junho 21, 2020

[RESENHA] SEGREDOS, DE DOMENICO STARNONE

Sinopse: “Anos 1970, Itália. Pietro tem 33 anos e é professor numa escola na periferia de Roma. Ele mantém um relacionamento tempestuoso com Teresa, dez anos mais nova, uma ex-aluna brilhante e independente que parece o tempo todo testar seus limites. Certa ocasião, Teresa propõe um jogo: que eles compartilhem um com o outro o seu segredo mais obscuro. Poucos meses depois de se confessarem, o romance acaba. Pietro se envolve então com Nadia, uma jovem que lhe transmite segurança e com quem ele acabará se casando e tendo filhos: ela nunca seria capaz de remexer em suas coisas, ao contrário da antiga namorada. Porém, alguns dias antes do casamento, Teresa reaparece inesperadamente. E com ela a sombra do que eles confessaram um ao outro. A partir de então, essa confissão permanecerá como uma nuvem ameaçadora. E Teresa sempre ressurge diante de todas as encruzilhadas existenciais de Pietro. Ou será ele quem está sempre em busca da ex? Na sua vida profissional, Pietro é um inconformado com o estado da educação pública italiana. Após escrever um ensaio para uma conhecida revista, passa a chamar a atenção. Em seguida, publica um livro e começa a se destacar com suas ideias, dando palestras e entrevistas. Torna-se, no decorrer das décadas, um nome respeitado, figura merecedora das mais altas reverências. A tal ponto que, na maturidade, é convidado para receber uma homenagem especial do presidente da República por sua trajetória. Para a cerimônia, alguma pessoa igualmente notável deve apresentá-lo. É então que Teresa reaparece mais uma vez, agora uma pesquisadora mundialmente famosa radicada nos Estados Unidos. Exame brilhante e devastador sobre o que é dito e o que é silenciado, sobre a trajetória pessoal e a postura moral, Segredos descortina os meandros da construção de nossa identidade perante o mundo. E mostra como uma história de amor, às vezes, pode também guardar uma narrativa de medo e suspeição.”

 

Veja também: Resenha de Laços e um breve comentário sobre Assombrações, ambos de Domenico Starnone.

 

Grande! Segredos, de Domenico Starnone (todavia,2020) é um livro excelente. Em estilo semelhante aos outros livros (temos três já publicados no Brasil pela Todavia), Segredos é dividido em três partes. Aqui, como em Laços, temos três narradores: Pietro, na primeira parte; sua filha Emma, que continua a história do pai muitos anos depois dos acontecimentos da primeira parte; e Teresa, a ex-aluna e ex- namorada de Pietro, que fecha magistralmente o volume.

Pietro tem uma relação bastante tempestuosa com Teresa. Certo dia, eles resolvem revelar um para o outro um segredo, algo horrendo que ninguém mais saiba, uma espécie de pacto entre eles. Segredos revelados, o de Pietro parece ser muito mais constrangedor. E o que era para ser um pacto fortalecedor desta relação, acaba de alguma forma minando-a: pouco tempo depois o romance acaba. Mas o temor de Pietro de que Teresa acabe tornando pública sua confissão vai atormentá-lo por muitos e muitos anos.

 

“Era como se gostássemos um do outro sem medida apenas para poder apurar que nos detestávamos.”

 

“Pensei: a gente se apaixona por pessoas que parecem verdadeiras, mas não existem, são uma invenção nossa; (…) Uma coisa é a pessoa amada, outra é a pessoa real que, enquanto amamos, nunca vemos realmente.”

 

“Mas se tornar adulto — disse para mim — é de fato renunciar a sermos perfeitos.”

 

“Narrar significa mentir, e narra melhor quem mente melhor.”

 

“Não é a pedagogia do afeto que nos melhora, mas a pedagogia do assombro.”

 

Os anos se passam, Pietro se casa, constrói uma carreira sólida no magistério e como intelectual da educação na Itália; Teresa viaja o mundo, passa a viver nos EUA, torna-se uma cientista muito conhecida e conceituada. Os dois trocam cartas (outros tempos!), ela está sempre presente, assim como a tensão que envolve o segredo.

Segredos tem um conteúdo bem bacana sobre pedagogia. Dei uma pesquisada e vi que não só o personagem foi professor de ensino médio, mas também o próprio Domenico Starnone. Não que eu esteja procurando laços (!) entre autor e personagem. Já basta a intrigante novela Ferrante-Starnone para nos distrair do que realmente importa, os livros (como diria Elena Ferrante, porque eu até que gosto de uma fofoca). Para quem não está por dentro do causo, Starnone já foi apontado como sendo a pessoa por trás do pseudônimo Elena Ferrante (duvido muito) e também como marido da Elena Ferrante (o que é mais provável).

Não posso falar muito mais para não revelar muitos detalhes do enredo, mas acredite: você vai devorar este livro. É tão bom ou melhor que Laços. E o final é genial! Mesmo desconfiando que o autor pudesse seguir por aquele caminho, não deixei de me surpreender quando vi que o e-book havia terminado. Os romances de Starnone são curtos, mas certeiros como um corte de navalha.

 

 

Ouça o podcast abaixo sobre Segredos A vida mentirosa dos adultosda revista Quatro cinco um (spoiler: tem Antônio Fagundes lendo um trecho do livro de Starnone, imperdível!)

Título: Segredos

Autor: Domenico Starnone

Tradução: Maurício Santana Dias

Editora: Todavia

Páginas: 152

Compre na Amazon: Segredos

junho 13, 2020

[RESENHA] A VIDA MENTIROSA DOS ADULTOS, DE ELENA FERRANTE

Sinopse: “As mudanças no rosto de Giovanna anunciam o início da adolescência e não passam despercebidas em casa. Dois anos antes de abandonar a família e o confortável apartamento no centro de Nápoles, Andrea não se dá conta do que sentencia quando sussurra para a esposa que a filha é muito feia. Essa feiura estética, mas que também indica uma possível falha de caráter, recai sobre Giovanna como uma herança indesejável de Vittoria, a irmã há muito renegada por Andrea. Aos doze anos, a menina vê um rosto no espelho e, embora não compreenda a fundo o peso daquela comparação, sente que algo está irremediavelmente à beira de um abismo.

O amor e a proteção oferecidos pelo lar são as primeiras estruturas a desmoronar quando Giovanna decide conhecer a mulher que pode encarnar seu futuro. Os encontros com a tia são o ponto de partida para o embate com inúmeras questões existenciais ― é possível pertencer a algum lugar em uma Nápoles de contrastes entre o cinza industrial e sua sociedade rica e instruída? Ou transcender os erros e pecados cada vez mais aparentes de pais outrora perfeitos? Como sobreviver ao despertar do desejo?

Ao longo dos anos acompanhamos os percalços da transição da infância protegida de Giovanna a uma adolescência exposta às complexidades daqueles que a cercam, evocando também a possibilidade de levar a vida adulta como nenhuma outra mulher fizera até então. Um romance extraordinário sobre transições, paixões e descobertas.”

 

É inevitável: depois da Tetralogia, todo livro que leio da Elena Ferrante procuro ficar atenta ao momento em que a narrativa está prestes a me capturar, a ponto de eu não querer saber de mais nada do que está acontecendo a minha volta, a não ser o destino das personagens. Em A vida mentirosa dos adultos eu tentei, mas quando dei por mim já estava rendida, devorando avidamente as páginas deste mais recente livro da escritora italiana. É inevitável, também, procurar numa frase ou outra resquícios, fagulhas, o que quer que seja de Lenu, Lila, do bairro, enfim, da Tetralogia. Mas neste livro a autora consegue um bom distanciamento de seu mais longo e famoso romance, embora o mais recente também tenha profundas raízes fixadas ao velho bairro industrial.

Em A vida mentirosa dos adultos, veremos a história de Giovanna, que também é nossa narradora. Ela é uma adolescente de classe média vivendo aquela vidinha bem pasteurizada de apartamento quando sente o primeiro impacto da transição da infância para a vida adulta: ela ouve acidentalmente uma conversa de seus pais, em que ele diz que ela é feia. Mas não uma feiura qualquer: Giovanna seria feia como a irmã de seu pai, Vittoria.

Essa tia é um ministério para Giovanna, espécie de assunto proibido em sua casa. Seu pai não é muito ligado aos familiares, os estudos e posterior ascensão social o distanciou de seus parentes, todos de origem humilde e provenientes do bairro industrial, no sul de Nápoles. A adolescente cresceu sem conviver com esses parentes, sem ter contato com o “dialeto” — linguagem vulgar e terminantemente proibida nas altas rodas. Mas se se o pai disse que ela se parece com essa tia Vittoria (feia), Giovanna decide que fará de tudo para conhecê-la. Essa jornada vai mudar não só a vida de Giovanna, mas a de todos à sua volta.

“Seu pai — disse com raiva — privou você de uma família grande, de todos nós, avós, tios, primos, que não somos inteligentes e educados como ele; nos eliminou com um corte seco, fez você crescer isolada, com medo que nós a estragássemos. Ela emanava rancor; todavia, naquele momento, essas palavras me causavam alívio, eu as repeti na minha cabeça. Afirmavam a existência de um laço forte e positivo, exigiam-no. Minha tia não dissera: você tem meu rosto ou pelo menos se parece um pouco comigo; minha tia dissera: você não é apenas do seu pai e da sua mãe, você também é minha, você é de toda a família da qual ele veio, e quem fica do nosso lado nunca fica sozinho, se recarrega de força.” (p. 78)

 

“as coisas feias que você não conta para ninguém se tornam cães que comem a sua cabeça à noite enquanto você dorme.” (p. 147-148)

 

“O que se passava, afinal, no mundo dos adultos, na cabeça de pessoas extremamente racionais, em seus corpos carregados de saber? O que os reduzia a animais dentre os menos confiáveis, piores que os répteis?” (p. 169)

 

“— Não entendo mais meu pai e minha mãe.

— Você vai entender quando for grande.

Todos diziam que eu entenderia quando fosse grande.

— Então não vou crescer — respondi.” (p. 248)

 

A vida mentirosa dos adultos mostra a perda da inocência, o momento em que descobrimos que nossos pais podem, sim, em alguns momentos ou situações serem pessoas sórdidas, mentirosas. E, inevitavelmente ao crescer, entramos nesse mundo de mentiras, seja para nos defendermos, seja porque essa é, realmente, a vida dos adultos. É interessante como a autora mostra que mesmo em famílias cultas, em que o diálogo é aberto e nenhum assunto é censurado (Giovanna e suas amigas tinham pleno conhecimento didático/pedagógico sobre questões sexuais, sociais e tudo o mais que é considerado importante para uma formação “completa”), algumas coisas precisam ser aprendidas na prática. Precisa doer na carne para fazer sentido.

Para mim às vezes é difícil falar sobre os livros da Elena Ferrante (principalmente sem dar spoilers, no caso dos romances), porque são tantos acontecimentos, é tanta informação e são tantos sentimentos que as leituras me despertam (estou sempre relendo), que tenho medo de falar mais do mesmo. Ainda assim, preciso dizer que A vida mentirosa dos adultos foi uma leitura bem emocionante, me prendeu bastante (li em duas sentadas) e não sei se é desejo de fã ou sexto sentido: a história é fechadinha (no estilo Ferrante, mas é), mas caberia perfeitamente uma continuação. Vou ficar torcendo!

 

***

 

Essa edição que eu li é do clube de assinatura da editora Intrínseca, o Intrínsecos. Acompanhando o livro (capa dura) vieram: marcador, postal com a imagem da capa da edição, uma pequena ecobag com desenho inspirado em Nápoles (não foi fotografada por motivos de: está com meu material de tricô) uma revista com alguns artigos bem interessantes sobre a autora, Nápoles (eterna personagem dos livros de Ferrante) e sobre esse doloroso processo chamado adolescer, que expandem a experiência de leitura e ambientam bem os leitores que por ventura não conheçam a autora e sua obra. A edição em capa comum deve ser comercializada a partir do mês de setembro deste ano! Dá tempo de se programar para ler antes de lançarem a adaptação na Netflix!

 

[ATUALIZAÇÃO: 19/06/2020] O livro já está em pré-venda, com previsão de entrega para setembro, nos formatos físico e digital! Compre aqui: A vida mentirosa dos adultos, de Elena Ferrante.

 

 

Leia também: Tudo o que eu já escrevi sobre Elena Ferrante para você começar a ler a autora hoje mesmo!

Título: A vida mentirosa dos adultos

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca (1a. edição: Intrínsecos)

Páginas: 432

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