dezembro 17, 2018

[RESENHA] MEU LIVRO VIOLETA, DE IAN McEWAN

Sinopse: “‘Meu livro violeta’ é uma pequena joia da narrativa curta sobre o crime perfeito. Mestre do suspense e do enredo, Ian McEwan descreve uma traição literária meticulosamente forjada e executada sem escrúpulos. Publicado em janeiro de 2018 na prestigiosa revista New Yorker, o conto revisita um tema caro ao autor e tratado em livros como Amsterdam: as ambivalências das relações de amizade entre dois artistas, com doses desmedidas de admiração e inveja.
Ao conto que dá título ao livro se segue o libreto “Por você”, escrito para a ópera de Michael Berkeley. Profundo conhecedor de música, McEwan apresenta uma cativante história de amor e traição envolvendo quatro personagens: o regente e compositor Charles Frieth, sua esposa, uma admiradora, e o médico da família. Em sua primeira incursão no universo da ópera, McEwan mostra que seu talento como criador de histórias segue sendo insuperável.”

 

Ian McEwan não decepciona. Mesmo em duas histórias curtas como Meu livro violeta, que dá nome à publicação da Companhia das Letras (2018), com tradução de Jorio Dauster, e o libreto para ópera de Michael Berkeley, Por Você, é impossível não ser fisgado pela perspicácia do escritor inglês e de seus personagens extremamente (e desconfortavelmente) humanos como nós.

Meu Livro Violeta é uma leitura bem rápida, li as duas histórias no trajeto de ida e volta de casa para o trabalho de ônibus, pouco mais de uma hora, sem contar os minutinhos esperando o coletivo. Ambas as narrativas falam da corrupção humana, e da tentação de cometer um crime levadas às últimas consequências, resultando em crimes perfeitos. Em Meu Livro Violeta, o delito é o da inveja: aqui temos dois escritores que eram muito próximos na juventude, mas que o sucesso, a fama e o dinheiro não acontecem para os dois da mesma forma. Já no libreto Por você, temos um crime de amor, ou motivado pela falta dele.

Se você gosta de um bom suspense, de uma trama bem amarrada e envolvente, Meu Livro Violeta é uma ótima pedida.

 

 

Título: Meu Livro Violeta

Autor: Ian McEwan

Tradução: Jorio Dauster

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 128

Compre na Amazon: Meu Livro Violeta.

 

novembro 10, 2017

[RESENHA] ENCLAUSURADO, DE IAN McEWAN

Sinopse: “O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê —, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, ”Enclausurado” é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.”

 

Em Enclausurado, o escritor britânico Ian McEwan faz uma releitura moderna e inusitada de Hamlet, de Shakespeare. No entanto, o narrador da história, aqui, ainda não nasceu. E esse pequeno detalhe faz toda a diferença na história.

 

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito não fosse pelos meus sonhos ruins.” Shakespeare, Hamlet. (epígrafe)

 

Trudy envolve-se em um tórrido caso extraconjugal com seu cunhado, Claude. O marido, duplamente traído, John Cairncross, é um poeta decadente e apaixonado pela esposa. E também o herdeiro único de um imóvel que vale alguns milhões em dinheiro. No meio disso tudo, mais precisamente dentro da barriga de Trudy, o nosso narrador descobre detalhes sobre o mundo, a humanidade, e os planos nada ortodoxos de sua mãe e seu tio para se apoderarem do bem mais precioso da família Cairncross: o imóvel.

 

“No meio de uma noite longa e serena, posso sapecar um bom pontapé em minha mãe. Ela acorda, perde o sono, liga o rádio. Uma maldade, eu sei, mas estamos os dois bem informados pela manhã.” (p. 12)

 

“Vejamos. Minha mãe preferiu o irmão de meu pai, traiu seu marido, arruinou seu filho. Meu tio roubou a mulher de seu irmão, enganou o pai de seu sobrinho, insultou gravemente o filho de sua cunhada. Meu pai é indefeso por natureza, como eu sou por circunstancias.” (p. 40)

 

“Deus disse: que seja feita a dor. E depois se fez a poesia.” (p. 53)

 

“Certos artistas, escritores ou pintores, florescem em espaços confinados como bebês em gestação. Seus temas estreitos podem desconcertar ou desapontar algumas pessoas (…) Alguns escritores de prosa cuidam apenas de seus egos. Também no campo científico há quem dedique a vida a um caramujo albanês ou a um vírus. Darwin consagrou oito anos às cracas. E mais velho e mais sábio, às minhocas. Milhares de pesquisadores passaram a vida correndo atrás do bóson de Higgs, uma coisinha de nada. Estar circunscrito a uma casca de noz, ver o mundo em cinco centímetros de marfim, num grão de areia. Por que não, quando toda a literatura, toda a arte e a iniciativa humana não passam de uma partícula no universo das coisas possíveis? E mesmo esse universo pode ser uma partícula numa infinidade de universos reais ou possíveis?” (ps. 69,70)

 

Descobri, com essa leitura, que poetas nunca trancam o carro, e também que você pode conhecer uma pessoa por dentro, conhecer suas vísceras e as alterações de seus batimentos cardíacos e, ainda assim, não conhecê-la de fato ou entender suas motivações. Enclausurado é o tipo de livro que te prende até a última palavra, não só por ser um livro de suspense, mas por ser visivelmente bem trabalhado. O resto é o caos.

 

Tirei até uma selfie com o livro. Não me peça para explicar as minhas loucuras.

 

 

SOBRE O AUTOR: Ian McEwan nasceu em Aldershot, Inglaterra, em 1948. É um dos ficcionistas mais importantes de sua geração. Seus livros já lhe renderam uma série de prêmios literários, entre eles o Man Booker Prize e o Whitbread Award. Dele, a Companhia das Letras já publicou Reparação, Na Praia e A Balada de Adam Henry, dentre outros.

 

Título: Enclausurado
Autor: Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200

Compre na Amazon: Enclausurado.

Leia um trecho clicando aqui.

 

maio 13, 2017

[RESENHA] VIVA A LÍNGUA BRASILEIRA, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Este livro é uma declaração de amor à língua portuguesa falada no Brasil. Em forma de verbetes rápidos e instrutivos, dá dicas e tira dúvidas que você sempre teve sobre o uso do idioma. Contra aqueles que defendem que só os irmãos de Portugal sabem tratar a gramática como ela merece, aqui está um antídoto. Contra aqueles que adoram corrigir o que nunca esteve errado e defendem bobagens, aqui está a resposta perfeita. Contra o analfabetismo funcional, o pedantismo do juridiquês, a barbaridade do corporativês, a importação servil de estrangeirismos e o chiclete viciante do clichê, este é um manual perfeito para usar nossa língua em toda sua riqueza e sem nenhum preconceito.”

 

Esta é mais uma recomendação urgente de leitura que uma resenha. Digo isso logo de cara e abaixo reproduzirei os meus trechos favoritos dos favoritos. Sim, pois foi extremamente difícil escolher o que esse livro tem de melhor, visto que todo ele é incrível.

Em Viva a Língua Brasileira, Sérgio Rodrigues, que eu descobri com muita alegria ser natural da cidade de Muriaé-MG, onde passo minhas laboriosas oito horas diárias de trabalho no Conselho Regional de Odontologia, fez algo incrível: expôs as dúvidas mais frequentes da nossa língua, sem a arrogância e o pedantismo que muitas publicações do gênero (infelizmente) reproduzem. Confesso que, em muitas páginas, eu fechava o livro e suspirava um agradecimento ao autor, pois além de expor tais dúvidas, o fez em uma publicação de leitura leve e rápida, apesar das 384 páginas. Tudo isso com ilustrações lindíssimas de Francisco Horta Maranhão.

O livro possui treze categorias temáticas, nas quais são discutidos temas como dúvidas de escrita, de fala, os modismos, origens de expressões antigas (nem sempre verdadeiras), dentre outras coisas. O grande acerto desta publicação é que ela agradará a gregos e troianos, pois o autor posicionou-se neutro no embate entre os patrulheiros, que acham que tudo é erro, e os excessivamente liberais, que consideram tudo como correto.

 

“Sem caretice e sem vale-tudo, este livro entende os argumentos dos dois lados, mas reserva-se o direito de não morrer abraçado com nenhum deles. Aposta que é possível cultivar a variedade culta da língua e ao mesmo tempo compreender que regras são historicamente determinadas, que nenhuma delas caiu do céu, e que no fim das contas o idioma é sempre atualizado por quem o fala. A mesma aposta inclui o reconhecimento da grande beleza que existe nisso.” (p. 15)

 

“Estória ou História?

As duas palavras existem, mas são diferentes. Segundo o dicionário Houaiss, estória é um brasileirismo que significa apenas ‘narrativa de cunho popular e tradicional’, enquanto história pode querer dizer também isso – entre muitas outras coisas.

(…)

Nessa eu fico com o Aurélio, que não reconhece a palavra, e com os portugueses, que não a usam: para mim – e para a maioria dos escritores que conheço – é tudo história. É que a fronteira entre história real (história) e história fictícia (estória) me parece fluida demais para tornar funcional a adoção de dois vocábulos.

(…)”  (p. 37 e 38)

 

“Homossexualismo ou Homossexualidade?

A questão é uma daquelas em que a língua vira um campo de batalha. O combate pode envolver diversos tipos de argumento – linguísticos, históricos, etimológicos, científicos –, mas eles não passam de armas. O que está em jogo mesmo é uma questão política.

O movimento gay transformou em bandeira a condenação de homossexualismo, que em sua origem designava uma patologia, e sua substituição por homossexualidade.

Linguisticamente, a questão não é tão simples. O termo homossexualismo foi cunhado no ambiente infestado de ideias pseudocientíficas de fins de século XIX e vinha impregnado de conotações médicas. (Incrivelmente, só em 1990 a Organização Mundial de Saúde o excluiu de sua lista de distúrbios mentais.)

Ocorre que a palavra não ficou presa a essa primeira acepção. Além de ‘condição patológica’, usamos o sufixo de origem grega –ismo para indicar, entre outras coisas, ‘prática’, ‘peculiaridade’ e ‘qualidade característica’ (Aurélio).

(…)

Para mim, homossexualidade

Eu fiz minha opção: embora tenha dúvidas sobre a estratégia de criminalizar em nome da etimologia um vocábulo que a maioria da população emprega de forma inocente, adotei o termo homossexualidade. Não me custa muito mexer no vocabulário. Bem menos, sem dúvida, do que custa aos homossexuais conviver com uma palavra considerada insultuosa.

(…) (p. 45 e 46)

 

“Latente não quer dizer evidente

O emprego do adjetivo latente com o sentido de ‘evidente, claro, indiscutível’ é um erro tornado mais embaraçoso pelo fato de que a palavra significa… o contrário disso”

Quando afirmamos que alguma coisa está latente, queremos dizer que ela ainda não se manifestou: permanece oculta, adormecida, em estado potencial. Pode vir à tona a qualquer momento, mas ainda não veio. Trata-se de um termo ligado ao verbo latino latere, ‘estar escondido’.

É provável que o erro se deva a uma confusão entre latente e patente – este, sim, um adjetivo que significa ‘claro, evidente, manifesto’. (p. 165 e 166)

 

Destaque para o capítulo 7, intitulado A Guerra dos Sexos, que expõe a questão da briga político-ideológica entre os gêneros na língua. Não tendo nós, falantes de português, herdado do latim o gênero neutro, surgiu, sobretudo na internet, quem fale “amigue, amigues, amig@s ou mesmo amigx”. Não sou adepta dessa prática e acho que quem a emprega sistematicamente não percebe o quanto essa escrita dificulta a leitura para deficientes visuais e disléxicos. O problema é que o hábito tem saído da internet e chegado ao ambiente acadêmico, como proposta de intervenção gramatical, nas palavras de Sérgio Rodrigues. Neste capítulo, ainda, vemos a questão do Obrigado, Obrigada; Personagem; Poeta ou Poetisa; e, talvez um dos mais polêmicos assuntos em questão de gênero: Presidente ou Presidenta?

Em Viva a Língua Brasileira, vemos, ainda, a origem do termo sebo, para designar loja de livros usados, e das expressões outros quinhentos e para inglês ver. E, antes que eu me esqueça, “Aluno” não quer dizer “sem luz”. Este é um livro que não se esgota em uma única leitura. Viva a Língua Brasileira é uma rica fonte de informação, um livro para ser consultado eventualmente. Um deleite para os amantes da nossa língua.

 

“Como se escreve: Antártida ou Antártica? Expresso ou Espresso? E qual a pronúncia correta: Rorãima ou Roráima? Subssídio ou Subzídio? Está certo escrever ‘em anexo’? Está errado falar em ‘risco de vida’? De onde veio a expressão ‘chorar pitanga’? E ‘acabar em pizza’? Este livro não apenas resolve essas dúvidas de forma instrutiva e bem-humorada, aqui você ainda encontra antídoto contra os sabichões sempre dispostos a corrigir o que não precisa ser corrigido, aprende a se vacinar contra modismos bobos, aceita que a influência estrangeira é inevitável, desde que não descambe para o ridículo, foge de armadilhas populares (forró não tem nada a ver com ‘for all’!) e ganha um mapa privilegiado para navegar com segurança e estilo em nosso idioma vivo, complexo e fascinante.” (contracapa)

 

 

SOBRE O AUTOR: Sérgio Rodrigues é escritor, crítico literário e jornalista. Mineiro que adotou o Rio de Janeiro, é autor, entre outros, do romance O drible, vencedor do prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) e publicado em seis países. Desde 2001 mantém na imprensa colunas sobre o universo linguístico, etimológico e gramatical com grande audiência, do extinto Jornal do Brasil ao site da revista Veja. Em 2011, ganhou o prêmio Cultura do governo do estado do Rio de Janeiro pelo conjunto de sua obra.

 

 

Título: Viva a Língua Brasileira
Autor: Sérgio Rodrigues
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 384

Compre na Amazon: Viva a Língua Brasileira.

 

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