[RESENHA] TRILOGIA DO ADEUS, DE JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

[RESENHA] TRILOGIA DO ADEUS, DE JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

 

Sinopse: Caderno de um ausente e suas aguardadas continuações: uma família representada na prosa poética de um dos principais autores brasileiros da atualidade.

Nesta trilogia, João Anzanello Carrascoza oferece um panorama que se estende através do tempo para falar da relação fragmentada das famílias. No primeiro livro, Caderno de um ausente (vencedor do prêmio Jabuti 2015 e reeditado agora pela Alfaguara), o pai João escreve uma longa carta para a filha recém-nascida, Beatriz, para o caso de não estar presente no futuro dela. Já no segundo volume, Menina escrevendo com pai, é Bia quem responde, narrando a vida e o relacionamento dos dois. Por fim, em A pele da terra, Mateus, filho mais velho de João e irmão de Bia, narra sua relação com o próprio filho, outro João, durante uma peregrinação. Um olhar tríplice sobre os vínculos entre pais e filhos, e sobre como pequenas ações do cotidiano nos marcam para sempre.”

 

Tem livro que passa a fazer parte da gente, daquilo que a gente é. Tem livro que eu sorrio só de olhar pra lombada; são meus amigos que estão ali, gosto de revisitá-los. A Trilogia do Adeus, do João Anzanello Carrascoza, é bem assim pra mim: amo, releio, indico constantemente os três livros… São histórias/pontos de vista tão especiais que é até difícil falar sobre elas, mas vou tentar. E sem dar spoilers! Essa trilogia é poesia pura sobre aquilo do que é feito a nossa carne, a nossa existência: nossas ausências.

 

Em Caderno de um ausente, João é um homem de 50 anos que se torna pai pela segunda vez (seu filho mais velho é já um adolescente de 15 anos). Nessa idade, tem certeza de que não passará muito tempo com sua filha Beatriz; ela viverá mais com a ausência dele do que com sua presença. Então resolve deixar por escrito a história dos dois, a partir do momento em que ele a pega rapidamente no colo (para que fique registrado na filmagem), passando por outras ausências que farão parte da vida da menina e já fazem parte da vida dele, falando sobre tudo o que ele não poderá falar em um provável futuro próximo. Ele não pode correr o risco de morrer sem ter dito tudo o que um pai deseja e precisa passar de si para sua filha.

É impossível não se apaixonar pela escrita de João Anzanello Carrascoza logo nas primeiras páginas deste livro. Porque este livro é REALMENTE LINDO, só lendo para entender. Também, porque encontramos a nós mesmos, nossas presenças e nossas ausências nele. Nós gostamos de ter nossas certezas, fazer nossos planos, e acabamos nos esquecendo da fragilidade da vida, da nossa fragilidade e de que não temos essa posse que pensamos ter do tempo, das escolhas e dos caminhos que vamos percorrer.

 

“a tua vida, filha, é um texto que há tempos começamos a escrever, mas, daqui em diante, também te cabe pegar esta tinta e delinear o teu curso, tome só cuidado com o que retiras do nada e trazes à superfície, é comum borrar ou rasurar um trecho, mas é impossível apagá-lo, a palavra de faz carne, e a carne se lacera, a carne apodrece aos poucos, mas é também pela carne que a palavra se imortaliza. Não há borracha para um fato já vivido, pode-se erguer represas e costões, muralhas e fortalezas para barrar o fluxo das horas, mas, uma vez que o sol se torne sombra, que o luar penda no céu em luto, a névoa se disperse na paisagem pendurada à parede, o dedo acione o gatilho, nada mais se pode fazer; nossa jornada, aqui, é única, a ninguém será dada a prerrogativa, salvadora ou danosa, da reescrita.”

 

“(…) vais descobrir por ti mesma que este é um mundo de expiação, embora haja ocasionalmente umas alegrias, não há como negar – as verdadeiras vêm travestidas, é preciso abrir os olhos dos teus olhos pra percebê-las.”

 

 

No segundo livro da Trilogia do adeus, Menina escrevendo com o pai, temos Beatriz lendo o caderno que seu pai escreveu, refletindo sobre sua vida, sua família, a partir da narrativa que começou no seu nascimento. Ela escreve com o pai porque o caderno toma uma dimensão ainda maior, ainda mais sentimental, quando ela é capaz de assumir o papel de narradora e protagonista da própria história.

Quando eu leio esse livro penso sobre o tempo. Penso sobre as pessoas que já fizeram parte da minha vida e hoje já não fazem mais. Penso nas pessoas que fazem parte da minha vida, mas só no plano da memória; com algumas delas eu sequer convivi, morreram antes de mim. Outras, eu convivi há tanto tempo que parece que nem foi real, parece que sonho. Coisas da vida, eu sei. Nem todo mundo vai estar aqui agora o tempo todo. Existem fases, ciclos… A literatura tem um jeito especial de nos mostrar isso, diria até que ela sabe nos consolar.

 

Último livro da Trilogia do adeus, A pele da terra mostra a relação entre pai e filho, mas desta vez o pai é Matheus, o filho mais velho de João (narrador do primeiro livro), com seu filho, que tem o mesmo nome do avô. Os dois fazem uma peregrinação juntos e o momento é tão especial para Matheus que ele resolve escrever sobre essa proximidade reestabelecida nas longas caminhadas e noites em albergues. Matheus é separado da mãe de João, então ele é um “pai de fim de semana”, o que muito o entristece.

Começamos com o pai que fala para a filha, passamos para a filha que responde ao pai, terminamos com o filho que lembra do pai ao falar com o próprio filho. A vida é um eterno amontoado de círculos, não é verdade? Antes de termos filhos pensamos que vamos fazer diferente, tudo diferente, tudo melhor. Mas a realidade nem sempre permite que a gente consiga fugir de alguns dos erros dos nossos pais. E muitos desses “erros” são, na verdade, circunstâncias da vida.

 

“ouça, João, ouça, acima dos sons urbanos, o rumor da vida. Ouça e saiba que é bom estar aqui com você, eu estou feliz, eu (ainda) estou vivo, e há paz no bairro, e o vento é agradável, e o sol ilumina todo aquele caminho, que nós dois, naquele dia, juntos trilhamos.”

 

Duvido muito que você consiga terminar essa trilogia sem se emocionar e se apaixonar pela escrita de João Anzanello Carrascoza.

 

 

Despeço-me com o tema de todas as saudades do mundo (pelo menos em minha opinião), Wish you werw here, de David Gilmour / Pink Floid:

 

 

Título: Trilogia do Adeus (Caderno de um ausente, Menina escrevendo com pai e A pele da terra).

Autor: João Anzanello Carrascoza

Editora: Alfaguara

Páginas: 400

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