fevereiro 13, 2020

[RESENHA] AS ALEGRIAS DA MATERNIDADE, DE BUCHI EMECHETA

Sinopse: “Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.”

 

Ser mãe dói. Talvez seja por isso que se repita tanto que “ser mãe é padecer no paraíso”. Para algumas, talvez, seja padecer… e só. Bom, eu posso estar exagerando de propósito ao “esquecer” os momentos de amor e felicidade, mas a felicidade de uma mãe nunca é tranquila. Nosso trabalho nunca está acabado, nunca é perfeito. É frustrante. É lindo também, único. Mas vai ser sempre frustrante.

Talvez por isso, por ser mãe, eu já havia percebido a ironia no título do livro de Buchi Emecheta antes mesmo de saber mais detalhes sobre o romance. As alegrias da maternidade, publicado originalmente em 1979 e um recorte sobre a vida das mulheres da Nigéria colonial, é nada mais que um romance sobre ser mãe, em maior ou menor escala de sofrimento. Não por acaso Emecheta dedica o volume “Para todas as mães”.

A mãe deste livro, Nnu Ego, é filha de um grande líder do vilarejo de Ibuza, uma mulher típica de seu tempo, profundamente ligada aos costumes do povo igbo. Para realizar o grande desejo de sua vida, ser mãe, ela suporta todo tipo de dificuldades e privações em Lagos, capital da Nigéria (de população majoritariamente iorubá), com um marido horrível (em vários sentidos), distante de sua família e de seus costumes. Nnu Ego traz ao mundo muitos filhos, é uma mulher extremamente abençoada neste sentido. Mas precisa lutar com todas as suas forças para que eles tenham comida na mesa e possam ser pessoas honestas, bem criadas. Esforço e responsabilidade dos quais seu marido, Nnaife Owulum, se esquiva quase sempre sem a menor cerimônia.

 

“‘Deus , quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?’, orava ela em desespero. ‘Afinal, nasci sozinha e sozinha hei de morrer. O que ganhei com tudo isso? Sim, tenho muitos filhos, mas com que vou alimentá-los? Com minha vida. Tenho que trabalhar até o osso para tomar conta deles, tenho que dar-lhes meu tudo. E se eu tiver a sorte de morrer em paz, tenho que dar-lhes minha alma. Eles adorarão meu espírito morto para que zele por eles: ele será considerado um bom espírito enquanto eles tiverem fartura de inhame e de filhos na família, mas, se por acaso alguma coisa der errado, se uma jovem esposa deixar de conceber ou se houver escassez, meu espírito morto será culpado.Quando ficarei livre?’” (p. 257)

 

“Alguns pais, em especial os que têm muitos filhos de diferentes esposas, podem rejeitar um mau filho, um amo pode rejeitar um criado perverso, uma esposa pode chegar ao ponto de abandonar um mau marido, mas uma mãe nunca, nunca pode rejeitar seu filho. Se ele for condenado, ela será condenada ao lado dele…” (p. 295)

 

As alegrias da maternidade é um livro com uma prosa muito fácil de ler, a história é muito boa, nos prende até a última página. Além do tema principal da maternidade — que para mim teve mais apelo —, há outros traços da cultura nigeriana do início do século XX são interessantes de ler e de comparar com a nossa realidade aqui no Brasil (daquela época e, porque não, de agora): conflitos e preconceito entre etnias; racismo; a sociedade patriarcal que rege as relações; as mulheres que se viram para viver no caos sendo subjugadas a todo o momento; os efeitos da colonização pela ótica dos colonizados; questionamentos de quem participou da Segunda Guerra Mundial, mas não na condição de “protagonista”, e sim de “coro” ou “quorum” para as “grandes potências” e mais alguma coisa que eu talvez tenha deixado passar aqui, seja por esquecimento ou por não querer dar muito spoiler do livro. Nós precisamos ler mais literatura africana para entendermos a nós mesmos não só como povo descendente (boa parte da população negra no Brasil veio de terras iorubás), mas também como povo colonizado. Vai por mim: você não vai se arrepender dessa viagem histórica e cultural.

 

“Somos como irmãs numa peregrinação. Por que não ajudaríamos uma à outra?” (p. 75) 

 

Minha experiência de leitura foi enriquecida com o audiolivro disponibilizado gratuitamente pela editora Dublinense no Spotify e em várias outras plataformas. Fui caminhando pela narrativa de Emecheta ora pelo áudio, ora pelo livro, e tive momentos de mesclar os dois recursos. Minha dificuldade de concentração em audiolivros foi superada, pelo menos em As alegrias da maternidade. Foi uma leitura ímpar, recomendo enormemente!

 

“Pode ser que você tenha razão de novo, esposa mais velha. Só que quanto mais eu penso no assunto, mais me dou conta de que nós, mulheres, fixamos modelos impossíveis para nós mesmas. Que tornamos a vida intolerável umas para as outras. Não consigo corresponder a nossos modelos, esposa mais velha. Por isso preciso criar os meus próprios.” (p. 234)

 

 

 

Título: As Alegrias da Maternidade

Autora: Buchi Emecheta

Tradução: Heloisa Jahn

Editora: TAG Curadoria / Dublinense

Páginas: 320

 

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agosto 12, 2019

[RESENHA] O PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA, DE CHIMAMANDA NGOZIE ADICHIE

Sinopse: Uma das palestras mais assistidas do TED Talk chega em formato de livro. Para os fãs de Chimamanda, e para todos os que querem entender a fonte do preconceito.

O que sabemos sobre outras pessoas? Como criamos a imagem que temos de cada povo? Nosso conhecimento é construído pelas histórias que escutamos, e quanto maior for o número de narrativas diversas, mais completa será nossa compreensão sobre determinado assunto. 
É propondo essa ideia, de diversificarmos as fontes do conhecimento e sermos cautelosos ao ouvir somente uma versão da história, que Chimamanda Ngozi Adichie constrói a palestra que foi adaptada para livro. O perigo de uma história única é uma versão da primeira fala feita por Chimamanda no programa TED Talk, em 2009. Dez anos depois, o vídeo é um dos mais acessados da plataforma, com cerca de 18 milhões de visualizações. 
Responsável por encantar o mundo com suas narrativas ficcionais, Chimamanda também se mostra uma excelente pensadora do mundo contemporâneo, construindo pontes para um entendimento mais profundo entre culturas.”

 

Você também pode se interessar por Sejamos todos feministas Para educar crianças feministas: um manifesto.

 

O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozie Adichie (Companhia das Letras, 2019), é a terceira palestra que a autora nigeriana ministrou para o TED Talks que acabou virando livro, tamanha a importância do assunto tratado. De forma bem simples, Chimamanda fala sobre o perigo (constante, ao qual ninguém está livre) de nos apegarmos a uma única narrativa, dando exemplos de sua própria trajetória.

Nós, seres humanos, somos feitos de histórias. Tudo o que sabemos e transmitimos é história, é construção social. Pensar nos perigos de uma história única vai bem mais além, portanto, de apenas ouvir os dois lados da história. Nos livrarmos das armadilhas da história única requer rever nossos próprios conceitos, pensar e pelo menos tentar entender o porquê pensamos determinadas coisas sobre pessoas, entidades, países etc.

A primeira vez que tive contato com essa palestra foi quando cursei a primeira disciplina de literaturas africanas de língua portuguesa, da UFF/CEDERJ. A nossa primeira tarefa desta disciplina foi responder a um fórum sobre qual seria a primeira coisa que nos vinha à mente quando o assunto era África. Podíamos responder com textos e/ou imagens, desde que com as devidas referências e justificativas. Acredito que não deve ser difícil para você que está lendo agora imaginar o que foi 99% das respostas. Praticamente todo mundo (incluindo eu) respondeu com imagens de fome, pobreza, exclusão social… daí para pior. Nenhum de nós sequer respondeu que a África é um continente imenso, bastante diverso e não um país. Todos caímos no estereótipo da narrativa única sobre a África.

Outro exemplo de narrativa única é, de modo geral, as comemorações do Dia da Consciência Negra nas escolas. O dia que poderia ser usado para mostrar narrativas diversas acaba caindo sempre no tema escravidão. Como se esse fosse o único assunto possível envolvendo os negros no Brasil.

 

“É assim que se cria uma história única: mostre um povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna.”

 

“O poeta palestino Mourid Barghouti escreveu que, se você quiser espoliar um povo, a maneira mais simples é contar a história dele e começar com ‘em segundo lugar’. Comece a história com as flechas dos indígenas americanos e não com a chegada dos britânicos, e a história será completamente diferente. Comece a história com o fracasso do Estado africano e não com a criação colonial do Estado africano, e a história será completamente diferente.”

 

 

Trazendo para o nosso presente atual, ainda no contexto da educação, recentemente as Universidades Federais foram acusadas de promover balbúrdia, de não fazer pesquisa, de serem de qualidade inferior etc., pelo próprio Ministro da Educação. Sem entrar em discussões político-partidárias no momento, será mesmo que as nossas Universidades estão assim tão exclusivamente desordeiras? Não existem, para dizer o mínimo, hospitais, clínicas, creches, bibliotecas etc. administradas por essas Universidades que atendem à população que não pode pagar e/ou não consegue atendimento em outros lugares? Estão restringindo toda a rede federal de ensino a uma história única, pelo que parece. Por qual motivo deveria ser o nosso questionamento.

 

“A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.”

 

“As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.”

 

 

Esse é um tema extremamente importante e muito pertinente termos essa palestra também em livro, para ser multiplicada em todos os canais possíveis. A fala de Chimamanda Ngozie Adichie é bem direta e nos convida a pensar. Assista, leia e reflita. Precisamos disso mais do que nunca.

 

 

 

Título: O perigo de uma história única

Autora: Chimamanda Ngozie Adichie

Tradução: Julia Romeu

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 64

Compre na Amazon: O perigo de uma história única.

 

 

Assista a palestra O perigo de uma história única, que deu origem a este livro (com legendas em português!):

março 15, 2017

[RESENHA] PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS: UM MANIFESTO

Sinopse: “Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa.” Fonte: Companhia das Letras. 

 

Chimamanda Ngozie Adichie é uma das mulheres que eu mais respeito quando o assunto é feminismo. Ela é o tipo de feminista que eu me esforço para ser, não exclui ninguém (pelo menos tenta não excluir) e não fica apenas repetindo jargão de internet. Com seu discurso prático e acessível, ela apresenta ideias para uma sociedade mais justa, em que as mulheres possam assumir um papel protagonista, assim como os homens sempre fizeram.

Li mais de uma vez o livro que teve origem com a palestra que ela deu para o TED Talks, Sejamos Todos Feministas, e tornei-me grande fã de seu trabalho e trajetória de vida. Comprei, mas ainda não li o livro Hibisco Roxo, e tenho interesse em toda a sua obra, especialmente o livro Americanah, cujos direitos foram comprados por Lupita Nyongo para uma provável adaptação cinematográfica.

Agora, em sua publicação mais recente, Para Educar Crianças Feministas: Um Manisfesto, Chimamanda novamente mostra a face de um feminismo atual e inteligente. A publicação surgiu de uma carta que ela escreveu para uma amiga, Ijeawele, respondendo ao seguinte questionamento: como se deve educar uma criança feminista? Como seria aplicar o feminismo na criação de uma menina, por exemplo? Pois bem, a autora escreveu uma lista com 15 sugestões para uma educação feminista, que podemos pelo menos tentar aplicar em nossos filhos e crianças próximas.

“Há alguns anos, quando uma amiga de infância – que cresceu e se tornou uma mulher bondosa, forte e inteligente – me perguntou o que devia fazer para criar sua filha como feminista, minha primeira reação foi pensar que eu não sabia.

Parecia uma tarefa imensa.

Mas, como eu me manifestara publicamente sobre o feminismo, talvez ela achasse que eu era uma especialista no assunto. Ao longo dos anos, eu havia cuidado de muitos filhos de pessoas próximas, tinha sido baby-sitter e ajudado a criar sobrinhos e sobrinhas. Havia observado muito, ouvido muito e pensado ainda mais.

Em resposta ao pedido de minha amiga, resolvi lhe escrever uma carta na esperança de que fosse algo prático e sincero, e também servisse como uma espécie de mapa de minhas próprias reflexões feministas. Este livro é uma versão da carta, com pequenas alterações.

Agora eu também sou mãe de uma menininha encantadora e percebo como é fácil das conselhos para os outros criarem seus filhos, sem enfrentar na pele essa realidade tremendamente complexa.

Ainda assim, penso que é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens.

Minha amiga respondeu dizendo que iria ‘tentar’ seguir minhas sugestões. E, ao relê-las agora como mãe, eu também estou decidida a tentar.” (Introdução, por Chimamanda Ngozie Adichie)

 

Esse livro é genial, pois mostra um caminho ao invés de apenas apontar erros e fazer textão na internet. Existem muitas mulheres que se dizem feministas, mas quando se deparam com uma mãe casada, tendo uma vida doméstica por escolha, torcem o nariz. Saí de muitos grupos feministas e parei de seguir muitas páginas de ou sobre feminismo no facebook por essa razão. Lá, eu não seria uma feminista de verdade, porque além de todas as outras atividades que eu exerço, escolhi também ser mãe, esposa e dona de casa. Para muitas, essa minha escolha é um desperdício. Eu considero pessoas assim como um desperdício para um movimento tão legítimo e que nos rendeu tantos frutos dos quais gozamos contemporaneamente. Mais que textão falando sobre tudo o que o patriarcado roubou e ainda tenta roubar de nós, Chimamanda dá dicas para serem colocadas em prática, e é isso que nós, feministas de hoje, precisamos. Por em prática tudo aquilo que fica lindo e ganha muitos likes nas redes sociais.

 

 

 

Título: Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto.
Autora: Chimamanda Ngozie Adichie
Tradução: Denise Bottman
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 96

Compre na Amazon: Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto

 

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