novembro 04, 2019

[RESENHA] UM AMOR INCÔMODO, DE ELENA FERRANTE

Sinopse: Uma história perversa e delicada sobre mãe e filha unidas por um complicado nó de mentiras e emoções.

Aos quarenta e cinco anos, Delia retorna a sua cidade natal, Nápoles, na Itália, para enterrar a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas: a humilde costureira, que se acostumou a esconder a beleza com peças simples e sem graça, usava nada além de um sutiã caro no momento da morte.

Revelações perturbadoras a respeito dos últimos dias de Amalia impelem Delia a descobrir a verdade por trás do trágico acontecimento. Avançando pelas ruas caóticas e sufocantes de sua infância, a filha vai confrontar os três homens que figuraram de forma proeminente no passado de sua mãe: o irmão irascível de Amalia, conhecido por lançar insultos indistintamente a conhecidos e estranhos; o ex-marido, pai de Delia, um pintor medíocre que não se importava em desrespeitar a esposa em público; e Caserta, uma figura sombria e lasciva, cujo casamento nunca o impediu de cortejar outras mulheres.

Na mistura desorientadora de fantasia e realidade suscitada pelas emoções que vêm à tona dessa investigação, Delia se vê obrigada a reviver um passado cuja crueza ganha contornos vívidos na prosa elegante de Elena Ferrante.”

 

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Por mais que a relação mãe e filha seja vendida pela nossa sociedade como um paraíso cor de rosa, a realidade pode não ser tão vibrante assim. No fundo, apesar da superfície alegre, essa relação pode ter muitas camadas de dúvidas e idealizações. Uma verdadeira escala de tons nebulosos e cinzentos.

Um amor incômodo, de Elena Ferrante (Intrínseca, 2017) explora bastante essa névoa que embaça a relação entre mãe e filha. Com o falecimento de Amalia, Delia, sua filha, embarca em uma viagem de volta ao passado, o que inclui, além das lembranças, reencontros com pessoas que podem dar a ela pistas sobre as circunstâncias do trágico falecimento de sua mãe.

Amalia foi encontrada sem vida em uma praia, vestindo apenas um sutiã de uma refinada grife de Nápoles. Mas Amalia não era esse tipo de mulher, que vai à praia sozinha e usa esse tipo de roupa íntima. Ou era? Delia precisa de respostas para entender a mãe, mas, sobretudo, para entender a si própria.

Um amor incômodo é um romance curto, com uma trama bastante densa. É de leitura rápida, mas não pela quantidade de páginas, e sim por todo o suspense que permeia a trama. Entre situações reais e fluxo de consciência, visitamos o passado de Delia, fatos ocorridos há décadas, os quais ela mal se recorda, mas que foram imprescindíveis para torná-la a mulher que se tornou.

O título do romance explica muito bem a relação dessas duas personagens. Não é saudável a idealização exagerada da filha em relação à mãe, e vice versa. Não é saudável a renúncia da mãe à própria felicidade, em favor da família. É injusto o desejo de liberdade da filha, liberdade para ser o extremo oposto da mãe. Não pode ser normal, mas acontece, inclusive fora dos livros, e é amor. Um amor incômodo.

 

“Eu não quis ou não consegui enraizar ninguém em mim. Mais algum tempo e perderei até a possibilidade de ter filhos. Nenhum ser humano jamais se desligaria de mim com a mesma angústia com que me desliguei  da minha mãe apenas porque nunca consegui me apegar a ela definitivamente. Não haveria nenhum mais ou nenhum menos entre mim e outro ser feito de mim. Eu permaneceria sendo eu até o final, infeliz, insatisfeita com aquilo que arrastara furtivamente para fora do corpo de Amalia.” (p. 78)

 

 

 

Título: Um amor incômodo

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca

Páginas: 176

 

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Veja também: trailer da adaptação (filme) Amore Molesto (Nasty Love), de Mario Martone (1995).



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