abril 27, 2017

[RESENHA] JANE EYRE, ADAPTAÇÃO DA BBC (2006)

 

Jane Eyre é uma adaptação do romance homônimo de Charotte Brontë, em série de quatro episódios, produzida pela BBC no ano de 2006. Foi considerada um sucesso na época de sua estreia, tendo sido indicada a vários prêmios, ganhando três Emmys e um BAFTA.

Aqui temos uma heroína de espírito livre, que desde a infância não se deixa abater pelas maldades de sua tia Reed e de seus primos. Passamos rapidamente pela infância de Jane Eyre, mas todos os pontos mais importantes foram mostrados: o quarto vermelho e sua tortura psicológica, o retrato de família o qual ela não pôde participar e a sua passagem pela escola Lowood.

 

A pequena Jane Eyre no internato Lowood.

 

Ao mesmo tempo que clamava por liberdade, Jane Eyre ansiava por amar e ser amada, reciprocidade que ela teve poucas vezes em sua vida. Ir para Thornfield Hall, trabalhar como preceptora de Adele, traz para a vida da jovem um pouco de tudo aquilo que ela sempre sonhou: paz, um lar seguro e ser tratada como igual pelas outras pessoas.

O casal Jane e Rochester desta adaptação, interpretados por Ruth Wilson e Toby Stephens, foram os melhores que já vi até agora! Ambos possuem elementos que os tornam fieis ao casal do livro, portanto são verossímeis e apaixonantes. A sintonia entre os atores é tão boa que percebemos a faísca entre os personagens desde a primeira vez que Rochester chama Jane de bruxa, por ela ter enfeitiçado seu cavalo e tê-lo feito cair dele. Particularmente, adoro o Rochester desgrenhado de Toby Stephens, pois é como sempre imaginei o personagem. Além disso, o jeito grosseirão deste Rochester deu toques de comicidade ao personagem, o que achei bastante positivo, em contraponto a doçura e a inteligência de Miss Eyre.

 

 

Jane Eyre e Mr. Rochester são um dos meus casais favoritos da ficção. Não só por serem como iguais, como eles mesmos dizem em alguns momentos, mas também pela amizade que existe entre eles. Rochester confia a Jane quase todos os seus segredos e anseios mais profundos, sem reservas, e Jane, em contrapartida, é uma ótima ouvinte, pois não faz julgamentos, embora sempre exponha sua sincera opinião.

 

 

A aparição de Blanche Ingram, nobre e bela pretendente ao coração de Rochester, embora cruel com a apaixonada Jane Eyre, foi muito bem trabalhada e positiva para o casal nesta adaptação. A realidade é que Rochester tinha tanta necessidade de amar e ser amado quanto Miss Eyre, portanto não poupou esforços para deixar a jovem enciumada e assim ter provas de seu amor. O melhor de tudo é que ela terá a sua oportunidade mais tarde, rapidamente, contanto histórias do tempo que passou com St. John e suas irmãs, após a cerimônia frustrada de casamento entre ela e Mr. Rochester. Com todos os segredos revelados, nossa heroína deixa Thornfield Hall, mas apenas para descobrir que a ligação entre ela e o seu amado é forte demais para ser desfeita.

 

A “bela” Blanche Ingram.

 

Algum tempo depois de deixar Rochester, Jane retorna e o casal reafirma os seus sentimentos em uma das cenas mais belas das adaptações literárias; uma nova declaração para reafirmar tão grande amor:

“– Na noite em que fui embora… Na noite em que fui embora você falou de uma Villa que tinha no Mediterrâneo, onde poderíamos nos refugiar e viver como irmão e irmã.

– Eu me lembro.

(…)

– Jane, você ainda está aí? – pergunta Rochester sem poder enxergá-la.

– Estou, Senhor.

– Jane, esta Villa de que eu falei, com quartos separados e isso de beijos na bochecha nos nossos aniversários…

– Sim.

– Esse plano não me atrai como antes.

– Não quer que sejamos amigos? – pergunta Jane, temerosa de que o afeto de Mr. Rochester por ela tenha mudado.

– Jane, poderia fazer a gentileza de vir sentar-se ao meu lado? Jane… eu quero uma esposa. Eu quero uma esposa. Não uma enfermeira que cuide de mim. Eu quero uma esposa para compartilhar minha cama toda noite. Ou todo o dia, enfim… Se eu não puder ter isso, prefiro morrer. Jane, nós não somos do tipo platônico…

– Você pode me ver? – pergunta Jane, bem próxima a Rochester, que confirma.

– Então escute isso, Edward: sua vida não é sua para escolher se render, ela é minha. Ela é toda minha e eu o proíbo.” (Jane Eyre, BBC 2006)

 

 

O mais especial nesta adaptação é que a história prossegue um pouco mais além do reencontro do casal. Mesmo sabendo que nos filmes o tempo é mais curto, muitos diretores parecem ter predileção por finais abertos (vide Orgulho e Preconceito, 2005), mas considero um prejuízo quando diálogos importantes como o visto acima são cortados. Aqui, em quatro capítulos, toda a essência do maravilhoso romance de Charlotte Brontë consegue ser transmitida. Mais uma grande adaptação da BBC!

 

 

Elenco: Ruth Wilson (Jane Eyre); Toby Stephens (Edward Fairfax Rochester); Lorraine Ashbourne (Mrs. Fairfax); Tara Fitzgerald (Mrs. Reed); Andrew Buchan (St. John Rivers); Daniel Pirrie (Richard Mason); Christina Cole (Blanche Ingram); Claudia Coulter (Bertha); Georgie Henley (Jane Eyre, quando criança), dentre outros.

 

 

REFERÊNCIA:

https://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Eyre_(2006_miniseries)

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Veja também:

Jane Eyre, filme de Robert Stevenson (1943).

 

 

abril 05, 2017

[RESENHA] JANE EYRE, FILME DE ROBERT STEVENSON (1943)

 

Jane Eyre é uma adaptação para o cinema do romance homônimo de Charlotte Brontë, produzida em 1943, estrelada por Orson Welles (Cidadão Kane, 1941) e Joan Fontaine (Oscar de melhor atriz por Suspeita, 1941).

Adaptar um romance de tão grande tamanho e importância como Jane Eyre não deve ser tarefa fácil! Mesmo tendo um escritor renomado como Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo, livro de 1932) entre os roteiristas, muita coisa fica de fora ou é substituída por algo mais adequado, fato que acontece nesta adaptação dirigida por Robert Stevenson. Para os mais apegados ao livro, essa adaptação não é das melhores no quesito fidelidade. Mesmo sendo um filme rodado em preto e branco (o que é de um charme irresistível) e tendo uma trilha sonora que não deixa que desgrudemos da tela, algumas coisas incomodam.

Primeiramente, o longa se chama Jane Eyre, mas o destaque é todo de Orson Welles. A grande estrela do filme é ele, e isso é informado logo na abertura, mas todo esse brilhantismo acaba por ofuscar nossa querida Jane de Joan Fontaine. Consta que Mr. Welles frequentemente chegava atrasado ao set de filmagem e sua chegada triunfal era composta de um séquito de empregados, dentre eles uma secretária! Robert Stevenson assinou como diretor, mas na realidade era Welles quem dava as cartas nas gravações.

 

 

Joan Fontaine, creio eu, era bela demais para o papel. Sua Jane chegava a ser angelical em determinados momentos; diferente de seu retrato enquanto criança, vivido pela atriz Peggy Ann Garner. O espírito livre de Jane Eyre adulta ficou lá no livro de Charlotte Brontë… Imagino que isso se deve por ser uma adaptação feita em 1943. É sempre bom lembrar que um livro clássico ou, como neste caso, a adaptação cinematográfica de um clássico, foi feita na e para a época. Mesmo as histórias que conseguem romper as barreiras do tempo têm suas limitações. Um filme feito por homens em 1943 não poderia transmitir, mesmo se eles quisessem, toda a liberdade de pensamento e independência de Jane Eyre. Em uma das cenas mais sem noção desse longa, quando Jane deixa Lowood, ela espera por algum enviado de Thornfield em uma estalagem e um senhor lhe oferece uma taça de vinho, no pior estilo safadinho que existe. Jane, obviamente recusa e quando vai embora recebe uma piscadela indecente do referido senhor. A cena chega ser cômica de tão ridícula! Imagino se a intenção dos roteiristas não seria mostrar às senhoras da plateia o quanto poderia ser perigoso enfrentar uma viagem sozinha. Um ato de independência que foi retratado de forma risível. Uma pena. Destaco como a melhor cena de Fontaine a declaração de amor para Mr. Rochester. Um dos diálogos mais intensos já escritos, que foi adaptado de forma emocionante.

 

“O senhor pensa que por eu ser pobre, sombria, simples e pequena, não tenho alma ou coração? Se pensa, está enganado! Tenho tanta alma quanto o senhor. E um coração ainda maior! E se Deus me tivesse presenteado com alguma beleza, e mais riqueza, eu tornaria tão árduo para o senhor deixar-me o quanto me é árduo deixá-lo agora.” (retirado do livro Jane Eyre, edição do ano de 2014, Editora Martin Claret)

 

 

No mais, é uma adaptação que merece ser vista, principalmente pelos admiradores do romance de Charlotte Brontë! Aqui Jane também narra a sua história, como se estivesse lendo para nós o seu diário: “Meu nome é Jane Eyre… Nasci em 1820…”. Sua infância foi retratada rapidamente e logo somos transportados a Thornfield, com Mr. Rochester. Apesar de sentir que a história ficou um pouco desvirtuada, gostei do Rochester de Orson Welles. Ele imprimiu força e sombriedade necessárias ao personagem. Só não me convenceu muito nas cenas românticas com Fontaine. Não é a melhor adaptação para o cinema, como diz a contracapa do DVD, mas é uma bela adaptação, principalmente para os amantes do cinema em preto e branco.

 

 

Ficha Técnica

Título: Jane Eyre.

Ano: 1943.

Roteiro: John Houseman, Aldous Huxley e Robert Stevenson, baseado no romance homônimo de Charlotte Brönte.

Direção: Robert Stevenson.

Elenco: Orson Welles e Joan Fontaine; com Margareth O’Brien, Peggy Ann Garner e John Sutton.

 

 

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Eyre_(1943_film)

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

março 02, 2017

[RESENHA] BRIDE AND PREJUDICE: ORGULHO E PRECONCEITO EM VERSÃO INDIANA

Bride and Prejudice, ou Noiva e Preconceito, em português, é a versão bollywoodiana de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. O filme é de 2004, mas só tive a oportunidade de assisti-lo nos últimos dias e foi uma grata surpresa.

Não é de hoje, contudo, que ouço falarem da versão indiana do clássico de Jane Austen. Preconceituosamente, achei, sem nem assistir, que seria um filme ruim, uma história forçada, com muita coreografia e maquiagem. Teve tudo isso, mas foi lindo.

Alguns personagens mantiveram os mesmos nomes do livro de Austen, outros, como Elizabeth Bennet, ganharam uma versão indiana. No caso de nossa protagonista, ela tornou-se Lalita Bakshi.

A história se passa em Amritsar, Índia, onde será realizado um casamento em que Mr. Bingley, no filme, Mr. Balraj, participa como padrinho do noivo. Willian Darcy, no filme um americano, e Kiran Balraj (Caroline Bingley), estão com ele na cerimônia. Balraj é de Nova Deli, mas mora na Inglaterra, onde conheceu Darcy quando este estudou em Oxford. É no casamento que os amigos conhecem a família Bakshi e começam a fazer conexões.

Deixando de lado a velha e maravilhosa fórmula que Jane Austen criou em seu romance mais famoso, em que o casal inicialmente se detesta, mas depois se apaixona, tendo que vencer os desafios causados pelo orgulho e pelo preconceito para ficarem juntos, este filme tem algo a mais. A questão cultural foi muito bem abordada, dentro do que era possível em uma adaptação curta como um filme.

“ – Você devia ter visto o rosto da Sra. Lamba! Balraj não dançou com nenhuma outra garota a noite toda. Sabia que ele não resistiria ao charme da minha linda Jaya.

 – Ou o seu, é claro.

 – Imagine, se Jaya fosse morar no Reino Unido, poderíamos visitá-la a qualquer hora.

 – Não gostaria de ver minhas filhas tão longe.

 – Mas temos tantas. Uma ou duas podem morar no exterior. Elas vão ganhar mais, e Deus sabe que elas vão precisar. Porque não temos recursos para dar à todas um dote decente.

 – Talvez devêssemos ter afogado uma ou duas quando nasceram.”

 

Na Índia, ainda hoje, infelizmente, é comum que as meninas sejam abortadas ou mortas após o nascimento, para evitar a despesa com dote e casamento. É mais vantajoso, dentro da tradição, ter um filho homem. Em um diálogo descontraído do filme, a fala do Mr. Bakshi, Mr. Bennet, no original, evidencia essa parte triste da cultura indiana.

A Sra. Bennet continua um espetáculo a parte. Nesta adaptação, Mrs. Bakshi procura maridos para as filhas até em site de relacionamentos indianos. Sim, porque a família não quer apenas um bom partido, ele também deve compartilhar de sua cultura.

Darcy, como esperado, acha tudo muito primitivo. Casamento arranjado, coreografias, um trânsito louco, internet ruim em seu hotel. Mas desde o primeiro momento Lalita mostra que a Índia é muito mais do que supõem pessoas preconceituosas como ele.

“ – Esse é o seu primeiro casamento indiano?

– Sim, Está sendo uma experiência e tanto.

– Você não está se divertindo?

– Não, estou sim. Acho esse negócio de casamento arranjado um pouco estranho. Não sei como as pessoas podem se casar sem terem conhecido um ao outro. Acho isso um pouco atrasado, você não acha?

– Isso é tão clichê. É diferente hoje em dia. É mais parecido com um serviço de namoro global. O noivo parece feliz. Os pais o forçaram a casar?

– Não, foi ele quem pediu aos pais que achassem uma noiva para ele. Ele estava ocupado gerenciando sua empresa. Ele só queria algo simples.

– Entendo. Então ele veio aqui. É isso que você acha também? Que a Índia é um lugar para encontrar uma mulher simples?

– Espere, não. Não foi isso o que eu quis dizer.

– É engraçado, os americanos pensam que têm respostas para tudo, incluindo casamentos. Bastante arrogantes, considerando que têm a maior taxa de divórcio do mundo.

(…) Mr. Balraj chama para dançar

– Escute, sou um péssimo dançarino, mas… bem, isso parece que você coloca uma lâmpada com uma das mãos e faz carinho num cachorro com a outra. Você me ensina?

– Sabe o que eu acho? Acho que você deveria achar alguém simples e tradicional para lhe ensinar a dançar como os nativos.”

 

A questão do imperialismo norte americano é mencionado rapidamente no casamento e novamente discutido na fala que, no livro, é sobre o padrão de mulher ideal para Darcy. Um fato interessante, que eu não vi até o momento em nenhuma outra adaptação moderna de Orgulho e Preconceito é que aqui, Lalita questiona se o alto padrão que Darcy buscava em uma parceira faria dele um homem ideal. Ponto positivo para Noiva e Preconceito, que outras adaptações que transportaram a história de Jane Austen para os tempos atuais deixaram passar.

“ – Certamente você teria problemas para encontrar sua mulher ideal na Índia. Não ouvi ‘simples’, ‘tradicional’, ‘subserviente’ na sua lista.

– Ora, vamos, me dê um tempo! Agora você está distorcendo minhas palavras.

– Você mesmo disse estar acostumado ao melhor. Tenho certeza de que acha que a Índia está abaixo de você.

– Se eu realmente pensasse assim, por que eu estaria pensando em comprar esse lugar? – disse referindo-se a um hotel de luxo.

– Você acha que isso é a Índia?

– Bem, você não quer ver mais investimentos, mais empregos?

– Sim, mas quem realmente se beneficiaria disso? Você quer que as pessoas venham para a Índia sem ter que lidar com os indianos.

– Ah, isso é bom. Lembre-me de colocar isso no folheto  de turismo. – diz olhando para Kiran (Caroline Bingley)

– Não é isso que todos os turistas querem aqui? Conforto cinco estrelas com um pouco de cultura no meio? Eu não quero que você transforme a Índia em um parque temático. Achei que estávamos livres de imperialistas como você.

– Não sou inglês, sou americano.

– Exatamente!”

 

Mr. Collins, nesta adaptação, Mr. Kholi, é um canastrão de marca maior. Engraçadíssimo, faz o perfil do indiano que foi para os Estados Unidos e acaba reproduzindo os preconceitos de quem é de lá. Após ganhar o Green card, considera-se superior aos seus compatriotas e à cultura de seu país natal. Lalita recusa a oferta maravilhosa de casar-se com ele e ir morar próximo a Hollywood, destino este aceito prontamente por sua amiga Chandra Lamba (Charlotte Lucas). O Collins mais legal que eu já vi, só perde para o original do livro.

 

Mrs. Catherine de Bourgh e Giogiana Darcy, aqui Catherine Darcy e Georgina “Georgie” Darcy, respectivamente, com a diferença que a primeira é a mãe de Darcy, e não tia, tiveram pouco destaque no filme. Interpretadas por Marsha Mason e Alexis Bledel (Gilmore Girls), suas aparições foram participações especiais. Tiveram certa importância na trama, mas foram muito rápidas. Até me surpreendi ao ver a Alexis Bledel entrar em cena. Gostaria de uma série em alguns episódios para poder ver mais das duas personagens, e também, claro, do Mr. Kholi.

 

Um ditado que eu achei muito lindinho, e que foi colocado de maneira muito sutil na trama é de que quando você espirra, alguém estaria pensando em você. Darcy e Lalita espirram diversas vezes no filme. Momentos singelos de puro romance.

As coreografias são perfeitas, e as músicas bem legais. Depois de assistir, duvido que você também não deseje viver em um filme indiano, em que tudo vira festa! O roteiro acertou em misturar a magia e a cor dos filmes indianos com a questão cultural, uma transição natural da obra de Austen, que abordou o social em Orgulho e Preconceito.

 

 

Confira o trailer abaixo (em inglês):

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

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