobiografia foi escrito especialmente para o aniversário do clube neste ano e a expectativa em torno desse título e do principal nome que o chancelou quando não sabíamos, ainda, quem era o autor do livro, talvez tenha contribuído para que as expectativas em torno dele tenham sido conduzidas para um nível que beira a injustiça. Todos esperávamos um livro espetacular, mas recebemos um livro um pouco difícil (o que não quer dizer que seja um livro ruim). No entanto, em 2018 também foi assim.

 

“Não é exatamente uma biografia, respondeu José, é um texto ficcional de cariz biográfico.” (p. 110)

 

A minha experiência de leitura com Autobiografia foi peculiar. Devorei o livro e fiquei com a sensação de que não tinha entendido nada. Fiquei tonta com tantas voltas, personagens emprestados do Saramago que eu precisei recorrer várias vezes à revista da TAG para lembrar de onde eram e, claro, a metaliteratura. Resolvi deixar o livro descansar e partir para outras leituras mais simples. Percebi que Autobiografia não é um livro para ser devorado, e sim ser lido e apreciado com calma. Mesmo na primeira leitura, porque eu acabei retornando várias vezes a vários capítulos até escrever essa resenha, percebi que tinha em mãos um livro de muita qualidade. Algo em José Luís Peixoto me conquistou, tanto que logo comprei e devorei (não tenho jeito, eu sei!) Morreste-me e A criança em ruínas. Essas leituras posteriores me fizeram entender o porquê de eu ter gostado de Autobiografia, mesmo ficando com aquele nó de incompreensão na garganta: o lirismo do autor encanta e há algo em seu jeito de contar histórias que faz com que tenhamos de carregá-lo na bolsa para ler sempre um pouquinho, sempre que possível.

O trabalho da TAG foi ímpar neste mês e a revista ajudou bastante na leitura de Autobiografia, embora eu tenha ressalvas à necessidade de estar sempre voltando ao suplemento, por achar, talvez, que o livro deve se fazer entender por si só. No fim das contas, nem essa opinião eu posso defender com tanta veracidade, pois eu mesma precisei e usei o recurso (e acabei gostando).

 

 

“Os livros não servem apenas para serem lidos, essa não é a sua única função. Às vezes, basta olhar para eles, intuir ou recordar o que contêm, tempo e mundo. Às vezes, basta mudá-los de lugar.” (p. 83)

 

Ainda tenho a impressão que depois de ler mais livros do Saramago, especialmente os livros dos personagens que figuram em Autobiografia, a minha experiência de releitura será melhor do que esse primeiro contato. Talvez eu esteja errada, mas pretendo reler Autobiografia para verificar. Gostei muito de finalmente ler José Luís Peixoto, a quem eu só conhecia de nome. Como outros assinantes, considero o capítulo 20 como um presente, o mais especial e bonito entre os capítulos dessa história circular, metaliterária e surpreendente de José Luís Peixoto.

 

 

 

Título: Autobiografia

Autor: José Luís Peixoto

Editora: TAG Curadoria / Companhia das Letras

Páginas: 248

 

 

Playlist: <3

 

julho 12, 2019

[RESENHA] A VISITA DE JOÃO GILBERTO AOS NOVOS BAIANOS, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Neste originalíssimo livro de contos, o premiado autor do romance O drible e de Viva a língua brasileira! brinca com coisa séria. Depois de presenciar um encontro mitológico no céu da MPB, o leitor vai para a cama com Machado de Assis e acompanha um desfile de histórias cheias de graça, prosa afiada, erudição literária e cultura pop.

Nos contos de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, o prazer de contar histórias sobre histórias é o antídoto à alardeada perda de potência da literatura em nosso tempo. Assim, a história do mundo pode caber em treze tweets, tornamo-nos cúmplices de uma farsa erótica ambientada na Vila Rica dos inconfidentes e espiamos pela fechadura a intimidade de um famoso personagem machadiano.
No conto que abre e nomeia o livro, fantasia pop inspirada no encontro real entre o gênio da bossa nova e os jovens hippies liderados por Moraes Moreira, vislumbra-se uma síntese da contribuição original que a arte brasileira pode dar ao mundo: metade precisão rigorosa, metade delírio e festa. Os mesmos ingredientes podem ser encontrados na prosa entre o culto e o popular que anima um livro dividido em três partes, como um LP impossível.
No Lado A ficam as narrativas mais clássicas. O Lado B é dedicado aos fragmentos de um experimentalismo que examina com humor ferino, mas sem perder a ternura, os cacos restantes das velhas catedrais literárias e suas vaidades autorais na era da internet. Fecha o volume a deliciosa novela “Jules Rimet, meu amor”, publicada em 2014 como e-book.”

 

Eu pensei em muitas formas de iniciar essa resenha. Mas sempre acabava encurralada pela questão fundamental da existência desse blog (olha o drama!): indicar bons livros, mas sem prejudicar a experiência de leitura ou tornar nulo o fator surpresa das narrativas. Muitas sinopses (infelizmente) já fazem esse trabalho, mas o leitor tem sempre a opção de pular esse parágrafo — que, por aqui, sempre é bem sinalizado, — e ler apenas as impressões e sensações que esta resenhista teve com a leitura.

Pois bem, agora me sinto mais confortável em dizer que não vou dar muitos detalhes sobre os textos que compõem A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, de Sérgio Rodrigues, publicado recentemente pela Companhia das Letras. Não seria justo! Esse livro é tão bom, mas tão bom, que o melhor que eu posso dizer é que você pare agora tudo o que está fazendo e leia-este-livro! Não vou ficar chateada, pode clicar aqui e comprar agora mesmo (a versão em e-book tem a vantagem de poder começar imediatamente a leitura).

Se você permaneceu mais um pouco (obrigada), enquanto o e-book carrega no seu Kindle, no app do celular ou no navegador da internet mesmo, vou dizer mais o seguinte: eu li (e reli) o e-book de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ainda é difícil saber qual dos três lados desse disco-livro é o meu favorito. As faixas-capítulos A fruta por dentro e Conselhos literários fundamentais estão entre as que mais gostei, mas Jules Rimet, meu amor é de uma perfeição que faz querer voltar a agulha para o início do discoA visita de João Gilberto aos Novos Baianos é o tipo de livro que faz o leitor ter saudade, ter vontade de regressar e dar aquela espiadinha, uma relida em uma ou outra parte mais bacana. Nas vezes em que eu fiz isso, confesso, acabei lendo o livro inteiro novamente quase que em uma só sentada.

 

“O roubo da Jules Rimet revela tanto sobre o Brasil quanto a conquista da Jules Rimet. Inferno e céu. Uma coisa precisa da outra, do contrário a imagem do país fica incompleta. Aqui a gente vive no inferno e no céu ao mesmo tempo. E como menos com mais dá menos, fica matematicamente provado que não temos salvação!”

 

Do autor eu havia lido apenas Viva a língua brasileira, que eu amei, mas em nada é semelhante a esse livro de agora. A visita de João Gilberto aos Novos Baianos é conto, novela, crônica, divagação metalinguística e mais um monte de coisa que eu não vou saber explicar. Só sei dizer que é um livro maravilhoso, principalmente se você curte uma prosa mais enxuta, inteligente e tipicamente brasileira. Sem exagero, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

 

 

 

 

Título: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

Autor: Sérgio Rodrigues

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 144

Compre na Amazon: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

 

 

 

Faixa bônus (por minha conta) – Chega de Saudade, de João Gilberto, falecido no dia 06 de julho de 2019:

 

abril 12, 2019

[RESENHA] SOBREVIVENDO NO INFERNO, DOS RACIONAIS MC’S

Sinopse: A principal obra do maior grupo de rap do Brasil agora publicada em livro, contundente como sempre e atual como nunca. Leitura obrigatória do vestibular da Unicamp.

Na virada para os anos 1990, os Racionais MC’s emergiram como um dos mais importantes acontecimentos da cultura brasileira. Incensado pela crítica, o disco Sobrevivendo no inferno vendeu mais de um milhão e meio de cópias.
Agora publicados em livro, precedidos por um texto de apresentação e intermeados por fotos clássicas e inéditas, os raps dos Racionais são a imagem mais bem-acabada de uma sociedade que se tornou humanamente inviável, e uma tentativa radical, esteticamente brilhante, de sobreviver a ela.”

 

Eu estou sempre entrando no site da Amazon atrás de ofertas. Em uma dessas visitas de rotina, vi que o e-book de Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s (Companhia das Letras, 2018) estava com um ótimo preço e atendia perfeitamente a uma atividade acadêmica que eu precisava fazer: uma proposta de projeto pedagógico para o meu estágio supervisionado. Minha turma base é de 3º. ano do ensino médio, e o Sobrevivendo no Inferno há pouco tempo tornou-se leitura obrigatória no vestibular da Unicamp. Sendo assim, eu havia encontrado o livro perfeito, com uma temática pertinente e atual. Só precisava, então, pôr a mão na massa.

Meu projeto, falando brevemente, consiste em trabalhar pelo menos três músicas do Sobrevivendo no Inferno, conjugando leitura e audição das músicas, pois originalmente, para quem não sabe, Sobrevivendo no Inferno é um álbum musical. Batizei o projeto de Racionais na Roda, como uma forma de colocar os alunos como protagonistas (racionais) na interpretação dos textos (nada de respostas prontas por aqui). Em algumas andanças pela internet, vi que muita gente não entendeu muito bem a proposta do livro, achou incompleto, ou “só com as músicas”. É importante ressaltar que a Unicamp colocou o livro Sobrevivendo no Inferno em sua lista de leituras obrigatórias na categoria poesia. E o livro é basicamente isso mesmo, poesia (as letras das músicas) precedida por um artigo muito bem escrito de Acauam Silvério de Oliveira, intitulado O evangelho marginal dos Racionais MC’s. Esse texto de abertura é muito bom para quem não conhece em profundidade a trajetória do grupo de hip-hop brasileiro.

Em sala de aula, a abrangência de assuntos que podem ser trabalhados a partir do livro e do álbum Sobrevivendo no Inferno é enorme. Como indicação simplesmente de leitura, o pulo do gato, que me fez ter uma percepção muito melhor sobre as letras e a realidade retratada pelos Racionais MC’s é ler o artigo e, depois, acompanhar a leitura com o áudio das músicas, que estão disponíveis gratuitamente no Spotify ou no Youtube.Vai por mim, a poesia declamada oferece uma oportunidade de compreensão muito maior que apenas passar o olho pelos versos, como muitas vezes a pressa nos obriga a fazer. É como eu sempre digo, e repito também para mim: poesia é para ler com calma, paciência.

A temática dos poemas/músicas não poderia ser mais atual em relação ao momento que estamos vivendo em nosso país, onde o racismo ainda impera e a cultura afro-brasileira continuamente é posta de lado, como se não tivesse relevância. Conhecer e valorizar a cultura negra e a cultura de periferia é fundamental para entender a nossa sociedade e por um basta em tanta violência. Precisamos dar voz e fazer ecoar as vozes daqueles que estão na linha de frente e, repetidamente, acabam pagando com a própria vida por este ciclo de desigualdade e abandono social.

 

Leitura recomendada: Entenda por que Racionais é leitura obrigatória no vestibular (Revista Galileu)

 

Assista: Roda Viva entrevista Mano Brown, dos Racionais MC’s (2007)

 

 

Título: Sobrevivendo no Inferno

Autor: Racionais MC’s

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 160

Compre na Amazon: Sobrevivendo no Inferno.

 

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