fevereiro 08, 2017

[RESENHA] PALÁCIO DAS ILUSÕES, FILME 1999

 

Mansfield Park, no Brasil traduzido como Palácio das Ilusões, é uma adaptação em filme do romance homônimo de Jane Austen, e também de algumas cartas que revelam dados sobre a biografia da autora e informações históricas da época. Foi uma produção da Miramax e da BBC filmes (EUA/Reino Unido), do ano de 1999.

Mesmo não sendo uma adaptação tão fiel ao livro, o roteiro de Patrícia Rozema foi muito acertado ao misturar Jane Austen e a personagem principal de Mansfield Park. Fanny Price (Frances O’Connor) passa de extremamente reservada a uma mulher vivaz e com grande imaginação para a escrita. Isso tornou a história mais ágil e atraente.

 

 

A história começa com a jovem Fanny deixando a pobreza da casa de seus pais em Portsmouth para viver no luxo com seus tios em Mansfield Park. Como sabemos, sua rotina na mansão não vai ser das mais fáceis, pois ela não é tratada como alguém da família, e sim com um objeto de caridade. Desta forma, sempre tem de ser útil, especialmente para a sua tia Norris e para a sonolenta tia Bertram. Na propriedade, contudo, tem acesso a livros e a uma educação refinada, que não seria possível junto a seus pais e irmãos. Edmund é o único membro da família a tratar a prima com sincero carinho e respeito. Alguns anos depois da chegada de Fanny, a rotina tediosa de Mansfield será abalada pela chegada dos irmãos Crawford. A partir daí, os sentimentos e as ações dos personagens ficarão confusos e nem Fanny, que no livro é praticamente inabalável, vai resistir a certas tentações e provações.

Algumas relações foram colocadas de acordo com o contexto da época (o livro é de 1814), o que foi muito positivo para a história. A questão dos escravos e a situação econômica da propriedade, por exemplo, explicam a viagem de negócios de Mr. Bertram. Seu interesse suspeito pela sobrinha pobre e que vive de favor em Mansfield é previsível pela posição social de ambos e pelo caráter de Mr. Bertram no filme.

Edmund (Jonny Lee Miller) demonstrou mais seus sentimentos por Fanny, em comparação ao livro, e isso torna a história mais agradável de assistir. Numa primeira leitura do romance pode ficar uma impressão de que ele não a ama como mulher e sim sempre a amou apenas como uma pessoa de sua família. Nesta adaptação a atração mal resolvida entre os dois fica mais evidente. Em defesa do livro, entretanto, temos a limitação da época em que foi escrito, além do estilo de Jane Austen, que deixava as situações no ar, sem dar detalhes mais quentes de seus personagens.

 

Mary Crawford (Embeth Davidtz) é bastante ousada nesta adaptação e seu irmão, Henry (Alessandro Nivola), é belo e sedutor. Fica claro e compreensível como eles conseguiram confundir os sentimentos de pessoas como Edmund e Fanny. Não ficou chato e insistente, pelo menos não a princípio.

 

Mansfield Park, ou Palácio das Ilusões, tem um roteiro muito bem amarrado, em que as histórias se encaixam perfeitamente. Até hoje é considerada uma das melhores adaptações de Mansfield Park, ainda que não tenha sido tão fiel ao romance de Jane Austen. A BBC fez uma nova adaptação, desta vez para a televisão, no ano de 2007, de forma mais fiel ao livro, contudo não foi feliz na escolha dos atores. Billie Piper (Rose Tyler, de Doctor Who) interpretou uma Fanny que nem os fãs mais amorosos conseguiram entender. Definitivamente ela não se encaixou naquilo que esperamos de uma Fanny Price. Frances O’Connor, mesmo tendo interpretado uma Fanny com toques de Jane Austen, ainda é a favorita de grande parte dos fãs de Mansfield Park.

 

Veja o trailer abaixo (em inglês):

 

Mais informações sobre a produção e o elenco aqui.

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

janeiro 13, 2017

[RESENHA] DOIS IRMÃOS, DE MILTON HATOUM

Sinopse: “Onze anos depois da publicação de Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum retoma os temas do drama familiar e da casa que se desfaz. Dois irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. O enredo desta vez tem como centro a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar.Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance”

 

Milton Hatoum é um escritor brasileiro, nascido em Manaus-AM em 1952, descendente de libaneses e considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade. Seus livros foram bastante premiados, com destaque para o romance Dois Irmãos, vencedor do prêmio Jabuti no ano de 2001 e traduzido para oito idiomas. Este romance foi adaptado em série pela TV Globo, sendo transmitida atualmente.

Dois Irmãos, conta a história dos gêmeos idênticos Yaqub e Omar, este último o Caçula. Os dois possuem personalidades bem diferentes e viverão em conflito por toda a vida, muito em razão da preferência que a mãe, Zana, tem pelo Caçula, nascido quase morto devido a complicações no parto.

A narrativa é feita por Nael, filho da empregada Domingas e de um dos gêmeos, e não é nada linear. O livro foi concebido como uma espécie de relato de memórias do personagem narrador, desta forma, à medida que ele lembra ou narra certos eventos, muitas vezes nos conta o que aconteceu no passado para explicar sua narrativa. Particularmente gostei muito desse estilo de escrita, pois o autor está sempre nos surpreendendo com alguma revelação sobre os personagens. A história começa com a morte de Zana, questionando se os filhos já fizeram as pazes, e o silêncio que antecede sua morte nos mostra que não.

O primeiro capítulo mostra a volta de Yaqub para o Brasil, depois de uma temporada no Líbano. Seu retorno, conclui-se, acontece no ano de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, pela movimentação no porto do Rio de Janeiro, “apinhado de parentes de pracinhas e oficiais que regressavam da Itália”. Posteriormente vemos o episódio que é o estopim para a viagem do gêmeo mais velho, numa tentativa de evitar um conflito maior entre os irmãos: ambos estavam apaixonados pela mesma moça, Livia, e Omar, por ciúme, dá uma garrafada no irmão, cortando-lhe a face e deixando uma cicatriz no local. Em um primeiro momento, Halim, pai dos Gêmeos, tem a ideia de enviar os dois para o Líbano, mas Zana convence-o a enviar apenas Yaqub, pois não conseguiria separar-se de Omar.

 

“Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quando os gêmeos completaram treze anos de idade. Halim queria mandar os dois para o sul do Líbano. Zana relutou, e conseguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub. Durante anos Omar foi tratado como filho único, único menino.”

 

O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, ‘porque nunca se sabe como vão reagir depois…’ Ele nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após a longa separação.”

 

Zana tinha três filhos. Além de Yaqub e Omar, havia também Rânia. Mas Omar era o rei absoluto em seu coração. O amor dela por este filho rompia barreiras, beirava o incesto. Mimava-o e sempre o protegia como se ainda fosse aquele bebê acometido por uma pneumonia logo ao nascer. Mesmo ficando separada de Yaqub, não chegou nem perto de tratá-lo com o mesmo carinho que dispensava a Omar.

“O rosto de Zana se iluminou ao ouvir um assobio prolongado – uma senha, o sinal da chegada do outro filho. Era quase meia-noite quando o Caçula entrou na sala. Vestia calça branca de linho e camisa azul, manchada de suor no peito e nas axilas. Omar se dirigiu à mãe, abriu os braços para ela, como se fosse ele o filho ausente, e ela o recebeu com uma efusão que parecia contrariar a homenagem a Yaqub. Ficaram juntos, os braços dela enroscados no pescoço do Caçula, ambos entregues a uma cumplicidade que provocou ciúme em Yaqub e inquietação em Halim.”

 

Ela sempre achava uma maneira de justificar algum ato de Omar, colocando-o como um pobre indefeso, desprovido de capacidade para cuidar de si próprio. Yaqub apenas teve o apoio do pai e da empregada Domingas durante o tempo que viveu em Manaus.

“Não queria morrer vendo os gêmeos se odiarem como dois inimigos. Não era mãe de Caim e Abel. (…) Então que Yaqub refletisse, ele que era instruído, cheio de sabedoria. Ele que tinha realizado grandes feitos na vida. Que a perdoasse por tê-lo deixado viajar sozinho para o Líbano. Ela não deixou Omar ir embora, pensava que longe dela ele morreria.”

 

O centro da história, obviamente, são os conflitos entre os irmãos, mas há muito mais em Dois Irmãos, que também comprovam a qualidade desta história e do autor. Como exemplo, o cenário manauara que foi lindamente bem descrito; também a história de Domingas, a índia que foi adotada para servir como ajudante de Zana, mostrando a realidade de muitos indígenas que foram retirados de suas aldeias, tendo sua liberdade e cultura arrancados de si, escravizados e, no caso das mulheres, violentadas; vemos ainda o saudosismo dos imigrantes libaneses que vieram fazer a vida em uma terra tão distante e diferente como o Brasil; uma rápida menção de como era a vida no norte do país nos tempos da ditadura militar; e a mistura, a sedução e a falta de limites com os quais estamos acostumados nas relações familiares. Tudo isso o leitor verá em Dois Irmãos. É um orgulho ter um autor como Milton Hatoum em terras brasileiras e ainda em atividade. Eu e, acredito, os leitores brasileiros em geral, precisamos conhecer e prestigiar nossos autores, especialmente aqueles que estão vivos e em atividade.

 

“Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.”

 

 

Título: Dois Irmãos

Autor: Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 270

Compre na Amazon: Dois Irmãos, de Milton Hatoum

janeiro 10, 2017

[RESENHA] MISS AUSTEN REGRETS, ADAPTAÇÃO DA BBC

Miss Austen Regrets é uma adaptação com base em cartas e informações biográficas da escritora Jane Austen, produzida pela BBC e exibida originalmente em 2007. O elenco contou com nomes como Olivia Williams (Jane Austen), Hugh Bonneville (Mr. Bridges), Greta Scacchi (Cassandra Austen), Imogen Poots (Fanny Austen Knight), Tom Hiddleston (Mr. Plumptre), dentre outros.

Diferente de Becoming Jane (no Brasil, Amor e Inocência), aqui vemos uma Jane Austen madura. A série é bastante melancólica e retrata uma Jane até então desconhecida; uma mulher insegura e com possíveis arrependimentos.

 

Escrever cartas era algo muito agradável para Jane Austen.

 

A série começa em 1802, com o pedido de casamento de Harris Bigg-Whiter e a resposta positiva de Jane, motivada, talvez, pela surpresa que ela teve com a proposta. Logo na manhã seguinte, Jane e Cassandra Austen deixavam Manydown House, pois Jane se arrependera de ter aceitado o pedido.

Doze anos depois, sua sobrinha, Fanny, está prestes a se casar e deseja a opinião da tia Jane sobre um pretendente, Mr. Plumptre.

Fanny: “Por favor, não espere por um Mr. Darcy”. Jane Austen: “Minha querida, isto é o mundo real. A única maneira de ter um Mr. Darcy é inventando-o”.

 

Fanny é romântica e inspira-se nos livros da tia. Mas também é uma jovem que não tem outro objetivo a não ser o matrimônio; não ficará satisfeita até se tornar a esposa de alguém. É imatura e acha que tudo deve girar em torno dela e de seus planos.

“Moças de 20 anos estão tão desesperadas para se apaixonarem. É tão difícil dizer se é real. Todos deviam ter a chance de se casar uma vez por amor, se puderem.”  (Jane Austen sobre os sentimentos de Fanny pelo Sr. Plumptre)

 

A opinião de Jane sobre os assuntos do coração era frequentemente solicitada, contudo, sua família não perdia tempo em lembrar-lhe que ela não tinha experiência no assunto. O fato de nunca ter se casado foi um fardo sempre presente na vida da autora, lembrado sempre e toda vez que havia uma oportunidade.

Seus livros eram um sucesso, mas a pobreza era uma realidade. Ela chegou a cogitar pedir mais dinheiro pela publicação de Emma, mas seus irmãos não viam com bons olhos que ela pedisse um aumento. Não era elegante uma mulher aos 40 anos de idade escrever para o seu sustento, isso envergonharia a família.

Miss Austen Regrets também retrata a visita de Jane Austen ao Príncipe Regente, onde ela foi recebida pelo bibliotecário James Stanier Clarke. Na ocasião, a autora foi autorizada a dedicar o próximo romance a ser publicado, Emma, a Sua Alteza Real, o Príncipe Regente. Ele era fã de Austen e tinha cópias dos romances dela em todas as suas residências.

 

Nesta adaptação, o pretendente principal é o afetuoso Mr. Bridges. Não tinha lido ou ouvido falar dele antes de assistir Miss Austen Regrets. Existem tantas suposições sobre a vida amorosa de Jane Austen, seus pretendentes etc., que nunca temos certeza se as histórias retratadas nos filmes e em algumas biografias são realmente verdade.

Mr. Bridges: “Não a teria impedido de escrever, se era isso que temia”.

Jane Austen: “Como poderia ter escrito se tivéssemos casado? Todo o trabalho de ser mãe…”.

 

Jane menciona um antigo pretendente, Tom Lefroy, que foi retratado em Becoming Jane.  Ela simplesmente diz que ele não foi o cara.

 

Cassandra desenhando sua irmã, Jane Austen. A cena recria o momento da pintura do único retrato que conhecemos da autora.

 

Nesta altura, aos 40 anos, Jane já dava sinais que estava adoecendo. A autora estava escrevendo Persuasão e se preocupava se conseguiria terminar o romance.

Jane Austen faleceu aos 41 anos, numa sexta feira, 18 de julho de 1817. Com base nas cartas às quais temos acesso e que falam sobre os sintomas da doença que lhe tirou a vida, a opinião médica atual acredita que a autora tenha sofrido de Doença de Addison; uma perda da função das glândulas suprarrenais.

A tristeza de Cassandra por perder o sol de sua vida, como dito na adaptação, é comovente. As duas irmãs tiveram uma amizade tão forte e bela que, quando assistimos Cassandra queimar algumas cartas escritas por Jane, entendemos e perdoamos tal fato. Penso, assim como muitos admiradores e estudiosos de Jane Austen, que ela quis preservar a imagem da irmã e alguma história que não fosse adequada tornar pública.

Se alguém tinha esse direito, definitivamente esse alguém era Cassandra Austen.

 

Miss Austen Regrets foi lançado no Brasil como integrante do DVD de Razão e Sensibilidade (BBC, 2008), e também faz parte do box A Obra Completa de Jane Austen, da extinta produtora LogOn, com 10 discos.

 

 

Referências:

James, Syrie. As Memórias Perdidas de Jane Austen. Tradução de Claudia Melo. Rio de Janeiro: Galera Record, 2013.

https://en.wikipedia.org/wiki/Miss_Austen_Regrets

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

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