março 20, 2020

[RESENHA] MÚLTIPLA ESCOLHA, DE ALEJANDRO ZAMBRA

Sinopse: “O novo livro de Alejandro Zambra, o autor chileno mais aclamado pela crítica internacional. Dizer que Múltipla escolha é um romance seria tão arriscado como dizer que não é. Talvez seja melhor afirmar apenas que se trata de um livro de Alejandro Zambra, porque o estilo e os temas que o converteram em uma das principais vozes da literatura latino-americana se desdobram, aqui, de forma radical. A partir da estrutura da Prova de Aptidão Verbal, aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no Chile, o autor cria relatos unindo fragmentos líricos e exercícios de linguagem para retratar problemas éticos: a necessidade de mentir para se afirmar, a vontade de estabelecer vínculos apesar da desconfiança, a percepção de que fomos instruídos a obedecer e repetir. Múltipla escolha passeia por temas que desafiam a sociedade a desigualdade, a memória, a educação e mostra um autor que continua projetando uma obra que se diferencia pela maneira como combina a indignação, o humor e a delicadeza.”

 

Na época da faculdade de Letras eu me interessei muito sobre o estudo dos gêneros textuais (não confundir com gêneros literários!). O esforço dos professores, conteudistas e o nosso mesmo, como “futuros professores de língua portuguesa”, era pensar em diversas formas (maneiras atraentes) de mostrar aos alunos que “tudo” é gênero textual. Mas nem “tudo” é apenas crônica, resenha, receita culinária, bula de remédio etc. (e põe etc. nisso!). Esse texto mesmo, que você está lendo agora, é uma resenha? É crônica? Estaria eu tentando lhe passar uma lição, dar uma aula?

 

De acordo com Bakhtin (2000), os gêneros textuais ou gêneros de texto, chamados por ele de “gêneros do discurso”, são os textos criados na e pela sociedade, ao longo de sua história, em atendimento às necessidades de comunicação que vão surgindo. Toda comunicação se dá por meio de um gênero textual. Fonte: Info Escola

 

O que eu mais gostava — gosto, na verdade —, em matéria de gêneros textuais é o chamado gênero híbrido. Eu não gosto da decoreba habitual das “antigas” aulas de língua portuguesa. Gosto de texto. De ler e pensar o texto. Você pode pensar que é óbvio, devido ao meu histórico de textos, sobretudo falando de livros e literatura. Mas, quando eu digo que gosto de texto, quero dizer que gosto de entender o texto, o porquê dele, sua estrutura. E na minha cabeça de estudante de Letras eu acreditava firmemente que todo mundo deveria ter acesso à uma educação mais cidadã, que preparasse o indivíduo não apenas para realizar uma prova (ou duas), mas que ele pudesse entender, também, um enunciado de jornal, uma notícia televisiva, um meme de internet (entendendo se é algo irônico ou de protesto) ou, ainda, saber desconfiar de textos visivelmente falsos (as tais fake news).

Agora você pode me perguntar: e o que diabos tem o Alejandro Zambra a ver com todo esse assunto de professorinha de português (que eu nem sou, já que trabalho em serviço administrativo-burocrático)?

Alejandro Zambra é o autor de Múltipla Escolha, publicado aqui no Brasil pela TusQuets Editores (2017). E é um exemplo G E N I A L de gênero híbrido!

A narrativa foi toda estruturada nos moldes da Prova de Aptidão Verbal, aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades do Chile (como o nosso ENEM, talvez). Desse modo, Múltipla Escolha é não só um livro gênero híbrido, mas uma leitura infinita. GRAÇAS A DEUS aqui não tem resposta certa, o que vale é o que você escolher. Em uma primeira leitura (porque vou ler de novo, com certeza), eu garanto: você vai ter uma experiência ao mesmo tempo bastante inusitada e agradável. Imagine um ENEM (sem o peso de ter que alcançar uma boa pontuação, é claro) que falasse sobre ética, sentimentos, jogos de linguagem, ditadura (chilena), humor (e com humor). É um livro perfeito para sala de aula, talvez mais perfeito para quem está do lado solitário da sala. Mas eu consigo imaginar muitas formas de leitura para a galera do outro lado, a que nem sempre está interessada ou realmente motivada com o material que têm à disposição.

MAS NÃO PENSE QUE O LIVRO DO ZAMBRA OU OS GÊNEROS TEXTUAIS SÃO COISAS PARA A “GALERA DE LETRAS”. Não é isso. Como eu sou — já fui — dessa “galera”, tive essa lembrança a partir da leitura deste livro. Então resolvi escrever esse diário. Ou seria resenha? Uma crônica?

 

Marque a alternativa correta abaixo:

(   ) Resenha.

(   ) Resenha meio sem noção.

(   ) Essa mulher nunca foi de escrever resenhas muito certinhas mesmo.

(   ) Todas as alternativas anteriores.

(   ) Nenhuma das alternativas anteriores.

Título: Múltipla escolha
Autor: Alejandro Zambra
Tradução: Miguel Del Castilho
Editora: TusQuets Editores
Páginas: 102
Compre na Amazon: Múltipla escolha
março 09, 2018

[RESENHA] ALÉTHEIA, DE SORAYA COELHO

Sinopse: “Quantas histórias cabem em um dia? O mendigo choroso segurando um fitilho vermelho. Irmãos malabaristas tirando seu troco no semáforo. Uma senhora dolorosamente comum sentada ao seu lado no metrô, repetindo um tique no cantinho dos lábios. Coisas fantásticas cabem na normalidade das nossas 24 horas. Eis aí uma Alétheia.”

 

Leia também: Duas histórias de Soraya Coelho para ler ainda hoje.

 

Primeiramente Fora Temer, vamos ao significado de Alétheia:

Alétheia (em grego antigo: λήθεια, «verdade», no sentido de desvelamento: de a-, negação; e lethe, «esquecimento»), para os antigos gregos, designava a verdade e a realidade, simultaneamente.

Em Sein und ZeitMartin Heidegger retomou o termo para definir a tentativa de compreensão da verdade. Realizou uma análise etimológica do termo a-letheia, atribuindo-lhe a significação de «desvelamento». Portanto, para Heidegger, alethéia é distinta do conceito comum de “verdade” – esta considerada como um estado descritivo objetivo.

Alétheia (em grego Ἀλήθεια), era uma Daemon que personificava a verdade, a honestidade e a sinceridade. Seus Daemones opostos eram Dolos, a trapaça, Apate, o engano, e Pseudea, a mentira, sua equivalente na mitologia romana era Veritas. Segundo uma fábula de Esopo foi criada por Prometeu em sua forja, com a ajuda de seu servo Dolos, a artimanha e as más artes:

“Dolus (trapaça) foi um dos aprendizes do astuto Prometheus, o Titan artífice. Quando este pretendia criar Veritas (Alétheia) para que regesse o comportamento dos homens, uma chamada de Iuppiter lhe obrigou a ausentar-se. Deixou Dolus custodiando a inacabada obra e este, inflamado de ambição, aproveitou a saída de seu mestre para fazer com suas próprias mãos uma figura exata em aparência a que estava fazendo Prometheus. Só lhe faltava terminar os pés quando ficou sem argila, e quando regressou com ela, encontrou o Titan que já havia regressado e, se divertindo pela semelhança das estátuas, havia metido as duas no forno para que terminasse de fazê-las, apesar de que a feita por Dolus não tinha pés. Uma vez terminada a obra lhes insuflou vida, e é por isso que Veritas (Alétheia), a verdade, caminhava graciosamente enquanto sua irmã gêmea, Mendacium (Pseudos), a mentira, segue seus passos cambaleando e quase sem sustentar-se. Por isso se diz que ainda que uma empresa feita com mentiras pareça começar com bom pé, no entanto sempre prevalecerá a verdade.”– Esopo, Fábula 530.

 

Fontes: Wikipedia: Alétheia e Wikipédia: Alétheia (Mitologia).

 

Alétheia foi um dos melhores livros que eu li em 2017. Em uma época a qual eu estava com o tempo curto para embarcar em leituras mais longas, fui surpreendida por dois livros de contos que me marcaram profundamente: este, de Soraya Coelho e Olhos D’água, de Conceição Evaristo.

Em Alétheia temos, de forma geral, uma antologia de verdades. Sobre o mundo, sobre a nossa própria vida. Verdades mesmo. É daqueles livros que você lê e, quando termina, volta e lê mais um pouquinho. É desconfortável se reconhecer em alguns pontos das histórias, mas ao mesmo tempo, é reconfortante saber que não estamos sozinhos.

A antologia é formada por dez contos, alguns bem curtinhos, mas com a qualidade de serem “precisos como uma picada de agulha”, como diria o escritor Dalton Trevisan. São todos muito bons, mas metade deles, na minha opinião, são ótimos. Lição de casa, Trabalho, João e Maria, Diante do espelho (que eu quase confundi com um dos contos de Conceição Evaristo ao fazer a resenha de Olhos D’água) e Peito queimado, são sensíveis e de impacto ao mesmo tempo. Acredito que quem não tenha lido nada de Soraya Coelho até hoje vai se render ao talento da autora só de ler esses contos.

 

“Existe uma diferença básica entre palpitar e pulsar. (…)

Palpitar sugere a possibilidade de nada ser feito. (…)

Já pulsar é impetuoso. Zune como uma lâmina de uma espada ou como uma flecha cortando o ar. Acerta o alvo. Faz o seu trabalho. O coração das mocinhas palpita, mas os das velhas senhoras pulsa.”

 

Alétheia tem prefácio de Jana Bianchi e é um livro que, absolutamente, faz o coração do leitor pulsar. Se eu fosse você, leria o quanto antes.

 

 

P.s.: Desculpem-me por não falar tintim por tintim sobre cada um dos contos. Quero que vocês recebam a picada sem muito aviso prévio. Acreditem: se eu contar demais, vou estragar a experiência de leitura de vocês e esse nunca foi o meu objetivo por aqui.

 

 

Título: Alétheia
Autora: Soraya Coelho
Editora: Publicação Independente
Páginas: 49

Compre na Amazon (disponível para assinantes Kindle Unlimited): Alétheia.

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